terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pecados contemporâneos – parte I de III


O termo pecado, do latim peccátu, tem nos dicionários os sentidos de transgressão de regra, desvio moral, vício e culpa. Em uma perspectiva teológica, representaria estar em desacordo com a vontade divina. Nos tempos medievais, além de garantirem passaporte para o inferno, os pecados tornavam o sujeito execrável perante a opinião pública e, dependendo do caso, candidato a virar churrasco. Seu número oficial e grau de importância, na perspectiva religiosa, variam conforme a época. O teólogo grego Evágrio do Ponto (séc. IV) citava oito crimes e paixões humanas, em grau crescente de gravidade: gula, avareza, luxúria, ira, melancolia, acedia (acídia ou preguiça espiritual), vaidade e orgulho. Em suma, erro era o que conduzia ao egocentrismo. No século VI, o Papa Gregório Magno separou os pecados em mortais e veniais (que enviariam ao recém-inventado purgatório), modificou a lista dos primeiros, reduziu seu número para sete e propôs outra hierarquia: orgulho, inveja, ira, melancolia, avareza, gula e luxúria. Pecado, nesse caso seria aquilo que ofende ao amor. Já no século XII, São Tomás de Aquino modificou a lista e propôs sua própria hierarquia, denominando-os vícios capitais: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. A Igreja, no séc. XVII, criou a lista de pecados capitais até hoje vigentes, inspiradores de filmes (Seven) e coleções literárias: vaidade, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Hoje em dia, como o Papa é um ex-inquisidor – a “Congregação para a Doutrina da Fé” está para o “Santo Ofício” assim como a ABIN está para o SNI – a lista de pecados aumentou, associando-se à ecologia e ao politicamente correto. Há inclusive pecados no trânsito, como forçar ultrapassagem. Não é a estes pecados recém-inventados pelo Sr. Ratzinger e seus assessores a que me refiro neste ensaio. Longe dos tempos medievais e da soberania da Igreja Católica, falo daquilo que hoje em dia torna o ser humano execrável aos olhos de seus pares: gordura, feiúra, velhice e pobreza.

O pecado da gordura, herdeiro da gula e da preguiça, não está subentendido no pecado da feiúra, mesmo que a ele possa estar associado. Não são apenas os cânones estéticos contemporâneos que condenam a gordura, mas as Ciências da Saúde e a indústria e comércio que delas se beneficiam. Engordar depende de vários fatores: a) uma constituição que favoreça o acúmulo de gordura; b) uma dieta rica em calorias; c) um baixo gasto energético pelo organismo. A interação entre constituição e o tipo/quantidade de comida consumida faz com que o mesmo indivíduo que nos EUA seria um obeso mórbido, na Etiópia seja um sobrevivente saudável: ele acumula tudo o que pode e não morre de fome. Vale também o inverso, representado pelo popular “magro de ruim”, que apesar da enorme quantidade de calorias de sua ingesta, não acumula gordura. Já o gasto calórico vai depender do metabolismo basal e do nível de atividade física. Com a idade, o metabolismo vai ficando mais lento e a carga de exercícios para que se obtenha o mesmo gasto energético precisa se multiplicar (associação com o pecado da velhice). Isto posto, fica o recado: tem gente que não nasce pra ser magra, mesmo que lute incessantemente. Caso o seu biótipo não corresponda ao que manda o figurino, o máximo que você vai alcançar é ser menos fofinho(a). O que a indústria e o comércio oferecem para a sua salvação? Chás, comprimidos, spas, academias, alimentos light (mais caros), drenagem linfática, psicoterapia, lipoaspiração, cirurgia bariátrica... esqueci alguma coisa? Se em nome da saúde você ainda não se converteu, pense na estética: o pecado da feiúra.

(continua)

2 comentários:

Marques disse...

aiaiai!!
que dúvida, oq fazemos enh??!!
acho q como um amigo costuma dizer
temos a eternidade toda para sermos só osso, esse tempo aqui podemos aproveitar um pouquinho...
huahuhuauhahuuhauha
ao invés de gastar dinheiro fazendo tratamentos estéticos,
plásticas e dietas, vou começar a dar comida pra todo mundo ao meu redor se todos forem gordinhos o problema está resolvido...

milu leite disse...

hummm. nhac.
paulinho, adoro essa tua escrita.

 
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