quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pequenas batalhas domésticas III: na cozinha


Até quem mora sozinho enfrenta batalhas na cozinha, algumas delas para continuar nesta condição. Migalhas, frutas e restos de alimentos costumam atrair hóspedes indesejáveis, como baratas, formigas e mosquitinhos de banana. Assim sendo, gotas de mel, sucrilhos perdidos, migalhas de pão, copos e colheres sujos de achocolatado, caixas de pizza, tudo isto é convite para transformar seu apartamento em um mini-zoológico. Com exceção de peixinhos de aquário – perdoem-me os amantes de felinos e de cãezinhos de madame -, não considero viável a convivência com animais domésticos em espaço confinado. Da mesma maneira, vejo como inviável a criação de cabras, porcos e galinhas em casa. Já em um sítio ou fazenda, tudo bem – tudo é uma questão de espaço vital e condições de higiene. Caso você não tenha uma máquina de lavar louça, tenha preguiça ou falta de tempo para lavar os pratos e panelas logo após o uso, sempre pode recorrer ao truque de deixar um tanto de água e detergente sobre eles. Batalha fácil de vencer. Quando mais gente mora com você, outras aparecem.

A primeira batalha se dá entre o mais limpo e o mais sujo... ou melhor, entre o mais normal e o mais neurótico por limpeza... ou melhor, viu como a batalha já começa na hora de definir qual o costume certo e qual o errado? O grande problema é que aquele(a) com menor tolerância à sujeira acaba limpando o que o(a) outro(a) suja. Já vivi situações extremas ao morar em “república”, nos tempos de mestrado. Parei de lavar a louça suja pelos outros, passei a comer na rua e iniciou-se uma criação de baratas na cozinha – primeira e única vez em minha vida que vi seus filhotinhos. Tudo perfeitamente evitável, concorda?

A segunda batalha se dá quando alguém come a porção suposta ou concretamente de outra pessoa. Podem ser duas fatias de pizza, deixando apenas o bife seco de anteontem. Pode ser o iogurte de morango, a última colherada de brigadeiro de panela, a latinha de cerveja holandesa. Desatenção, provocação ou malandragem, geralmente esse tipo de conduta desperta uma fúria assassina e clama por vingança. Uma variante desta batalha é falta de reposição do que foi consumido. Lienad, da tribo dos Ehcepmac, cita um antigo provérbio chinês: “Quando uma soda acaba, outra vai para a geladeira!” Embora pareça algo básico, o mundo parece se dividir entre esvaziadores e repositores.

A terceira batalha envolve a maneira de cozinhar, quando a limpeza cabe ao não-cozinheiro. Frituras sujam a cozinha inteira, deixando o o piso escorregadio. Geralmente os pratos mais sofisticados exigem mais de uma panela, para que os diferentes tempos de cozimento sejam respeitados – isso se não for preciso utilizar o forno para gratinar. Já a culinária estudantil de sobrevivência envolve um mínimo de panelas. Exemplo: Macarronada à bolonhesa. Versão de restaurante: a) Faça um caldo básico de carne usando ossos e aparas, depois reserve (suja-se uma panela; se for reaproveitá-la no passo seguinte, inclua um pote para manter o caldo). b) Faça um molho de tomates, refogando primeiro as cebolas, depois os tomates já pelados e sem sementes e uma cenoura para tirar a acidez - pode ser substituída por um pouquinho de açúcar (suja-se uma panela, uma faca, uma tábua para cortar e, caso se utilize a cenoura, um liqüidificador). c) Frite a carne moída em porções pequenas, senão ela cozinhará no próprio suco em vez de fritar (suja-se uma frigideira e um pote para reservar a carne já frita). d) Cozinhe o macarrão (mais uma panela ou pote e o escorredor). e) Junte o molho de tomate, um pouco do caldo e a carne moída, deixando cozinhar um pouco para que os sabores se misturem. f) Em uma forma refratária, alterne camadas de macarrão escorrido, molho à bolonhesa e queijo parmesão ralado na hora, cobrindo com um pouco de mussarela também ralada, levando ao forno para gratinar (suja-se a forma e o ralador de queijo). Ah,convém deixar uma chaleira com água quente a postos para acertar o molho, se necessário. Logicamente, nos restaurantes eles preparam os molhos e caldos em grandes quantidades, congelando o que é possível. Além disso, você não imagina que o Jamie Oliver, o Claude Troigros ou mesmo a Ofélia lave a louça toda e depois limpe a cozinha, não é mesmo? Então o maridão cozinheiro resolve lhe impressionar e faz a macarronada à moda do restaurante, deixando tudo pra esposinha limpar. Romântico, não? Além dos pratos e talheres, as panelas, potes, forma refratária, liqüidificador, ralador, tábua e escorredor lhe esperam na pia – e o forno está sujo. Uma alternativa é o cozinheiro lavar os utensílios à medida que forem sujando, aí restarão apenas a forma, os pratos e talheres. A versão da culinária estudantil de sobrevivência é mais prática: a) Cozinhe o macarrão. b) Escorra o macarrão não completamente cozido através de uma fresta na tampa da panela. c) Despeje o conteúdo de uma lata de molho pronto à bolonhesa sobre o macarrão, mexendo tudo enquanto o molho aquece e o macarrão termina de cozinhar. Coloque nos pratos e despeje queijo ralado de pacote em cima. Bom apetite! O gosto é o mesmo? Claro que não, mas aí a batalha passa da cozinha para outras peças, fugindo do assunto desta postagem.

