terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Que venha 2009


Há muito tempo não me aconteciam tantas coisas interessantes como em 2008. Obviamente, estas coisas não "aconteceram" simplesmente, mas foram plantadas e regadas nos anos anteriores. Só que tem ano que não colhemos absolutamente nada do que plantamos, nem encontramos tesouros no jardim. Recebi homenagens no trabalho, passei em um concurso disputadíssimo, conheci parte da Europa ao receber um prêmio literário, fiz novas amizades (reais e virtuais), criei um blog que tem me dado muito prazer, curti muito os sobrinhos que vieram dar uma renovada na família, toquei e cantei muito no grupo da casa da Tita, sem falar em assuntos que um cavalheiro não comenta.

Houve perdas também, mas estas eu prefiro deixar na intimidade, com exceção de uma: a morte do escritor Fausto Wolff. Estou lendo "À mão esquerda", seu premiado romance de tom autobiográfico, como forma de honrar sua memória e me divertir ao mesmo tempo. Pra quem não conhece, Fausto Wolff (Faustin von Wolffenbüttel) foi um jornalista e escritor, gaúcho de Santo Ângelo, colaborador do Pasquim nos tempos da ditadura. Segundo seu alter-ego Nataniel Jebão, um bêbado, jogador e comunista. Trocamos alguns e-mails em 2007, depois passei a acompanhar apenas sua coluna no Jornal do Brasil e no jornal virtual O Lobo. Foi um sujeito com amigos muito leais e inimigos declarados, não era do tipo que tentava agradar a todo mundo. Fez muitas bobagens na vida, leu muito, bebeu como poucos, conheceu muitas mulheres (no sentido bíblico), o que torna sua biografia muito interessante. Escreveu um livro que está na parte dos "não-emprestáveis" da minha estante: "A milésima segunda noite". Já que nunca o convidaram para ir a Paraty, podemos pelo menos fazer uma homenagem póstuma lendo seus livros. Eu recomendo. Encerro com um poema do Fausto, abrindo uma exceção no blog:

"Se é uma palavra suicida
Não fora, seria a vida
Só em sua toca, ela, o destino, aguarda o chamado
Depois ataca
Com um sorriso
Ou uma faca" (F.W.)

domingo, 28 de dezembro de 2008

A grama do vizinho


No filme “O náufrago”, o protagonista precisou criar um amigo imaginário para diminuir sua solidão e manter a saúde mental. Já o navegador Amyr Klink, casado e pai de três filhas, volta e meia parte mar adentro sozinho. No filme “Eu”, Marcelo - a personagem de Tarcísio Meira - é um sujeito vaidoso que traça todo mundo por não poder ter a filha Berenice, até que joga o tabu do incesto pro alto e traça a filha também. Aí você pensa que o sujeito vai sossegar e ele começa a flertar com outra mulher em uma festa, mesmo em companhia da Berenice. Este preâmbulo é para ilustrar a questão do desejo, que faz com que a grama do vizinho pareça sempre mais verde. O náufrago solitário querendo companhia, o Klink gregário querendo solidão, o Marcelo querendo todas as belas mulheres do mundo, todos apontam para a mesma direção: desejamos aquilo que nos falta. A psicanálise lacaniana vai falar da falta como algo constitutivo, uma nostalgia irremediável de uma sensação de plenitude experimentada no gôzo da primeira mamada. A psicologia analítica junguiana vai remeter essa falta à carência da sensação de plenitude proporcionada pela imagem de Deus. Eu, particularmente, entendo como um motor: se nada lhe faltar, você fica estagnado. Aquelas crianças que são estragadas pelos parentes, recebendo tudo que desejam o tempo inteiro, acabam paralisadas. Ou pior, vão desejar aquilo que é proibido – drogas, crime, sexo com o motorista ou o traficante – para poderem desejar, sentirem-se vivas.

Há alguns motivos para a grama do vizinho parecer mais verde:
a) Ela é do vizinho, portanto não é sua: ao lhe faltar, preenche um dos requisitos fundamentais do desejo;
b) Ela é do vizinho, portanto está próxima: assim você a vê sempre, reafirmando o desejo;
c) Quem cuida dela é o vizinho: então você pode imaginar ter o bônus de uma grama bem verdinha, sem ter, no entanto, o ônus de regá-la, apará-la e fertilizá-la, de arrancar ervas daninhas e protegê-la do excesso de sol;
d) Ela é mais verde de fato: por sorte, por mérito ou por ambos os fatores, o vizinho foi contemplado com grama de qualidade superior à sua. Os mais nobres de espírito tentarão melhorar a qualidade de sua própria grama, mas muita gente vai mesmo é jogar sal grosso no terreno ao lado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sonho de uma noite de verão


Não sei se foi o almoço em família ou ter lido o livro "Budapeste" (Chico Buarque) de cabo a rabo, ou ainda ter saído com um camarada para comer comida mexicana, beber cerveja com limão e sal e filosofar no botequim. O fato é que esqueci completamente de postar ontem e, de quebra, tive um sonho surreal: eu estava jogando no Flamengo em uma partida contra o Vasco em um campo sem torcida. As escalações não eram exatamente as atuais. Meu primeiro lance foi a cobrança de um escanteio pela lateral direita, onde estava jogando. Cobrei com o pé esquerdo (sou ambidestro) e o Romário - mais jovem e jogando pelo Flamengo - marcou de cabeça. Fui cumprimentá-lo e ele pediu para eu segurar o jogo. Sobrou uma bola pra mim e eu rifei para a intermediária do Vasco, que devolveu e o Edmundo (no Vasco) deu um toque estranho, fazendo um gol meio sem querer. O Fábio Luciano ficou bravo comigo e passou a me boicotar no jogo, cobrando um lateral nas minhas costas quando eu subia sozinho pela ala direita. Mesmo assim, sobrou uma bola que eu lancei no pé do nosso atacante, lá na ponta esquerda. Acho que era o Diego Tardelli ou o Leonardo Moura jogando invertido. Ele escorregou na hora de concluir e o Obina perdeu. Aí eu falei pro Fábio Luciano: "Tá vendo, eu dei a bola no pé dele, deixei na cara do gol!" A vantagem do empate era do Vasco. O árbitro Renato Marsiglia encerrou o jogo antes do tempo e fui até ele conversar. Reclamei sem me exaltar e ele concordou que tinha terminado o jogo antes, mas pediu para eu não comentar. Disse que tinha sido um bom jogo e eu concordei, acordando em seguida.

É isso, leitores e leitoras. Enquanto gente normal sonha que está comendo a Angelina Jolie, que está de pijamas no trabalho ou que vai chegar atrasado em uma prova, eu sonho estas coisas. Nas férias se agrava.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Natal que a gente inventa


Existe polêmica acerca da existência de Jesus, uma vez que as fontes históricas que a confirmem são escassas, restringindo-se a poucos comentários de Tácito e de Flávio Josefo, historiadores romano e judeu, respectivamente. Porém, devido à não contestação por parte dos opositores do cristianismo em suas origens, a maioria dos historiadores aceita que tenha vivido na Palestina no século I. Acredita-se que tenha nascido aproximadamente no ano 5 antes de Cristo (sim, houve um ajuste de calendário posterior que promoveu esta bizarrice). Alguns dizem que se envolveu com a seita dos Zelotes, que eram contestadores políticos, outros que era da seita dos Essênios, que realizavam curas, mas o estilo de vida que aparece nos Evangelhos não parece dar muita sustentação a essas teorias. Entre o cristianismo ser perseguido e ser adotado como religião oficial do Império Romano, muita coisa aconteceu. Diferentes seitas cristãs proliferaram, sustentando concepções diferentes acerca das naturezas humana e divina de Jesus Cristo. Com o ganho de poder dos Padres da Igreja, o Concílio de Nicéia definiu uma doutrina oficial e relegou as concepções divergentes à categoria de heresias. Ficou aí estabelecido que Jesus é um homem-Deus, devendo ser adorado, cultuado, e não apenas seguido como uma espécie de profeta ou mestre espiritual. A celebração do Natal iniciou-se no século IV no Ocidente, dando-se no dia 25 de dezembro, enquanto no Oriente passou a ser realizada no dia 6 ou 7 de janeiro, iniciando-se a comemoração no século V, em virtude da não-aceitação do calendário Gregoriano. A escolha do dia 25 de dezembro se deu para cristianizar uma celebração pagã do solstício de inverno, a festa de nascimento do Deus Sol Invencível.

Papai Noel, ou Pai Natal, é uma personagem inspirada em São Nicolau de Mira, um arcebispo piedoso nascido na Turquia, o qual ajudava anonimamente os necessitados (século IV). Sua imagem foi adaptada, modificada com o passar dos anos, até se tornar o conhecido bom velhinho, morador da Lapônia em algumas versões, do Pólo Norte em outras , percorrendo os céus em um trenó voador puxado por renas, distribuindo presentes pelas chaminés (século XIX). A Coca-cola consolidou a imagem por nós tão conhecida, um senhor gordo e bonachão vestido de vermelho e branco, em uma campanha publicitária de 1931, associando-o às cores da marca. Juntando-se a generosidade de São Nicolau com os presentes que os três Reis Magos trouxeram ao Menino Jesus em seu nascimento, temos o costume de trocar presentes na data, coisa que o comércio e a indústria tiveram o maior prazer em incentivar.

