sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 2)


Dando continuidade à discussão, pode-se retomar os pontos anteriormente mencionados:
- Por que certas drogas são proibidas e outras não?
- O uso inadequado depende da droga, do perfil do usuário ou de ambos?
- Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?

Iniciando pela questão da proibição, caberia recomendar a leitura das obras de Antonio Escohotado eminente pesquisador espanhol da história das drogas e seus usos. Resumindo a ópera, a proibição e a legitimação do uso de drogas específicas envolve aspectos históricos, sociais e culturais bastante abrangentes. Na impossibilidade de esgotar aqui o tema, apresento alguns pontos fundamentais:

a) Os grupos sociais definem comportamentos aceitáveis e inaceitáveis para seus membros. Sabendo-se que as drogas afetam o comportamento humano, cada substância seria considerada apropriada ou imprópria a determinado grupo dependendo dos efeitos provocados. Um exemplo freqüentemente usado é o da Índia antiga: a classe guerreira tolerava o uso do álcool, capaz de soltar as amarras dos comportamentos agressivos, mas não o da cannabis, indutora de um estado contemplativo; já a classe sacerdotal, pelas mesmas razões, tolerava o uso da cannabis, mas não o do álcool.

b) Os grupos sociais definem a si próprios a partir de conjuntos de comportamentos, em oposição a outros grupos dos quais querem se distinguir. Na maioria das confissões evangélicas o uso de drogas é proibido ou fortemente desaconselhado; no Santo Daime o uso da Ayahuasca e da cannabis faz parte dos seus rituais religiosos, mas seu uso recreativo não é recomendado; em determinadas tribos urbanas, o uso de maconha, álcool e outras substâncias é fortemente encorajado, correndo os abstêmios risco de marginalização ou mesmo de exclusão do grupo.

c) Grupos que assumem o poder acabam impondo seu ethos (regras, costumes, práticas) aos dominados, rompendo com o dos seus antecessores. Exemplificando, após o Cristianismo se associar ao poder político e assumir o caráter de religião oficial no Império Romano, o uso de ervas medicinais foi vinculado ao paganismo, sendo condenado como exercício de feitiçaria.

d) O controle do prazer alheio faz parte tanto do processo civilizatório quanto dos processos de dominação. A definição de que prazeres são legítimos (sexual, gastronômico, intelectual, etc.) fará parte da constituição das culturas e subculturas em uma sociedade. Como boa parte do uso das drogas visa a obtenção de prazer (uso recreativo), ou o alívio do desprazer (uso medicinal), os tipos de desprazer que podem ser aliviados, bem como os meios para esse alívio, também passam por esta legitimação. Uma dor provocada por câncer, por exemplo, pode ser aliviada com um analgésico opióide, como a morfina. Para uma dor moral, como a do abandono pelo ser amado, o uso de um opióide é visto como ilegítimo, enquanto o de um antidepressivo pode ser recomendado.

e) Os saberes que legitimam o uso de substâncias variam, conforme as sociedades e culturas. Saberes científicos e prescrições morais se misturam em diferentes doses, conforme países, regiões ou grupos considerados. A própria pesquisa científica sofre influência de valores prevalentes na cultura. Nos EUA, de forte influência puritana, as pesquisas geralmente focalizam o uso de drogas, não fazendo distinção entre uso adequado e uso indevido. Não sendo possível distinguir o que predispõe ao simples uso do que predispõe ao uso indevido, acabam se desenvolvendo políticas como a da Guerra às Drogas, que coloca tudo e todos no mesmo saco. Em alguns países europeus, como a Holanda, entende-se o uso como algo que não há como remover da sociedade; assim sendo, o foco passa a ser a redução dos danos que os usos indevidos possam acarretar para o indivíduo e para a sociedade.

f) Fatores econômicos influenciam os costumes. Da indústria farmacêutica - que assedia os profissionais da medicina, financia políticos e pesquisadores e investe maciçamente em propaganda - ao menino que se envolve com o narcotráfico em busca do dinheiro que permitirá o acesso aos bens de consumo, muito dinheiro circula no comércio de substâncias.

Todos os aspectos mencionados se entrelaçam em uma trama mais complexa do que o simples binômio “faz bem X faz mal”. Tentando simplificar (o que normalmente significa distorcer): se o uso de uma substância vem sendo tolerado ou estimulado historicamente na sociedade em que você vive, traz lucros a uma classe privilegiada, evita desprazeres ou produz prazeres considerados aceitáveis e é legitimado pelos saberes hegemônicos, a lei permitirá seu uso; caso contrário, seu uso será clandestino, acarretando problemas como marginalização, preconceito, violência vinculada ao comércio ilegal - distinta da violência acarretada pelos efeitos diretos da droga, que também ocorre em casos específicos.
As demais questões serão desenvolvidas na parte 3 do artigo.

Obras recomendadas:

ESCOHOTADO, Antonio. Historia elemental de las drogas. Barcelona: Editorial Anagrama.

SELL, Sandro César. Comportamento social e anti-social humano. Florianópolis: Editorial Ijuris, 2006.

2 comentários:

FlaM disse...

Paulinho, esse teu blog é uma droga¡
foi vc quem disse:
"As drogas psicoativas ou psicotrópicas são aquelas que produzem efeitos no Sistema Nervoso Central, podendo alterar a sensopercepção e o humor."
Donde se conclui que, aliás, blog e blogar é uma droga! (entre outra cocitas boas da vida)
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Tem mais?
Foi bom prá vc?
bj, f.

Paulo César Nascimento disse...

Tem mais duas, só estou descansando entre elas. ;-)
Bj

 
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