sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Faça você mesmo: haicai


Tenho simpatia pela economia de palavras, pelo menos como leitor, ouvinte ou espectador. Se você pode dar o mesmo recado em três linhas ou em duzentas páginas, por que ficar enchendo lingüiça (trema na lingüiça enquanto puder, pois o trema será extinto com o novo acordo ortográfico), não é mesmo? Há ocasiões, porém, em que as coisas precisam ser ditas aos poucos e isso faz diferença, o que justifica romances, sagas, longas-metragens e psicoterapia. Descobri os haicai (haiku ou haikai) ainda menino com uns poemas curtinhos do Millôr Fernandes. Não havia internet na época, então passei a achar que qualquer poema curtinho com três linhas cabia neste gênero. Neste ano, movido pelo espírito mercenário e utilitarista – o Sam -, resolvi encaminhar três haicai para um grande concurso com premiação em dinheiro. Separei então três poeminhas que achei do Carvalho (meu “eu lírico”), quando me deparei com um limite: os textos deveriam se enquadrar nas regras do haicai clássico japonês. Agora é importante que você clique aqui para entender direito o restante do texto. Eu sabia que você iria desobedecer. Deixe de ser teimoso(a), volte lá e clique no link, não é vírus, eu garanto. Está bem, se você vai continuar assim mesmo, problema seu, depois não diga que eu não avisei. Pois é, como você deve ter imaginado, nenhum dos poemas era haicai no sentido estrito do termo. Aí o Sam convenceu o Carvalho a escrever novos textos para concorrer ao prêmio, resultando em três haicai prostitutos já publicados aqui no blog.

Para que entenda melhor o processo, vou montar alguns haicai aqui diante dos seus olhos. Primeiramente, pense em um título. Pensou? Isso prova que você não clicou no link que eu sugeri: haicai não leva título (sorriso cínico, sarcástico e debochado)! Se você quiser aprender com quem sabe, volte lá na página do Caqui. Se quiser continuar aprendendo com quem enrola, vamos em frente. Tente incorporar o espírito nipônico antigo (não no sentido kardecista, tenha cuidado!) e apague todas as referências japonesas moderninhas ou ocidentalizadas, como as ganguro girls e os anime. Sugiro que coloque música tradicional, como a de Sunazaki Tomoko, e entre no clima. O Japão é um arquipélago pequenino e cheio de gente. Tradicionalmente, o único jeito dos japoneses manterem a privacidade foi o desenvolvimento de uma espécie de recato ou reserva. Os sentimentos são disfarçados ou intimamente guardados, sendo considerada deselegante sua demonstração efusiva, bem como comportamentos invasivos. Assim, deixe sua veia histriônica ou sentimental fora do haicai e a mande à ópera. Cabem somente umas gotas de melancolia, diluídas em um lago zen - que é um jeito meio blasé de ser fora da casinha, ou vice-versa. Japoneses adoram formalidades para tudo, está aí a cerimônia do chá que não me deixa mentir: adaptaram a formalidade da consagração eucarística (jesuítas) ao hábito de beber chá, criando um ritual extremamente meticuloso e detalhista como um caminho para atingir a simplicidade e a espontaneidade. É algo parecido com uma dama levando horas em frente ao espelho para criar um visual despojado. As gotas de melancolia podem ser substituídas por uma leve nostalgia da vida rural ou do Japão feudal, com suas gueixas e seus samurais. Isso, claro, se você quiser criar um haicai com pedigree. Eu simpatizo com cachorros vira-lata, sushi com cream-cheese e japonesas mestiças, que me parecem ter mais rock´n roll e malandragem no corpo. Os haicai que se seguem poderiam ser classificados como haicai fusion, ou nouvelle haicai, ou ainda como uma brincadeira de mau gosto – fica ao seu critério. Para sua segurança, ao final eu mostro onde está o cream-cheese.

A métrica do haicai tradicional é rígida: são dezessete sílabas poéticas, divididas em versos de cinco, sete e cinco. Na prática, tem que ter a seguinte batida: Ra-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-ta-ta-tá / Ra-ta-ta-ta-tá. Quanto ao conteúdo, é preciso manter as coisas no presente, em uma sobreposição de imagens sem vinculação explícita de sentido. No haicai as entrelinhas contam muito, já que as linhas são poucas. É preciso ter elementos da natureza e alusão a uma estação do ano, direta ou indireta, chamada de kigo, que é por onde eu começo a matutar, enquanto batuco mentalmente os Ra-ta-ta-ta-tás.

“Calor dos infernos!” é um kigo de verão, embora pouco tradicional. Penso em uma cena que remeta a temas como apego/desapego: “Calcinha lá no chuveiro”, que alude à demarcação de território por uma namorada, tal qual uma bandeira afastando as concorrentes. A conclusão precisa ter um elemento de natureza, senão o haicai é desclassificado. Eu pensaria em colocar cream-cheese aqui, violando esta regra: “Mulher ciumenta”. Porém, a menos que você considere a mulher como representante da natureza, em oposição ao homem como representante da cultura (um olhar um tanto sexista), será preciso substituir este verso por algo como “Voam pernilongos” ou “Um cheiro de flor”. Fica assim:

Calor dos infernos
Calcinha lá no chuveiro
Um cheiro de flor

Mesmo incomodado pelo calor do verão e pelos ciúmes da namorada, o “eu lírico” percebe o perfume no ar e compreende que o resto nem tem tanta importância assim. Os puristas reclamariam dos infernos e da calcinha, que eu mantenho como cream-cheese.

