sábado, 20 de setembro de 2008

Sexo Olímpico


A sexualidade humana é uma área muito complexa, vasta e cheia de possibilidades. Freud colocou-a como centro da vida psíquica, Foucault discorreu sobre controle e interdições, Masters e Johnson (não confundir com Johnson & Johnson) a colocaram em laboratório, Reich buscou libertá-la e o comércio colocou-a a seu serviço.

Eu, que leio até bula de remédio, acompanhei a escalada do sexo nas revistas desde o direito feminino ao orgasmo (década de 70) até os 1.001 segredos sexuais para enlouquecer seu marido, seu chefe e o entregador de pizza (século XXI). De proibido o sexo passou a obrigatório, em vez de somente permitido. Nesse sentido, exceto por algumas boas matérias e documentários, as revistas, o cinema e a televisão prestam um desserviço à garotada que está querendo iniciar sua vida sexual de modo mais saudável e prazeroso. Os filmes pornográficos esvaziaram o sexo de qualquer conotação afetiva, criando uma imagem do sexo fácil, descartável e hiperbólico, um mundo de pintos descomunais, estocadas mecânicas, orgasmos femininos falsos e religiosos (Oh, my God!!!Oh, my God!!!) e masculinos literalmente “jogados na cara” das parceiras. Já os filmes com cenas sensuais abusaram da estética do xampu (cabelos esvoaçantes) e da pose pro fotógrafo – o sexo restrito aos lindíssimos, claro. A mensagem fica clara: sexo é desempenho. Se você não der um show, poderá na melhor das hipóteses pagar um mico, na pior é preferível nem pensar. Entre a culpa por fazer algo proibido (década de 60) e a ansiedade de desempenho (atual), não vejo um ganho real. Em vez de mais livres, ficamos escravos de outro senhor. Já não basta estar à vontade com alguém de quem você gosta ou que pelo menos lhe atrai, há que se contar com um arsenal de técnicas, habilidades e apetrechos, dos comprimidos aos géis, dos chicotes aos vibradores, do dogging às festas do cabide. Neste mundo de performance, a imagem que me vem é a do sexo olímpico – tanto no sentido de realizado por deuses e semideuses, quanto no da busca de recordes. Impossível não associar à ginástica artística e àquelas tabuletas com notas ao final de cada apresentação. A cena que me vem à mente:

