terça-feira, 30 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 4)


Para concluir este texto, cabe tentar responder a pergunta: “Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?” Infelizmente, esta resposta não existe de modo pronto, definitivo e confiável por limitações metodológicas e éticas na pesquisa sobre dependência química. Em primeiro ligar, a pesquisa experimental sobre drogas se restringe a animais – evidentemente, não se podem separar grupos de adolescentes e ministrar diferentes doses continuadamente para descobrir o quanto da droga é suficiente para viciar e quanto tempo isto leva. Embora a pesquisa com animais possa gerar algumas hipóteses interessantes para estudar drogadição em humanos, há processos sociais e cognitivos que são típicos de nossa espécie. As pesquisas em seres humanos acabam sendo do tipo correlacional ou descritivo, que não permitem estabelecer relações do tipo causa-efeito. Como enquetes com a população em geral custam muito caro, países como o nosso raramente as realizam, pois o dinheiro do contribuinte costuma fazer turismo em paraísos fiscais. Os estudos provenientes dos EUA, por outro lado, costumam investigar fatores associados ao uso, mais que ao uso indevido, seguindo a lógica de tolerância zero: quem não se torna usuário, nunca se tornará dependente. Há algumas drogas, porém, cujo uso social não transforma a maior parte dos usuários em abusadores ou dependentes. No entanto, os que pertencem à minoria que acaba tendo problemas com abuso ou dependência causam sérios prejuízos a si mesmos, aos familiares, amigos e à sociedade em um sentido mais amplo. Isso faz com que os responsáveis pela saúde e segurança públicas desenvolvam políticas que desestimulem ao uso, uma vez que o conhecimento antecipado de quem usará indevidamente é difícil. Em contrapartida, álcool e cigarros já ocupam um espaço importante na arrecadação de recursos para o mesmo governo. Como impostos são tributos desvinculados, o governo não é obrigado a gastar o que arrecada com drogas na saúde e na segurança públicas. Você imagina que ele vá abrir mão desse dinheiro? Eu também não. Como não é possível pesquisar a população em geral, boa parte dos estudos sobre drogadição são realizados com dependentes em recuperação, o que constitui uma amostra viciada (desculpem pelo trocadilho involuntário) do ponto de vista estatístico.

Antes de falar sobre fatores de risco e de proteção, quero salientar outro aspecto metodológico: probabilidades são tendências, não garantias. Contrariando todas as probabilidades, há quem ganhe nas loterias, quem engravide tomando anticoncepcionais e etc. O cálculo das probabilidades é feito a partir da freqüência com que os casos são encontrados, então se emprega o modelo estatístico: se fosse um sorteio, qual seria a chance de ocorrência deste evento? Como todo modelo é uma aproximação e a vida geralmente não é sorteio, cada caso terá seu desfecho particular por variáveis específicas envolvidas. O Ministério do Bom-senso adverte: estatísticas devem ser usadas com moderação. Em caso de dúvidas ou efeitos adversos, consulte um profissional qualificado.

Exceto por medicamentos, o uso da maioria das drogas costuma iniciar na adolescência. Como fatores que aumentam o risco de uso têm-se: a) presença de usuário na família (pais, irmãos); b) separação ou risco de separação dos pais; c) fatores na dinâmica familiar que tornem o uso abusivo um elemento necessário para manter a homeostase; d) estilos de criação excessivamente autoritários ou permissivos; e) o grupo de amigos fazer uso de substância; f) disponibilidade da droga. Como fatores de proteção contra o uso, podem-se salientar: a) características individuais que favoreçam o enfrentamento de problemas (auto-eficácia, autoconfiança, habilidades sociais, etc.); b) suporte familiar; c) ter objetivos de vida definidos; d) grupos de referência compostos por não usuários (família, amigos, professores, igreja, etc.); e) participação em uma confissão religiosa.

Supondo que estejamos falando de um usuário, quais seriam os fatores de risco para o desenvolvimento de abuso ou dependência? Nestes casos a literatura científica é mais escassa, mas fornece alguns indícios que poderão lhe proporcionar proteção contra estas condições. Ser usuário de múltiplas substâncias (cigarros, maconha, álcool, LSD...) sugere um risco aumentado de tornar-se abusador ou dependente. Isso não quer dizer, evidentemente, que você fatalmente o será. A teoria das drogas leves como ponte para drogas pesadas é questionável do ponto de vista metodológico. Quase sempre quem utiliza crack ou cocaína passou antes pelo álcool, cigarro e maconha, mas a maioria dos fumantes, usuários de álcool e de maconha não é automaticamente puxada para as mais pesadas. Funciona como a seguinte metáfora: para ir do Rio Grande do Sul a São Paulo, você passa por Santa Catarina e Paraná. Nem por isso se diz aos gaúchos: “Cuidado! Se você for a Santa Catarina, vai acabar em São Paulo”! No entanto, ter perfil de experimentador sugere que você tem características hedonistas (busca o prazer) e de rebeldia, então o uso pode ser uma forma de contestação, de afirmar aos pais e à sociedade o seu não-conformismo. Provavelmente você se cerca de pessoas com o mesmo perfil, com hábitos semelhantes e é isso que promove o uso mais intenso, conseqüentemente de maior risco. Como seu grupo de referência deixa de ser o de não-usuários, dificilmente seus pares sinalizarão que você anda passando da conta. Ter algum transtorno psicológico (diagnosticado ou não) também é um fator de risco para o desenvolvimento de dependência, uma vez que a droga é utilizada com fim de reduzir sintomas (estresse, depressão, ansiedade). Por fim, comportamento delinqüente também tem sido mencionado como fator de risco para dependência, embora no meu entender uma coisa não seja conseqüência da outra, mas ambas sejam sinais de um mesmo problema ou conjunto de problemas.

Como saber se você já é abusador? Você consome uma grande quantidade de droga? Utiliza-a em casa, quando está sozinho? Possui estoque? Perde aulas, falta ao trabalho ou perde oportunidades importantes devido ao uso ou aos seus efeitos posteriores? Seus pais, seu chefe, sua namorada ou outras pessoas que você considera “caretas” dizem que você está abusando do álcool, do cigarro ou outra substância? Seus amigos - que usam tanto quanto você - não servem de parâmetro nesses casos, então convém prestar atenção a estes sinais, eles podem indicar que você se aproxima ou já está em um quadro de abuso. No caso de álcool, o beber pesado costuma anteceder o abuso e a dependência, sendo que o processo pode demorar anos. Você, que está imaginando que não bebe pesado, saiba que isso significa mais de cinco drinques em uma ocasião. Mudou de opinião?

Como saber se você já se tornou dependente? Tente parar de usar e veja o que acontece. Sentiu fissura, irritabilidade, dificuldade para dormir, sonolência, tremores ou alguma diferença do seu estado normal? Teve desejo intenso de consumir a droga para aliviar estes sintomas de abstinência? Não conseguiu parar e retomou o uso? Em caso afirmativo, as notícias não são das melhores. Procure ajuda especializada.