Você deve estar pensando: então esta tradição pode ter sido inventada? Respondo: Sim, como todas as outras tradições. Independente de Jesus ter existido, ser mesmo Deus ou de ser possível o Papai Noel entregar presentes a quem não tem chaminé, não é disso que se trata. Se for preciso inventarmos ou reinventarmos isso tudo para que possamos nos reunir com as pessoas que de fato importam em nossas vidas, celebrar a esperança em algum tipo de renovação e a fé na generosidade de uns poucos humanos, viver as pequenas alegrias e até mesmo algumas bobagens, como a vovó puxando uma quinta oração quando todos já estão loucos para comer, o tio bêbado fazendo discurso, os primos se revendo e contando histórias madrugada adentro, os netos abrindo os presentes com os olhinhos brilhando, os cartões de amigos que só entram em contato no Natal, tudo isso já vale o ingresso. O Natal a gente inventa, como a vida. O mundo é cinzento, se você não buscar cores com as quais pintá-lo. Inventem um Feliz Natal para vocês, amigos e amigas, é este o meu desejo. Agora vou inventar o meu.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Topada


Com o desejo
Na intensidade
De uma topada
Contemplo mudo
Tua cidade
Já sitiada

Topo o ensejo
Da liberdade
Assim desfrutada
E não me iludo
Sinceridade
É só jogada

Quando te vejo
Na intimidade
Arrebatada
Eu topo tudo
toda verdade
No tudo ou nada

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Da Terra à Lua


Hoje acordei meio resfriado e saudosista. Não sabia bem o motivo, mas pensei em escrever sobre Júlio Verne (Jules Gabriel Verne, 1828-1905) não fazer parte do imaginário da molecada atual, uma vez que a tecnologia já concretizou muito de sua ficção científica, como o submarino, por exemplo. "Viagem ao centro da Terra", "Vinte mil léguas submarinas", "Volta ao mundo em 80 dias", "Da Terra à Lua", "Viagens extraordinárias", obras que ispiraram filmes, desenhos animados e até viagens musicais, hoje em dia nem a gurizada mais nerd conhece. Não que falte fantasia, há os universos de Tolkien, dos vampiros, de Jornada nas Estrelas, de Guerra nas Estrelas e do Harry Potter para ajudar a encantar um mundo já tão desencantado. Interrompi a idéia de escrever sobre Júlio Verne ao descobrir porque isso tinha vindo à minha mente: hoje é aniversário da Claudinha, minha prima aproximadamente um ano mais nova que eu. Quando tínhamos entre cinco e sete anos, já gostávamos de imaginar como seria legal se os telefones mostrassem também a imagem das pessoas, se pudéssemos passar na TV os filmes que passavam no cinema na hora que desejássemos, se cada pessoa pudesse ter seu próprio telefone e andar sempre com ele, enfim, essas coisas impossíveis que só existem na imaginação das crianças e de adultos visionários. É também aniversário da Carolina, uma grande amiga, colega dos tempos de faculdade, sabedora de muitas de minhas venturas e desventuras. Atualmente mora a poucos passos da minha residência e nossas agendas descombinadas só permitiram uma visita este ano. Eu tenho a terrível capacidade de lembrar do aniversário de todo mundo um dia depois, aí mando algum tipo de recado envergonhado e recebo uma resposta polida de que está tudo bem. Não fosse o orkut, amigos e conhecidos jamais seriam parabenizados em tempo hábil. Já amarrei barbante no dedo e coloquei bilhetes pela casa, mas se eu não telefonar hoje, espero que a Claudinha e a Carol pensem em algo que as traga ao blog, como eu lembrei de Júlio Verne, e me perdoem por sempre vaguear "Da Terra à Lua".

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Encantos e desencantos


Rita Hayworth foi casada cinco vezes e não foi feliz no amor. Segundo ela: "A maioria dos homens se apaixona por Gilda, mas acorda comigo". A gente fica pensando que esses símbolos sexuais reclamam de barriga cheia, mas deve ser complicado ser o parque de diversões dos outros em sua vida privada. Na vida pública não, se entretenimento é o ramo da figura. Porém, não só os ídolos vivem esse tipo de situação: pode ser que o cabra vire pra você, mulher, e diga que sempre sonhou em transar com uma dançarina do ventre, ou com uma repórter meteorológica. Pode ser que a mulher vire pra você e diga: você parece o Beckham, tenho o maior tesão nele. Se isso for um "plus a mais", como dizem alguns jogadores de futebol, tudo bem, mas cá pra nós, queremos é ser amados na nossa totalidade, não? Se vocês não querem, problema (ou sorte) de vocês. Eu quero.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Momento mecenas


Sabendo da dificuldade que os poetas marginais brasileiros encontram para publicar seus trabalhos, promovi este final de semana o "I Concurso Internacional de Poesia Escatológica", aberto a escritores de qualquer nacionalidade residentes no meu apartamento. O vencedor, conforme o edital afixado no mural do meu escritório, terá seu poema publicado no meu blog, junto com uma análise literária do presidente da comissão (eu mesmo). Como prêmios adicionais, ganhará uma casquinha de sorvete misto de chocolate e baunilha no fast-food de sua preferência, um copinho de água mineral sem gás e um vale-livro no valor de 50 reais.

Poema vencedor:

"A verdade sobre a verdade" (Paulo César Nascimento - Brasil)

A verdade está na cara
Como uma freada brusca
Em uma calcinha clara

Análise: o autor rompe corajosamente com as tendências estéticas modernistas, bem como com a ausência de paradigmas no pós-modernismo, retomando a métrica e a rima como forma de ironia perante os falsos moralismos e os verdadeiros preconceitos. Lança um protesto filosófico diante da metafísica, tendo sua obra um forte caráter existencial, com pitadas de zen-budismo. Nota-se em seu trabalho a presença forte da mulher na contemporaneidade (calcinha clara), bem como as tentativas masculinas (frustradas) de compreender um universo essencialmente simbólico a partir de uma perspectiva semiótica. Com extraordinário poder de síntese, o autor apresenta a verdade fundamental da poesia escatológica: a merda é uma merda é uma merda. (P.C.N.)

Agora vocês me dão licença, que eu vou descontar meu vale-livro.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O poder da maquiagem


Com maquiagem: Uma rara iguaria de sabor delicado.
Sem maquiagem: Uma comida cara com gosto de nada.

Com maquiagem: Examinaremos seu currículo e entraremos em contato.
Sem maquiagem: Não encha o saco, você não nos interessa.

Com maquiagem: No momento eu estou saindo de um relacionamento e não quero me envolver.
Sem maquiagem: Você não me interessou o suficiente.

Com maquiagem: Isso que vossa excelência diz são inverdades.
Sem maquiagem: Seu mentiroso filho de uma puta!

Com maquiagem: Minha mulher é doente, tenho que contar a ela no melhor momento.
Sem maquiagem: Não pretendo largar minha mulher, estou só me divertindo com você.

Com maquiagem: O que eu tenho? Nada!
Sem maquiagem: Estou furiosa com você. Prepare-se!

Com maquiagem: Estou bem assim, sozinha e feliz, com tempo pra mim.
Sem maquiagem: Encalhada é a sua avó!

Com maquiagem: No meu governo, saúde e educação serão prioridades!
Sem maquiagem: Eu quero é me arrumar!

Com maquiagem: Ainda não achei um trabalho à altura de minhas qualificações.
Sem maquiagem: Sou vagabundo e quero que papai me sustente enquanto puder.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Manifesto antinatureba


Vivemos em um planeta com outros humanos, cercados de animais, vegetais e minerais, e isso qualquer pessoa minimamente escolarizada sabe. Precisamos preservar o meio ambiente e promover desenvolvimento sustentável, senão vamos pro brejo. Isso já não é todo mundo que sabe, mas pelo menos a escola tenta ensinar. A água potável, o ar puro, os alimentos e as fontes de energia, do modo como estão sendo utilizados, logo serão escassos, um verdadeiro problema se não agirmos de modo eficaz. Porém, isso é cuidado com a ecologia, não tem nada a ver com o que aqui chamo de naturebismo.

O naturebismo é a crença de que a natureza é sábia, generosa e perfeita, portanto o ser humano deve viver no estado mais natural possível. Isso é de uma tremenda ingenuidade, para não dizer coisa pior. Essa natureza boazinha e harmônica dos naturebas não passa de uma fantasia romântica. Na natureza de verdade o leopardo parte o pescoço do antílope, as hienas cercam filhotes de leão e os matam, os leões eliminam as crias vivas de fêmeas recém conquistadas. O forte mata o fraco, os fracos se unem para matar o forte. Há sempre cooperação e competição mescladas, é a luta pela sobrevivência do indivíduo e da espécie. Ninguém quer morrer ou se tornar comida de seus predadores, nem mesmo uma cenoura, que produz naturalmente substâncias que são prejudiciais à saúde de certos insetos. Enquanto uma cenoura conseguir lutar, não será comida. Claro que para um coelho ou um humano a cenoura não causa mal significativo, então podemos comê-la sem medo. Vá fazer isso com um baiacu (o fugu japonês) pra ver o que lhe acontece: morte em razão de uma neurotoxina que ele produz como defesa. Quanto a ser sábia, como seus erros desaparecem, fica a impressão de que não ocorreram. Bezerros de duas cabeças, fetos anencefálicos, tudo isso perece em estado natural - e em alguns casos, nem com intervenção humana se salva – e acaba sendo comido, sumindo do mapa. Com relação a ser generosa, melhor nem falar nas catástrofes naturais, como erupções vulcânicas, terremotos e vendavais - se eu falasse nas enchentes, um natureba convicto diria que estas são efeito da ação daninha do homem sobre a vegetação. Finalmente, quanto a ser perfeita, o conceito é muito vago para ser útil. O que é a perfeição, afinal de contas? O problema é tratar a natureza como se fosse um ser humano (antropomorfização), a mãe natureza, quando não é disso que se trata. Mas o que é a natureza - e, por conseqüência, o natural?

Há várias acepções para este termo: a) natural em oposição ao sobrenatural, ou seja, aquilo que é parte do mundo sensível e o que é parte de um universo espiritual, invisível (ex.: árvore X fantasma); b) natural em oposição ao artificial, ou seja, o que permanece em seu estado original em oposição àquilo que passou pelas mãos de um artífice e foi transformado (água da fonte X vinho); c) natural em oposição a sintético, ou seja, o que é elaborado a partir de um material já estruturado em seus elementos constituintes na natureza versus o que é sintetizado “em laboratório” (ex: calcinha de algodão X calcinha de nylon). A discussão sobre naturebismo não envolve a primeira das acepções, mas uma confusão entre as duas outras.

Naturebas acham que maconha não faz mal porque é uma erva, portanto natural. Argumento bobo, veneno de cascavel também é natural e mata. Além disso, a maconha é natural no sentido “c”, mas não no sentido “b”, uma vez que precisa ser seca e depois queimada para liberar seu princípio ativo. A menos que tenha ocorrido um incêndio em uma plantação, enrolar um baseado é ação de um artífice sobre a natureza. Nesse sentido, baseados não são naturais.

