domingo, 31 de agosto de 2008

Todo homem é uma dupla


Apesar de ter uma sólida formação científica e uma quantidade razoável de leituras em diferentes áreas que tentam explicar o comportamento humano, muitas vezes eu cedo à tentação de formular teorias estapafúrdias que preencham lacunas que a ciência, com todo seu rigor e lentidão, ainda levará décadas para conseguir. Ainda que não devam ser levadas muito a sério, não deixam de ter seu valor prático, nem que seja o de tornar a vida mais divertida. Embora alguns dos leitores possam enquadrar os outros ensaios na mesma categoria, quando eu mesmo considerar a teoria estapafúrdia, sinalizarei no marcador da postagem. Vamos à primeira delas: todo homem é uma dupla.

O homem, entendido aqui como indivíduo do sexo masculino, é uma dupla formada pelos seguintes elementos: Homem Propriamente Dito (HPD) e Seu Respectivo Pênis (SRP). Embora ligados e geralmente muito amigos, cada um tem sua própria vontade e motivação. Às vezes a dupla está de acordo, em outras a discordância é evidente, causando toda sorte de embaraços. Há uma crença popular de que o homem pensa com o SRP. Isso não procede, o homem pensa com o HPD, tanto que nas competições de xadrez o SRP nem participa. O que ele faz é dizer pro HPD: não pense, aja! Eles apresentam hábitos diferentes: enquanto o HPD passa em torno de dezesseis horas desperto e oito dormindo, o SRP passa o dia inteiro e parte da noite adormecido, acordando-se de vez em quando para se espreguiçar e ver se há algo de bom ao redor. Por outro lado, justiça seja feita, por mais cedo que o HPD acorde, o SRP geralmente já está de pé. O HPD pode gostar do inverno ou do verão, já o SRP é completamente avesso ao frio. Enquanto o HPD pode admirar mulheres inteligentes, charmosas, cultas e poderosas, o SRP é mais tosco e curte mesmo as modelos da playboy. Isto justifica o argumento masculino de que compra a revista por causa das entrevistas: o HPD não está mentindo, quem está interessado nas fotos é o SRP, que é quem gosta mesmo de sexo. Quando as mulheres reclamam que um homem não tem sentimentos, na verdade há um equívoco. O HPD pode tê-los ou não, mas a aproximação ter sido decisão do SRP. Se não os tinha, provavelmente a dupla desaparecerá após o SRP se dar por satisfeito. Há casos em que o HPD genuinamente gosta da mulher, mas ela não faz o tipo do SRP, aí a coisa fica só na amizade e é melhor nem forçar outra forma de relação. Para as mulheres, porém, o SRP é a chave da manipulação da dupla: quando os argumentos do HPD forem melhores que os seus, convença o SRP, que ele resolve. Muitas percebem isso logo de início, tentando fazer amizade através de elogios - verdadeiros ou falsos: “Nossa! Nunca vi um grande assim!” Aí ele fica contente e manda que o HPD pare com essas frescuras de pensar e que faça de uma vez tudo o que tão simpática senhorita sugerir. Só que isso tem um preço: se ela começar a negligenciar o SRP, deixando-o na mão, ele se revolta e convence o HPD a pular a cerca. O triste é que o SRP, em regra, vive menos que o HPD. Desfeita a dupla, resta ao sobrevivente carregar o falecido de um lado para o outro até o fim dos seus dias, vivendo o luto e a nostalgia dos bons tempos de amizade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ter dinheiro custa caro


Não se deve iniciar um texto com um clichê, dizem os cânones da boa escrita. Agora que já fiz esta ressalva, o clichê pode vir sossegado, pois não está mais no começo do texto: “tudo na vida tem seu preço”!Ter dinheiro não foge a essa regra: há um custo pessoal embutido, assim como há um custo em não ter um tostão furado. Destinarei à pobreza outra postagem no devido tempo (o texto “Pecados Contemporâneos” ainda está no forno). Abordarei aqui os custos envolvidos em obter o dinheiro e em mantê-lo em uma sociedade capitalista selvagem ou neoliberal - que é um capitalismo selvagem vestido com camiseta da seleção e ouvindo mp3.