Sugestões de leitura:

SCHENCKER, M.; MINAYO, M. C. S. . Fatores de risco e de proteção para o uso de drogas na adolescência. Ciência e Saúde Coletiva, 2005;10(3), 707-717.

TAVARES B. F.; BÉRIA, J. U.; LIMA M. S. Fatores associados ao uso de drogas entre adolescentes escolares. Rev Saúde Pública 2004; 38(6): 787-96.

domingo, 28 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 3)


A discussão acerca da responsabilidade pelo uso indevido, abuso e dependência de drogas se dá em uma faixa entre duas concepções extremistas: por um lado, a da droga como agente “demoníaco” e onipotente, capaz de subverter qualquer mente, sobretudo as mais fracas; por outro, a do sujeito como soberano completo dos seus atos, só cedendo ao uso indevido os indivíduos com “personalidade junkie”, dependentes por natureza ou necessidade de atenção. Ambas as perspectivas simplificam em demasia um fenômeno que é de fato complexo. A própria questão de quanto somos senhores de nossa vontade, envolvendo conceitos como liberdade, livre-arbítrio, determinismo psíquico e outros correlatos, ainda é fonte de polêmica na Psicologia. Dependendo da corrente de pensamento adotada, fatores biológicos (mecanismos bioquímicos), intrapsíquicos (inconscientes) ou psicossociais (pressões grupais) são apontados como fortemente influenciadores, quando não determinantes, no uso prejudicial de drogas. O Modelo Moral do uso indevido, abuso e dependência atribui-os a uma “fraqueza moral” do indivíduo, sendo exemplo de responsabilização extrema do usuário. O modelo empregado pelos Narcóticos Anônimos, que assume a impotência do indivíduo perante a droga, exemplifica o oposto. Já o Modelo Médico assume que o uso indevido, o abuso e a dependência são multideterminados; no entanto, apenas recentemente passou a adotar a concepção de transtorno e não de doença para o fenômeno, uma vez que o último dá a entender um processo de natureza primordialmente biológica.

O uso de drogas está fortemente vinculado a experiências de busca de prazer / alívio de desprazer. O prazer buscado pode ser o da liberação dos afetos ou o da facilitação da sociabilidade, como no caso do álcool, ou o da sensação de aumento de poder e energia, como no da cocaína. Pode ainda ser o prazer da exploração das “portas da percepção”, obtido através de alucinógenos, ou o do emagrecimento facilitado pelos anorexígenos. Por outro lado, pode haver o alívio escapista de realidades desagradáveis, como no caso dos inalantes (thinner, cola de sapateiro), do crack e da merla, mais freqüentemente usados por excluídos da sociedade de consumo e/ou da cidadania. Também pode haver o alívio da falta de sono, de sintomas depressivos, maníacos ou ansiosos, entre outros, proporcionados por medicamentos. Estas experiências se vinculam, portanto, a necessidades, hábitos e costumes.

Uma necessidade pode ser entendida como um estado de carência de um organismo. Podem-se dividir as necessidades em diferentes categorias, tais como as apontadas por Maslow: biológicas, de segurança, de amor e pertinência, de estima, de auto-realização. O emprego de ansiolíticos para obter sono adequado se enquadraria nas necessidades biológicas. O uso de cafeína para um vigilante se manter desperto durante o turno de trabalho poderia ser relacionado a necessidades de segurança. Como exemplo de uso de drogas para satisfazer necessidades de pertinência, pode-se mencionar o uso de maconha para pertencer a um grupo social, o que também poderia estar voltado à necessidade de estima (valorizar-se em função do status alcançado). O emprego do Peiote no Nagualismo pode exemplificar o uso de drogas em busca de auto-realização (desenvolvimento do potencial espiritual, no caso).

Um hábito é um comportamento individual repetido até se tornar automático. Geralmente os hábitos são fortalecidos através desta repetição e das conseqüências obtidas pelos respectivos comportamentos. Quem já tentou iniciar a prática de exercícios regulares, modificar a dieta, dormir mais cedo (ou mais tarde), assistir menos TV, jogar menos no computador, verificou na prática que hábitos resistem a se modificar ou desaparecer, em parte por seu caráter automático, em outra por sua relação com as necessidades que satisfazem.

Costumes são práticas comuns, compartilhadas por um determinado grupo social e observadas ao longo do tempo. Um grupo de colegas de trabalho pode costumar jogar futebol e beber cerveja aos sábados, ou ainda ir ao cinema aos domingos; casais de amigos podem se encontrar para jogar cartas ou promover jantares; astros pop podem freqüentar festas uns dos outros, possivelmente fartas em álcool e cocaína. Quem freqüenta determinado grupo está constantemente exposto – quando não submetido – aos costumes particulares do mesmo.

A partir do que foi exposto, entende-se que o estabelecimento de padrões de uso de substências psicoativas se dá a partir da interação entre fatores individuais, sociais e as especificidades destas drogas. Quanto aos fatores individuais, pode haver uma maior vulnerabilidade vinculada a particularidades do metabolismo, o desenvolvimento de hábitos ou ainda um conjunto de necessidades específicas que são satisfeitas pelo efeito primário da droga. Por exemplo, se um jovem sente ansiedade em situações de convívio com pessoas estranhas, talvez tente reduzi-la através da ingestão de substâncias como o álcool, a maconha ou um ansiolítico (tranqüilizante). Caso seja impossibilitado de consumir a substância devido a um tratamento, precisará desenvolver outras estratégias de enfrentamento, uma vez que a necessidade de tranqüilização ainda persiste. Se as novas estratégias forem ineficazes, o risco de recaída é grande.

No que se refere aos aspectos sociais, os grupos de referência (família, amigos, igreja, tribo) influenciam os padrões de uso a partir de seus costumes e valores. Pesam aqui as identificações do sujeito: se um jovem se identifica com os valores do grupo de amigos e não com os de seus pais, tomará os primeiros como modelos. Em situações em que a comunicação e/ou as relações afetivas com os pais são insatisfatórias, dificilmente estes se tornarão modelos de conduta para os filhos, independente do esforço que façam para “discipliná-los” ou moldá-los à sua imagem e semelhança. Este é um dos fatores que levam à recaída os indivíduos internados à revelia, quando retornam ao convívio social. Por este mesmo motivo, tratamentos que envolvem a modificação da identidade e dos grupos de referência - como os que envolvem a conversão e integração a um grupo religioso institucionalizado, por exemplo – tendem a produzir resultados mais duradouros, se de fato a mudança de identidade é buscada pelo próprio sujeito.