Naturebas acham que chás são remédios menos nocivos ao organismo porque são derivados de ervas, portanto naturais. Outra bobagem, o que faz uma substância ser nociva ou não são os princípios ativos que ela comporta e suas dosagens. Uma substância pode fazer ou não efeito sobre um organismo. Se o faz, pode causar tanto benefícios quanto malefícios, dependendo principalmente da dosagem. As principais diferenças entre chás e remédios alopáticos são duas: a) no chá há várias substâncias em dosagens desconhecidas, já no remédio há princípios ativos e um veículo em dosagens conhecidas, o que faz com que no segundo caso você saiba precisamente o que está sendo ingerido; b) no remédio a concentração do princípio ativo costuma ser maior, portanto o efeito também o é, para bem e para mal. Finalmente, ambos passam por artífices, então o chá só é mais natural no sentido “c”.

Naturebas comem sanduíche natural. Bom, pão integral tem mais fibras, salada faz bem pra saúde (desde que os vegetais sejam bem lavados), ricota tem menos sódio e colesterol que queijo amarelo. Porém, nunca vi um pé de sanduíche por aí. Frango e peru não são mais naturais que porco ou vaca. Melhor chamar de sanduíche saudável, porque de natural ele não tem muita coisa.

Gonorréia é natural, penicilina é artificial. Varíola é natural, a vacina é artificial. Água encanada, fogo, roda, eletricidade, radinho de pilha, anestésicos, analgésicos, elevadores, computadores, nada disso existia nas cavernas. É óbvio que a matéria-prima para tudo está na natureza e que os recursos naturais devem ser utilizados de maneira responsável e consciente. O chato é ver seu filho adolescente virando crudívoro em função do argumento de que na natureza as coisas estão cruas. Na natureza nós morremos de dengue hemorrágica e nosso banheiro é a moita. Temos berne, sarna, piolhos e bicho-do-pé. A National Geographic não me engana mais: na natureza há pernilongos, muitos, gigantes! Vou buscar meu repelente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma vida mais taoísta


Pois é, pessoal, saiu a minha nomeação para o cargo de Psicólogo do Tribunal de Justiça. Comecei ontem minha maratona de filas e espera para pegar a documentação necessária. O tempo para desenvolver as postagens ficou mais curtinho, principalmente porque meu carro foi pra revisão e ficará pronto daqui a pouco. Idéias não faltaram, pois andar de ônibus e ficar em filas sempre me traz matéria-prima para escrever. O que faltou foi fôlego pra desenvolvê-las de um jeito interessante, mas já estão anotadas para postagens futuras. Vou fazer então uma postagem "umbiguista" e curtinha.

Hoje um rapaz se levantou para me oferecer lugar no ônibus. Foi a primeira vez que isso me aconteceu na vida, então é um marco cronológico, como a primeira vez que me chamaram de senhor. Sabem o que eu fiz? Aceitei. Retribuí na volta do Centro carregando no colo a mochila de uma jovem. Decididamente uma nova fase está começando. Não sei se a vida começa aos quarenta, como afirma o ditado, mas a minha promete melhorar um bocado. Agora vocês me dêem licença, que vou buscar o meu carro. Florianópolis é inviável para pedestres.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Aumente seu pênis


A vida dá muitas voltas, às vezes giros de 360 graus, que lhe deixam tonto e no mesmo lugar de antes. Não foi esse o caso de Tiquinho, alcunha recebida ainda na adolescência em função de uma desvantagem anatômica. Traumatizado por uma vida de humilhações, passou a evitar os vestiários masculinos, banheiros públicos e as mulheres. É sabido que estas últimas consomem tempo e energia, o que sobrou a Tiquinho para se tornar um gênio da informática e das finanças. Grande investidor, logo obteve uma pequena fortuna, adquiriu uma camionete importada de cabine dupla e saiu dando fechadas nas pessoas de carros menos possantes, como é costume entre os deficientes penianos. Comprou todas as bugigangas eletrônicas disponíveis no mercado, viajou o mundo, mas não era feliz. Tentou todos os tratamentos para o seu problema: cremes, pílulas, ervas, técnicas orientais, aparelhos de tração, bombas de vácuo, cirurgias, mas nada foi eficaz, até que descobriu a técnica revolucionária do Dr. Heinrich Schwartz.

Após o implante de células-tronco de cavalo, Tiquinho viu seu membro adquirir proporções eqüinas. Seu apelido mudou para Ticão, perdeu a timidez com as mulheres, mas nem tudo saiu como o previsto. Passou a ter dificuldade para comprar roupas e não conseguiu mais ir à praia sem atrair olhares – não de admiração, como pretendia, mas de curiosidade, como uma aberração – e as parceiras recusavam a penetração devido ao comprimento e grossura de seu membro. Para poder ter sexo, partiu para o cinema pornô. Porém, poucas eram as atrizes que aceitavam contracenar com ele, restringindo bastante o que aceitavam fazer em cena. Sua vida mudou quando foi convidado para um filme de sexo bizarro. Conheceu Mimosa, uma vaquinha Nelore que hoje mora com ele em um sítio. Vivem de renda, longe de olhares humanos, e Ticão hoje é um homem feliz: está certo de que ela o ama pelo que ele verdadeiramente é.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Novo Homem


Bateu na mesa e gritou para a mulher:
"Quem manda nessa porra é você!"
Levantou-se e foi lavar louça.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Prisioneiro da bobagem


No último mês, o campus onde trabalho recebeu os agentes prisionais aprovados no último concurso. Eram muitos para a infra-estrutura da academia de polícia, então parte do treinamento está sendo realizada aqui na universidade. A mulherada do campus amou a idéia, pois temos aqui uma espécie de "desequilíbrio ecológico" provocado pelos cursos de Enfermagem e Psicologia: muita mulher pra pouco homem. No entanto, em meio àquela macharada encontram-se agentes mulheres, algumas até bem jeitosinhas. Invariavelmente, quando passo por elas, uma piadinha infame se monta automaticamente em minha cabeça: "Amor, nosso relacionamento não está dando certo! Eu me sinto muito preso!"


Resta saber se eu fiquei bobo por assistir muita comédia na TV ou é o inverso.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Toda pessoa é um pacote


Certamente você já ouviu falar em pacotes turísticos: por um valor estipulado, você segue um roteiro pré-definido, hospeda-se em hotéis pré-selecionados e tem uma rotina pré-programada. O “pré”, embora signifique “antes”, no fundo quer dizer que alguém já definiu isso tudo em seu lugar. Você aceita o pacote completo porque é mais cômodo e barato. Às vezes há algum espaço para você personalizar sua viagem, mas é pequeno. Por outro lado, se você quiser algo bem do “seu jeito”, terá que desembolsar mais dinheiro, correr mais riscos e passar mais trabalho. Na indústria automobilística, os pacotes também existem: cada modelo tem seus itens de fábrica, bem como os opcionais - que dão espaço à personalização. Se vier de fábrica algum item que você considere supérfluo, não há como removê-lo. Estamos falando de serviços e produtos, que envolvem então uma relação comercial na qual se procura agradar o freguês o máximo possível. No entanto, nas relações humanas (inclusive as amorosas), esbarramos na mesma situação, com o agravante da menor flexibilidade: toda pessoa é um pacote.

Você é o lugar onde nasceu, a educação que teve, as pessoas de quem gosta (ou desgosta), o que estudou, no que trabalha, onde vive, com o que seu organismo é compatível ou não, suas preferências (artísticas, culinárias, sexuais, políticas...), seus relacionamentos passados, seus sonhos e fantasias, sua aparência e por aí vai. Ninguém é brasileiro, argentino ou alemão impunemente. Pai alcoolista, mãe bipolar, irmão suicida, cunhado estelionatário, filho mimado, avô vascaíno, ex-marido soropositivo, cão Bichon Frisé, afilhado traficante, asma brônquica, hipertensão arterial, intolerância à lactose, chefe workaholic, herpes genital, espancamentos, chifres, horas extras, mau hálito, quinze gatos de rua, porcelanas da bisavó, rinite alérgica, mania de limpeza, fanatismo por futebol, adorar pagode, gostar do BBB, tudo isso pode estar incluído. Pai carinhoso, mãe inteligente, irmão divertido, cunhado prestativo, avô flamenguista, ex-marido rico, cão Labrador, afilhado atleta, curvas de violão, abdome de tanquinho, estômago de avestruz, trabalho saudável, química sexual, ter sido amado(a), boas recordações, cabelos sedosos, pele macia, bons livros, talentos da bisavó, um bom sistema imunológico, hábitos de higiene normais, um hobby, saber dançar e gostar de jazz também. Nesses tempos de internet, pode fazer parte do pacote ter a vida estruturada em uma cidade distante da sua.

O que acontece nos relacionamentos? Cada pacote vai se desembrulhando lentamente, em camadas concêntricas como uma cebola. Você imagina que possa trazer o(a) outro(a) pro seu pacote com apenas alguns dos itens do pacote alheio selecionados. Grande engano. Os dois pacotes se unirão inteiros em um pacote maior. É aí que o bicho pega, pois pode haver itens incompatíveis entre os pacotes e então começa a batalha: o quê pode ser modificado e o quê deve ser relevado mediante esforços hercúleos de paciência e tolerância? Sartre já dizia que “O Inferno são os outros”, só se esqueceu de dizer que o Céu também. Sem isso, não haveria literatura, novelas e cinema por pura falta de enredo. Nem vida, tampouco.

sábado, 29 de novembro de 2008

Batman e a telefonia no Brasil


Atribui-se ao General De Gaulle a frase "O Brasil não é um país sério", proferida em um incidente diplomático na chamada "Guerra da Lagosta", um conflito de interesses entre a nação brasileira e pesqueiros internacionais ao início da década de 60, quando o Brasil ampliou as fronteiras oceânicas de doze para duzentas milhas. Com a mudança na regulamentação da telefonia, muita grana vai caminhar para as mãos de quem já tinha demais, aumentando inclusive sua capacidade de corrupção ativa. O que são alguns milhões de propina para quem ganha bilhões, não é mesmo? Mas vou além: o ser humano não é uma espécie séria. Basta estudar um pouco de História e se vê que a corrupção, a ignorância e a má-fé sempre estiveram à frente de tudo. Um ou outro idealista foi martirizado e/ou ditou regras para os outros, mas tudo continua com a mesma sem-vergonhice, às vezes revestida em um véu de hipocrisia - "Não se trata de petróleo, mas de liberdade" - ou peladinha mesmo, como na propaganda que queimou o filme do Gérson para o resto da vida - "Eu gosto de levar vantagem em tudo".

