segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Circo de horrores


Tem coisas que eu entendo, mas não respeito, como a tendência geral em transformar a tragédia alheia em espetáculo mórbido. Aliás, isto me irrita bastante. Para ir de casa ao trabalho, preciso pegar a via expressa e a BR. Na maior parte das vezes em que há engarrafamento, isto ocorre porque o pessoal diminui a velocidade para observar um acidente que já está sendo administrado. Aqui em Santa Catarina houve o que se poderia chamar de meta-acidente, quando um caminhão se desgovernou e atingiu curiosos que se amontoavam para observar o acidente anterior. Perfeitamente evitável: ninguém tinha absolutamente nada a fazer no local! Além disso, o alvoroço dos transeuntes atrapalha quem está efetivamente resolvendo a situação, dificultando a chegada de socorro, a remoção de feridos, o combate a eventuais incêndios e outras medidas de segurança. Outra coisa que atrapalha é a amplificação que os meios de comunicação fazem nestas situações. Imagine você tentar trabalhar com vinte jornalistas, cinegrafistas, mais os curiosos já mencionados: “Agora Dona Marlene vai bater o ponto! Dona Marlene, a senhora acha que o seu chefe vai descontar o atraso do seu salário?” “Recebemos um comunicado que Dona Marlene se atrasou porque teve uma discussão com o esposo na hora de deixar o filho no colégio!” “Temos aqui um especialista em leitura labial para ver o que Dona Marlene está falando ao chefe: esses repórteres finos na pulga me abraçaram ainda mais!” Puxei este assunto em função da tragédia da vez, da adolescente Eloá, como vocês já devem ter deduzido.

Negociação em situação de risco com reféns é coisa séria, exige equipe treinada e sobriedade. Há alguns anos, participei de uma mesa sobre o tema com um oficial da PM especialista em negociação e um Promotor de Justiça. Coube a mim a apresentação dos aspectos psicológicos envolvidos, com ênfase particular em psicopatologia. Para não falar bobagem, passei alguns dias pesquisando o tema e conhecendo os aspectos técnicos da atuação da polícia no Brasil e no exterior, o estado da arte da psicologia criminal, profiling (perfil criminal), bem como transtornos que acometem vítimas e negociadores em virtude do estresse. Não cabe a mim a avaliação técnica da conduta do GATE, mas uma coisa é certa: o circo feito em torno da situação atrapalhou – e muito. Televisão vive de anúncios, que vivem de audiência, que vive de agradar o povo, que adora um drama sensacionalista. Daí deriva o bombardeio de informações, plantões, informes. Quem comanda a ação da Polícia Militar, em última análise, é o Governador do Estado – um político. Espectadores são também, em parte, eleitores, então o tamanho do circo influencia o grau de intervenção de um político em um assunto que exige uma ação técnica. Você gostaria de ter a ação do seu cardiologista subordinada a um político? Eu não gostaria. Não há como precisar aqui o quanto esta influência ocorreu ou não de fato, como também não cabe traçar um perfil psicológico do Lindemberg a partir de fragmentos de informações fornecidas por terceiros. Isto é picaretagem, por mais títulos que tenham os “especialistas” consultados na TV – estas aparições buscam os tais dos quinze minutos de fama mencionados pelo Andy Warhol. O fato é que o “efeito circo” cria uma série de desvantagens para que a situação de risco se resolva sem danos ou com um mínimo destes.

O ser humano precisa de tragédias? Que leia Sófocles, Eurípedes ou Shakespeare! A ficção está aí para isso mesmo. Chega de sermos corvos de meninos arrastados por automóveis, meninas real ou supostamente arremessadas pela janela, pais assassinados e adolescentes baleadas. No fim, todos serão esquecidos quando uma mãe cozinhar os filhos e degustá-los com batatas fritas, ou qualquer barbaridade equivalente que venda revistas e anúncios.

7 comentários:

FlaM disse...

Sim, Paulinho, lamentável cada detalhe e episódio desse tragédia convertida em espetáculo!
Mas fora a parte espetacular que torna o fato inusitado, temos a tragédia cotidiana e histórica, repetida, de um homem "enciumado" que mata uma mulher supostamente amada. Um homem, como tantos, usando a morte para tomar posse "do que é seu": a vida de uma mulher!
Lamentável, pena que a mídia e a opinião pública só se condoa quando a coisa toma dimensões espetaculares, enquanto tantas outras mortes de mulheres passam despercebidas, como meros conflitos domésticos...
bj, Flávia
(mas isso tb não é razão para deixar de cantar!)

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: concordo com vc! Não fui cantar por um misto de cansaço e preguiça. Acabei deixando o complexo esportivo fechado pra manutenção. Bjs

FlaM disse...

Hum: avaliação equivocada: será que cantar não seria a melhor manutenção?

FlaM disse...

tá bem, tb não é necessariamente a "melhor"...

milu leite disse...

quem canta seus males espanta...
mesmo que o complexo esportivo esteja
avariado.
vc fez falta! bjo

Alline disse...

As tragédias familiares estão cada vez mais com cara de espetáculo, com direito à cobertura até de helicóptero. Ganha quem conseguir uns pontinhos a mais no Ibope.

soucachorromassoumaiseu disse...

Infelizmente nosso jornalismo não é mais imparcial, estamos na mão de uma cultura fútil que não se importa em trazer cultura ao menos culto, e sim em deixar o menos culto em sua ignorância.

 
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