quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ebriedades


Até ontem, ela vinha
Hoje, eu vinho

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fantasias


Em abril, Martinha era caixa de supermercado e teve de trabalhar uma semana com orelhas de coelhinho da Páscoa. Com a mudança dos donos, houve diminuição do pessoal e ela foi demitida. Passou a trabalhar para um restaurante, fazendo propaganda da tele-entrega vestida de frango. O calor do Rio de Janeiro, somado ao da fantasia, levou-a a procurar outras possibilidades. Bem feitinha de corpo, passou a dançar em uma casa noturna vestida de rainha egípcia. Surgiram os convites para fazer programas, o que ela não havia programado. Largou a vida de dançarina e voltou ao comércio, agora com gorrinho de ajudante de Papai Noel. Na última hora, atendendo aos insistentes pedidos de sua mãe, substituiu a Virgem Maria no presépio vivo da igreja. Quando Evandro, seu namorado, trouxe-lhe uma fantasia de enfermeira comprada em uma sex-shop, foi a gota d´água. Fevereiro chegando, já combinou com uma amiga: vai passar o carnaval na serra, vestida de Martinha.

domingo, 26 de outubro de 2008

Da essência da solidão


Infelizmente
Meu semelhante
É bem diferente

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Faça você mesmo: haicai


Tenho simpatia pela economia de palavras, pelo menos como leitor, ouvinte ou espectador. Se você pode dar o mesmo recado em três linhas ou em duzentas páginas, por que ficar enchendo lingüiça (trema na lingüiça enquanto puder, pois o trema será extinto com o novo acordo ortográfico), não é mesmo? Há ocasiões, porém, em que as coisas precisam ser ditas aos poucos e isso faz diferença, o que justifica romances, sagas, longas-metragens e psicoterapia. Descobri os haicai (haiku ou haikai) ainda menino com uns poemas curtinhos do Millôr Fernandes. Não havia internet na época, então passei a achar que qualquer poema curtinho com três linhas cabia neste gênero. Neste ano, movido pelo espírito mercenário e utilitarista – o Sam -, resolvi encaminhar três haicai para um grande concurso com premiação em dinheiro. Separei então três poeminhas que achei do Carvalho (meu “eu lírico”), quando me deparei com um limite: os textos deveriam se enquadrar nas regras do haicai clássico japonês. Agora é importante que você clique aqui para entender direito o restante do texto. Eu sabia que você iria desobedecer. Deixe de ser teimoso(a), volte lá e clique no link, não é vírus, eu garanto. Está bem, se você vai continuar assim mesmo, problema seu, depois não diga que eu não avisei. Pois é, como você deve ter imaginado, nenhum dos poemas era haicai no sentido estrito do termo. Aí o Sam convenceu o Carvalho a escrever novos textos para concorrer ao prêmio, resultando em três haicai prostitutos já publicados aqui no blog.

Para que entenda melhor o processo, vou montar alguns haicai aqui diante dos seus olhos. Primeiramente, pense em um título. Pensou? Isso prova que você não clicou no link que eu sugeri: haicai não leva título (sorriso cínico, sarcástico e debochado)! Se você quiser aprender com quem sabe, volte lá na página do Caqui. Se quiser continuar aprendendo com quem enrola, vamos em frente. Tente incorporar o espírito nipônico antigo (não no sentido kardecista, tenha cuidado!) e apague todas as referências japonesas moderninhas ou ocidentalizadas, como as ganguro girls e os anime. Sugiro que coloque música tradicional, como a de Sunazaki Tomoko, e entre no clima. O Japão é um arquipélago pequenino e cheio de gente. Tradicionalmente, o único jeito dos japoneses manterem a privacidade foi o desenvolvimento de uma espécie de recato ou reserva. Os sentimentos são disfarçados ou intimamente guardados, sendo considerada deselegante sua demonstração efusiva, bem como comportamentos invasivos. Assim, deixe sua veia histriônica ou sentimental fora do haicai e a mande à ópera. Cabem somente umas gotas de melancolia, diluídas em um lago zen - que é um jeito meio blasé de ser fora da casinha, ou vice-versa. Japoneses adoram formalidades para tudo, está aí a cerimônia do chá que não me deixa mentir: adaptaram a formalidade da consagração eucarística (jesuítas) ao hábito de beber chá, criando um ritual extremamente meticuloso e detalhista como um caminho para atingir a simplicidade e a espontaneidade. É algo parecido com uma dama levando horas em frente ao espelho para criar um visual despojado. As gotas de melancolia podem ser substituídas por uma leve nostalgia da vida rural ou do Japão feudal, com suas gueixas e seus samurais. Isso, claro, se você quiser criar um haicai com pedigree. Eu simpatizo com cachorros vira-lata, sushi com cream-cheese e japonesas mestiças, que me parecem ter mais rock´n roll e malandragem no corpo. Os haicai que se seguem poderiam ser classificados como haicai fusion, ou nouvelle haicai, ou ainda como uma brincadeira de mau gosto – fica ao seu critério. Para sua segurança, ao final eu mostro onde está o cream-cheese.