Nós, humanos - e alguns desumanos também-, temos necessidades de várias ordens. Muito já se escreveu sobre isso e a postagem não pretende ser quilométrica, então vou condensá-las em algumas categorias mais amplas: manter-nos vivos, renovar a espécie, obter reconhecimento e buscar um sentido para a vida e a morte. Cada produto ou serviço que atenda ou dê uma perspectiva de atender estas necessidades assume um valor de acordo com a importância a ele atribuído. Para facilitar as trocas de produtos e serviços, partiu-se para uma representação simbólica dos referidos valores na forma de dinheiro. Ao contrário do que pensam as crianças, não dá para um país ficar mais rico apenas emitindo mais moeda, pois o dinheiro deve ter um lastro em riquezas de fato. Também não se pode emitir um cheque quando se está sem dinheiro para cobri-lo, ao contrário do que pensam as crianças e os que não saem do cheque-especial. Como as riquezas do mundo são limitadas pelos recursos naturais do planeta e pela capacidade de trabalho dos homens, a quantidade de dinheiro que o mundo pode ter é limitada. Desta forma, o único modo de se obter dinheiro é tirando-o de alguém. Existem basicamente três formas de obter dinheiro: a) roubando/furtando; b) explorando o trabalho alheio; c) oferecendo um produto ou serviço em troca.

Roubar/furtar geralmente não é uma prática moralmente aceita nas sociedades. Assim sendo, quem pretende obter dinheiro a partir do furto, roubo, extorsão ou outro meio criminoso, terá que enfrentar riscos e custos. Bandidos pobres podem ser presos e ter todo o ônus do encarceramento: privação de liberdade, exposição à violência, desqualificação social. Também durante o curso de suas ações criminosas podem ser expostos à violência, seja ela exercida pelo Estado ou pela concorrência. Para buscar proteção, geralmente os bandidos pobres se aliam aos bandidos ricos no que se chama de crime organizado. Já os bandidos ricos, embora não possam mais ser algemados, enfrentam prisões e julgamentos mais rápidos, tendo como custo apenas a dignidade pessoal e a reputação perante a sociedade. Isto ocorre porque desde cedo aprendem que, para ser um bandido rico, é preciso repartir o butim entre outros bandidos ricos.

Empresários, que obtêm dinheiro da venda de produtos ou serviços, bem como da exploração do trabalho alheio, precisam superar a concorrência e a carga tributária, quando não o achaque por parte de bandidos ricos infiltrados no poder público. Vivem submetidos a pressões, precisando encontrar alternativas para manter a saúde. Nem sempre podem gozar férias ou desfrutar o final de semana, uma vez que os concorrentes também levam uma vida por vezes insana. Uma das formas de lidar com a pressão é repassá-la aos níveis hierárquicos mais baixos, o que ocorre em cascata: empresários estressam gerentes, que por sua vez estressam funcionários, que têm úlcera, chutam o cachorro, brigam com a esposa/esposo, filhos ou a torcida do time adversário. Profissionais autônomos, cujo dinheiro vem da venda de produtos ou serviços, passam pelos mesmos problemas dos empresários. Funcionários públicos, embora gozem de vantagens como estabilidade e planos assistenciais, não costumam ser bem remunerados (exceto por uma elite). Ainda assim, precisam enfrentar uma disputa ferrenha em concursos, o que significa muito tempo e esforço devotado ao estudo, bem como as conseqüentes privações. Já os políticos ficam a mercê daqueles que financiaram suas campanhas e são expostos ao assédio do crime organizado, que não costuma reagir muito bem aos que a ele não aderem ou toleram. Por fim, as celebridades: o custo da fama – bem como do dinheiro a ela associado - é a perda da privacidade.