No imaginário da rapazeada - ando menos junguiano e não vou falar em inconsciente coletivo - é que precisam brotar heróis para dar um certo alento, uma esperança de que um dia essa podridão vá mudar. Não vai, estas estratégias de dominação pela força ou pela astúcia são as formas que nós, humanos, criamos a partir do impulso mais animal da luta pela sobrevivência. Também não vai mudar a nossa necessidade de fantasiar com um mundo melhor. Quando se mata um herói, mesmo que seja nos quadrinhos, é preciso colocar outro no lugar. Às vezes é preciso ressuscitá-lo, como fizeram após o recorde de vendas do gibi " A morte do Super-homem" (pensaram que eu ia falar de Jesus, né?). Estou dizendo isso porque a Marvel já matou o Capitão América e a DC Comics pretende matar o Batman. Que matem o primeiro eu até entendo, ele não tem mais serventia, foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, enfrentando os nazistas. Além disso, já garantiram sua perenidade em diferentes "encarnações", como o herói Fantasma - são muitos que reassumem esta identidade. O que mais me dói é que antes matavam e ressuscitavam heróis - como Jesus (enganei vocês de novo) - em nome da esperança. Agora vão matar o Batman só por dinheiro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mudaram as estações


Essa idéia de quatro estações nunca me agradou muito, mas dizem por aí que faz bem para as plantas e os animais. Só gosto de primavera; o outono e o inverno eu acho apenas toleráveis. O outono é chuvoso demais, o inverno aumenta a fome, o sono e a preguiça. Acho o verão insuportável:
- um calor infernal esquentando o corpo e a cerveja;
- ventilador soprando uma brisa morna;
- gente mal-educada de férias, ouvindo corno-music no volume máximo;
- nuvens de pernilongos do fim da tarde ao amanhecer;
- milhares de turistas tornando tudo mais caro, lento e sujo;
- transpiramos mais e precisamos de mais banho, mas por causa dos turistas e da má administração, falta água e todos fedem mais;
- todo mundo, inclusive você, fica melecado de protetor solar, depois empanado na areia para assar melhor;
- tem o carnaval, que por si só já daria uma postagem inteira.

Tem quem goste, não vou discutir. Como já sei disso tudo, geralmente estou resignado quando o momento chega. Só que em 2008 as estações resolveram vir embaralhadas: quinze dias de primavera em junho, outono em outubro e novembro, com um toque de águas de março. Em vez de ir a Londres e Veneza, como gostaria, recebi no meu estado (SC) as chuvas da primeira e o alagamento da segunda. Mãe Natureza?! A natureza não quer nem saber! Quem quer saber somos nós... E nem todos.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Grito


Então gritei aquilo que sentia
A ver se desta vez eu escutava
E o eco devolveu o teu silêncio
De forte que era o amor feito palavra

domingo, 23 de novembro de 2008

Escravidão


Você sabia que:
- Há algumas espécies de formigas, como a Polyergus rufescens, que atacam formigueiros de outras espécies, roubam suas larvas e as criam como obreiras-escravas?
- Na antiguidade a escravidão era a opção à morte, no caso de prisioneiros de guerra?
- Também na antiguidade, vender-se como escravo era uma opção para pagar uma dívida?
- Na América, nas civilizações pré-colombianas, a condição de escravo poderia ser temporária, desde que se fosse capaz de saldar a dívida que gerou a escravidão?
- A prática da escravidão já era comum na África bem antes da colonização das Américas e que os escravos negros eram vendidos aos brancos por outros negros?
- A etimologia da palavra "escravo" se refere aos eslavos, povos do leste europeu, em função de terem sido escravizados pelos germanos e bizantinos na Idade Média?
- No Brasil a criminalização da escravidão e de suas condições análogas só se deu no século XX?

Agora que você já sabe disso tudo, voltarei à correção de trabalhos, relatórios e monografias, que - assim como a preparação de aulas, elaboração e correção de provas - são atividades remuneradas em fevereiro e julho com as horas-aula que excederem às de cursos e reuniões para os quais somos convocados. Ainda bem que a escravidão acabou! Já imaginou fazer tudo isso de graça?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Trava-línguas


Minha contribuição para a já consagrada brincadeira do trava-línguas, da tradição oral popular:

Repita três vezes, rapidamente: "O croquete é concreto e crocante."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Vamos estar incomodando..."


Talvez só deteste telemarketing mais do que eu o próprio operador, que é obrigado a chatear os outros todos os dias, com um supervisor pegando no pé. Assim que descobrem que você não é o maior pé-rapado da praça e que tem onde cair morto, começa o assédio: telefonemas diários oferecendo cartões de crédito e seguros, assinaturas de jornais, internet rápida, donativos para fundações e outras aporrinhações do mesmo calibre. Não bastasse o treinamento para assassinato da língua portuguesa com o já famoso “gerundismo”, estes agentes das trevas ainda recebem aulas de “Psicologia do Mal” (técnicas de vendas), aprendendo a explorar fraquezas alheias, tais como não saber dizer não, ser consumista, ter medo do futuro, etc. Felizmente já aprendi no curso de graduação em Psicologia (técnica do disco quebrado) e com minha experiência de vida a me livrar destes inconvenientes, mas mesmo assim é cansativo. Penso com meus botões: “Por que estes desgraçados não vão trabalhar com prostituição? Vender-se por se vender, pelo menos estariam dando prazer a alguém...” Quando toca o telefone:

- Bom dia, o senhor Paulo César Nascimento?
- Ele mesmo.
- Senhor Paulo, tudo bom com o senhor?
- Tudo.
- Que bom, senhor Paulo. O meu nome é Keitlyn, devido ao seu bom relacionamento com o comércio nós vamos estar apresentando uma proposta ao senhor. Para sua segurança, este telefonema vai estar sendo gravado, tudo bem, senhor Paulo?
- Olha moça, eu não tenho interesse em comprar nada não.
- Não se trata de venda, senhor Paulo. O senhor vai estar recebendo gratuitamente em sua residência o cartão COPERPUTA GOLD...
- Cartão o quê?
- O senhor ainda não conhece? A COPERPUTA é uma cooperativa de profissionais do sexo, agora conveniada às principais bandeiras de crédito, senhor Paulo. Com o COPERPUTA GOLD, além de poder realizar suas compras em até cinco vezes no cartão, o senhor ganha descontos em programas, motéis e na compra de preservativos, senhor Paulo. Além de todas estas vantagens, o senhor ganha 15% de desconto em atendimento médico no caso de acidentes sexuais...
- Acidentes sexuais?!
- Sim, senhor Paulo. Caso o senhor tenha hemorragia por ruptura do freio, doença de Peyronie, priapismo ou enganche o prepúcio em um aparelho ortodôntico, senhor Paulo, o COPERPUTA GOLD garante transporte sem custo adicional até a emergência do hospital mais próximo do local do acidente. Além disso, senhor Paulo, por uma taxa de apenas quinze reais mensais incluídos na fatura do cartão, o senhor pode estar adquirindo o nosso seguro especial contra Doenças Sexualmente Transmissíveis.
- Moça, desculpe, eu não tenho interesse...
- Mas senhor Paulo, além das vantagens já apresentadas, o senhor vai estar ganhando 20% de desconto nas massagens tailandesas, 10% de desconto em casas de swing e vai estar concorrendo todo mês a um sorteio de programa grátis com a profissional de sua preferência, senhor Paulo.
- Moça, me desculpe, eu prefiro o sexo amador, que custa mais caro, mas acho mais gratificante.
- Senhor Paulo, o senhor tem preconceito contra profissionais do sexo?
- Não foi isso que eu disse...
- Saiba, senhor Paulo, que a profissão é reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego sob o código 5198.
- Veja bem, eu não tenho nada contra...
- Senhor Paulo, é por causa de gente preconceituosa como o senhor que este país está do jeito que está! Passar bem, senhor Paulo! (desliga).
- ...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Curiosidade e exotismo


Adoro sorvete de chocolate, de todos os sabores que já provei é o meu favorito. Se tiver pedacinhos de chocolate, melhor ainda. Mesmo assim, jamais compreendi gente que entra em mega-sorveterias com milhares de sabores e pede de chocolate, morango ou creme. Ali está a oportunidade da sua vida para experimentar sorvete de kiwi, figo ao rum, cappuccino, cerveja, tamarindo ou outra coisa deste naipe, e você deixa passar?! Quando conheci Salvador, um dos bons momentos da viagem foi em uma sorveteria, a provar sabores de frutas do nordeste / norte. Não é uma questão de paladar, é uma atitude perante a vida. Claro que há vezes em que você sabe que é melhor não arriscar, se já tiver pistas anteriores neste sentido. Jamais provaria uma pizza de sardinha com leite condensado, por exemplo. Com substâncias psicoativas, também não brinco, pois os riscos não compensam. Se um dia eu for à China, provavelmente terei mais nojo da falta de higiene nas barraquinhas do que propriamente de experimentar escorpiões, larvas e ouriços do mar. Se forem ruins, no primeiro bocado eu já saberei, aí basta cuspir fora (longe da barraquinha, para não comprar briga) e nunca mais comer daquilo, mas vai que sejam bons? Isso é motivo de brincadeiras na minha família: uma de minhas irmãs, quando me visita, pergunta se há na minha geladeira comida de gente normal ou só patê de avestruz com trufas e suco de melancia com abóbora. Minha outra irmã, semana passada, guardou para mim um picolé de milho-verde que veio em uma caixa de sabores sortidos, dizendo: “Esse aí, só o Paulinho vai querer.”