A métrica do haicai tradicional é rígida: são dezessete sílabas poéticas, divididas em versos de cinco, sete e cinco. Na prática, tem que ter a seguinte batida: Ra-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-tá. Quanto ao conteúdo, é preciso manter as coisas no presente, em uma sobreposição de imagens sem vinculação explícita de sentido. No haicai as entrelinhas contam muito, já que as linhas são poucas. É preciso ter elementos da natureza e alusão a uma estação do ano, direta ou indireta, chamada de kigo, que é por onde eu começo a matutar, enquanto batuco mentalmente os Ra-ta-ta-ta-tás.

“Calor dos infernos!” é um kigo de verão, embora pouco tradicional. Penso em uma cena que remeta a temas como apego/desapego: “Calcinha lá no chuveiro”, que alude à demarcação de território por uma namorada, tal qual uma bandeira afastando as concorrentes. A conclusão precisa ter um elemento de natureza, senão o haicai é desclassificado. Eu pensaria em colocar cream-cheese aqui, violando esta regra: “Mulher ciumenta”. Porém, a menos que você considere a mulher como representante da natureza, em oposição ao homem como representante da cultura (um olhar um tanto sexista), será preciso substituir este verso por algo como “Voam pernilongos” ou “Um cheiro de flor”. Fica assim:

Calor dos infernos
Calcinha lá no chuveiro
Um cheiro de flor

Mesmo incomodado pelo calor do verão e pelos ciúmes da namorada, o “eu lírico” percebe o perfume no ar e compreende que o resto nem tem tanta importância assim. Os puristas reclamariam dos infernos e da calcinha, que eu mantenho como cream-cheese.

“Grilos na sacada” é um outro kigo de verão, além de aludir à natureza. Penso em algo que remeta a coisas transitórias, como a fome: “A pizza já ficou pronta”. Para dar um ar impressionista, juntando a percepção do aqui-e-agora e do efêmero, concluo com “Perfume de queijo”. Resultado:

Grilos na sacada
A pizza já ficou pronta
Perfume de queijo

O “eu lírico” ouve o cricrilar dos grilos, sendo subitamente interrompido pela constatação de que sua fome é algo passageiro. Neste haicai o cream-cheese foi substituído pelo queijo mussarela.

“Orvalho na grama” é um kigo de outono, sendo também elemento natural. Penso em reforçar estes elementos naturais com a presença animal. Um bicho que remeta à lentidão: cágado. Quero também enfatizar o retorno das coisas à natureza, em um ciclo de transformação e renovação, tudo no presente: “Cágado cagado cá”. Porém, os puristas reclamariam da aliteração neste verso, um recurso da poética ocidental. Se eu modificar para “Aqui um cágado está cagado”, passarei a ter oito sílabas poéticas em vez de sete. Uma solução que acaba com a aliteração e é também mais limpinha: “Há do cágado dejetos”. Conclusão: “Alegre retorno”.