Como se não bastasse, depois que você escolheu a forma de obter dinheiro que lhe foi possível e aceitável, vêm os inconvenientes: como a única forma de tê-lo é tirando dos outros, vai se formar uma fila de gente querendo o seu.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A noite perdida


Consta que Sherazade, em uma noite, narrou a seguinte história à irmã Dinarzade e ao sultão:

O velho Ibrahim Al-Jaffar vagava entre as tendas sob a lua crescente do deserto. Inclinando-se sobre um poço que lá não deveria estar, viu nele refletida a história de sua vida. Por fim, avistou o espectro do avô Ismail, que lhe perguntou:

- A verdade ou a felicidade?

Aqui Sherazade interrompeu sua narrativa, prometendo à irmã histórias ainda mais espantosas na noite seguinte, caso o sultão poupasse sua vida.

Não se sabe ao certo o desfecho, já que esta noite se perdeu irremediavelmente entre as demais Noites Árabes. No entanto, segundo um cego contador de histórias, no mesmo instante o velho Al-Jaffar caiu fulminado dentro d’água. Ibrahim, o poço, a verdade e a felicidade jamais foram encontrados.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Em um momento de necessidade


- A entrada? O chef recomendou foie-gras. Eu já falei com a importadora e eles não têm o Château Montus Cuvee Prestige da safra que você recomendou, querido. Eu sei que o sommelier insistiu, peça pra ele ligar pra lá e ver o que pode ser encontrado a tempo. Meu amor, o seu assessor pode esperar mais uns minutos, não vai morrer por causa disso e esse jantar está me deixando maluca. Quem é que nós vamos colocar ao lado do Senador? A Júlia? De jeito nenhum, ela é muito inconveniente... Não, eu não vou contratar um cerimonial, não confio nessa gente pra uma noite tão importante. É o futuro da nossa filha que está em jogo.

Lourdes quase não escutava a enxurrada de palavras da patroa, absorta que estava em seu drama particular. Assim que Dona Luciana desligou o telefone, falou entristecida:

- Dona Luciana, tenho que ir embora hoje para Jequié. Papai morreu ontem, mamãe está de cama. O Joílson me deixou semana passada e recebi uma ordem de despejo...
- Lourdes, você é uma ingrata! Não acredito que você vai me deixar na mão logo agora, que estou em um momento de necessidade!

sábado, 23 de agosto de 2008

O charme dos canalhas


É notório o envolvimento ambivalente e compulsivo de muitas mulheres com homens por elas considerados canalhas, cafajestes, safados ou outros adjetivos equivalentes, empregados para caracterizar homens poligâmicos que mentem para suas parceiras, fazem promessas que não pretendem cumprir, omitem o fato de já terem um relacionamento oficial, etc. Muitas são as justificativas dadas para este tipo de atração, que, devido aos resultados desastrosos, tende a ser vista como uma maldição: os canalhas seriam irresistivelmente mais charmosos que os demais homens. Inúmeras mulheres, porém, sofrem verdadeiramente com seguidos envolvimentos com homens que lhes partem os corações, indignando-se, generalizando a situação e estendendo sua mágoa a todos, culpados ou inocentes. Esta questão merece um mergulho mais demorado.

Primeira falácia: ser canalha torna um homem atraente.

Temos aqui um equívoco básico. Não é a canalhice que torna um homem atraente, mas ser atraente é o que possibilita a um homem ser canalha. Explico: o que torna um homem atraente são os seus indicadores de bons genes (beleza) e/ou o seu status no grupo, como sugerem os biólogos neo-darwinistas. Este status pode derivar de poder, riqueza, talento ou popularidade, bem como da combinação destes fatores. O fato de um homem ser disputado por muitas parceiras potenciais também aumenta este status, como explica a “teoria da fila”: se há duas festas, uma com fila grande e outra com fila pequena, muitas pessoas presumirão que a primeira é uma festa melhor.

Segunda falácia: todo homem é canalha.

Outro equívoco básico. Nem todo homem é canalha. Alguns não querem, outros não podem. Os que não querem, o fazem a partir de motivos românticos, religiosos, morais/éticos ou de outra natureza. Em suma, têm valores que os dissuadem da prática da canalhice. Os que querem, mas não podem, são limitados por uma educação repressora ou por não despertarem a atenção das mulheres, não sendo percebidos como atraentes.

