sábado, 29 de novembro de 2008

Batman e a telefonia no Brasil


Atribui-se ao General De Gaulle a frase "O Brasil não é um país sério", proferida em um incidente diplomático na chamada "Guerra da Lagosta", um conflito de interesses entre a nação brasileira e pesqueiros internacionais ao início da década de 60, quando o Brasil ampliou as fronteiras oceânicas de doze para duzentas milhas. Com a mudança na regulamentação da telefonia, muita grana vai caminhar para as mãos de quem já tinha demais, aumentando inclusive sua capacidade de corrupção ativa. O que são alguns milhões de propina para quem ganha bilhões, não é mesmo? Mas vou além: o ser humano não é uma espécie séria. Basta estudar um pouco de História e se vê que a corrupção, a ignorância e a má-fé sempre estiveram à frente de tudo. Um ou outro idealista foi martirizado e/ou ditou regras para os outros, mas tudo continua com a mesma sem-vergonhice, às vezes revestida em um véu de hipocrisia - "Não se trata de petróleo, mas de liberdade" - ou peladinha mesmo, como na propaganda que queimou o filme do Gérson para o resto da vida - "Eu gosto de levar vantagem em tudo".

No imaginário da rapazeada - ando menos junguiano e não vou falar em inconsciente coletivo - é que precisam brotar heróis para dar um certo alento, uma esperança de que um dia essa podridão vá mudar. Não vai, estas estratégias de dominação pela força ou pela astúcia são as formas que nós, humanos, criamos a partir do impulso mais animal da luta pela sobrevivência. Também não vai mudar a nossa necessidade de fantasiar com um mundo melhor. Quando se mata um herói, mesmo que seja nos quadrinhos, é preciso colocar outro no lugar. Às vezes é preciso ressuscitá-lo, como fizeram após o recorde de vendas do gibi " A morte do Super-homem" (pensaram que eu ia falar de Jesus, né?). Estou dizendo isso porque a Marvel já matou o Capitão América e a DC Comics pretende matar o Batman. Que matem o primeiro eu até entendo, ele não tem mais serventia, foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, enfrentando os nazistas. Além disso, já garantiram sua perenidade em diferentes "encarnações", como o herói Fantasma - são muitos que reassumem esta identidade. O que mais me dói é que antes matavam e ressuscitavam heróis - como Jesus (enganei vocês de novo) - em nome da esperança. Agora vão matar o Batman só por dinheiro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mudaram as estações


Essa idéia de quatro estações nunca me agradou muito, mas dizem por aí que faz bem para as plantas e os animais. Só gosto de primavera; o outono e o inverno eu acho apenas toleráveis. O outono é chuvoso demais, o inverno aumenta a fome, o sono e a preguiça. Acho o verão insuportável:
- um calor infernal esquentando o corpo e a cerveja;
- ventilador soprando uma brisa morna;
- gente mal-educada de férias, ouvindo corno-music no volume máximo;
- nuvens de pernilongos do fim da tarde ao amanhecer;
- milhares de turistas tornando tudo mais caro, lento e sujo;
- transpiramos mais e precisamos de mais banho, mas por causa dos turistas e da má administração, falta água e todos fedem mais;
- todo mundo, inclusive você, fica melecado de protetor solar, depois empanado na areia para assar melhor;
- tem o carnaval, que por si só já daria uma postagem inteira.

Tem quem goste, não vou discutir. Como já sei disso tudo, geralmente estou resignado quando o momento chega. Só que em 2008 as estações resolveram vir embaralhadas: quinze dias de primavera em junho, outono em outubro e novembro, com um toque de águas de março. Em vez de ir a Londres e Veneza, como gostaria, recebi no meu estado (SC) as chuvas da primeira e o alagamento da segunda. Mãe Natureza?! A natureza não quer nem saber! Quem quer saber somos nós... E nem todos.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Grito


Então gritei aquilo que sentia
A ver se desta vez eu escutava
E o eco devolveu o teu silêncio
De forte que era o amor feito palavra

domingo, 23 de novembro de 2008

Escravidão


Você sabia que:
- Há algumas espécies de formigas, como a Polyergus rufescens, que atacam formigueiros de outras espécies, roubam suas larvas e as criam como obreiras-escravas?
- Na antiguidade a escravidão era a opção à morte, no caso de prisioneiros de guerra?
- Também na antiguidade, vender-se como escravo era uma opção para pagar uma dívida?
- Na América, nas civilizações pré-colombianas, a condição de escravo poderia ser temporária, desde que se fosse capaz de saldar a dívida que gerou a escravidão?
- A prática da escravidão já era comum na África bem antes da colonização das Américas e que os escravos negros eram vendidos aos brancos por outros negros?
- A etimologia da palavra "escravo" se refere aos eslavos, povos do leste europeu, em função de terem sido escravizados pelos germanos e bizantinos na Idade Média?
- No Brasil a criminalização da escravidão e de suas condições análogas só se deu no século XX?