Orvalho na grama
Há do cágado dejetos
Alegre retorno

O Matsuo Basho só não deve estar se revirando na tumba porque provavelmente foi cremado. Já o Nempuku Sato não teve a mesma sorte. Se eu morrer esta noite, foi um ninja.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mea culpa


Fui responsável
Uni o inútil
Ao desagradável

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Circo de horrores


Tem coisas que eu entendo, mas não respeito, como a tendência geral em transformar a tragédia alheia em espetáculo mórbido. Aliás, isto me irrita bastante. Para ir de casa ao trabalho, preciso pegar a via expressa e a BR. Na maior parte das vezes em que há engarrafamento, isto ocorre porque o pessoal diminui a velocidade para observar um acidente que já está sendo administrado. Aqui em Santa Catarina houve o que se poderia chamar de meta-acidente, quando um caminhão se desgovernou e atingiu curiosos que se amontoavam para observar o acidente anterior. Perfeitamente evitável: ninguém tinha absolutamente nada a fazer no local! Além disso, o alvoroço dos transeuntes atrapalha quem está efetivamente resolvendo a situação, dificultando a chegada de socorro, a remoção de feridos, o combate a eventuais incêndios e outras medidas de segurança. Outra coisa que atrapalha é a amplificação que os meios de comunicação fazem nestas situações. Imagine você tentar trabalhar com vinte jornalistas, cinegrafistas, mais os curiosos já mencionados: “Agora Dona Marlene vai bater o ponto! Dona Marlene, a senhora acha que o seu chefe vai descontar o atraso do seu salário?” “Recebemos um comunicado que Dona Marlene se atrasou porque teve uma discussão com o esposo na hora de deixar o filho no colégio!” “Temos aqui um especialista em leitura labial para ver o que Dona Marlene está falando ao chefe: esses repórteres finos na pulga me abraçaram ainda mais!” Puxei este assunto em função da tragédia da vez, da adolescente Eloá, como vocês já devem ter deduzido.

Negociação em situação de risco com reféns é coisa séria, exige equipe treinada e sobriedade. Há alguns anos, participei de uma mesa sobre o tema com um oficial da PM especialista em negociação e um Promotor de Justiça. Coube a mim a apresentação dos aspectos psicológicos envolvidos, com ênfase particular em psicopatologia. Para não falar bobagem, passei alguns dias pesquisando o tema e conhecendo os aspectos técnicos da atuação da polícia no Brasil e no exterior, o estado da arte da psicologia criminal, profiling (perfil criminal), bem como transtornos que acometem vítimas e negociadores em virtude do estresse. Não cabe a mim a avaliação técnica da conduta do GATE, mas uma coisa é certa: o circo feito em torno da situação atrapalhou – e muito. Televisão vive de anúncios, que vivem de audiência, que vive de agradar o povo, que adora um drama sensacionalista. Daí deriva o bombardeio de informações, plantões, informes. Quem comanda a ação da Polícia Militar, em última análise, é o Governador do Estado – um político. Espectadores são também, em parte, eleitores, então o tamanho do circo influencia o grau de intervenção de um político em um assunto que exige uma ação técnica. Você gostaria de ter a ação do seu cardiologista subordinada a um político? Eu não gostaria. Não há como precisar aqui o quanto esta influência ocorreu ou não de fato, como também não cabe traçar um perfil psicológico do Lindemberg a partir de fragmentos de informações fornecidas por terceiros. Isto é picaretagem, por mais títulos que tenham os “especialistas” consultados na TV – estas aparições buscam os tais dos quinze minutos de fama mencionados pelo Andy Warhol. O fato é que o “efeito circo” cria uma série de desvantagens para que a situação de risco se resolva sem danos ou com um mínimo destes.

O ser humano precisa de tragédias? Que leia Sófocles, Eurípedes ou Shakespeare! A ficção está aí para isso mesmo. Chega de sermos corvos de meninos arrastados por automóveis, meninas real ou supostamente arremessadas pela janela, pais assassinados e adolescentes baleadas. No fim, todos serão esquecidos quando uma mãe cozinhar os filhos e degustá-los com batatas fritas, ou qualquer barbaridade equivalente que venda revistas e anúncios.

sábado, 18 de outubro de 2008

Entropia


O tempo corrói
E o que nos queima
É o ar que respiramos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Paradoxos da Nova Era


- Rapaz, a minha terapeuta de vidas passadas disse que na última encarnação eu fui o Charlie Chaplin!
- Não pode, Zeca, você é de 1975 e o Chaplin só morreu em 1977!
- Porra, Chicão, no século passado a física moderna já provou que o tempo é relativo! Você, que é engenheiro, devia saber disso melhor do que eu...
- (suspiro!)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Odontologia poética


No meio do arroz tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do arroz
cara, a coroa!

