domingo, 28 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 3)


A discussão acerca da responsabilidade pelo uso indevido, abuso e dependência de drogas se dá em uma faixa entre duas concepções extremistas: por um lado, a da droga como agente “demoníaco” e onipotente, capaz de subverter qualquer mente, sobretudo as mais fracas; por outro, a do sujeito como soberano completo dos seus atos, só cedendo ao uso indevido os indivíduos com “personalidade junkie”, dependentes por natureza ou necessidade de atenção. Ambas as perspectivas simplificam em demasia um fenômeno que é de fato complexo. A própria questão de quanto somos senhores de nossa vontade, envolvendo conceitos como liberdade, livre-arbítrio, determinismo psíquico e outros correlatos, ainda é fonte de polêmica na Psicologia. Dependendo da corrente de pensamento adotada, fatores biológicos (mecanismos bioquímicos), intrapsíquicos (inconscientes) ou psicossociais (pressões grupais) são apontados como fortemente influenciadores, quando não determinantes, no uso prejudicial de drogas. O Modelo Moral do uso indevido, abuso e dependência atribui-os a uma “fraqueza moral” do indivíduo, sendo exemplo de responsabilização extrema do usuário. O modelo empregado pelos Narcóticos Anônimos, que assume a impotência do indivíduo perante a droga, exemplifica o oposto. Já o Modelo Médico assume que o uso indevido, o abuso e a dependência são multideterminados; no entanto, apenas recentemente passou a adotar a concepção de transtorno e não de doença para o fenômeno, uma vez que o último dá a entender um processo de natureza primordialmente biológica.

O uso de drogas está fortemente vinculado a experiências de busca de prazer / alívio de desprazer. O prazer buscado pode ser o da liberação dos afetos ou o da facilitação da sociabilidade, como no caso do álcool, ou o da sensação de aumento de poder e energia, como no da cocaína. Pode ainda ser o prazer da exploração das “portas da percepção”, obtido através de alucinógenos, ou o do emagrecimento facilitado pelos anorexígenos. Por outro lado, pode haver o alívio escapista de realidades desagradáveis, como no caso dos inalantes (thinner, cola de sapateiro), do crack e da merla, mais freqüentemente usados por excluídos da sociedade de consumo e/ou da cidadania. Também pode haver o alívio da falta de sono, de sintomas depressivos, maníacos ou ansiosos, entre outros, proporcionados por medicamentos. Estas experiências se vinculam, portanto, a necessidades, hábitos e costumes.

Uma necessidade pode ser entendida como um estado de carência de um organismo. Podem-se dividir as necessidades em diferentes categorias, tais como as apontadas por Maslow: biológicas, de segurança, de amor e pertinência, de estima, de auto-realização. O emprego de ansiolíticos para obter sono adequado se enquadraria nas necessidades biológicas. O uso de cafeína para um vigilante se manter desperto durante o turno de trabalho poderia ser relacionado a necessidades de segurança. Como exemplo de uso de drogas para satisfazer necessidades de pertinência, pode-se mencionar o uso de maconha para pertencer a um grupo social, o que também poderia estar voltado à necessidade de estima (valorizar-se em função do status alcançado). O emprego do Peiote no Nagualismo pode exemplificar o uso de drogas em busca de auto-realização (desenvolvimento do potencial espiritual, no caso).

Um hábito é um comportamento individual repetido até se tornar automático. Geralmente os hábitos são fortalecidos através desta repetição e das conseqüências obtidas pelos respectivos comportamentos. Quem já tentou iniciar a prática de exercícios regulares, modificar a dieta, dormir mais cedo (ou mais tarde), assistir menos TV, jogar menos no computador, verificou na prática que hábitos resistem a se modificar ou desaparecer, em parte por seu caráter automático, em outra por sua relação com as necessidades que satisfazem.

Costumes são práticas comuns, compartilhadas por um determinado grupo social e observadas ao longo do tempo. Um grupo de colegas de trabalho pode costumar jogar futebol e beber cerveja aos sábados, ou ainda ir ao cinema aos domingos; casais de amigos podem se encontrar para jogar cartas ou promover jantares; astros pop podem freqüentar festas uns dos outros, possivelmente fartas em álcool e cocaína. Quem freqüenta determinado grupo está constantemente exposto – quando não submetido – aos costumes particulares do mesmo.