Agora que você já sabe disso tudo, voltarei à correção de trabalhos, relatórios e monografias, que - assim como a preparação de aulas, elaboração e correção de provas - são atividades remuneradas em fevereiro e julho com as horas-aula que excederem às de cursos e reuniões para os quais somos convocados. Ainda bem que a escravidão acabou! Já imaginou fazer tudo isso de graça?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Trava-línguas


Minha contribuição para a já consagrada brincadeira do trava-línguas, da tradição oral popular:

Repita três vezes, rapidamente: "O croquete é concreto e crocante."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Vamos estar incomodando..."


Talvez só deteste telemarketing mais do que eu o próprio operador, que é obrigado a chatear os outros todos os dias, com um supervisor pegando no pé. Assim que descobrem que você não é o maior pé-rapado da praça e que tem onde cair morto, começa o assédio: telefonemas diários oferecendo cartões de crédito e seguros, assinaturas de jornais, internet rápida, donativos para fundações e outras aporrinhações do mesmo calibre. Não bastasse o treinamento para assassinato da língua portuguesa com o já famoso “gerundismo”, estes agentes das trevas ainda recebem aulas de “Psicologia do Mal” (técnicas de vendas), aprendendo a explorar fraquezas alheias, tais como não saber dizer não, ser consumista, ter medo do futuro, etc. Felizmente já aprendi no curso de graduação em Psicologia (técnica do disco quebrado) e com minha experiência de vida a me livrar destes inconvenientes, mas mesmo assim é cansativo. Penso com meus botões: “Por que estes desgraçados não vão trabalhar com prostituição? Vender-se por se vender, pelo menos estariam dando prazer a alguém...” Quando toca o telefone:

- Bom dia, o senhor Paulo César Nascimento?
- Ele mesmo.
- Senhor Paulo, tudo bom com o senhor?
- Tudo.
- Que bom, senhor Paulo. O meu nome é Keitlyn, devido ao seu bom relacionamento com o comércio nós vamos estar apresentando uma proposta ao senhor. Para sua segurança, este telefonema vai estar sendo gravado, tudo bem, senhor Paulo?
- Olha moça, eu não tenho interesse em comprar nada não.
- Não se trata de venda, senhor Paulo. O senhor vai estar recebendo gratuitamente em sua residência o cartão COPERPUTA GOLD...
- Cartão o quê?
- O senhor ainda não conhece? A COPERPUTA é uma cooperativa de profissionais do sexo, agora conveniada às principais bandeiras de crédito, senhor Paulo. Com o COPERPUTA GOLD, além de poder realizar suas compras em até cinco vezes no cartão, o senhor ganha descontos em programas, motéis e na compra de preservativos, senhor Paulo. Além de todas estas vantagens, o senhor ganha 15% de desconto em atendimento médico no caso de acidentes sexuais...
- Acidentes sexuais?!
- Sim, senhor Paulo. Caso o senhor tenha hemorragia por ruptura do freio, doença de Peyronie, priapismo ou enganche o prepúcio em um aparelho ortodôntico, senhor Paulo, o COPERPUTA GOLD garante transporte sem custo adicional até a emergência do hospital mais próximo do local do acidente. Além disso, senhor Paulo, por uma taxa de apenas quinze reais mensais incluídos na fatura do cartão, o senhor pode estar adquirindo o nosso seguro especial contra Doenças Sexualmente Transmissíveis.
- Moça, desculpe, eu não tenho interesse...
- Mas senhor Paulo, além das vantagens já apresentadas, o senhor vai estar ganhando 20% de desconto nas massagens tailandesas, 10% de desconto em casas de swing e vai estar concorrendo todo mês a um sorteio de programa grátis com a profissional de sua preferência, senhor Paulo.
- Moça, me desculpe, eu prefiro o sexo amador, que custa mais caro, mas acho mais gratificante.
- Senhor Paulo, o senhor tem preconceito contra profissionais do sexo?
- Não foi isso que eu disse...
- Saiba, senhor Paulo, que a profissão é reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego sob o código 5198.
- Veja bem, eu não tenho nada contra...
- Senhor Paulo, é por causa de gente preconceituosa como o senhor que este país está do jeito que está! Passar bem, senhor Paulo! (desliga).
- ...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Curiosidade e exotismo