domingo, 12 de outubro de 2008

Culinária estudantil de sobrevivência


Cozinhar bem é uma arte: requer talento, habilidade, treinamento e prática. Há que se preparar molhos, caldos e roux, utilizar uma gama de temperos e ervas, provocar choques térmicos, ter as panelas, termômetros, facas, panos e formas certas, além de livros de receitas secretas. Cozinhar razoavelmente já é bem mais fácil, mas ainda requer experiência, receitas e tempo. Quebrar o galho e preparar uma gororoba aceitável, sujando o mínimo de louça possível, é o que chamo de culinária estudantil de sobrevivência. Significa cozinhar apenas para você, ou no máximo para um amigo esfomeado, e nunca para alguém que você queira impressionar. Devido ao apelo do meu amigo Rafael, que está passando fome em São Paulo por pura falta de comida aceitável em sua mesa, vou passar aqui umas dicas básicas e receitas para quem não sabe cozinhar direito, nem pretende aprender.

a) Faça saladas. Hoje em dia, vegetais são encontrados prontos para consumo. Basta misturar um pouco de alface rasgada, tomates cereja, pepinos cortados, peito de peru em cubinhos, croûtons, colocar um molho pronto e aí está uma refeição de verão. Há várias opções, todas muito fáceis de preparar. Só não esqueça de colocar um pouco de proteínas e carboidratos, porque do contrário você estará com fome logo após a última garfada.

b) Prepare massas com molho. Como já brincou o Luís Fernando Veríssimo em um conto, a culinária italiana é uma falcatrua: só muda o formato da massa e o molho que cobre. Hoje em dia vários molhos são facilmente encontrados prontos, o problema é que quem não sabe cozinhar erra o ponto da massa. Então as dicas básicas: massa fresca fica pronta muito rapidamente, é praticamente mergulhar na água fervente, deixar uns três minutos e tirar. Macarrão de pacote precisa de uma boa quantidade de água pra não grudar, então sugiro que se use uma panela de seis litros pela metade para meio pacote de macarrão (250 g.). Não recomendo que coloque estes três litros de água em uma panela com capacidade para quatro litros, porque corre o risco de transbordar e fica ruim para mexer. Óleo não se mistura com água, então aquele fio de óleo que recomendam colocar é besteira. O importante é mexer um pouco para os fios se soltarem uns dos outros, depois colocar um fio de óleo (ou uma colher de manteiga) na massa já escorrida, mexendo um pouco. Para essa quantidade de água, um punhado de sal resolve (umas duas colheres rasas de sopa). Eu prefiro cozinhar com menos sal e deixar para corrigir no molho. Não dá pra esquecer que queijo parmesão costuma ser bem salgado, então se deve pensar no resultado final antes de fazer bobagem. Quanto aos molhos prontos, geralmente falham em algum quesito: são muito adocicados ou muito ácidos. Se você está lendo por necessidade, imagino que não saiba corrigir um molho, então o melhor é testar várias marcas e se tornar fiel a uma que agrade o seu paladar.

c) Prepare risotos. Os de verdade são feitos com arroz arborio, uma panela de caldo de galinha ou legumes fica de plantão ao lado para que conchas sejam adicionadas paulatinamente, enquanto o amido vai se soltando, há um momento certo para adicionar vinho, creme, legumes pré-cozidos e manteiga; risotos de sobrevivência, não. Faça um refogado com duas colheres de purê de cebola (ou meia cebola pequena picadinha, se você souber picá-la sem cortar os dedos), fritando-a em uma colher de azeite até que doure (fogo baixo). Adicione dois pacotinhos de arroz já cozido e desempacotado - sim, use arroz em pacotinhos, tipo Uncle Ben´s, para garantir quer o arroz não irá queimar – e mexa por uns quinze segundos. Em meia xícara de água fervente, dissolva meio tablete de caldo de galinha ou de legumes, conforme sua preferência. Junte o caldo e os vegetais (aspargos, champignons ou brócolis pré-cozidos), deixando cozinhar mais um pouco, mexendo para que não grude no fundo da panela. Deixe o risoto um pouco úmido, apague o fogo e jogue uma colher de requeijão por cima, misturando bem.