Quanto às especificidades da droga, o estabelecimento de padrões de uso prejudiciais vincula-se principalmente à sua capacidade de promover tolerância (necessidade de doses maiores para obter o mesmo efeito) e sintomas de abstinência. O crack e a heroína provocam síndrome de abstinência após um período relativamente curto de uso repetido. Já o álcool é de ação insidiosa e pode conduzir a uma evolução lenta do uso abusivo à dependência. O êxtase (ecstasy, em inglês), por outro lado, não tem sido relatado na literatura como promotor de dependência, embora seu uso indevido possa produzir morte. Os benzodiazepínicos que a vovó usa para conseguir dormir (e deixar os outros dormirem também), além de causarem dependência rapidamente, podem promover danos cognitivos – especialmente à memória – se empregados por mais de três meses consecutivos, o que é um perigo nesses tempos em que o diagnóstico equivocado de Mal de Alzheimer não é nada incomum. Como ao mundo produtivo capitalista interessa que a vovó improdutiva deixe o papai e a mamãe trabalhadores dormirem, que o neto não seja um maconheiro vagabundo improdutivo, que a indústria farmacêutica lucre e pague impostos, é claro que esta última informação é bem menos divulgada na mídia que as anteriores. Por outro lado, como o crime organizado também é bastante lucrativo para os corruptores e corruptos, alardear os perigos das drogas ilícitas também as torna atraentes à juventude sedenta de emoções e aventuras. Note-se aqui não uma apologia ao uso de drogas, mas ao contrário, um incentivo ao pensamento crítico.

A próxima parte do artigo tratará da questão: “Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?”

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 2)


Dando continuidade à discussão, pode-se retomar os pontos anteriormente mencionados:
- Por que certas drogas são proibidas e outras não?
- O uso inadequado depende da droga, do perfil do usuário ou de ambos?
- Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?

Iniciando pela questão da proibição, caberia recomendar a leitura das obras de Antonio Escohotado eminente pesquisador espanhol da história das drogas e seus usos. Resumindo a ópera, a proibição e a legitimação do uso de drogas específicas envolve aspectos históricos, sociais e culturais bastante abrangentes. Na impossibilidade de esgotar aqui o tema, apresento alguns pontos fundamentais:

a) Os grupos sociais definem comportamentos aceitáveis e inaceitáveis para seus membros. Sabendo-se que as drogas afetam o comportamento humano, cada substância seria considerada apropriada ou imprópria a determinado grupo dependendo dos efeitos provocados. Um exemplo freqüentemente usado é o da Índia antiga: a classe guerreira tolerava o uso do álcool, capaz de soltar as amarras dos comportamentos agressivos, mas não o da cannabis, indutora de um estado contemplativo; já a classe sacerdotal, pelas mesmas razões, tolerava o uso da cannabis, mas não o do álcool.

b) Os grupos sociais definem a si próprios a partir de conjuntos de comportamentos, em oposição a outros grupos dos quais querem se distinguir. Na maioria das confissões evangélicas o uso de drogas é proibido ou fortemente desaconselhado; no Santo Daime o uso da Ayahuasca e da cannabis faz parte dos seus rituais religiosos, mas seu uso recreativo não é recomendado; em determinadas tribos urbanas, o uso de maconha, álcool e outras substâncias é fortemente encorajado, correndo os abstêmios risco de marginalização ou mesmo de exclusão do grupo.

c) Grupos que assumem o poder acabam impondo seu ethos (regras, costumes, práticas) aos dominados, rompendo com o dos seus antecessores. Exemplificando, após o Cristianismo se associar ao poder político e assumir o caráter de religião oficial no Império Romano, o uso de ervas medicinais foi vinculado ao paganismo, sendo condenado como exercício de feitiçaria.

d) O controle do prazer alheio faz parte tanto do processo civilizatório quanto dos processos de dominação. A definição de que prazeres são legítimos (sexual, gastronômico, intelectual, etc.) fará parte da constituição das culturas e subculturas em uma sociedade. Como boa parte do uso das drogas visa a obtenção de prazer (uso recreativo), ou o alívio do desprazer (uso medicinal), os tipos de desprazer que podem ser aliviados, bem como os meios para esse alívio, também passam por esta legitimação. Uma dor provocada por câncer, por exemplo, pode ser aliviada com um analgésico opióide, como a morfina. Para uma dor moral, como a do abandono pelo ser amado, o uso de um opióide é visto como ilegítimo, enquanto o de um antidepressivo pode ser recomendado.

e) Os saberes que legitimam o uso de substâncias variam, conforme as sociedades e culturas. Saberes científicos e prescrições morais se misturam em diferentes doses, conforme países, regiões ou grupos considerados. A própria pesquisa científica sofre influência de valores prevalentes na cultura. Nos EUA, de forte influência puritana, as pesquisas geralmente focalizam o uso de drogas, não fazendo distinção entre uso adequado e uso indevido. Não sendo possível distinguir o que predispõe ao simples uso do que predispõe ao uso indevido, acabam se desenvolvendo políticas como a da Guerra às Drogas, que coloca tudo e todos no mesmo saco. Em alguns países europeus, como a Holanda, entende-se o uso como algo que não há como remover da sociedade; assim sendo, o foco passa a ser a redução dos danos que os usos indevidos possam acarretar para o indivíduo e para a sociedade.

f) Fatores econômicos influenciam os costumes. Da indústria farmacêutica - que assedia os profissionais da medicina, financia políticos e pesquisadores e investe maciçamente em propaganda - ao menino que se envolve com o narcotráfico em busca do dinheiro que permitirá o acesso aos bens de consumo, muito dinheiro circula no comércio de substâncias.

Todos os aspectos mencionados se entrelaçam em uma trama mais complexa do que o simples binômio “faz bem X faz mal”. Tentando simplificar (o que normalmente significa distorcer): se o uso de uma substância vem sendo tolerado ou estimulado historicamente na sociedade em que você vive, traz lucros a uma classe privilegiada, evita desprazeres ou produz prazeres considerados aceitáveis e é legitimado pelos saberes hegemônicos, a lei permitirá seu uso; caso contrário, seu uso será clandestino, acarretando problemas como marginalização, preconceito, violência vinculada ao comércio ilegal - distinta da violência acarretada pelos efeitos diretos da droga, que também ocorre em casos específicos.
As demais questões serão desenvolvidas na parte 3 do artigo.

Obras recomendadas:

ESCOHOTADO, Antonio. Historia elemental de las drogas. Barcelona: Editorial Anagrama.

SELL, Sandro César. Comportamento social e anti-social humano. Florianópolis: Editorial Ijuris, 2006.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 1)


Em 2006, iniciei um longo texto sobre drogas no UnderFloripa, mas não tive tempo para concluir o material. Atendendo aos pedidos de alguns leitores (um por comentário, outros ao vivo), volto a publicar os textos. A parte final deve ser escrita até o fim da primeira semana de outubro. Quanto às três partes já publicadas, manterei o texto original.