Para fins didáticos, podemos dividir os homens heterossexuais em classes:

a) Não-atraente solitário: devido à baixa procura no “mercado”ou a uma renitente timidez, permanece desacompanhado, não tendo oportunidade para a canalhice, mesmo que a desejasse.

b) Não-atraente monogâmico: após ter encontrado uma parceira fixa, com ela permanece, mantendo-se fiel. Geralmente é uma mulher também desvalorizada socialmente, seja por não corresponder aos padrões estéticos vigentes (beleza e juventude), seja por pertencer a uma classe social economicamente ou culturalmente inferior à do parceiro. Faltam aqui também a oportunidade e/ou o interesse voltado à canalhice. Grande risco de se tornar um maridão de cuecas e camiseta suja, tomando cerveja em frente à TV.

c) Não-atraente poligâmico: um homem que não seja considerado atraente pela maioria das mulheres, dificilmente terá oportunidade de ser poligâmico, a menos que pague por isso diretamente (prostitutas) ou indiretamente (alpinistas sociais). Geralmente este tipo de conduta diminui o status do homem no grupo e faz com que seja considerado um canalha não-charmoso, sendo visto com desprezo e não com o tipo de relação amor/ódio que os charmosos despertam.

d) Atraente solitário: é um tipo raro. Pode não ter interesse em se relacionar (celibatário convicto) ou ter dificuldades em fazê-lo devido à timidez, vivências traumáticas em relacionamentos anteriores, hábitos solitários persistentes ou à desqualificação das parceiras amorosas em potencial (idealização da mulher). De qualquer forma, não tem como ser canalha.

e) Atraente monogâmico: embora inicialmente tenha muitas pretendentes em potencial, após assumir compromisso este homem fecha as portas a novas possibilidades amorosas e sexuais. Em outras palavras, não é canalha porque não quer ou não consegue por ser reprimido. De qualquer forma, assim que as pretendentes percebem que ele não está disponível, a fila diminui (ou desaparece). Aos olhos da própria parceira, pode ser que a festa pareça pior do que no primeiro momento, o que arrefece o interesse de algumas. Assim sendo, a conquista do parceiro é vista como fato consumado e deixa de ser diária. O risco dos dois se acomodarem é grande, então é importante que ideais românticos ou motivos religiosos, morais/éticos estejam presentes para que a relação sobreviva.

f) Atraente poligâmico: por ser considerado atraente, muitas parceiras se mostram disponíveis a qualquer tempo. Aproveitando as oportunidades que se lhe apresentam, este homem não se restringe a uma única parceira. Para manter esta conduta em uma sociedade que valoriza a monogamia, este homem geralmente precisa se manter na clandestinidade, mentindo e/ou omitindo. Os que assumem sua condição de poligâmicos e não mentem, ou viram solteirões conquistadores, ou mantêm relacionamentos diferenciados com a anuência da parceira (relacionamentos abertos, swingers). Os que mentem para as parceiras são os genuínos canalhas aos quais este ensaio se refere.

Resumo da ópera: os não-atraentes não conseguem ser canalhas charmosos, mesmo que queiram, e só interessam às que não têm melhores perspectivas. Dos atraentes, os solitários são vistos equivocadamente como homossexuais. Os monogâmicos não partem para novas conquistas ou dão espaço para serem conquistados, sendo raro uma mulher encontrar um deles em uma entressafra de relacionamentos. Já os poligâmicos que não mentem não são propriamente canalhas, mas ocorre o seguinte: os solteirões convictos, principalmente depois dos trinta e poucos, são considerados más apostas, uma vez que se entende que não gostam de assumir compromissos; poucas mulheres se interessam por swingers e homens em relacionamentos abertos declarados. Resultado: sobram os canalhas, aqueles comprometidos que mentem/omitem.

Conclusão: se você quer mesmo fugir dos canalhas, considere a possibilidade dos não muito atraentes, seja menos dura com os tímidos ou cruze os dedos para conhecer um atraente monogâmico entre relacionamentos (são bem poucos). Boa sorte!

 
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