Na música, também aprecio fazer incursões por universos paralelos. Não quer dizer que vá gostar só por ser diferente ou esquisito - aliás, em outros idiomas, como o espanhol, “esquisito” quer dizer algo de boa qualidade. Há vezes em que a bola bate na trave: certos experimentalismos não batem com o meu gosto. Adoro o trabalho do Pat Metheny, por exemplo, mas acho o disco “Zero Tolerance for Silence” impossível de se ouvir. Não gostei de um disco que comprei para conhecer o trabalho da Meredith Monk e só tive oportunidade de rever minha opinião este ano, ao conhecer a Last.fm. Tive nela a oportunidade de provar novos estilos, descobrir coisas de que gostei, outras que não caíram bem. Ouvi compositores de música erudita, como Schoenberg, Bartók e Stravinsky, bem como o punk-cigano do Gogol Bordello. Fui apresentado ao Indie-rock e descobri algumas bandas interessantes, como Death Cab for Cutie. Gosto de música étnica, mas preferencialmente a de raiz e não as versões “diluídas” para estrangeiros. Isso não significa que não goste de Paralamas do Sucesso ou de Bob Marley. O mundo é vasto, a vida é curta e tudo isso é informação. Adoro documentários, enciclopédias, livrarias, bibliotecas e a internet, que hoje em dia reúne isso tudo. A conclusão é de que sou um grande curioso, propenso a desvendar enigmas e segredos e, sobretudo, viciado em informação.

sábado, 15 de novembro de 2008

Não espalhe, é segredo!


A auto-ajuda é um grande filão do mercado editorial e livreiro. Por um lado, faz pessoas que não lêem outras coisas abrirem um livro, o que é um bom começo. Porém, chega uma hora que mensagens de otimismo e outras pieguices, além de promessas de sucesso absoluto, começam a ficar repetitivas. Aí você pensa que essa onda vai passar e ela volta com força total. Fosse somente o apelo dos charlatães habituais, nem seria preocupante, mas começam a surgir pessoas com credibilidade em algumas disciplinas científicas, como a Física e a Biologia, a dar palpite em áreas que não conhecem bem, a extrapolar conclusões válidas em um contexto bastante restrito para contextos muito mais amplos, coisas que o rigor científico não permitiria. O verdadeiro poder do otimismo e do pensamento positivo foi avaliado pelo Psicólogo canadense Albert Bandura, da Stanford University, a partir do conceito de auto-eficácia. Seus estudos forneceram indícios de que ter crenças que suportem um sentimento de autoconfiança aumenta a probabilidade de superar obstáculos na busca de seus objetivos. Daí a dizer que basta acreditar de verdade que você os alcançará há uma distorção imensa.

Sempre fui um apreciador de esportes e lembro-me de duas situações em que ficaram muito claros os limites deste tipo de magia contemporânea. Na primeira delas, deve ter sido um dos primeiros Ultimate Fighting Championship, um dos lutadores disse que iria vencer a luta, pois ele e seu Psicólogo já haviam programado todos os aspectos de sua vitória em sua mente. Agora era apenas executar a programação. O problema é que eles se esqueceram de programar o adversário para perder. Em poucos segundos o “programado” estava estatelado no chão, desacordado e um tanto machucado. Talvez isso acabe com os meus planos de ir para o purgatório, mas eu ri um bocado da situação. Na segunda, um famoso mago da auto-ajuda foi contratado para dar suporte à seleção de seu país em uma modalidade esportiva (não vou citar nomes, porque não acredito em “programar” que ele não me processe, mas para bom entendedor, me__ pa__ ba__). Foram a uma importante competição e foi obtido um brilhante sexto lugar (o país em questão já havia sido campeão e viria a ser campeão novamente, sem as tais palestras motivacionais). Perguntado sobre o fracasso, veio com um “Pois é, as equipes adversárias estavam muito bem preparadas!” Ora, qualquer bebê de creche percebe que a vida envolve adversários complicados e competição, nem que seja pela atenção da professora. Também envolve cooperação, obstáculos a superar e riscos. É justamente por isso que vender esperança dá tanto dinheiro. Este é o verdadeiro segredo, que os espertos conhecem há tempo: aproveitar as dificuldades dos outros e vender fórmulas de sucesso aos aflitos. Os que são ainda mais espertos prometem os resultados apenas para depois da morte.

Resumo da ópera: melhor ser otimista e autoconfiante, porque daí você ainda leva alguma chance. Mas garantia, que é bom, não existe nenhuma.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A resposta dos peixinhos


Atirei mil limões n´água
De pesado que era o mundo
E os peixinhos responderam
- Que amargura aqui no fundo!

Atirei um irmão n´água
Mergulhado num segundo
E os peixinhos responderam
- Ele volta furibundo!

Atirei o alemão n´água
Desprezado, moribundo
E os peixinhos responderam
- Vai trabalhar, vagabundo!

Atirei um limão n´água
De pesado, foi ao fundo
E os peixinhos responderam
- Joga o açúcar e a cachaça!

Nisso é que dá confiar a rima final a peixinhos pinguços...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O que Protógenes não aprendeu com Jesus


Jesus nos legou dois grandes ensinamentos, um através de suas palavras, outro através de seu destino:

1) O amor a Deus e ao próximo está acima da lei dos homens;
2) Quem mexe com os poderosos de seu tempo acaba desacreditado, humilhado e morto.

No Brasil existem quatro poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e Econômico, não necessariamente nessa ordem. O resto eu deixo nas entrelinhas.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre a vida, a morte e o pênalti


Sempre tive dificuldade em despedir-me de pessoas queridas e acho a morte uma brincadeira de mau gosto do acaso, de Deus, da natureza ou de quem quer que a tenha inventado. Talvez o grande mal da humanidade seja a consciência, pois permite que antecipemos nosso próprio fim como imagem ou representação. Sabemos que iremos morrer e que, antes ou depois de nós, todos os que amamos também. Enquanto conceito isto é até suportável, mas a consciência plena da própria finitude é muito pesada. Só a tive uma vez, quando despertei no meio da noite sabendo de corpo e alma que este “eu” que conheço tinha prazo de validade. As religiões estão aí, cobrando ingresso em dinheiro ou em sacrifícios para um além que nem sabemos se existe. Foi um alívio temporário descobrir no Budismo, aos dezoito anos, a chave contra o sofrimento das separações, provisórias e definitivas: bastaria desenvolver o desapego. Eu, que àquelas alturas já era faixa marrom em racionalização, achei ótimo: para a preta seria apenas mais um exame. Não demorou muito, um filme recolocou as coisas na sua devida dimensão: The Hit, dirigido por Stephen Frears. A tradução do título não soa instigante em outros idiomas, então foram feitas adaptações ou acréscimos, como “o traidor” (Brasil), “Vendetta” (Itália), “Der Profikiller” (Alemanha), “La venganza” (Espanha). Em inglês, hitman é assassino profissional, matador, então o título seria aproximadamente “o abate”, mas pareceria coisa de frigorífico. Além da magnífica trilha sonora do Paco de Lucia, a idéia do filme também faz cair o queixo. Alerto que contarei o final, pois este não é um blog para promover filmes, mas para falar da vida em seus aspectos trágicos, cômicos e poéticos.

Willie Parker (Terence Stamp) é um ex-membro do crime organizado que se tornou informante e passou a viver escondido em um vilarejo na Espanha. Apesar de participar de um serviço de proteção à testemunha, sabe que está marcado para morrer. Chegam até ele um matador veterano e seu aprendiz: Braddock (John Hurt) e Myron (Tim Roth). Estes têm a missão de levá-lo a Paris com o fim de que seja identificado pelo mandante, depois morto. Porém, o seqüestro não sai muito como planejado, pois são perseguidos por um astuto policial (Fernando Rey) e carregam peso extra (Laura Del Sol). Parker, ciente da sua perspectiva de morte, passou seus dias a se preparar para este momento, estudando filosofias e religiões. Com o maior ar blasé, debocha de Braddock e das atrapalhações no processo, em uma guerra de nervos bastante interessante, tentando sabotar o seqüestro e se livrar. Tem sangue-frio para isto, dado o seu preparo para lidar com a morte. Porém, antes de chegarem a Paris, Braddock resolve antecipar “the hit” propriamente dito. No momento final, quando não há mais volta, Parker se desestrutura, choraminga e implora por não ser morto naquele instante, mas o matador conclui o seu trabalho.

Moral da história: a vida e a morte são como uma cobrança de pênalti. Na hora da verdade, mesmo com todas as teorias do mundo ao seu dispor, tudo se limita a você, a bola, o goleiro e o gol. Aí, meu amigo, haja “nelvos”.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dúvida ortográfico-espiritual


O certo é "Todo mundo vem de Deus" ou "Todo mundo vende Deus"?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sobre perdas, entrega e manteiga


O Último Tango em Paris foi um filme que a censura custou a liberar para exibição no Brasil. Eram outros tempos, com menos liberdade e mais ideais. O motivo da censura eram as cenas de sexo, praticado em modalidades não consideradas ortodoxas pelos padrões da moral vigente. Se você não assistiu ao filme, aviso que contarei o final. Pare aqui se tem planos de vê-lo. Não é um filme cor-de-rosa, nem água com açúcar. Para quem pretende ver sexo pura e simplesmente, não recomendo. Hoje em dia se vê coisas mais explícitas em qualquer canal de TV por assinatura em plena tarde. Para quem quer saber dos detalhes técnicos, aqui há uma boa sinopse / ficha técnica para quem lê em inglês, acolá uma não tão boa em português. A trilha sonora também vale à pena, para quem é amante do jazz. Mas vamos ao que interessa:

Paul (Marlon Brando) é um americano residente em Paris, recém-viúvo após o suicídio da esposa. Ao procurar um apartamento para alugar, conhece Jeanne (Maria Schneider), uma jovem prestes a se casar. Após terem sexo casual, combinam novos encontros naquele mesmo local, que Paul aluga para este fim. Passam a realizar uma série de jogos sexuais sob uma regra determinada por ele: sem nomes. Nada de trazer a vida particular para aquele ambiente. Ela se submete, embora tente por vezes subverter a regra, principalmente quando passa a se sentir envolvida. O sexo é gratuito, ousado e por vezes brutal. A cena que marcou época foi um sexo anal com manteiga como lubrificante. Não que no Brasil não se praticasse este tipo de coisa, seja com manteiga, vaselina ou azeite de dendê (não havia lubrificantes à base de água e os preservativos não eram vendidos em supermercados). O que não se podia era falar sobre o assunto, então ver uma jovem ser besuntada por um coroa em plena tela do cinema era um grito de liberdade. Mas foi aí que se perdeu o que de melhor o filme tinha a oferecer. Enquanto Paul tenta superar o luto da esposa através do sexo impessoal, Jeanne vê na entrega àquele homem misterioso a saída para a previsibilidade e banalidade de seu cotidiano. Ela se apaixona, ele resiste; ela tenta quebrar as regras, personalizar o relacionamento, ele desaparece. Após a ruptura e afastamento, ele completa o luto e ela retorna à sua realidade, ao noivado, à segurança. Aí o que em Paul era desejo sexual transforma-se em necessidade de amor, contato, proximidade. Ele próprio quebra a regra e decide se revelar, declarar-se, entrar definitiva e integralmente na vida de Jeanne. Ela, porém, não tem mais disponibilidade afetiva. Em cenas de alto teor dramático, Paul segue Jeanne da casa de Tango onde conversavam até a residência da moça, expondo sua paixão de modo intenso. Porém, para suportar a intensidade de um(a) apaixonado(a), só outro(a) – o que não é mais o caso. Jeanne se apavora e mata Paul, alegando legítima defesa: era um estranho que a importunou e ameaçou.

Um filme forte sobre perdas, luto, entrega, paixão e medo. Porém, na geral e na arquibancada é aquele filme estranho em que o Marlon Brando sodomiza uma mocinha com manteiga. Foi assim que “O Último Tango em Paris” entrou para os anais (não resisti ao trocadilho) da história cinematográfica. Aí, para não passar por alienígena quando alguém comenta, o jeito é armar uma cara de tarado, fazer uma piadinha sobre manteiga e dizer que a moça era gostosa. Mas há vezes em que a indignação é maior do que a preguiça...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Você conhece bem o português?


Assinale a alternativa correta com base nas orações abaixo, baseando-se no uso adequado da palavra TAMPOUCO:

I - Manoel, vem cá à cabina e traze-me outro traje de banho, que este não tampouco direito.
II - Ó Maria, eu gostava que trouxeras mais tremoços, que tampouco no prato.
III - Não entendo duplo sentido, tampouco acho graça em piadas étnicas.

a) I, II e III estão corretas.
b) I e II estão corretas, somente.
c) Apenas II está correta.
d) Apenas III está politicamente correta.
e) I, II e III estão incorretas.

sábado, 1 de novembro de 2008

Por que não compro os clássicos


Antes de tudo, esclareço que não me refiro apenas aos textos da Antiguidade Clássica (de Homero à queda do Império Romano do Ocidente), mas às obras que sobreviveram às suas respectivas épocas, tornando-se pontos de referência. Em segundo lugar, não estou afirmando que os clássicos não devam ser lidos – defendo exatamente o oposto. Explico aqui o motivo de ler estas obras emprestadas das bibliotecas ou baixadas da internet: os autores já morreram há tempo e as obras se tornaram de domínio público, então o seu download não configura pirataria. Por esta mesma razão as editoras podem livremente publicar estes textos, indicando apenas a autoria, sem pagar direitos autorais a nenhum descendente do falecido autor - e olhe que se trata de apenas dez por cento do preço de capa. Quando optam por publicar os clássicos, as editoras deixam de apostar em autores novos, vivos e necessitados de dinheiro para prosseguirem escrevendo. Clássicos significam vendas garantidas, pois os autores e obras já foram testados no mercado, são marcas fortes, não cobram direitos autorais nem enchem a paciência da equipe editorial. Além disso, são compras certas para um segmento importante do mercado: as bibliotecas públicas. Como se não bastasse, Professores de Literatura tipicamente ensinam suas matérias baseados nos clássicos, uma vez que os caminhos já estão mais bem pavimentados: há muitos livros com análises prêt-à-porter. Acho que para desenvolver o gosto pela leitura, esta escolha é equivocada. Eu proporia o inverso: primeiro ler autores contemporâneos, com linguagem e universo mais reconhecíveis pelos leitores iniciantes. Quem pegar gosto pela leitura, certamente buscará mais. Se eu tivesse migrado dos quadrinhos para os livros começando pelo José de Alencar e não pelo Fernando Sabino, provavelmente não seria o ávido leitor de hoje, tampouco escritor. Como podem ver pelo “tampouco”, os cronistas não me afastaram dos demais ficcionistas, nem de leituras acadêmicas. Lanço a campanha: leia os clássicos de graça e economize para comprar livros de autores vivos, preferencialmente os ainda não consagrados. Fernando Pessoa, Miguel de Cervantes e Florbela Espanca não tiveram o gostinho do sucesso, nem do dinheiro. Mesmo fora da Literatura há exemplos como o de Marx, que também não o teve. Seu sucesso póstumo só beneficiou a editores e livreiros - além dos leitores, é claro. Não será agora que irão se importar em terem suas obras lidas de graça.

Lembrando: não é pirataria! Os textos são de domínio público e uma das páginas para download é do próprio Governo Federal! Divulgue o endereço: http://www.dominiopublico.gov.br

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ebriedades


Até ontem, ela vinha
Hoje, eu vinho

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fantasias


Em abril, Martinha era caixa de supermercado e teve de trabalhar uma semana com orelhas de coelhinho da Páscoa. Com a mudança dos donos, houve diminuição do pessoal e ela foi demitida. Passou a trabalhar para um restaurante, fazendo propaganda da tele-entrega vestida de frango. O calor do Rio de Janeiro, somado ao da fantasia, levou-a a procurar outras possibilidades. Bem feitinha de corpo, passou a dançar em uma casa noturna vestida de rainha egípcia. Surgiram os convites para fazer programas, o que ela não havia programado. Largou a vida de dançarina e voltou ao comércio, agora com gorrinho de ajudante de Papai Noel. Na última hora, atendendo aos insistentes pedidos de sua mãe, substituiu a Virgem Maria no presépio vivo da igreja. Quando Evandro, seu namorado, trouxe-lhe uma fantasia de enfermeira comprada em uma sex-shop, foi a gota d´água. Fevereiro chegando, já combinou com uma amiga: vai passar o carnaval na serra, vestida de Martinha.

domingo, 26 de outubro de 2008

Da essência da solidão


Infelizmente
Meu semelhante
É bem diferente

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Faça você mesmo: haicai


Tenho simpatia pela economia de palavras, pelo menos como leitor, ouvinte ou espectador. Se você pode dar o mesmo recado em três linhas ou em duzentas páginas, por que ficar enchendo lingüiça (trema na lingüiça enquanto puder, pois o trema será extinto com o novo acordo ortográfico), não é mesmo? Há ocasiões, porém, em que as coisas precisam ser ditas aos poucos e isso faz diferença, o que justifica romances, sagas, longas-metragens e psicoterapia. Descobri os haicai (haiku ou haikai) ainda menino com uns poemas curtinhos do Millôr Fernandes. Não havia internet na época, então passei a achar que qualquer poema curtinho com três linhas cabia neste gênero. Neste ano, movido pelo espírito mercenário e utilitarista – o Sam -, resolvi encaminhar três haicai para um grande concurso com premiação em dinheiro. Separei então três poeminhas que achei do Carvalho (meu “eu lírico”), quando me deparei com um limite: os textos deveriam se enquadrar nas regras do haicai clássico japonês. Agora é importante que você clique aqui para entender direito o restante do texto. Eu sabia que você iria desobedecer. Deixe de ser teimoso(a), volte lá e clique no link, não é vírus, eu garanto. Está bem, se você vai continuar assim mesmo, problema seu, depois não diga que eu não avisei. Pois é, como você deve ter imaginado, nenhum dos poemas era haicai no sentido estrito do termo. Aí o Sam convenceu o Carvalho a escrever novos textos para concorrer ao prêmio, resultando em três haicai prostitutos já publicados aqui no blog.

Para que entenda melhor o processo, vou montar alguns haicai aqui diante dos seus olhos. Primeiramente, pense em um título. Pensou? Isso prova que você não clicou no link que eu sugeri: haicai não leva título (sorriso cínico, sarcástico e debochado)! Se você quiser aprender com quem sabe, volte lá na página do Caqui. Se quiser continuar aprendendo com quem enrola, vamos em frente. Tente incorporar o espírito nipônico antigo (não no sentido kardecista, tenha cuidado!) e apague todas as referências japonesas moderninhas ou ocidentalizadas, como as ganguro girls e os anime. Sugiro que coloque música tradicional, como a de Sunazaki Tomoko, e entre no clima. O Japão é um arquipélago pequenino e cheio de gente. Tradicionalmente, o único jeito dos japoneses manterem a privacidade foi o desenvolvimento de uma espécie de recato ou reserva. Os sentimentos são disfarçados ou intimamente guardados, sendo considerada deselegante sua demonstração efusiva, bem como comportamentos invasivos. Assim, deixe sua veia histriônica ou sentimental fora do haicai e a mande à ópera. Cabem somente umas gotas de melancolia, diluídas em um lago zen - que é um jeito meio blasé de ser fora da casinha, ou vice-versa. Japoneses adoram formalidades para tudo, está aí a cerimônia do chá que não me deixa mentir: adaptaram a formalidade da consagração eucarística (jesuítas) ao hábito de beber chá, criando um ritual extremamente meticuloso e detalhista como um caminho para atingir a simplicidade e a espontaneidade. É algo parecido com uma dama levando horas em frente ao espelho para criar um visual despojado. As gotas de melancolia podem ser substituídas por uma leve nostalgia da vida rural ou do Japão feudal, com suas gueixas e seus samurais. Isso, claro, se você quiser criar um haicai com pedigree. Eu simpatizo com cachorros vira-lata, sushi com cream-cheese e japonesas mestiças, que me parecem ter mais rock´n roll e malandragem no corpo. Os haicai que se seguem poderiam ser classificados como haicai fusion, ou nouvelle haicai, ou ainda como uma brincadeira de mau gosto – fica ao seu critério. Para sua segurança, ao final eu mostro onde está o cream-cheese.