Ontem, ao voltar de uma palestra que ministrei no Hospital Infantil Joana de Gusmão – Uso indevido, abuso e dependência de medicamentos, álcool e cigarros -, decidi iniciar uma série de ensaios aqui no Under Floripa sobre drogas. O tema pode parecer meio batido, mas como venho pesquisando cientificamente o assunto, tenho visto que sobre ele ainda predominam visões preconceituosas e distorcidas. Defendo que o Estado não trate as pessoas como imbecis e que cada um possa tomar decisões com base em informações confiáveis, evitando a hipocrisia, o moralismo e – por outro lado – o comportamento inconseqüente. O plano inicial é apresentar inicialmente um quadro geral, depois falar especificamente sobre diferentes tipos de drogas, tanto as ilícitas (maconha, crack, LSD) quanto as lícitas (álcool, tabaco, medicamentos). Em seguida, falarei sobre as formas de tratamento das dependências. Pode acontecer que ao longo do percurso surjam outras idéias, dependendo da interação com os leitores.

O primeiro ponto a desmistificar é o uso quase exclusivo do termo “droga” na mídia para as drogas ilícitas, ou seja, aquelas cujo uso é proibido por lei. Medicamentos também são drogas, assim como o álcool e alguns produtos aparentemente inócuos, como a noz-moscada e o cafezinho. Pela Organização Mundial de Saúde, drogas são substâncias capazes de modificar funções fisiológicas ou comportamentais de um organismo vivo quando nele introduzidas. As drogas psicoativas ou psicotrópicas são aquelas que produzem efeitos no Sistema Nervoso Central, podendo alterar a sensopercepção e o humor. A cafeína, presente nos chás, cafés, refrigerantes, também altera o sono e o humor, cabendo a estas substâncias a denominação de drogas. Um remédio moderador de apetite (anfetamina), além de alterar a fome, modifica também o humor, deixando o usuário agitado e desperto, portanto também é uma droga. O mesmo vale para remédios para dormir ou diminuir a ansiedade (benzodiazepínicos), para retirar sintomas depressivos (antidepressivos) ou para diminuir a dor (analgésicos). Assim sendo, se tomada ao pé da letra, a campanha “Diga não às drogas” significa dizer não também aos remédios, ao chá, aos energéticos, ao café, aos cigarros, etc., o que nos conduz ao segundo ponto a desmistificar: o efeito exclusivamente nocivo das drogas.

Drogas só fazem mal? A partir do que foi exposto acima, pode-se supor que não, mas isso depende do tipo de droga e do uso que se faz dela. Restringindo a discussão às drogas psicoativas, a classificação atual aponta três tipos de drogas:
- as estimulantes, que aumentam a atividade do sistema nervoso central (SNC), proporcionando um maior nível de atividade, exaltação, alegria, agitação, diminuição do sono, etc. (ex.: anfetaminas, antidepressivos, cafeína, cocaína);
- as depressoras, que diminuem a atividade do SNC, promovendo tranqüilidade, sono, alívio da dor, etc. (ex.: álcool, éter, benzodiazepínicos, opióides);
- as perturbadoras, que causam alucinações (cannabis, ayauasca, psilocibina, LSD, ecstasy).

Quanto à motivação para o uso, há uma variedade de fins: recreativo, ligado à busca de prazer e diversão; religioso, ligado ao contato com o mundo espiritual a partir de estados alterados de consciência; terapêutico, quando se busca o alívio de sintomas físicos ou psicológicos; de socialização, quando se busca fazer parte de um grupo que tem na sua cultura o uso como fator de identidade grupal; de desempenho, quando se busca o aumento de performance em atividades profissionais, desportivas, sexuais, etc. Considerando-se os riscos para o usuário e a sociedade, existem usos adequados (tratamento de saúde supervisionado profissionalmente, uso recreativo controlado, uso religioso, etc.) e inadequados (uso indevido, abuso e dependência). Para discutir os usos inadequados, é preciso antes apresentar esclarecimentos sobre a adaptação do nosso organismo às drogas. Diante de certos tipos de substância, o corpo passa a se adaptar e exigir doses maiores para obter o mesmo efeito, fenômeno conhecido como tolerância. Uma vez que o organismo tenha desenvolvido tolerância a uma substância, a dose necessária para obter efeito vai se aproximando da dose que leva à morte (dose letal), criando risco de morte por overdose. A relação entre a dose média para obter efeito e a dose média letal é conhecida como toxicidade, a qual varia de uma substância para outra. Quanto mais tóxica a droga, maior o risco de uma overdose. Após o uso persistente, muitas vezes prolongado, o organismo passa a exigir a presença da substância para funcionar normalmente, apresentando reações desagradáveis na ausência da mesma, tais como irritabilidade, calafrios, cãibras, agitação, ansiedade, sudorese, delírios, alucinações, entre outras, conforme a droga em questão, fenômeno conhecido como “síndrome de abstinência”. Esclarecidos estes conceitos, podemos retornar à questão dos usos inadequados das drogas.

O uso indevido de drogas ocorre quando se criam riscos para si mesmo ou terceiros, como dirigir embriagado ou sob efeito de estimulantes, automedicar-se, operar máquinas pesadas sob efeito de tranqüilizantes, misturar drogas com perigoso efeito de interação (álcool e soníferos, por exemplo), etc. O abuso ocorre quando há consumo de doses elevadas, persistente ou ocasionalmente, com efeitos indesejados ou nocivos, tais como faltar ao trabalho ou perder aulas no dia seguinte a uma bebedeira, envolver-se em brigas e acidentes, entre outros. A dependência ocorre quando o organismo apresenta sintomas de abstinência e/ou se torna impossível para o indivíduo usar a substância de modo controlado. Muitas vezes há tentativas fracassadas de abandonar ou diminuir o consumo. Nem toda droga gera tolerância ou dependência. Assim sendo, primeiro as boas notícias: só fazem mal as drogas utilizadas de modo indevido, abusivo ou que torne dependente. Agora as más notícias: grande parte delas oferecem esse risco.

Ainda ficam inúmeras questões para debate, as quais abordarei nas partes seguintes deste texto e em outros posteriores. Na segunda parte, tratarei das seguintes questões:
- O uso inadequado depende da droga, do perfil do usuário ou de ambos?
- Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?
- Por que certas drogas são proibidas e outras não?

(continua)

Publicado em 19/09/06.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O lobo do homem


Sonhava amiúde que era perseguido por um lobo. Quando estava para ser alcançado, despertava e não mais conseguia conciliar o sono, até que certa noite deram-lhe um sonífero. No dia seguinte, seus ossos jaziam sobre o leito.

sábado, 20 de setembro de 2008

Sexo Olímpico


A sexualidade humana é uma área muito complexa, vasta e cheia de possibilidades. Freud colocou-a como centro da vida psíquica, Foucault discorreu sobre controle e interdições, Masters e Johnson (não confundir com Johnson & Johnson) a colocaram em laboratório, Reich buscou libertá-la e o comércio colocou-a a seu serviço.