Adoro sorvete de chocolate, de todos os sabores que já provei é o meu favorito. Se tiver pedacinhos de chocolate, melhor ainda. Mesmo assim, jamais compreendi gente que entra em mega-sorveterias com milhares de sabores e pede de chocolate, morango ou creme. Ali está a oportunidade da sua vida para experimentar sorvete de kiwi, figo ao rum, cappuccino, cerveja, tamarindo ou outra coisa deste naipe, e você deixa passar?! Quando conheci Salvador, um dos bons momentos da viagem foi em uma sorveteria, a provar sabores de frutas do nordeste / norte. Não é uma questão de paladar, é uma atitude perante a vida. Claro que há vezes em que você sabe que é melhor não arriscar, se já tiver pistas anteriores neste sentido. Jamais provaria uma pizza de sardinha com leite condensado, por exemplo. Com substâncias psicoativas, também não brinco, pois os riscos não compensam. Se um dia eu for à China, provavelmente terei mais nojo da falta de higiene nas barraquinhas do que propriamente de experimentar escorpiões, larvas e ouriços do mar. Se forem ruins, no primeiro bocado eu já saberei, aí basta cuspir fora (longe da barraquinha, para não comprar briga) e nunca mais comer daquilo, mas vai que sejam bons? Isso é motivo de brincadeiras na minha família: uma de minhas irmãs, quando me visita, pergunta se há na minha geladeira comida de gente normal ou só patê de avestruz com trufas e suco de melancia com abóbora. Minha outra irmã, semana passada, guardou para mim um picolé de milho-verde que veio em uma caixa de sabores sortidos, dizendo: “Esse aí, só o Paulinho vai querer.”

Na música, também aprecio fazer incursões por universos paralelos. Não quer dizer que vá gostar só por ser diferente ou esquisito - aliás, em outros idiomas, como o espanhol, “esquisito” quer dizer algo de boa qualidade. Há vezes em que a bola bate na trave: certos experimentalismos não batem com o meu gosto. Adoro o trabalho do Pat Metheny, por exemplo, mas acho o disco “Zero Tolerance for Silence” impossível de se ouvir. Não gostei de um disco que comprei para conhecer o trabalho da Meredith Monk e só tive oportunidade de rever minha opinião este ano, ao conhecer a Last.fm. Tive nela a oportunidade de provar novos estilos, descobrir coisas de que gostei, outras que não caíram bem. Ouvi compositores de música erudita, como Schoenberg, Bartók e Stravinsky, bem como o punk-cigano do Gogol Bordello. Fui apresentado ao Indie-rock e descobri algumas bandas interessantes, como Death Cab for Cutie. Gosto de música étnica, mas preferencialmente a de raiz e não as versões “diluídas” para estrangeiros. Isso não significa que não goste de Paralamas do Sucesso ou de Bob Marley. O mundo é vasto, a vida é curta e tudo isso é informação. Adoro documentários, enciclopédias, livrarias, bibliotecas e a internet, que hoje em dia reúne isso tudo. A conclusão é de que sou um grande curioso, propenso a desvendar enigmas e segredos e, sobretudo, viciado em informação.

sábado, 15 de novembro de 2008

Não espalhe, é segredo!


A auto-ajuda é um grande filão do mercado editorial e livreiro. Por um lado, faz pessoas que não lêem outras coisas abrirem um livro, o que é um bom começo. Porém, chega uma hora que mensagens de otimismo e outras pieguices, além de promessas de sucesso absoluto, começam a ficar repetitivas. Aí você pensa que essa onda vai passar e ela volta com força total. Fosse somente o apelo dos charlatães habituais, nem seria preocupante, mas começam a surgir pessoas com credibilidade em algumas disciplinas científicas, como a Física e a Biologia, a dar palpite em áreas que não conhecem bem, a extrapolar conclusões válidas em um contexto bastante restrito para contextos muito mais amplos, coisas que o rigor científico não permitiria. O verdadeiro poder do otimismo e do pensamento positivo foi avaliado pelo Psicólogo canadense Albert Bandura, da Stanford University, a partir do conceito de auto-eficácia. Seus estudos forneceram indícios de que ter crenças que suportem um sentimento de autoconfiança aumenta a probabilidade de superar obstáculos na busca de seus objetivos. Daí a dizer que basta acreditar de verdade que você os alcançará há uma distorção imensa.