Apresentador: Boa noite, senhores telespectadores! Iniciamos agora a transmissão em rede nacional do sexo olímpico com a participação dos nossos comentaristas, Dra. Marlene Tibiriçá, sexóloga, e Antônio dos Passos, o nosso querido “Bastantão”, garoto de programa e ator pornô. Boa noite, Dra. Marlene!
Dra. Marlene: Boa noite, Gílson! Boa noite, telespectadores!
Apresentador: Boa noite, “Bastantão”!
Bastantão: Boa noite, Gílson! Boa noite telespes... tespelec... pessoal de casa!
Apresentador: Dra. Marlene, quais as suas expectativas para a apresentação da dupla brasileira, Carlinhos e Eduarda?
Dra. Marlene: Gílson, acho que a dupla vai brigar por medalha. O entrosamento melhorou muito depois que o Comitê Olímpico Sexual Brasileiro trouxe o técnico bielorrusso para treinar as nossas duplas. A Eduarda perdia um pouco da desenvoltura quando pensava nos pais assistindo, mas no último mundial já estava bem soltinha. O Carlinhos vem mordido daquele boato sobre dopping com Viagra e vai querer provar que ainda está no auge.
Apresentador: “Bastantão”, a sua análise antes do início das provas.
Bastantão: A dupla brasileira vai ter que tomar cuidado com a dupla da Chechênia e a de Cuba, que estão bem preparadas. Outra coisa é a atenção que o Carlinhos vai precisar pra não “sanfonar” a entrada. A juíza romena é chata com esses detalhes e é importante não ajudar muito com os dedos.
Dra. Marlene: A dupla do Brasil também será favorecida pela ausência da Svetlana, da Rússia, que se contundiu nos treinos ao tentar um “duplo anal esticado”.
Apresentador: Vai começar a prova! Vamos lá, Carlinhos! Vamos lá, Eduarda! Vamos lá Brasil!
Bastantão: a dupla começou bem, com um 69 clássico. Estou achando a Eduarda meio nervosa, mas isso é normal no início da prova. Vamos torcer pra ela ir ganhando confiança e fazer uma boa apresentação.
Dra. Marlene: A Eduarda melhorou muito no oral e não tem mais roçado os dentes, o que já é mérito da nova comissão técnica.
Apresentador: Dra. Marlene, explique para quem está nos assistindo como se calcula a pontuação nesse aparelho.
Dra. Marlene: Bom, Gílson, a dupla parte de uma pontuação inicial a partir da dificuldade do exercício e vai perdendo pontos conforme as falhas na execução. Nesse aparelho há as manobras obrigatórias, como o “xup-xup” e o “gatinho no pires”. Outra coisa que conta é a empolgação da dupla.
Bastantão: O Carlinhos começou com o que no ramo a gente chama de “meia-bomba”, mas a Eduarda caprichou e ele se recuperou a tempo.
Apresentador: “meia-bomba” é quando a ereção não é completa?
Dra. Marlene: Exatamente, Gílson! Agora a dupla brasileira vai passar do 69 a outra posição, o “ violino chinês”.
Bastantão: Eu acho perigoso, eles deveriam tentar primeiro um “papai-e-mamãe” e só depois partirem pro “violino chinês”.
Dra. Marlene: É, Bastantão, mas em uma competição desse nível a pontuação inicial do “papai-e-mamãe” pode não dar medalha. O técnico bielorrusso resolveu arriscar tudo.
Apresentador: Eu estou achando o Carlinhos meio vermelho e ofegante. É impressão minha?
Bastantão: é, dá pra ver que ele está se segurando, olha só a cara dele. Nessas horas é importante o atleta pensar em algo que diminua a empolgação. Eu costumo pensar na Dona Eulália, a síndica do meu prédio, escovando a dentadura.
Dra. Marlene: Parece que a Eduarda está exagerando no pompoarismo e gemendo muito alto, isso está colocando muita pressão no Carlinhos. Ele deu um beliscão nela pra sinalizar. Eles podem ser penalizados por isso, o beliscão só é autorizado no aparelho de sadomasoquismo.
Apresentador: Ih, olha lá... O Carlinhos terminou antes da Eduarda...
Bastantão: É uma pena, a dupla vinha bem. Agora vai ficar fora da disputa do ouro.
Dra. Marlene: Realmente, o sincronismo conta ponto. Vamos ver o quanto os juízes vão descontar.
Apresentador: O Carlinhos está meio cabisbaixo. A Eduarda está chorando... Não chora, Eduarda, o Brasil viu que vocês se empenharam. O que vemos é que precisa de mais investimento no sexo olímpico brasileiro. Desde cedo, nas escolas, é preciso descobrir talentos.
Bastantão: Saíram as notas. A juíza romena descontou o erro no final do aparelho e mais meio ponto por uma escapada de pinto.
Dra. Marlene: Realmente, vendo no replay, o pênis escapa no começo do violino chinês. Eu acho que o Brasil ainda tem chance de lutar pelo bronze se a Eduarda demonstrar todo o seu talento no solo.

5 comentários:

B.Beiçola disse...

"De proibido o sexo passou a obrigatório, em vez de somente permitido"

Pois é, vivemos um dilema eterno.

Seu texto está fantástico! acho que vou imprimir e fazer uma cartilha... rs

:*

Caio Salvino disse...

Parece impressionante mesmo a falta de incentivo governamental para com as modalidades sexolímpicas. Mas penso que a iniciativa privada deva assumir porque toda a verba do governo destinada a estas modalidades é utilizada pelos deputados e senadores para baterem recordes e mais recordes fodendo o povo em todas as posições conhecidas. Mas como diz o Simão, é mole? É mole mas entra!!! Hehehe... abração amigo!!! Désse um banho!

Paulo César Nascimento disse...

Bruxa Beiçola: já achava que você nunca iria comentar no meu blog... Que bom que você apareceu. Pode imprimir, divulgar e até citar, só peça que não digam que é do Jabor ou do Veríssimo. :-)

Grande Caio! Concordo com você, em termos de sexo metafórico, ninguém bate o nosso Congresso. Abraços!

FlaM disse...

Cara! ri muito com isso aqui!
Abç, F.

milu leite disse...

hilário!!! "sanfonar!" é demais. só vc mesmo.
bjo

 
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