quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 1)


Em 2006, iniciei um longo texto sobre drogas no UnderFloripa, mas não tive tempo para concluir o material. Atendendo aos pedidos de alguns leitores (um por comentário, outros ao vivo), volto a publicar os textos. A parte final deve ser escrita até o fim da primeira semana de outubro. Quanto às três partes já publicadas, manterei o texto original.


Ontem, ao voltar de uma palestra que ministrei no Hospital Infantil Joana de Gusmão – Uso indevido, abuso e dependência de medicamentos, álcool e cigarros -, decidi iniciar uma série de ensaios aqui no Under Floripa sobre drogas. O tema pode parecer meio batido, mas como venho pesquisando cientificamente o assunto, tenho visto que sobre ele ainda predominam visões preconceituosas e distorcidas. Defendo que o Estado não trate as pessoas como imbecis e que cada um possa tomar decisões com base em informações confiáveis, evitando a hipocrisia, o moralismo e – por outro lado – o comportamento inconseqüente. O plano inicial é apresentar inicialmente um quadro geral, depois falar especificamente sobre diferentes tipos de drogas, tanto as ilícitas (maconha, crack, LSD) quanto as lícitas (álcool, tabaco, medicamentos). Em seguida, falarei sobre as formas de tratamento das dependências. Pode acontecer que ao longo do percurso surjam outras idéias, dependendo da interação com os leitores.

O primeiro ponto a desmistificar é o uso quase exclusivo do termo “droga” na mídia para as drogas ilícitas, ou seja, aquelas cujo uso é proibido por lei. Medicamentos também são drogas, assim como o álcool e alguns produtos aparentemente inócuos, como a noz-moscada e o cafezinho. Pela Organização Mundial de Saúde, drogas são substâncias capazes de modificar funções fisiológicas ou comportamentais de um organismo vivo quando nele introduzidas. As drogas psicoativas ou psicotrópicas são aquelas que produzem efeitos no Sistema Nervoso Central, podendo alterar a sensopercepção e o humor. A cafeína, presente nos chás, cafés, refrigerantes, também altera o sono e o humor, cabendo a estas substâncias a denominação de drogas. Um remédio moderador de apetite (anfetamina), além de alterar a fome, modifica também o humor, deixando o usuário agitado e desperto, portanto também é uma droga. O mesmo vale para remédios para dormir ou diminuir a ansiedade (benzodiazepínicos), para retirar sintomas depressivos (antidepressivos) ou para diminuir a dor (analgésicos). Assim sendo, se tomada ao pé da letra, a campanha “Diga não às drogas” significa dizer não também aos remédios, ao chá, aos energéticos, ao café, aos cigarros, etc., o que nos conduz ao segundo ponto a desmistificar: o efeito exclusivamente nocivo das drogas.

Drogas só fazem mal? A partir do que foi exposto acima, pode-se supor que não, mas isso depende do tipo de droga e do uso que se faz dela. Restringindo a discussão às drogas psicoativas, a classificação atual aponta três tipos de drogas:
- as estimulantes, que aumentam a atividade do sistema nervoso central (SNC), proporcionando um maior nível de atividade, exaltação, alegria, agitação, diminuição do sono, etc. (ex.: anfetaminas, antidepressivos, cafeína, cocaína);
- as depressoras, que diminuem a atividade do SNC, promovendo tranqüilidade, sono, alívio da dor, etc. (ex.: álcool, éter, benzodiazepínicos, opióides);
- as perturbadoras, que causam alucinações (cannabis, ayauasca, psilocibina, LSD, ecstasy).

Quanto à motivação para o uso, há uma variedade de fins: recreativo, ligado à busca de prazer e diversão; religioso, ligado ao contato com o mundo espiritual a partir de estados alterados de consciência; terapêutico, quando se busca o alívio de sintomas físicos ou psicológicos; de socialização, quando se busca fazer parte de um grupo que tem na sua cultura o uso como fator de identidade grupal; de desempenho, quando se busca o aumento de performance em atividades profissionais, desportivas, sexuais, etc. Considerando-se os riscos para o usuário e a sociedade, existem usos adequados (tratamento de saúde supervisionado profissionalmente, uso recreativo controlado, uso religioso, etc.) e inadequados (uso indevido, abuso e dependência). Para discutir os usos inadequados, é preciso antes apresentar esclarecimentos sobre a adaptação do nosso organismo às drogas. Diante de certos tipos de substância, o corpo passa a se adaptar e exigir doses maiores para obter o mesmo efeito, fenômeno conhecido como tolerância. Uma vez que o organismo tenha desenvolvido tolerância a uma substância, a dose necessária para obter efeito vai se aproximando da dose que leva à morte (dose letal), criando risco de morte por overdose. A relação entre a dose média para obter efeito e a dose média letal é conhecida como toxicidade, a qual varia de uma substância para outra. Quanto mais tóxica a droga, maior o risco de uma overdose. Após o uso persistente, muitas vezes prolongado, o organismo passa a exigir a presença da substância para funcionar normalmente, apresentando reações desagradáveis na ausência da mesma, tais como irritabilidade, calafrios, cãibras, agitação, ansiedade, sudorese, delírios, alucinações, entre outras, conforme a droga em questão, fenômeno conhecido como “síndrome de abstinência”. Esclarecidos estes conceitos, podemos retornar à questão dos usos inadequados das drogas.

O uso indevido de drogas ocorre quando se criam riscos para si mesmo ou terceiros, como dirigir embriagado ou sob efeito de estimulantes, automedicar-se, operar máquinas pesadas sob efeito de tranqüilizantes, misturar drogas com perigoso efeito de interação (álcool e soníferos, por exemplo), etc. O abuso ocorre quando há consumo de doses elevadas, persistente ou ocasionalmente, com efeitos indesejados ou nocivos, tais como faltar ao trabalho ou perder aulas no dia seguinte a uma bebedeira, envolver-se em brigas e acidentes, entre outros. A dependência ocorre quando o organismo apresenta sintomas de abstinência e/ou se torna impossível para o indivíduo usar a substância de modo controlado. Muitas vezes há tentativas fracassadas de abandonar ou diminuir o consumo. Nem toda droga gera tolerância ou dependência. Assim sendo, primeiro as boas notícias: só fazem mal as drogas utilizadas de modo indevido, abusivo ou que torne dependente. Agora as más notícias: grande parte delas oferecem esse risco.

Ainda ficam inúmeras questões para debate, as quais abordarei nas partes seguintes deste texto e em outros posteriores. Na segunda parte, tratarei das seguintes questões:
- O uso inadequado depende da droga, do perfil do usuário ou de ambos?
- Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?
- Por que certas drogas são proibidas e outras não?

(continua)

Publicado em 19/09/06.

2 comentários:

mvandresen disse...

Oi Paulo, muito legal o blog.
Bjs
Monique

Paulo César Nascimento disse...

Obrigado, Monique! Bjs

 
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