quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pecados contemporâneos – parte II de III


Em tempos em que a vaidade e a luxúria não são pecados levados a sério, a feiúra ficou mais pecaminosa. Existe uma polêmica entre os biólogos e os antropólogos acerca da universalidade dos padrões de beleza. Os primeiros acreditam que indicadores de saúde, fertilidade e força, como traços simétricos, ancas largas em relação à cintura (em mulheres) e porte avantajado (em homens), respectivamente, sejam considerados critérios universais de beleza. Já os segundos enfatizam as especificidades destes critérios em cada cultura, salientando que em povos que enfrentam escassez de alimentos, por exemplo, gordura é formosura. Além disso, afirmam que os padrões de beleza mudam ao longo do tempo: ter pele clara na Idade Moderna significava não ter que trabalhar ao sol, então ser alvo era ser belo; já na Idade Contemporânea, ser claro significa trabalhar confinado e não ter tempo de ir à praia, então bonito é ser bronzeado. Todavia, como dificilmente um de nós tem oportunidade de mudar de cultura e muito menos de época, esta relatividade não nos serve de consolo. Os estudos em Psicologia Social já demonstraram há um bom tempo que pessoas percebidas como belas são mais bem tratadas pela maioria, independente de se tratar de alguma tentativa real de sedução. Ser considerado feio sempre foi ruim, mas costumava ser uma maldição restrita a uma parcela menor da população. Hoje em dia, atores e atrizes feios estão perdendo até os papéis secundários e os de vilões; daqui a pouco, só os veremos no teatro ou no museu de cera. Mesmo as celebridades melhoradas pelo photoshop são perseguidas pelos paparazzi, sempre em busca de flagrantes comprometedores. Isso se dá porque a indústria da beleza descobriu uma forma de vender mais: fomentar um padrão de beleza inatingível em canais de formação de opinião pública. Assim sendo, é preciso que nos sintamos cada vez mais feios para consumirmos produtos e serviços de embelezamento. Para nos salvarmos do pecado da feiúra, aí estão mil e uma poções mágicas, injeções e cirurgias, somadas às já descritas medidas contra o pecado da gordura. Mesmo que sigamos estes rituais, o tempo é implacável e nos atinge com o pecado da velhice.

Ser velho já foi um bom negócio nos tempos em que a expectativa de vida das pessoas era menor e poucos atingiam a velhice. Em sociedades de tradição oral, os velhos representavam a memória cultural, a experiência de vida, a sabedoria. Não raro havia conselhos de anciões, responsáveis pelas decisões mais importantes e pelo julgamento das ações dos mais jovens. Em um mundo mais cheio de vacinas, remédios e dietas, a pirâmide demográfica se modificou e há um número proporcionalmente maior de velhos nas sociedades economicamente desenvolvidas. Pelas dificuldades em que a população economicamente ativa sustente aqueles que já foram pilares da sociedade, os governos com menos vergonha na cara empurram a idade de aposentadoria para frente. Nada contra o trabalho de idosos, desde que opcional. Pelo menos teoricamente, entende-se que os que já contribuíram para a previdência social estariam recebendo o que outrora depositaram. Como este dinheiro já havia sido desviado, hoje em dia quem os sustenta são os que recolhem o imposto no presente, criando um círculo vicioso. Assim sendo, ser velho é considerado pecado por dois motivos: você consome sem produzir (hoje) e lembra aos jovens que a morte está rondando a todos. É claro que não existe idade para morrer, mas geralmente supomos que teremos o ciclo de vida habitual e que a morte só nos encontrará no fim da novela. Na verdade, mortes parciais (como a das nossas células epiteliais) ocorrem todo o tempo e o envelhecimento acarreta uma série de perdas. Contra o pecado da velhice estão os anti-oxidantes, os cremes, as tinturas, as pílulas mágicas (azuis ou de outras cores), as dietas, as cirurgias plásticas e os comportamentos ridículos, como fingir-se de jovem. Nada contra a velhice com vitalidade, desde que a dignidade seja mantida.

(continua)

0 comentários:

 
design by suckmylolly.com