A partir do que foi exposto, entende-se que o estabelecimento de padrões de uso de substências psicoativas se dá a partir da interação entre fatores individuais, sociais e as especificidades destas drogas. Quanto aos fatores individuais, pode haver uma maior vulnerabilidade vinculada a particularidades do metabolismo, o desenvolvimento de hábitos ou ainda um conjunto de necessidades específicas que são satisfeitas pelo efeito primário da droga. Por exemplo, se um jovem sente ansiedade em situações de convívio com pessoas estranhas, talvez tente reduzi-la através da ingestão de substâncias como o álcool, a maconha ou um ansiolítico (tranqüilizante). Caso seja impossibilitado de consumir a substância devido a um tratamento, precisará desenvolver outras estratégias de enfrentamento, uma vez que a necessidade de tranqüilização ainda persiste. Se as novas estratégias forem ineficazes, o risco de recaída é grande.

No que se refere aos aspectos sociais, os grupos de referência (família, amigos, igreja, tribo) influenciam os padrões de uso a partir de seus costumes e valores. Pesam aqui as identificações do sujeito: se um jovem se identifica com os valores do grupo de amigos e não com os de seus pais, tomará os primeiros como modelos. Em situações em que a comunicação e/ou as relações afetivas com os pais são insatisfatórias, dificilmente estes se tornarão modelos de conduta para os filhos, independente do esforço que façam para “discipliná-los” ou moldá-los à sua imagem e semelhança. Este é um dos fatores que levam à recaída os indivíduos internados à revelia, quando retornam ao convívio social. Por este mesmo motivo, tratamentos que envolvem a modificação da identidade e dos grupos de referência - como os que envolvem a conversão e integração a um grupo religioso institucionalizado, por exemplo – tendem a produzir resultados mais duradouros, se de fato a mudança de identidade é buscada pelo próprio sujeito.

Quanto às especificidades da droga, o estabelecimento de padrões de uso prejudiciais vincula-se principalmente à sua capacidade de promover tolerância (necessidade de doses maiores para obter o mesmo efeito) e sintomas de abstinência. O crack e a heroína provocam síndrome de abstinência após um período relativamente curto de uso repetido. Já o álcool é de ação insidiosa e pode conduzir a uma evolução lenta do uso abusivo à dependência. O êxtase (ecstasy, em inglês), por outro lado, não tem sido relatado na literatura como promotor de dependência, embora seu uso indevido possa produzir morte. Os benzodiazepínicos que a vovó usa para conseguir dormir (e deixar os outros dormirem também), além de causarem dependência rapidamente, podem promover danos cognitivos – especialmente à memória – se empregados por mais de três meses consecutivos, o que é um perigo nesses tempos em que o diagnóstico equivocado de Mal de Alzheimer não é nada incomum. Como ao mundo produtivo capitalista interessa que a vovó improdutiva deixe o papai e a mamãe trabalhadores dormirem, que o neto não seja um maconheiro vagabundo improdutivo, que a indústria farmacêutica lucre e pague impostos, é claro que esta última informação é bem menos divulgada na mídia que as anteriores. Por outro lado, como o crime organizado também é bastante lucrativo para os corruptores e corruptos, alardear os perigos das drogas ilícitas também as torna atraentes à juventude sedenta de emoções e aventuras. Note-se aqui não uma apologia ao uso de drogas, mas ao contrário, um incentivo ao pensamento crítico.

A próxima parte do artigo tratará da questão: “Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?”

3 comentários:

FlaM disse...

E, juntando esse assunto daqui com o que comentei no anterior, vc viu isso daqui?:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u446609.shtml
A propósito de "prazer", parece que o noivo da Sandi, preferiu blogar na noite de núpcias e até a Juliana Paes não resistiu uma blogada rapidinha durante a lua de mel...
É, esse negócio é uma droga...
bj, F.

Paulo César Nascimento disse...

Eu acho que mais do que postar, a fama é uma droga. O pessoal fica escravo da imagem. Mas, cá pra nós, lua de mel hoje em dia já não é mais o que era no passado... Bjs

FlaM disse...

Não? ih! Tá maus em Paulinho?

 
design by suckmylolly.com