terça-feira, 30 de setembro de 2008

Drogas: mitos, fatos e polêmicas (parte 4)


Para concluir este texto, cabe tentar responder a pergunta: “Como saber se corro risco de me tornar um abusador ou dependente (ou se já me tornei)?” Infelizmente, esta resposta não existe de modo pronto, definitivo e confiável por limitações metodológicas e éticas na pesquisa sobre dependência química. Em primeiro ligar, a pesquisa experimental sobre drogas se restringe a animais – evidentemente, não se podem separar grupos de adolescentes e ministrar diferentes doses continuadamente para descobrir o quanto da droga é suficiente para viciar e quanto tempo isto leva. Embora a pesquisa com animais possa gerar algumas hipóteses interessantes para estudar drogadição em humanos, há processos sociais e cognitivos que são típicos de nossa espécie. As pesquisas em seres humanos acabam sendo do tipo correlacional ou descritivo, que não permitem estabelecer relações do tipo causa-efeito. Como enquetes com a população em geral custam muito caro, países como o nosso raramente as realizam, pois o dinheiro do contribuinte costuma fazer turismo em paraísos fiscais. Os estudos provenientes dos EUA, por outro lado, costumam investigar fatores associados ao uso, mais que ao uso indevido, seguindo a lógica de tolerância zero: quem não se torna usuário, nunca se tornará dependente. Há algumas drogas, porém, cujo uso social não transforma a maior parte dos usuários em abusadores ou dependentes. No entanto, os que pertencem à minoria que acaba tendo problemas com abuso ou dependência causam sérios prejuízos a si mesmos, aos familiares, amigos e à sociedade em um sentido mais amplo. Isso faz com que os responsáveis pela saúde e segurança públicas desenvolvam políticas que desestimulem ao uso, uma vez que o conhecimento antecipado de quem usará indevidamente é difícil. Em contrapartida, álcool e cigarros já ocupam um espaço importante na arrecadação de recursos para o mesmo governo. Como impostos são tributos desvinculados, o governo não é obrigado a gastar o que arrecada com drogas na saúde e na segurança públicas. Você imagina que ele vá abrir mão desse dinheiro? Eu também não. Como não é possível pesquisar a população em geral, boa parte dos estudos sobre drogadição são realizados com dependentes em recuperação, o que constitui uma amostra viciada (desculpem pelo trocadilho involuntário) do ponto de vista estatístico.

Antes de falar sobre fatores de risco e de proteção, quero salientar outro aspecto metodológico: probabilidades são tendências, não garantias. Contrariando todas as probabilidades, há quem ganhe nas loterias, quem engravide tomando anticoncepcionais e etc. O cálculo das probabilidades é feito a partir da freqüência com que os casos são encontrados, então se emprega o modelo estatístico: se fosse um sorteio, qual seria a chance de ocorrência deste evento? Como todo modelo é uma aproximação e a vida geralmente não é sorteio, cada caso terá seu desfecho particular por variáveis específicas envolvidas. O Ministério do Bom-senso adverte: estatísticas devem ser usadas com moderação. Em caso de dúvidas ou efeitos adversos, consulte um profissional qualificado.

Exceto por medicamentos, o uso da maioria das drogas costuma iniciar na adolescência. Como fatores que aumentam o risco de uso têm-se: a) presença de usuário na família (pais, irmãos); b) separação ou risco de separação dos pais; c) fatores na dinâmica familiar que tornem o uso abusivo um elemento necessário para manter a homeostase; d) estilos de criação excessivamente autoritários ou permissivos; e) o grupo de amigos fazer uso de substância; f) disponibilidade da droga. Como fatores de proteção contra o uso, podem-se salientar: a) características individuais que favoreçam o enfrentamento de problemas (auto-eficácia, autoconfiança, habilidades sociais, etc.); b) suporte familiar; c) ter objetivos de vida definidos; d) grupos de referência compostos por não usuários (família, amigos, professores, igreja, etc.); e) participação em uma confissão religiosa.