Eu, que leio até bula de remédio, acompanhei a escalada do sexo nas revistas desde o direito feminino ao orgasmo (década de 70) até os 1.001 segredos sexuais para enlouquecer seu marido, seu chefe e o entregador de pizza (século XXI). De proibido o sexo passou a obrigatório, em vez de somente permitido. Nesse sentido, exceto por algumas boas matérias e documentários, as revistas, o cinema e a televisão prestam um desserviço à garotada que está querendo iniciar sua vida sexual de modo mais saudável e prazeroso. Os filmes pornográficos esvaziaram o sexo de qualquer conotação afetiva, criando uma imagem do sexo fácil, descartável e hiperbólico, um mundo de pintos descomunais, estocadas mecânicas, orgasmos femininos falsos e religiosos (Oh, my God!!!Oh, my God!!!) e masculinos literalmente “jogados na cara” das parceiras. Já os filmes com cenas sensuais abusaram da estética do xampu (cabelos esvoaçantes) e da pose pro fotógrafo – o sexo restrito aos lindíssimos, claro. A mensagem fica clara: sexo é desempenho. Se você não der um show, poderá na melhor das hipóteses pagar um mico, na pior é preferível nem pensar. Entre a culpa por fazer algo proibido (década de 60) e a ansiedade de desempenho (atual), não vejo um ganho real. Em vez de mais livres, ficamos escravos de outro senhor. Já não basta estar à vontade com alguém de quem você gosta ou que pelo menos lhe atrai, há que se contar com um arsenal de técnicas, habilidades e apetrechos, dos comprimidos aos géis, dos chicotes aos vibradores, do dogging às festas do cabide. Neste mundo de performance, a imagem que me vem é a do sexo olímpico – tanto no sentido de realizado por deuses e semideuses, quanto no da busca de recordes. Impossível não associar à ginástica artística e àquelas tabuletas com notas ao final de cada apresentação. A cena que me vem à mente:

Apresentador: Boa noite, senhores telespectadores! Iniciamos agora a transmissão em rede nacional do sexo olímpico com a participação dos nossos comentaristas, Dra. Marlene Tibiriçá, sexóloga, e Antônio dos Passos, o nosso querido “Bastantão”, garoto de programa e ator pornô. Boa noite, Dra. Marlene!
Dra. Marlene: Boa noite, Gílson! Boa noite, telespectadores!
Apresentador: Boa noite, “Bastantão”!
Bastantão: Boa noite, Gílson! Boa noite telespes... tespelec... pessoal de casa!
Apresentador: Dra. Marlene, quais as suas expectativas para a apresentação da dupla brasileira, Carlinhos e Eduarda?
Dra. Marlene: Gílson, acho que a dupla vai brigar por medalha. O entrosamento melhorou muito depois que o Comitê Olímpico Sexual Brasileiro trouxe o técnico bielorrusso para treinar as nossas duplas. A Eduarda perdia um pouco da desenvoltura quando pensava nos pais assistindo, mas no último mundial já estava bem soltinha. O Carlinhos vem mordido daquele boato sobre dopping com Viagra e vai querer provar que ainda está no auge.
Apresentador: “Bastantão”, a sua análise antes do início das provas.
Bastantão: A dupla brasileira vai ter que tomar cuidado com a dupla da Chechênia e a de Cuba, que estão bem preparadas. Outra coisa é a atenção que o Carlinhos vai precisar pra não “sanfonar” a entrada. A juíza romena é chata com esses detalhes e é importante não ajudar muito com os dedos.
Dra. Marlene: A dupla do Brasil também será favorecida pela ausência da Svetlana, da Rússia, que se contundiu nos treinos ao tentar um “duplo anal esticado”.
Apresentador: Vai começar a prova! Vamos lá, Carlinhos! Vamos lá, Eduarda! Vamos lá Brasil!
Bastantão: a dupla começou bem, com um 69 clássico. Estou achando a Eduarda meio nervosa, mas isso é normal no início da prova. Vamos torcer pra ela ir ganhando confiança e fazer uma boa apresentação.
Dra. Marlene: A Eduarda melhorou muito no oral e não tem mais roçado os dentes, o que já é mérito da nova comissão técnica.
Apresentador: Dra. Marlene, explique para quem está nos assistindo como se calcula a pontuação nesse aparelho.
Dra. Marlene: Bom, Gílson, a dupla parte de uma pontuação inicial a partir da dificuldade do exercício e vai perdendo pontos conforme as falhas na execução. Nesse aparelho há as manobras obrigatórias, como o “xup-xup” e o “gatinho no pires”. Outra coisa que conta é a empolgação da dupla.
Bastantão: O Carlinhos começou com o que no ramo a gente chama de “meia-bomba”, mas a Eduarda caprichou e ele se recuperou a tempo.
Apresentador: “meia-bomba” é quando a ereção não é completa?
Dra. Marlene: Exatamente, Gílson! Agora a dupla brasileira vai passar do 69 a outra posição, o “ violino chinês”.
Bastantão: Eu acho perigoso, eles deveriam tentar primeiro um “papai-e-mamãe” e só depois partirem pro “violino chinês”.
Dra. Marlene: É, Bastantão, mas em uma competição desse nível a pontuação inicial do “papai-e-mamãe” pode não dar medalha. O técnico bielorrusso resolveu arriscar tudo.
Apresentador: Eu estou achando o Carlinhos meio vermelho e ofegante. É impressão minha?
Bastantão: é, dá pra ver que ele está se segurando, olha só a cara dele. Nessas horas é importante o atleta pensar em algo que diminua a empolgação. Eu costumo pensar na Dona Eulália, a síndica do meu prédio, escovando a dentadura.
Dra. Marlene: Parece que a Eduarda está exagerando no pompoarismo e gemendo muito alto, isso está colocando muita pressão no Carlinhos. Ele deu um beliscão nela pra sinalizar. Eles podem ser penalizados por isso, o beliscão só é autorizado no aparelho de sadomasoquismo.
Apresentador: Ih, olha lá... O Carlinhos terminou antes da Eduarda...
Bastantão: É uma pena, a dupla vinha bem. Agora vai ficar fora da disputa do ouro.
Dra. Marlene: Realmente, o sincronismo conta ponto. Vamos ver o quanto os juízes vão descontar.
Apresentador: O Carlinhos está meio cabisbaixo. A Eduarda está chorando... Não chora, Eduarda, o Brasil viu que vocês se empenharam. O que vemos é que precisa de mais investimento no sexo olímpico brasileiro. Desde cedo, nas escolas, é preciso descobrir talentos.
Bastantão: Saíram as notas. A juíza romena descontou o erro no final do aparelho e mais meio ponto por uma escapada de pinto.
Dra. Marlene: Realmente, vendo no replay, o pênis escapa no começo do violino chinês. Eu acho que o Brasil ainda tem chance de lutar pelo bronze se a Eduarda demonstrar todo o seu talento no solo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