“Grilos na sacada” é um outro kigo de verão, além de aludir à natureza. Penso em algo que remeta a coisas transitórias, como a fome: “A pizza já ficou pronta”. Para dar um ar impressionista, juntando a percepção do aqui-e-agora e do efêmero, concluo com “Perfume de queijo”. Resultado:

Grilos na sacada
A pizza já ficou pronta
Perfume de queijo

O “eu lírico” ouve o cricrilar dos grilos, sendo subitamente interrompido pela constatação de que sua fome é algo passageiro. Neste haicai o cream-cheese foi substituído pelo queijo mussarela.

“Orvalho na grama” é um kigo de outono, sendo também elemento natural. Penso em reforçar estes elementos naturais com a presença animal. Um bicho que remeta à lentidão: cágado. Quero também enfatizar o retorno das coisas à natureza, em um ciclo de transformação e renovação, tudo no presente: “Cágado cagado cá”. Porém, os puristas reclamariam da aliteração neste verso, um recurso da poética ocidental. Se eu modificar para “Aqui um cágado está cagado”, passarei a ter oito sílabas poéticas em vez de sete. Uma solução que acaba com a aliteração e é também mais limpinha: “Há do cágado dejetos”. Conclusão: “Alegre retorno”.

Orvalho na grama
Há do cágado dejetos
Alegre retorno

O Matsuo Basho só não deve estar se revirando na tumba porque provavelmente foi cremado. Já o Nempuku Sato não teve a mesma sorte. Se eu morrer esta noite, foi um ninja.

9 comentários:

FlaM disse...

Chuva e tédio
A primavera mané
Ói ó tens tempo

milu leite disse...

paulinho, esse texto é maravilhoso!
me deliciei com cada linha. o riso no canto da boca apareceu e tá até agora. sabe aquilo? como é que esse cara consegue ser tão sério e tão engraçado ao mesmo tempo?
essa lição de haicai tinha que entrar pros anais da história.
bjo

Alline disse...

O haicai me atrai. ;)

Mas não me atrevo. Beeeeeeijo

Mm`s disse...

Pô paulinho, tu nem prá comentar meu comentário!!
Tu tinhas que dizer óh! como vc consegue dizer tanta coisa em apenas 3 linhas, num autêntico haicai! Veja, tem natureza, tem kigo de primevera, algo meio nonsense e algo altamente e orientalmente filosófico! Além da métrica perfeita. E sem título! Como poeta sou uma ninja!
Mas esse teu post hein? Que cara de pau (ops! o assunto aqui é outro!): É, a chuva é tédio que a gente preenche com posts enormes e polêmicos. Como diz o manezinho, Tens tempo! Mas te cuida com os ninjas... se eu fosse tu, dava um tempo no sushi!
Teus haicais estão impagáveis! haicai fusion e nouvelle haicai é demais!
Adorei!
bj, Flávia

Paulo César Nascimento disse...

Flávia:

Ficou tão bom que eu precisei de mais tempo para pensar em um comentário. Fiquei meio indeciso quanto à estação do kigo, pois este ano está chovendo pra burro nas quatro estações. Tinha a referência explícita à primavera, mas eu pensei "E essa primavera de 2008 merece o nome?!" Eu sugiro um "ói" a mais no último verso: "Ói-Ói-ó". Além de ser mais manezinho, fecha a métrica das cinco sílabas poéticas (termina na sílaba tônica da última palavra). O "eu lírico" percebe a relatividade do tempo (climático e cronológico) e do espaço (aspectos transculturais) perante o tédio, o que resgata a Física Moderna: o tempo é função do movimento. É Einstein desafiando Kant! Soberbo!! (Consegui me reabilitar?) Bjs!!

Milu: obrigado pelos elogios! Eu ainda acho que "Anais da história" é nome de pornô de época. Ô palavrinha capciosa! rs. Bjs!

Alline: o meu atrevimento vem daquele papo de que as melhores maçãs ficam lá no alto e são pros atrevidos. Coisa de baixinho: Napoleão, Getúlio, Picasso, Alain Prost... todos atrevidos!
Bjs
Bjs

Mm`s disse...

Recuperadíssimo, Paulinho! E quase me matas de novo de tanto rir!
um beijo e bom domingo!
(e pq será que meu nome e link para o perfil lá em cima saiu "mm's"?

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: eu não faço a mínima idéia! Podem ser os ninjas grampeando o teu perfil... Ou o blogger achou que tu és um confeito de chocolate (a versão americana do confete).

Bjs

FlaM disse...

hahahaha
uma hora tu me explica o lance da métrica e da sílaba tônica da última palavra?
burriiiiinha...
bj, f

Crinha Leite disse...

Tenho até medo de tentar criar um, fazer besteira e ser atacada por um Matsumoto qualquer... :P

Adorei!

Beijocas! *

 
design by suckmylolly.com