Sempre fui um apreciador de esportes e lembro-me de duas situações em que ficaram muito claros os limites deste tipo de magia contemporânea. Na primeira delas, deve ter sido um dos primeiros Ultimate Fighting Championship, um dos lutadores disse que iria vencer a luta, pois ele e seu Psicólogo já haviam programado todos os aspectos de sua vitória em sua mente. Agora era apenas executar a programação. O problema é que eles se esqueceram de programar o adversário para perder. Em poucos segundos o “programado” estava estatelado no chão, desacordado e um tanto machucado. Talvez isso acabe com os meus planos de ir para o purgatório, mas eu ri um bocado da situação. Na segunda, um famoso mago da auto-ajuda foi contratado para dar suporte à seleção de seu país em uma modalidade esportiva (não vou citar nomes, porque não acredito em “programar” que ele não me processe, mas para bom entendedor, me__ pa__ ba__). Foram a uma importante competição e foi obtido um brilhante sexto lugar (o país em questão já havia sido campeão e viria a ser campeão novamente, sem as tais palestras motivacionais). Perguntado sobre o fracasso, veio com um “Pois é, as equipes adversárias estavam muito bem preparadas!” Ora, qualquer bebê de creche percebe que a vida envolve adversários complicados e competição, nem que seja pela atenção da professora. Também envolve cooperação, obstáculos a superar e riscos. É justamente por isso que vender esperança dá tanto dinheiro. Este é o verdadeiro segredo, que os espertos conhecem há tempo: aproveitar as dificuldades dos outros e vender fórmulas de sucesso aos aflitos. Os que são ainda mais espertos prometem os resultados apenas para depois da morte.

Resumo da ópera: melhor ser otimista e autoconfiante, porque daí você ainda leva alguma chance. Mas garantia, que é bom, não existe nenhuma.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A resposta dos peixinhos


Atirei mil limões n´água
De pesado que era o mundo
E os peixinhos responderam
- Que amargura aqui no fundo!

Atirei um irmão n´água
Mergulhado num segundo
E os peixinhos responderam
- Ele volta furibundo!

Atirei o alemão n´água
Desprezado, moribundo
E os peixinhos responderam
- Vai trabalhar, vagabundo!

Atirei um limão n´água
De pesado, foi ao fundo
E os peixinhos responderam
- Joga o açúcar e a cachaça!

Nisso é que dá confiar a rima final a peixinhos pinguços...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O que Protógenes não aprendeu com Jesus


Jesus nos legou dois grandes ensinamentos, um através de suas palavras, outro através de seu destino:

1) O amor a Deus e ao próximo está acima da lei dos homens;
2) Quem mexe com os poderosos de seu tempo acaba desacreditado, humilhado e morto.

No Brasil existem quatro poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e Econômico, não necessariamente nessa ordem. O resto eu deixo nas entrelinhas.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre a vida, a morte e o pênalti


Sempre tive dificuldade em despedir-me de pessoas queridas e acho a morte uma brincadeira de mau gosto do acaso, de Deus, da natureza ou de quem quer que a tenha inventado. Talvez o grande mal da humanidade seja a consciência, pois permite que antecipemos nosso próprio fim como imagem ou representação. Sabemos que iremos morrer e que, antes ou depois de nós, todos os que amamos também. Enquanto conceito isto é até suportável, mas a consciência plena da própria finitude é muito pesada. Só a tive uma vez, quando despertei no meio da noite sabendo de corpo e alma que este “eu” que conheço tinha prazo de validade. As religiões estão aí, cobrando ingresso em dinheiro ou em sacrifícios para um além que nem sabemos se existe. Foi um alívio temporário descobrir no Budismo, aos dezoito anos, a chave contra o sofrimento das separações, provisórias e definitivas: bastaria desenvolver o desapego. Eu, que àquelas alturas já era faixa marrom em racionalização, achei ótimo: para a preta seria apenas mais um exame. Não demorou muito, um filme recolocou as coisas na sua devida dimensão: The Hit, dirigido por Stephen Frears. A tradução do título não soa instigante em outros idiomas, então foram feitas adaptações ou acréscimos, como “o traidor” (Brasil), “Vendetta” (Itália), “Der Profikiller” (Alemanha), “La venganza” (Espanha). Em inglês, hitman é assassino profissional, matador, então o título seria aproximadamente “o abate”, mas pareceria coisa de frigorífico. Além da magnífica trilha sonora do Paco de Lucia, a idéia do filme também faz cair o queixo. Alerto que contarei o final, pois este não é um blog para promover filmes, mas para falar da vida em seus aspectos trágicos, cômicos e poéticos.