d) Faça carreteiro. Pique restos de bife, corte rodelas de lingüiça calabresa e frite simultaneamente em uma panela, junto com duas colheres de purê de cebola (ver observação anterior). Coloque meia caixinha pequena de polpa de tomate, depois adicione dois pacotinhos de arroz já cozido. A proporção é aproximadamente meio bife pequeno e um quarto de lingüiça para cada pacotinho de arroz. Deixe cozinhar rapidamente, mexendo sempre. Apague o fogo com o arroz ainda um pouco úmido e deixe descansar por uns cinco minutos, até o excesso de líquido evaporar.

e) Faça curry de frango com legumes. Corte em cubos um peito de frango desossado (fica melhor com coxa e sobrecoxa, mas vai aí a versão menos calórica). Descasque duas batatas grandes, uma cebola e uma cenoura, cortando-as em pedaços que caibam na boca. Frite o frango em uma panela grande, depois despeje em um escorredor de macarrão e reserve. Coloque duas xícaras de água fervente na panela e junte os legumes, cozinhando-os (use a batata como parâmetro, testando-a com um garfo). Se quiser deixar o prato mais indiano, coloque também uma maçã verde picada. Escorra os legumes, depois junte o frango e o molho curry pronto.

f) Faça chilli. Frite trezentos gramas de carne moída (em três vezes de cem, para que não cozinhe no suco em vez de fritar). Junte um pacote de feijão vermelho pré-cozido (desses embalados a vácuo), uma caixinha de molho de tomate, uma colher de sopa de ketchup, molho de pimenta vermelha a gosto. Sirva em tigelas e cubra com queijo ralado. Se souber fazer tigelinhas de pão italiano, sirva o chilli nelas. Além de serem boas de comer depois, poupam o trabalho de lavar louça.

g) Faça omeletes. Em uma tigela, bata dois ovos com um gole de água (não meça na boca, por favor). Em uma frigideira, refogue meia cebola picada até que doure, despejando em seguida os ovos. Deixe o fundo fritar, então despeje duas colheres de queijo parmesão em cima, baixando o fogo e tampando a frigideira. Aguarde um minuto em fogo baixo, apague o fogo e deixe descansar por uns dois minutos, até que os ovos tenham cozinhado no vapor.

Se não acertar fazer nada disso, saiba que quase ninguém faz miojo direito no Brasil. Ele é próprio para lamen, uma sopa oriental de macarrão. O certo seria colocar o molhinho no líquido de cozimento, misturar e colocar em uma tigela, sem escorrer, depois comer o macarrão com hashi e beber o caldo direto dela, preferencialmente fazendo barulho. Boa sorte e tenha sempre um extintor de incêndio por perto!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Você é aquilo que come


Um belo dia, o tigre decidiu cuidar da saúde: passou a se alimentar exclusivamente de vegetarianos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pequenas batalhas domésticas III: na cozinha


Até quem mora sozinho enfrenta batalhas na cozinha, algumas delas para continuar nesta condição. Migalhas, frutas e restos de alimentos costumam atrair hóspedes indesejáveis, como baratas, formigas e mosquitinhos de banana. Assim sendo, gotas de mel, sucrilhos perdidos, migalhas de pão, copos e colheres sujos de achocolatado, caixas de pizza, tudo isto é convite para transformar seu apartamento em um mini-zoológico. Com exceção de peixinhos de aquário – perdoem-me os amantes de felinos e de cãezinhos de madame -, não considero viável a convivência com animais domésticos em espaço confinado. Da mesma maneira, vejo como inviável a criação de cabras, porcos e galinhas em casa. Já em um sítio ou fazenda, tudo bem – tudo é uma questão de espaço vital e condições de higiene. Caso você não tenha uma máquina de lavar louça, tenha preguiça ou falta de tempo para lavar os pratos e panelas logo após o uso, sempre pode recorrer ao truque de deixar um tanto de água e detergente sobre eles. Batalha fácil de vencer. Quando mais gente mora com você, outras aparecem.

A primeira batalha se dá entre o mais limpo e o mais sujo... ou melhor, entre o mais normal e o mais neurótico por limpeza... ou melhor, viu como a batalha já começa na hora de definir qual o costume certo e qual o errado? O grande problema é que aquele(a) com menor tolerância à sujeira acaba limpando o que o(a) outro(a) suja. Já vivi situações extremas ao morar em “república”, nos tempos de mestrado. Parei de lavar a louça suja pelos outros, passei a comer na rua e iniciou-se uma criação de baratas na cozinha – primeira e única vez em minha vida que vi seus filhotinhos. Tudo perfeitamente evitável, concorda?