Supondo que estejamos falando de um usuário, quais seriam os fatores de risco para o desenvolvimento de abuso ou dependência? Nestes casos a literatura científica é mais escassa, mas fornece alguns indícios que poderão lhe proporcionar proteção contra estas condições. Ser usuário de múltiplas substâncias (cigarros, maconha, álcool, LSD...) sugere um risco aumentado de tornar-se abusador ou dependente. Isso não quer dizer, evidentemente, que você fatalmente o será. A teoria das drogas leves como ponte para drogas pesadas é questionável do ponto de vista metodológico. Quase sempre quem utiliza crack ou cocaína passou antes pelo álcool, cigarro e maconha, mas a maioria dos fumantes, usuários de álcool e de maconha não é automaticamente puxada para as mais pesadas. Funciona como a seguinte metáfora: para ir do Rio Grande do Sul a São Paulo, você passa por Santa Catarina e Paraná. Nem por isso se diz aos gaúchos: “Cuidado! Se você for a Santa Catarina, vai acabar em São Paulo”! No entanto, ter perfil de experimentador sugere que você tem características hedonistas (busca o prazer) e de rebeldia, então o uso pode ser uma forma de contestação, de afirmar aos pais e à sociedade o seu não-conformismo. Provavelmente você se cerca de pessoas com o mesmo perfil, com hábitos semelhantes e é isso que promove o uso mais intenso, conseqüentemente de maior risco. Como seu grupo de referência deixa de ser o de não-usuários, dificilmente seus pares sinalizarão que você anda passando da conta. Ter algum transtorno psicológico (diagnosticado ou não) também é um fator de risco para o desenvolvimento de dependência, uma vez que a droga é utilizada com fim de reduzir sintomas (estresse, depressão, ansiedade). Por fim, comportamento delinqüente também tem sido mencionado como fator de risco para dependência, embora no meu entender uma coisa não seja conseqüência da outra, mas ambas sejam sinais de um mesmo problema ou conjunto de problemas.

Como saber se você já é abusador? Você consome uma grande quantidade de droga? Utiliza-a em casa, quando está sozinho? Possui estoque? Perde aulas, falta ao trabalho ou perde oportunidades importantes devido ao uso ou aos seus efeitos posteriores? Seus pais, seu chefe, sua namorada ou outras pessoas que você considera “caretas” dizem que você está abusando do álcool, do cigarro ou outra substância? Seus amigos - que usam tanto quanto você - não servem de parâmetro nesses casos, então convém prestar atenção a estes sinais, eles podem indicar que você se aproxima ou já está em um quadro de abuso. No caso de álcool, o beber pesado costuma anteceder o abuso e a dependência, sendo que o processo pode demorar anos. Você, que está imaginando que não bebe pesado, saiba que isso significa mais de cinco drinques em uma ocasião. Mudou de opinião?

Como saber se você já se tornou dependente? Tente parar de usar e veja o que acontece. Sentiu fissura, irritabilidade, dificuldade para dormir, sonolência, tremores ou alguma diferença do seu estado normal? Teve desejo intenso de consumir a droga para aliviar estes sintomas de abstinência? Não conseguiu parar e retomou o uso? Em caso afirmativo, as notícias não são das melhores. Procure ajuda especializada.

Sugestões de leitura:

SCHENCKER, M.; MINAYO, M. C. S. . Fatores de risco e de proteção para o uso de drogas na adolescência. Ciência e Saúde Coletiva, 2005;10(3), 707-717.

TAVARES B. F.; BÉRIA, J. U.; LIMA M. S. Fatores associados ao uso de drogas entre adolescentes escolares. Rev Saúde Pública 2004; 38(6): 787-96.

6 comentários:

Tetsuo disse...

Paulinho,
Surpreendeu-me de novo esta ultima parte do artigo. Nada como uma leitura que trate deste latente problema de drogas com uma visão macro, desmistificada e de certa forma até científica. Fico orgulhoso de termos aqui em Floripa algumas pessoas com competências exemplares, como você. Vlw!
Abração

Paulo César Nascimento disse...

Obrigado, Tetsuo. Foi muito bom você ter sinalizado que estava esperando a conclusão do texto. Se puder divulgar o blog, agradeço!

Abraços

FlaM disse...

O tema tem seu peso, mas vc trata com leveza. Mas essa última foto que vc escolheu como ilustração...
...é um soco no figo!

bj, f

Zinaldo disse...

Paulinho

Muito bom seu trabalho, principalmente quando é apontado os grupos de risco e os possiveis dependentes de uma forma sensata e coerente.
continue nos enriquecendo com sua sabedoria.

Paulo César Nascimento disse...

Flávia

A foto é pesada sim, mas não mente... nessas horas é bom o pessoal ver o fundo do poço antes de se debruçar sobre ele. Bjs

Zinaldo

Muito obrigado pelo gentil comentário! Abraço

Rafael disse...

Excelentes. Todos!

Gostaria de ler algo com esta crítica e neutralidade sobre aquele vídeo que te mandei.

Na verdade, até sobre algo mais amplo... conversamos sobre e te passo outras referêncais audio-visuais! ;)

Abraço!

 
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