Willie Parker (Terence Stamp) é um ex-membro do crime organizado que se tornou informante e passou a viver escondido em um vilarejo na Espanha. Apesar de participar de um serviço de proteção à testemunha, sabe que está marcado para morrer. Chegam até ele um matador veterano e seu aprendiz: Braddock (John Hurt) e Myron (Tim Roth). Estes têm a missão de levá-lo a Paris com o fim de que seja identificado pelo mandante, depois morto. Porém, o seqüestro não sai muito como planejado, pois são perseguidos por um astuto policial (Fernando Rey) e carregam peso extra (Laura Del Sol). Parker, ciente da sua perspectiva de morte, passou seus dias a se preparar para este momento, estudando filosofias e religiões. Com o maior ar blasé, debocha de Braddock e das atrapalhações no processo, em uma guerra de nervos bastante interessante, tentando sabotar o seqüestro e se livrar. Tem sangue-frio para isto, dado o seu preparo para lidar com a morte. Porém, antes de chegarem a Paris, Braddock resolve antecipar “the hit” propriamente dito. No momento final, quando não há mais volta, Parker se desestrutura, choraminga e implora por não ser morto naquele instante, mas o matador conclui o seu trabalho.

Moral da história: a vida e a morte são como uma cobrança de pênalti. Na hora da verdade, mesmo com todas as teorias do mundo ao seu dispor, tudo se limita a você, a bola, o goleiro e o gol. Aí, meu amigo, haja “nelvos”.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dúvida ortográfico-espiritual


O certo é "Todo mundo vem de Deus" ou "Todo mundo vende Deus"?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sobre perdas, entrega e manteiga


O Último Tango em Paris foi um filme que a censura custou a liberar para exibição no Brasil. Eram outros tempos, com menos liberdade e mais ideais. O motivo da censura eram as cenas de sexo, praticado em modalidades não consideradas ortodoxas pelos padrões da moral vigente. Se você não assistiu ao filme, aviso que contarei o final. Pare aqui se tem planos de vê-lo. Não é um filme cor-de-rosa, nem água com açúcar. Para quem pretende ver sexo pura e simplesmente, não recomendo. Hoje em dia se vê coisas mais explícitas em qualquer canal de TV por assinatura em plena tarde. Para quem quer saber dos detalhes técnicos, aqui há uma boa sinopse / ficha técnica para quem lê em inglês, acolá uma não tão boa em português. A trilha sonora também vale à pena, para quem é amante do jazz. Mas vamos ao que interessa:

Paul (Marlon Brando) é um americano residente em Paris, recém-viúvo após o suicídio da esposa. Ao procurar um apartamento para alugar, conhece Jeanne (Maria Schneider), uma jovem prestes a se casar. Após terem sexo casual, combinam novos encontros naquele mesmo local, que Paul aluga para este fim. Passam a realizar uma série de jogos sexuais sob uma regra determinada por ele: sem nomes. Nada de trazer a vida particular para aquele ambiente. Ela se submete, embora tente por vezes subverter a regra, principalmente quando passa a se sentir envolvida. O sexo é gratuito, ousado e por vezes brutal. A cena que marcou época foi um sexo anal com manteiga como lubrificante. Não que no Brasil não se praticasse este tipo de coisa, seja com manteiga, vaselina ou azeite de dendê (não havia lubrificantes à base de água e os preservativos não eram vendidos em supermercados). O que não se podia era falar sobre o assunto, então ver uma jovem ser besuntada por um coroa em plena tela do cinema era um grito de liberdade. Mas foi aí que se perdeu o que de melhor o filme tinha a oferecer. Enquanto Paul tenta superar o luto da esposa através do sexo impessoal, Jeanne vê na entrega àquele homem misterioso a saída para a previsibilidade e banalidade de seu cotidiano. Ela se apaixona, ele resiste; ela tenta quebrar as regras, personalizar o relacionamento, ele desaparece. Após a ruptura e afastamento, ele completa o luto e ela retorna à sua realidade, ao noivado, à segurança. Aí o que em Paul era desejo sexual transforma-se em necessidade de amor, contato, proximidade. Ele próprio quebra a regra e decide se revelar, declarar-se, entrar definitiva e integralmente na vida de Jeanne. Ela, porém, não tem mais disponibilidade afetiva. Em cenas de alto teor dramático, Paul segue Jeanne da casa de Tango onde conversavam até a residência da moça, expondo sua paixão de modo intenso. Porém, para suportar a intensidade de um(a) apaixonado(a), só outro(a) – o que não é mais o caso. Jeanne se apavora e mata Paul, alegando legítima defesa: era um estranho que a importunou e ameaçou.