A métrica do haicai tradicional é rígida: são dezessete sílabas poéticas, divididas em versos de cinco, sete e cinco. Na prática, tem que ter a seguinte batida: Ra-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-tá. Quanto ao conteúdo, é preciso manter as coisas no presente, em uma sobreposição de imagens sem vinculação explícita de sentido. No haicai as entrelinhas contam muito, já que as linhas são poucas. É preciso ter elementos da natureza e alusão a uma estação do ano, direta ou indireta, chamada de kigo, que é por onde eu começo a matutar, enquanto batuco mentalmente os Ra-ta-ta-ta-tás.

“Calor dos infernos!” é um kigo de verão, embora pouco tradicional. Penso em uma cena que remeta a temas como apego/desapego: “Calcinha lá no chuveiro”, que alude à demarcação de território por uma namorada, tal qual uma bandeira afastando as concorrentes. A conclusão precisa ter um elemento de natureza, senão o haicai é desclassificado. Eu pensaria em colocar cream-cheese aqui, violando esta regra: “Mulher ciumenta”. Porém, a menos que você considere a mulher como representante da natureza, em oposição ao homem como representante da cultura (um olhar um tanto sexista), será preciso substituir este verso por algo como “Voam pernilongos” ou “Um cheiro de flor”. Fica assim:

Calor dos infernos
Calcinha lá no chuveiro
Um cheiro de flor

Mesmo incomodado pelo calor do verão e pelos ciúmes da namorada, o “eu lírico” percebe o perfume no ar e compreende que o resto nem tem tanta importância assim. Os puristas reclamariam dos infernos e da calcinha, que eu mantenho como cream-cheese.

“Grilos na sacada” é um outro kigo de verão, além de aludir à natureza. Penso em algo que remeta a coisas transitórias, como a fome: “A pizza já ficou pronta”. Para dar um ar impressionista, juntando a percepção do aqui-e-agora e do efêmero, concluo com “Perfume de queijo”. Resultado:

Grilos na sacada
A pizza já ficou pronta
Perfume de queijo

O “eu lírico” ouve o cricrilar dos grilos, sendo subitamente interrompido pela constatação de que sua fome é algo passageiro. Neste haicai o cream-cheese foi substituído pelo queijo mussarela.

“Orvalho na grama” é um kigo de outono, sendo também elemento natural. Penso em reforçar estes elementos naturais com a presença animal. Um bicho que remeta à lentidão: cágado. Quero também enfatizar o retorno das coisas à natureza, em um ciclo de transformação e renovação, tudo no presente: “Cágado cagado cá”. Porém, os puristas reclamariam da aliteração neste verso, um recurso da poética ocidental. Se eu modificar para “Aqui um cágado está cagado”, passarei a ter oito sílabas poéticas em vez de sete. Uma solução que acaba com a aliteração e é também mais limpinha: “Há do cágado dejetos”. Conclusão: “Alegre retorno”.

Orvalho na grama
Há do cágado dejetos
Alegre retorno

O Matsuo Basho só não deve estar se revirando na tumba porque provavelmente foi cremado. Já o Nempuku Sato não teve a mesma sorte. Se eu morrer esta noite, foi um ninja.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mea culpa


Fui responsável
Uni o inútil
Ao desagradável

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Circo de horrores


Tem coisas que eu entendo, mas não respeito, como a tendência geral em transformar a tragédia alheia em espetáculo mórbido. Aliás, isto me irrita bastante. Para ir de casa ao trabalho, preciso pegar a via expressa e a BR. Na maior parte das vezes em que há engarrafamento, isto ocorre porque o pessoal diminui a velocidade para observar um acidente que já está sendo administrado. Aqui em Santa Catarina houve o que se poderia chamar de meta-acidente, quando um caminhão se desgovernou e atingiu curiosos que se amontoavam para observar o acidente anterior. Perfeitamente evitável: ninguém tinha absolutamente nada a fazer no local! Além disso, o alvoroço dos transeuntes atrapalha quem está efetivamente resolvendo a situação, dificultando a chegada de socorro, a remoção de feridos, o combate a eventuais incêndios e outras medidas de segurança. Outra coisa que atrapalha é a amplificação que os meios de comunicação fazem nestas situações. Imagine você tentar trabalhar com vinte jornalistas, cinegrafistas, mais os curiosos já mencionados: “Agora Dona Marlene vai bater o ponto! Dona Marlene, a senhora acha que o seu chefe vai descontar o atraso do seu salário?” “Recebemos um comunicado que Dona Marlene se atrasou porque teve uma discussão com o esposo na hora de deixar o filho no colégio!” “Temos aqui um especialista em leitura labial para ver o que Dona Marlene está falando ao chefe: esses repórteres finos na pulga me abraçaram ainda mais!” Puxei este assunto em função da tragédia da vez, da adolescente Eloá, como vocês já devem ter deduzido.

Negociação em situação de risco com reféns é coisa séria, exige equipe treinada e sobriedade. Há alguns anos, participei de uma mesa sobre o tema com um oficial da PM especialista em negociação e um Promotor de Justiça. Coube a mim a apresentação dos aspectos psicológicos envolvidos, com ênfase particular em psicopatologia. Para não falar bobagem, passei alguns dias pesquisando o tema e conhecendo os aspectos técnicos da atuação da polícia no Brasil e no exterior, o estado da arte da psicologia criminal, profiling (perfil criminal), bem como transtornos que acometem vítimas e negociadores em virtude do estresse. Não cabe a mim a avaliação técnica da conduta do GATE, mas uma coisa é certa: o circo feito em torno da situação atrapalhou – e muito. Televisão vive de anúncios, que vivem de audiência, que vive de agradar o povo, que adora um drama sensacionalista. Daí deriva o bombardeio de informações, plantões, informes. Quem comanda a ação da Polícia Militar, em última análise, é o Governador do Estado – um político. Espectadores são também, em parte, eleitores, então o tamanho do circo influencia o grau de intervenção de um político em um assunto que exige uma ação técnica. Você gostaria de ter a ação do seu cardiologista subordinada a um político? Eu não gostaria. Não há como precisar aqui o quanto esta influência ocorreu ou não de fato, como também não cabe traçar um perfil psicológico do Lindemberg a partir de fragmentos de informações fornecidas por terceiros. Isto é picaretagem, por mais títulos que tenham os “especialistas” consultados na TV – estas aparições buscam os tais dos quinze minutos de fama mencionados pelo Andy Warhol. O fato é que o “efeito circo” cria uma série de desvantagens para que a situação de risco se resolva sem danos ou com um mínimo destes.

O ser humano precisa de tragédias? Que leia Sófocles, Eurípedes ou Shakespeare! A ficção está aí para isso mesmo. Chega de sermos corvos de meninos arrastados por automóveis, meninas real ou supostamente arremessadas pela janela, pais assassinados e adolescentes baleadas. No fim, todos serão esquecidos quando uma mãe cozinhar os filhos e degustá-los com batatas fritas, ou qualquer barbaridade equivalente que venda revistas e anúncios.

sábado, 18 de outubro de 2008

Entropia


O tempo corrói
E o que nos queima
É o ar que respiramos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Paradoxos da Nova Era


- Rapaz, a minha terapeuta de vidas passadas disse que na última encarnação eu fui o Charlie Chaplin!
- Não pode, Zeca, você é de 1975 e o Chaplin só morreu em 1977!
- Porra, Chicão, no século passado a física moderna já provou que o tempo é relativo! Você, que é engenheiro, devia saber disso melhor do que eu...
- (suspiro!)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Odontologia poética


No meio do arroz tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do arroz
cara, a coroa!

domingo, 12 de outubro de 2008

Culinária estudantil de sobrevivência


Cozinhar bem é uma arte: requer talento, habilidade, treinamento e prática. Há que se preparar molhos, caldos e roux, utilizar uma gama de temperos e ervas, provocar choques térmicos, ter as panelas, termômetros, facas, panos e formas certas, além de livros de receitas secretas. Cozinhar razoavelmente já é bem mais fácil, mas ainda requer experiência, receitas e tempo. Quebrar o galho e preparar uma gororoba aceitável, sujando o mínimo de louça possível, é o que chamo de culinária estudantil de sobrevivência. Significa cozinhar apenas para você, ou no máximo para um amigo esfomeado, e nunca para alguém que você queira impressionar. Devido ao apelo do meu amigo Rafael, que está passando fome em São Paulo por pura falta de comida aceitável em sua mesa, vou passar aqui umas dicas básicas e receitas para quem não sabe cozinhar direito, nem pretende aprender.

a) Faça saladas. Hoje em dia, vegetais são encontrados prontos para consumo. Basta misturar um pouco de alface rasgada, tomates cereja, pepinos cortados, peito de peru em cubinhos, croûtons, colocar um molho pronto e aí está uma refeição de verão. Há várias opções, todas muito fáceis de preparar. Só não esqueça de colocar um pouco de proteínas e carboidratos, porque do contrário você estará com fome logo após a última garfada.

b) Prepare massas com molho. Como já brincou o Luís Fernando Veríssimo em um conto, a culinária italiana é uma falcatrua: só muda o formato da massa e o molho que cobre. Hoje em dia vários molhos são facilmente encontrados prontos, o problema é que quem não sabe cozinhar erra o ponto da massa. Então as dicas básicas: massa fresca fica pronta muito rapidamente, é praticamente mergulhar na água fervente, deixar uns três minutos e tirar. Macarrão de pacote precisa de uma boa quantidade de água pra não grudar, então sugiro que se use uma panela de seis litros pela metade para meio pacote de macarrão (250 g.). Não recomendo que coloque estes três litros de água em uma panela com capacidade para quatro litros, porque corre o risco de transbordar e fica ruim para mexer. Óleo não se mistura com água, então aquele fio de óleo que recomendam colocar é besteira. O importante é mexer um pouco para os fios se soltarem uns dos outros, depois colocar um fio de óleo (ou uma colher de manteiga) na massa já escorrida, mexendo um pouco. Para essa quantidade de água, um punhado de sal resolve (umas duas colheres rasas de sopa). Eu prefiro cozinhar com menos sal e deixar para corrigir no molho. Não dá pra esquecer que queijo parmesão costuma ser bem salgado, então se deve pensar no resultado final antes de fazer bobagem. Quanto aos molhos prontos, geralmente falham em algum quesito: são muito adocicados ou muito ácidos. Se você está lendo por necessidade, imagino que não saiba corrigir um molho, então o melhor é testar várias marcas e se tornar fiel a uma que agrade o seu paladar.