À sua porta


A vida bate insistentemente na porta de Lorde Willmore, que manda dizer que não está. A morte, seu mordomo, prontamente leva o recado.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pequenas batalhas domésticas II: no quarto


Uma das primeiras batalhas disputadas neste cenário, caso você não durma sozinho, refere-se ao que é permitido fazer por lá. Com exceção de dormir e ter relações sexuais (caso seja um casal), não há consenso quanto ao que é legítimo fazer em um quarto. Assistir TV, ler, ouvir música, comer, receber visitas, trabalhar, usar computador, fazer ginástica, rezar, meditar, fazer tratamentos de beleza, cuidar da higiene pessoal, trocar de roupa, jogar videogame, a lista de possibilidades é grande. Tudo vai depender do quanto os gostos dos companheiros de quarto são compatíveis em termos de luz, ruído e migalhas. A batalha entre a luz e as trevas não existe só no maniqueísmo e nas histórias em quadrinhos. Há quem só durma na mais absoluta escuridão, como também quem só o faça com luz suficiente para espantar algum bicho-papão foragido da infância, ou ainda perceber a entrada de intrusos. Nos momentos mais sensuais, também há gostos distintos. Entre a escuridão e a luz, vários graus de penumbra estão disponíveis para a negociação. TV ou rádio ligado é um ritual indispensável para que algumas pessoas peguem no sono, já para outras o mais absoluto silêncio é necessário. Isto inclui aquela famosa pergunta: “Fulano, você já está dormindo”? Ora, qual a necessidade de perguntar? Se não estivesse, quem perguntou poderia ir direto ao assunto. Se já estivesse, teria acordado com a pergunta. O verdadeiro significado é: “Fulano, não interessa se você já está dormindo ou não, quero falar com você”.

Quando além do quarto, compartilha-se também a cama, surgem batalhas adicionais. Pode ser o lado preferido para dormir - perto ou longe do banheiro, nas suítes -, a intensidade do ar-condicionado, a posse do lençol ou cobertor, a presença de almofadas ou outros objetos que acumulem poeira (sim, é comum um dos dois ter rinite). Existe a possibilidade de um dos dois ter algum transtorno do sono, roncando, falando ou batendo no(a) companheiro(a) enquanto dorme. Voltando aos rituais e dificuldades que cada um tem para pegar no sono, eu, por exemplo, não consigo dormir abraçado a alguém. Hoje em dia deixo isto bem claro, mas já houve situações em que não consegui dormir por ficar sem-graça em cortar o barato romântico da companheira de leito. Há um episódio de Friends em que o Ross ensina ao Chandler um truque para se livrar do abraço e conseguir dormir, porém eu nunca tentei. De resto, a maior batalha que acontece no quarto é contra os mosquitos. Pior do que eles, só telemarketing. Morram, malditos!

domingo, 14 de setembro de 2008

Dente por dente


O dentista aproxima a broca do paciente e diz: "Oduvaldo, seu canalha, que história é essa de que você anda dormindo com a minha mulher?"

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A comer uma francesinha


Em junho passado, tive oportunidade de conhecer parte da Europa e desfrutar de uma experiência inesquecível: comi uma francesinha. Em um primeiro momento, fiquei apreensivo, pois em terras estrangeiras não é conveniente correr riscos desnecessários. Porém, a busca do prazer falou mais alto. Mandei os escrúpulos às favas e até encontrei argumentos racionais em favor do meu desejo: hoje em dia, com o avanço da medicina, um remedinho resolve tudo no dia seguinte. O local era público, mas estava praticamente deserto. Sei que há quem se constranja com os olhares dos outros nesse tipo de situação, porém está longe de ser o meu caso. Ela estava ali, ao meu alcance, entregue e disponível – sem querer me justificar, poucos resistiriam. Confesso que me surpreendi no princípio com a sua intensidade – fiquei até com medo de não dar conta. No entanto, veterano que sou, aproveitei de minha experiência para ir devagar, acompanhando as reações do meu corpo que pudessem prenunciar um desfecho indesejável. Entreguei-me à experiência, ignorando o mundo ao meu redor: só sentia o calor dela em minhas mãos, seu gosto em meus lábios – já completamente lambuzados - seu aroma me envolvendo. Tudo concluído, senti aquele sono e preguiça característicos desses momentos. Quando dei por mim, já não havia vestígios dela e eu precisava me apressar para pegar o ônibus. Confesso, não senti culpa ou arrependimento. Às vezes, pensava nela e até tentei encontrar no Brasil algum tipo de experiência que se assemelhasse, mas não fui feliz. Quando menos esperava, encontrei aqui uma maneira de revê-la e até uma oportunidade de resgatar tamanho prazer. Ainda voltarei à cidade do Porto.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Pequenas batalhas domésticas I: no banheiro


Se você não for o Mogli ou o Tarzan, certamente já dividiu o seu lar com outros seres humanos e sabe do que estou falando: a vida doméstica é cenário de diversas batalhas. Consideradas isoladamente, são de uma atroz banalidade, mas a repetição diária as torna fonte de agressões e ressentimentos. Algumas delas são travadas no banheiro, outras na cozinha, no quarto, no escritório ou ainda na sala de TV. Neste primeiro momento, tratarei das que são travadas no banheiro.

1) O lado certo do papel higiênico - responda rápido: o papel deve ser colocado no suporte de modo a sair por cima ou por baixo do rolo? Quem respondeu por cima, pensando que ele não deve trancar na parede, acertou; quem respondeu por baixo, defendendo que fica melhor para rasgar, acertou também. Se tivesse lado certo, provavelmente o rolo viria com manual de instruções, então é apenas uma questão de preferência. Bobagem? Não. Os defensores de cada uma das teorias se irritarão profundamente ao encontrarem o rolo em posição diversa de sua favorita, trocarão o posicionamento do rolo – não sem esbravejarem um pouco - e deixarão tudo perfeito para que os defensores da outra teoria façam exatamente o mesmo.

2) O jeito certo de apertar a pasta de dentes no tubo – essa só faz sentido para quem é do tempo em que a Sorriso era Kolynos (é, eu sou antigo). De tão importante, fez com que as empresas de dentifrícios trocassem o material do tubo para um plástico flexível. Nos tempos que já lá vão, os tubos eram de uma espécie de liga metálica. Se você apertasse partindo do fundo em direção ao buraco, o tubo não se rasgaria no meio. Isto, porém, exigia maior habilidade do usuário, ao ponto de ter sido criado um aparelhinho de plástico para facilitar esta tarefa e evitar o desperdício. Por outro lado, se você apertasse em qualquer outro lugar o material começava a trabalhar e cedia, criando furos pelos quais a pasta vazava – sim, na mão do próximo usuário. Tente convencer alguém a apertar da extremidade para o furo. Eu não consegui.