Um filme forte sobre perdas, luto, entrega, paixão e medo. Porém, na geral e na arquibancada é aquele filme estranho em que o Marlon Brando sodomiza uma mocinha com manteiga. Foi assim que “O Último Tango em Paris” entrou para os anais (não resisti ao trocadilho) da história cinematográfica. Aí, para não passar por alienígena quando alguém comenta, o jeito é armar uma cara de tarado, fazer uma piadinha sobre manteiga e dizer que a moça era gostosa. Mas há vezes em que a indignação é maior do que a preguiça...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Você conhece bem o português?


Assinale a alternativa correta com base nas orações abaixo, baseando-se no uso adequado da palavra TAMPOUCO:

I - Manoel, vem cá à cabina e traze-me outro traje de banho, que este não tampouco direito.
II - Ó Maria, eu gostava que trouxeras mais tremoços, que tampouco no prato.
III - Não entendo duplo sentido, tampouco acho graça em piadas étnicas.

a) I, II e III estão corretas.
b) I e II estão corretas, somente.
c) Apenas II está correta.
d) Apenas III está politicamente correta.
e) I, II e III estão incorretas.

sábado, 1 de novembro de 2008

Por que não compro os clássicos


Antes de tudo, esclareço que não me refiro apenas aos textos da Antiguidade Clássica (de Homero à queda do Império Romano do Ocidente), mas às obras que sobreviveram às suas respectivas épocas, tornando-se pontos de referência. Em segundo lugar, não estou afirmando que os clássicos não devam ser lidos – defendo exatamente o oposto. Explico aqui o motivo de ler estas obras emprestadas das bibliotecas ou baixadas da internet: os autores já morreram há tempo e as obras se tornaram de domínio público, então o seu download não configura pirataria. Por esta mesma razão as editoras podem livremente publicar estes textos, indicando apenas a autoria, sem pagar direitos autorais a nenhum descendente do falecido autor - e olhe que se trata de apenas dez por cento do preço de capa. Quando optam por publicar os clássicos, as editoras deixam de apostar em autores novos, vivos e necessitados de dinheiro para prosseguirem escrevendo. Clássicos significam vendas garantidas, pois os autores e obras já foram testados no mercado, são marcas fortes, não cobram direitos autorais nem enchem a paciência da equipe editorial. Além disso, são compras certas para um segmento importante do mercado: as bibliotecas públicas. Como se não bastasse, Professores de Literatura tipicamente ensinam suas matérias baseados nos clássicos, uma vez que os caminhos já estão mais bem pavimentados: há muitos livros com análises prêt-à-porter. Acho que para desenvolver o gosto pela leitura, esta escolha é equivocada. Eu proporia o inverso: primeiro ler autores contemporâneos, com linguagem e universo mais reconhecíveis pelos leitores iniciantes. Quem pegar gosto pela leitura, certamente buscará mais. Se eu tivesse migrado dos quadrinhos para os livros começando pelo José de Alencar e não pelo Fernando Sabino, provavelmente não seria o ávido leitor de hoje, tampouco escritor. Como podem ver pelo “tampouco”, os cronistas não me afastaram dos demais ficcionistas, nem de leituras acadêmicas. Lanço a campanha: leia os clássicos de graça e economize para comprar livros de autores vivos, preferencialmente os ainda não consagrados. Fernando Pessoa, Miguel de Cervantes e Florbela Espanca não tiveram o gostinho do sucesso, nem do dinheiro. Mesmo fora da Literatura há exemplos como o de Marx, que também não o teve. Seu sucesso póstumo só beneficiou a editores e livreiros - além dos leitores, é claro. Não será agora que irão se importar em terem suas obras lidas de graça.

Lembrando: não é pirataria! Os textos são de domínio público e uma das páginas para download é do próprio Governo Federal! Divulgue o endereço: http://www.dominiopublico.gov.br

 
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