A segunda batalha se dá quando alguém come a porção suposta ou concretamente de outra pessoa. Podem ser duas fatias de pizza, deixando apenas o bife seco de anteontem. Pode ser o iogurte de morango, a última colherada de brigadeiro de panela, a latinha de cerveja holandesa. Desatenção, provocação ou malandragem, geralmente esse tipo de conduta desperta uma fúria assassina e clama por vingança. Uma variante desta batalha é falta de reposição do que foi consumido. Lienad, da tribo dos Ehcepmac, cita um antigo provérbio chinês: “Quando uma soda acaba, outra vai para a geladeira!” Embora pareça algo básico, o mundo parece se dividir entre esvaziadores e repositores.

A terceira batalha envolve a maneira de cozinhar, quando a limpeza cabe ao não-cozinheiro. Frituras sujam a cozinha inteira, deixando o o piso escorregadio. Geralmente os pratos mais sofisticados exigem mais de uma panela, para que os diferentes tempos de cozimento sejam respeitados – isso se não for preciso utilizar o forno para gratinar. Já a culinária estudantil de sobrevivência envolve um mínimo de panelas. Exemplo: Macarronada à bolonhesa. Versão de restaurante: a) Faça um caldo básico de carne usando ossos e aparas, depois reserve (suja-se uma panela; se for reaproveitá-la no passo seguinte, inclua um pote para manter o caldo). b) Faça um molho de tomates, refogando primeiro as cebolas, depois os tomates já pelados e sem sementes e uma cenoura para tirar a acidez - pode ser substituída por um pouquinho de açúcar (suja-se uma panela, uma faca, uma tábua para cortar e, caso se utilize a cenoura, um liqüidificador). c) Frite a carne moída em porções pequenas, senão ela cozinhará no próprio suco em vez de fritar (suja-se uma frigideira e um pote para reservar a carne já frita). d) Cozinhe o macarrão (mais uma panela ou pote e o escorredor). e) Junte o molho de tomate, um pouco do caldo e a carne moída, deixando cozinhar um pouco para que os sabores se misturem. f) Em uma forma refratária, alterne camadas de macarrão escorrido, molho à bolonhesa e queijo parmesão ralado na hora, cobrindo com um pouco de mussarela também ralada, levando ao forno para gratinar (suja-se a forma e o ralador de queijo). Ah,convém deixar uma chaleira com água quente a postos para acertar o molho, se necessário. Logicamente, nos restaurantes eles preparam os molhos e caldos em grandes quantidades, congelando o que é possível. Além disso, você não imagina que o Jamie Oliver, o Claude Troigros ou mesmo a Ofélia lave a louça toda e depois limpe a cozinha, não é mesmo? Então o maridão cozinheiro resolve lhe impressionar e faz a macarronada à moda do restaurante, deixando tudo pra esposinha limpar. Romântico, não? Além dos pratos e talheres, as panelas, potes, forma refratária, liqüidificador, ralador, tábua e escorredor lhe esperam na pia – e o forno está sujo. Uma alternativa é o cozinheiro lavar os utensílios à medida que forem sujando, aí restarão apenas a forma, os pratos e talheres. A versão da culinária estudantil de sobrevivência é mais prática: a) Cozinhe o macarrão. b) Escorra o macarrão não completamente cozido através de uma fresta na tampa da panela. c) Despeje o conteúdo de uma lata de molho pronto à bolonhesa sobre o macarrão, mexendo tudo enquanto o molho aquece e o macarrão termina de cozinhar. Coloque nos pratos e despeje queijo ralado de pacote em cima. Bom apetite! O gosto é o mesmo? Claro que não, mas aí a batalha passa da cozinha para outras peças, fugindo do assunto desta postagem.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Haicai 3


De morte, vermelhas,
Desta espada companheira
As gotas na neve

sábado, 4 de outubro de 2008

Haicai 2


Perfume de flores
Na escuridão desta noite:
Viagem solene.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Haicai 1


A chuva de outono:
caem pingos do céu cinzento.
Um vago murmúrio.

 
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