c) Prepare risotos. Os de verdade são feitos com arroz arborio, uma panela de caldo de galinha ou legumes fica de plantão ao lado para que conchas sejam adicionadas paulatinamente, enquanto o amido vai se soltando, há um momento certo para adicionar vinho, creme, legumes pré-cozidos e manteiga; risotos de sobrevivência, não. Faça um refogado com duas colheres de purê de cebola (ou meia cebola pequena picadinha, se você souber picá-la sem cortar os dedos), fritando-a em uma colher de azeite até que doure (fogo baixo). Adicione dois pacotinhos de arroz já cozido e desempacotado - sim, use arroz em pacotinhos, tipo Uncle Ben´s, para garantir quer o arroz não irá queimar – e mexa por uns quinze segundos. Em meia xícara de água fervente, dissolva meio tablete de caldo de galinha ou de legumes, conforme sua preferência. Junte o caldo e os vegetais (aspargos, champignons ou brócolis pré-cozidos), deixando cozinhar mais um pouco, mexendo para que não grude no fundo da panela. Deixe o risoto um pouco úmido, apague o fogo e jogue uma colher de requeijão por cima, misturando bem.

d) Faça carreteiro. Pique restos de bife, corte rodelas de lingüiça calabresa e frite simultaneamente em uma panela, junto com duas colheres de purê de cebola (ver observação anterior). Coloque meia caixinha pequena de polpa de tomate, depois adicione dois pacotinhos de arroz já cozido. A proporção é aproximadamente meio bife pequeno e um quarto de lingüiça para cada pacotinho de arroz. Deixe cozinhar rapidamente, mexendo sempre. Apague o fogo com o arroz ainda um pouco úmido e deixe descansar por uns cinco minutos, até o excesso de líquido evaporar.

e) Faça curry de frango com legumes. Corte em cubos um peito de frango desossado (fica melhor com coxa e sobrecoxa, mas vai aí a versão menos calórica). Descasque duas batatas grandes, uma cebola e uma cenoura, cortando-as em pedaços que caibam na boca. Frite o frango em uma panela grande, depois despeje em um escorredor de macarrão e reserve. Coloque duas xícaras de água fervente na panela e junte os legumes, cozinhando-os (use a batata como parâmetro, testando-a com um garfo). Se quiser deixar o prato mais indiano, coloque também uma maçã verde picada. Escorra os legumes, depois junte o frango e o molho curry pronto.

f) Faça chilli. Frite trezentos gramas de carne moída (em três vezes de cem, para que não cozinhe no suco em vez de fritar). Junte um pacote de feijão vermelho pré-cozido (desses embalados a vácuo), uma caixinha de molho de tomate, uma colher de sopa de ketchup, molho de pimenta vermelha a gosto. Sirva em tigelas e cubra com queijo ralado. Se souber fazer tigelinhas de pão italiano, sirva o chilli nelas. Além de serem boas de comer depois, poupam o trabalho de lavar louça.

g) Faça omeletes. Em uma tigela, bata dois ovos com um gole de água (não meça na boca, por favor). Em uma frigideira, refogue meia cebola picada até que doure, despejando em seguida os ovos. Deixe o fundo fritar, então despeje duas colheres de queijo parmesão em cima, baixando o fogo e tampando a frigideira. Aguarde um minuto em fogo baixo, apague o fogo e deixe descansar por uns dois minutos, até que os ovos tenham cozinhado no vapor.

Se não acertar fazer nada disso, saiba que quase ninguém faz miojo direito no Brasil. Ele é próprio para lamen, uma sopa oriental de macarrão. O certo seria colocar o molhinho no líquido de cozimento, misturar e colocar em uma tigela, sem escorrer, depois comer o macarrão com hashi e beber o caldo direto dela, preferencialmente fazendo barulho. Boa sorte e tenha sempre um extintor de incêndio por perto!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Você é aquilo que come


Um belo dia, o tigre decidiu cuidar da saúde: passou a se alimentar exclusivamente de vegetarianos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pequenas batalhas domésticas III: na cozinha


Até quem mora sozinho enfrenta batalhas na cozinha, algumas delas para continuar nesta condição. Migalhas, frutas e restos de alimentos costumam atrair hóspedes indesejáveis, como baratas, formigas e mosquitinhos de banana. Assim sendo, gotas de mel, sucrilhos perdidos, migalhas de pão, copos e colheres sujos de achocolatado, caixas de pizza, tudo isto é convite para transformar seu apartamento em um mini-zoológico. Com exceção de peixinhos de aquário – perdoem-me os amantes de felinos e de cãezinhos de madame -, não considero viável a convivência com animais domésticos em espaço confinado. Da mesma maneira, vejo como inviável a criação de cabras, porcos e galinhas em casa. Já em um sítio ou fazenda, tudo bem – tudo é uma questão de espaço vital e condições de higiene. Caso você não tenha uma máquina de lavar louça, tenha preguiça ou falta de tempo para lavar os pratos e panelas logo após o uso, sempre pode recorrer ao truque de deixar um tanto de água e detergente sobre eles. Batalha fácil de vencer. Quando mais gente mora com você, outras aparecem.

A primeira batalha se dá entre o mais limpo e o mais sujo... ou melhor, entre o mais normal e o mais neurótico por limpeza... ou melhor, viu como a batalha já começa na hora de definir qual o costume certo e qual o errado? O grande problema é que aquele(a) com menor tolerância à sujeira acaba limpando o que o(a) outro(a) suja. Já vivi situações extremas ao morar em “república”, nos tempos de mestrado. Parei de lavar a louça suja pelos outros, passei a comer na rua e iniciou-se uma criação de baratas na cozinha – primeira e única vez em minha vida que vi seus filhotinhos. Tudo perfeitamente evitável, concorda?

A segunda batalha se dá quando alguém come a porção suposta ou concretamente de outra pessoa. Podem ser duas fatias de pizza, deixando apenas o bife seco de anteontem. Pode ser o iogurte de morango, a última colherada de brigadeiro de panela, a latinha de cerveja holandesa. Desatenção, provocação ou malandragem, geralmente esse tipo de conduta desperta uma fúria assassina e clama por vingança. Uma variante desta batalha é falta de reposição do que foi consumido. Lienad, da tribo dos Ehcepmac, cita um antigo provérbio chinês: “Quando uma soda acaba, outra vai para a geladeira!” Embora pareça algo básico, o mundo parece se dividir entre esvaziadores e repositores.

A terceira batalha envolve a maneira de cozinhar, quando a limpeza cabe ao não-cozinheiro. Frituras sujam a cozinha inteira, deixando o o piso escorregadio. Geralmente os pratos mais sofisticados exigem mais de uma panela, para que os diferentes tempos de cozimento sejam respeitados – isso se não for preciso utilizar o forno para gratinar. Já a culinária estudantil de sobrevivência envolve um mínimo de panelas. Exemplo: Macarronada à bolonhesa. Versão de restaurante: a) Faça um caldo básico de carne usando ossos e aparas, depois reserve (suja-se uma panela; se for reaproveitá-la no passo seguinte, inclua um pote para manter o caldo). b) Faça um molho de tomates, refogando primeiro as cebolas, depois os tomates já pelados e sem sementes e uma cenoura para tirar a acidez - pode ser substituída por um pouquinho de açúcar (suja-se uma panela, uma faca, uma tábua para cortar e, caso se utilize a cenoura, um liqüidificador). c) Frite a carne moída em porções pequenas, senão ela cozinhará no próprio suco em vez de fritar (suja-se uma frigideira e um pote para reservar a carne já frita). d) Cozinhe o macarrão (mais uma panela ou pote e o escorredor). e) Junte o molho de tomate, um pouco do caldo e a carne moída, deixando cozinhar um pouco para que os sabores se misturem. f) Em uma forma refratária, alterne camadas de macarrão escorrido, molho à bolonhesa e queijo parmesão ralado na hora, cobrindo com um pouco de mussarela também ralada, levando ao forno para gratinar (suja-se a forma e o ralador de queijo). Ah,convém deixar uma chaleira com água quente a postos para acertar o molho, se necessário. Logicamente, nos restaurantes eles preparam os molhos e caldos em grandes quantidades, congelando o que é possível. Além disso, você não imagina que o Jamie Oliver, o Claude Troigros ou mesmo a Ofélia lave a louça toda e depois limpe a cozinha, não é mesmo? Então o maridão cozinheiro resolve lhe impressionar e faz a macarronada à moda do restaurante, deixando tudo pra esposinha limpar. Romântico, não? Além dos pratos e talheres, as panelas, potes, forma refratária, liqüidificador, ralador, tábua e escorredor lhe esperam na pia – e o forno está sujo. Uma alternativa é o cozinheiro lavar os utensílios à medida que forem sujando, aí restarão apenas a forma, os pratos e talheres. A versão da culinária estudantil de sobrevivência é mais prática: a) Cozinhe o macarrão. b) Escorra o macarrão não completamente cozido através de uma fresta na tampa da panela. c) Despeje o conteúdo de uma lata de molho pronto à bolonhesa sobre o macarrão, mexendo tudo enquanto o molho aquece e o macarrão termina de cozinhar. Coloque nos pratos e despeje queijo ralado de pacote em cima. Bom apetite! O gosto é o mesmo? Claro que não, mas aí a batalha passa da cozinha para outras peças, fugindo do assunto desta postagem.

 
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