3) O uso da toalha alheia – o que espera um alegre banhista, após ensaboar-se, esfregar-se e enxaguar-se? Uma toalha sequinha, que absorva a água que ficou no seu corpo. Se alguém se apropriou da sua toalha, o que você encontrará no lugar? Há duas possibilidades: uma toalha molhada, que não absorverá mais água, ou então toalha nenhuma. De um modo ou de outro, você terá que chamar alguém que lhe traga uma toalha seca, ou então molhar o chão do banheiro em busca de uma – isso se não tiver que desfilar nu pela casa, dependendo de onde as toalhas são guardadas.

4) A reposição do rolo de papel higiênico – não conheço seus hábitos, leitor, mas eu costumo chegar no banheiro já perto do desfecho da questão, se é que me entende. Dificilmente há tempo ou sangue frio para conferir se há papel suficiente antes de dar início aos trabalhos. Uma vez aliviado, o feliz evacuador vai passar à segunda parte da missão e o que encontra? Aquele tubo central de papelão. Após amaldiçoar o(a) infeliz que acha que os rolos brotam espontaneamente no lugar, a vítima terá que encontrar uma solução criativa para a situação. Não vou mencionar nenhuma porque ficaria escatológico demais, então deixarei ao encargo de sua imaginação.

5) A posição do assento do vaso sanitário – um clássico. No aconchego do seu lar, mulheres ocidentais usam o vaso 100% das vezes sentadas. A única alternativa que conhecem a esta clássica postura é a do lutador de sumô, utilizada em banheiros públicos. Apesar de ser boa para fortalecer as coxas, não é uma posição muito confortável, nem popular. Assim sendo, para as mulheres a posição correta do assento do vaso é abaixada. Os homens utilizam o vaso 90% das vezes para urinar e 10% para defecar (as estatísticas são aproximadas, não confira com o IBGE). Após o menino urinar no assento do vaso algumas vezes, sua mãe lhe ensinará a levantá-lo para este fim. Por questões práticas, deixará o assento no “modo xixi” a maior parte do tempo, baixando-o para o “modo cocô” quando necessário. Ao fazer o seu xixizinho noturno, a mulher não costuma conferir se o assento está no “modo xixi masculino”, uma vez que esta posição de assento não faz parte do seu universo particular. Resultado: cairá sentada dentro do vaso, molhará o bumbum ou o encostará na louça fria, transbordando de ódio e indignação. Inicia-se então um processo de adestramento masculino. Fica a questão: se para o homem o modo padrão do assento é levantado e para a mulher é abaixado, por que cabe exclusivamente ao homem a missão de colocá-lo no “modo cocô” após urinar? Homens, não tentem utilizar este argumento. Eu próprio já estou condicionado e, mesmo morando sozinho, levanto e abaixo o assento todas as vezes.

Haveria ainda outras questões, como por exemplo usar a sua lâmina de barbear para raspar as axilas, deixar a pia molhada após se barbear, usar todo o armário para guardar cremes e maquiagens, mas isso fica para quem quiser comentar a postagem.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O refém


Seqüestrador: Alô. Eu gostaria de avisar que houve um acidente com seu filho. Ele está deitado aqui e ligamos pro número de casa no celular.
Mãe: O Rodrigo está mal? Ai, meu Deus!
Seqüestrador: É, o Rodrigo está sangrando muito. Pode confirmar o nome completo dele?
Pai: Amor, eu estou na extensão, pode desligar que eu continuo a conversa.
Seqüestrador: Não desliga nada, isso é um seqüestro! Nós estamos com o Rodrigo e queremos quinze mil reais em dinheiro, ou ele morre.
(gritos ao fundo).
Pai: Como é que ele está vestido?
Seqüestrador: Nós não estamos de brincadeira, queremos em dinheiro até as duas da tarde, ou ele morre.
Pai: Eu também não estou de brincadeira. Como ele está vestido?
Seqüestrador: Para de enrolar, compadre, que nós apagamos o moleque. Quinze mil, rapidinho, e ninguém se machuca. Quero ouvir a madame também, ninguém larga o telefone.
Mãe: Pelo amor de Deus, não faça nada com ele! Deixa ele falar com a gente!
Seqüestrador: Deixo porra nenhuma! Isso é coisa séria, madame. Vamos logo, que a vida dele está na mão da gente aqui!
Segurança: Já está identificada a chamada, Doutor. Penitenciária Alfredo Tranjan - Bangu II. Um dos nossos homens lá dentro já reconheceu o bandido.
Pai: Ótimo! Ouviu, seu filho da puta? Você não sabe com quem mexeu! Dessa noite, você não passa...
Seqüestrador: Pelo amor de Deus, Doutor, faz nada comigo não... Eu tenho família!

sábado, 6 de setembro de 2008

Pecados contemporâneos – parte III de III


Apontados todos os tratamentos salvadores contra a gordura, a feiúra e a velhice, se a avareza não impediu de pagar por eles e você permanece pecador, é sinal de que também comete o pecado mais grave: a pobreza! Tirando o Reino dos Céus e as esmolas oficiais que sustentam a demagogia dos governantes, pobre não tem vez em lugar nenhum. Como já disse meu amigo e colega blogueiro, Professor Sandro Sell, a respeito do dinheiro: “(...) ele serve para pôr os outros a seu dispor (mesmo quando eles não são seus amigos, não lhe amam, nem acham você o cara). Dinheiro é pra comprar pessoas, seja a criancinha chinesa que neste momento está colando meu futuro tênis da Nike, seja aquela mocinha simpática e acenante de minissaia na esquina. Dinheiro compra a compreensão do psicólogo, a astúcia do advogado, os dedos do ginecologista e o pinto da granja.

Embora este fato social possa provocar ira, se você for rico, jovem, belo e esbelto, pode se envaidecer: despertará inveja, luxúria e cobiça. Eu ia até escrever mais a respeito, mas bateu preguiça. Assim sendo, este pecador se despede. Até a próxima postagem!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pecados contemporâneos – parte II de III