8 comentários:

Bel disse...

agradeço a Deus pelo meu visa-vale de 25 reau que me permite comer fora sempre que estou sem "assistência" em casa! hehehe

FlaM disse...

Lienad , o exemplo de repositor, está de "castigo", sem computador, pois não levanta o complexo esportivo do sofá nem para lavar uma colherinha! A matriarca que cozinhe, lave, enfrente a dupla jornada de trabalho e ainda pague uma faxina! Lienad parece ter um projeto em curso para tornarse um verdadeiro macho adulto branco no comando como tem sido o costume entre o povo Ehcepmac. Mas a matriarca, brava guerreira, porta voz da transformação social está enfrentando a fera (quando tem saco!), os filhos e as baratas!
Bj, querido (obrigada pelo "merchan")

FlaM disse...

ET: uma amiga do tempo de mestrado sempre contava o que para ela (e depois para mim) era a máxima da filosofia "Lavar louça, eu?" imperante nas repúblicas: um menino que comia e guardava o prato usado na geladeira, pra poder usar novamente depois...

Paulo César Nascimento disse...

Bel: visa-vale é a salvação da mulé moderna! ;-)

Flávia: ele tem que poupar energia para combater as tribos inimigas e caçar búfalos. Não é o caso? Ah, então ele que vá pentear macacos. rs

Beijos

Alline disse...

Outra receita: faça um miojo, que é rápido y prático, jogue uma ou duas salsichas dentro sem desprezar a água suja do molho. Voilà! Terás o macarrão mais bagaceiro do mundo, sujando apenas uma panela, e ainda contarás com as preciosas proteínas da salsicha... rs

Alline disse...

Ah, também não considero viável a convivência com pets em apartamento. Cem por cento apoiado!

Paulo César Nascimento disse...

Alline

Se um dia eu publicar um livro de receitas da culinária estudantil de sobrevivência, o miojo com salsichas será a ilustração de capa. Esse é um verdadeiro ícone!

Bjs

Rafael disse...

Há tempo não vistava!
Há tempo não alimentava o cérebro e o espírito! :~

Deste, devo dizer que enfrento esta batalha, aliás, todas as domésticas!
Eu e eu mesmo nos degladiamos diariamente para saber quem vai faxinar o apê, o banheiro, o quarto, a sala, a cozinha, lavar a louça, a roupa, etc... ô, desgraça! Mamãããe!!! hahaha

A culinária universitária, que para os homens se estende após a Colação de Grau, é extremamente negligenciada pelos profissionais da gastronomia.

Greve, já!

Não mais assistirei aos programas de culinária, desesperadamente à procura de receitas simples.
O "simples" que sempre vejo só são simples para minhas queridas avós, com mais de 50 anos de experiência na cozinha!!!

Simples = duas panelas e uma colher. (ponto)

Nada que utilize mais do que duas bocas do fogão pode ser caracterizado como simples.

Deixo aqui, um pedido desesperado por receitas verdadeiramente simples! =~~

Abraço, meu caro! :)

 
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