Em tempos em que a vaidade e a luxúria não são pecados levados a sério, a feiúra ficou mais pecaminosa. Existe uma polêmica entre os biólogos e os antropólogos acerca da universalidade dos padrões de beleza. Os primeiros acreditam que indicadores de saúde, fertilidade e força, como traços simétricos, ancas largas em relação à cintura (em mulheres) e porte avantajado (em homens), respectivamente, sejam considerados critérios universais de beleza. Já os segundos enfatizam as especificidades destes critérios em cada cultura, salientando que em povos que enfrentam escassez de alimentos, por exemplo, gordura é formosura. Além disso, afirmam que os padrões de beleza mudam ao longo do tempo: ter pele clara na Idade Moderna significava não ter que trabalhar ao sol, então ser alvo era ser belo; já na Idade Contemporânea, ser claro significa trabalhar confinado e não ter tempo de ir à praia, então bonito é ser bronzeado. Todavia, como dificilmente um de nós tem oportunidade de mudar de cultura e muito menos de época, esta relatividade não nos serve de consolo. Os estudos em Psicologia Social já demonstraram há um bom tempo que pessoas percebidas como belas são mais bem tratadas pela maioria, independente de se tratar de alguma tentativa real de sedução. Ser considerado feio sempre foi ruim, mas costumava ser uma maldição restrita a uma parcela menor da população. Hoje em dia, atores e atrizes feios estão perdendo até os papéis secundários e os de vilões; daqui a pouco, só os veremos no teatro ou no museu de cera. Mesmo as celebridades melhoradas pelo photoshop são perseguidas pelos paparazzi, sempre em busca de flagrantes comprometedores. Isso se dá porque a indústria da beleza descobriu uma forma de vender mais: fomentar um padrão de beleza inatingível em canais de formação de opinião pública. Assim sendo, é preciso que nos sintamos cada vez mais feios para consumirmos produtos e serviços de embelezamento. Para nos salvarmos do pecado da feiúra, aí estão mil e uma poções mágicas, injeções e cirurgias, somadas às já descritas medidas contra o pecado da gordura. Mesmo que sigamos estes rituais, o tempo é implacável e nos atinge com o pecado da velhice.

Ser velho já foi um bom negócio nos tempos em que a expectativa de vida das pessoas era menor e poucos atingiam a velhice. Em sociedades de tradição oral, os velhos representavam a memória cultural, a experiência de vida, a sabedoria. Não raro havia conselhos de anciões, responsáveis pelas decisões mais importantes e pelo julgamento das ações dos mais jovens. Em um mundo mais cheio de vacinas, remédios e dietas, a pirâmide demográfica se modificou e há um número proporcionalmente maior de velhos nas sociedades economicamente desenvolvidas. Pelas dificuldades em que a população economicamente ativa sustente aqueles que já foram pilares da sociedade, os governos com menos vergonha na cara empurram a idade de aposentadoria para frente. Nada contra o trabalho de idosos, desde que opcional. Pelo menos teoricamente, entende-se que os que já contribuíram para a previdência social estariam recebendo o que outrora depositaram. Como este dinheiro já havia sido desviado, hoje em dia quem os sustenta são os que recolhem o imposto no presente, criando um círculo vicioso. Assim sendo, ser velho é considerado pecado por dois motivos: você consome sem produzir (hoje) e lembra aos jovens que a morte está rondando a todos. É claro que não existe idade para morrer, mas geralmente supomos que teremos o ciclo de vida habitual e que a morte só nos encontrará no fim da novela. Na verdade, mortes parciais (como a das nossas células epiteliais) ocorrem todo o tempo e o envelhecimento acarreta uma série de perdas. Contra o pecado da velhice estão os anti-oxidantes, os cremes, as tinturas, as pílulas mágicas (azuis ou de outras cores), as dietas, as cirurgias plásticas e os comportamentos ridículos, como fingir-se de jovem. Nada contra a velhice com vitalidade, desde que a dignidade seja mantida.

(continua)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pecados contemporâneos – parte I de III


O termo pecado, do latim peccátu, tem nos dicionários os sentidos de transgressão de regra, desvio moral, vício e culpa. Em uma perspectiva teológica, representaria estar em desacordo com a vontade divina. Nos tempos medievais, além de garantirem passaporte para o inferno, os pecados tornavam o sujeito execrável perante a opinião pública e, dependendo do caso, candidato a virar churrasco. Seu número oficial e grau de importância, na perspectiva religiosa, variam conforme a época. O teólogo grego Evágrio do Ponto (séc. IV) citava oito crimes e paixões humanas, em grau crescente de gravidade: gula, avareza, luxúria, ira, melancolia, acedia (acídia ou preguiça espiritual), vaidade e orgulho. Em suma, erro era o que conduzia ao egocentrismo. No século VI, o Papa Gregório Magno separou os pecados em mortais e veniais (que enviariam ao recém-inventado purgatório), modificou a lista dos primeiros, reduziu seu número para sete e propôs outra hierarquia: orgulho, inveja, ira, melancolia, avareza, gula e luxúria. Pecado, nesse caso seria aquilo que ofende ao amor. Já no século XII, São Tomás de Aquino modificou a lista e propôs sua própria hierarquia, denominando-os vícios capitais: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. A Igreja, no séc. XVII, criou a lista de pecados capitais até hoje vigentes, inspiradores de filmes (Seven) e coleções literárias: vaidade, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Hoje em dia, como o Papa é um ex-inquisidor – a “Congregação para a Doutrina da Fé” está para o “Santo Ofício” assim como a ABIN está para o SNI – a lista de pecados aumentou, associando-se à ecologia e ao politicamente correto. Há inclusive pecados no trânsito, como forçar ultrapassagem. Não é a estes pecados recém-inventados pelo Sr. Ratzinger e seus assessores a que me refiro neste ensaio. Longe dos tempos medievais e da soberania da Igreja Católica, falo daquilo que hoje em dia torna o ser humano execrável aos olhos de seus pares: gordura, feiúra, velhice e pobreza.

O pecado da gordura, herdeiro da gula e da preguiça, não está subentendido no pecado da feiúra, mesmo que a ele possa estar associado. Não são apenas os cânones estéticos contemporâneos que condenam a gordura, mas as Ciências da Saúde e a indústria e comércio que delas se beneficiam. Engordar depende de vários fatores: a) uma constituição que favoreça o acúmulo de gordura; b) uma dieta rica em calorias; c) um baixo gasto energético pelo organismo. A interação entre constituição e o tipo/quantidade de comida consumida faz com que o mesmo indivíduo que nos EUA seria um obeso mórbido, na Etiópia seja um sobrevivente saudável: ele acumula tudo o que pode e não morre de fome. Vale também o inverso, representado pelo popular “magro de ruim”, que apesar da enorme quantidade de calorias de sua ingesta, não acumula gordura. Já o gasto calórico vai depender do metabolismo basal e do nível de atividade física. Com a idade, o metabolismo vai ficando mais lento e a carga de exercícios para que se obtenha o mesmo gasto energético precisa se multiplicar (associação com o pecado da velhice). Isto posto, fica o recado: tem gente que não nasce pra ser magra, mesmo que lute incessantemente. Caso o seu biótipo não corresponda ao que manda o figurino, o máximo que você vai alcançar é ser menos fofinho(a). O que a indústria e o comércio oferecem para a sua salvação? Chás, comprimidos, spas, academias, alimentos light (mais caros), drenagem linfática, psicoterapia, lipoaspiração, cirurgia bariátrica... esqueci alguma coisa? Se em nome da saúde você ainda não se converteu, pense na estética: o pecado da feiúra.

(continua)

 
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