sábado, 15 de novembro de 2008

Não espalhe, é segredo!


A auto-ajuda é um grande filão do mercado editorial e livreiro. Por um lado, faz pessoas que não lêem outras coisas abrirem um livro, o que é um bom começo. Porém, chega uma hora que mensagens de otimismo e outras pieguices, além de promessas de sucesso absoluto, começam a ficar repetitivas. Aí você pensa que essa onda vai passar e ela volta com força total. Fosse somente o apelo dos charlatães habituais, nem seria preocupante, mas começam a surgir pessoas com credibilidade em algumas disciplinas científicas, como a Física e a Biologia, a dar palpite em áreas que não conhecem bem, a extrapolar conclusões válidas em um contexto bastante restrito para contextos muito mais amplos, coisas que o rigor científico não permitiria. O verdadeiro poder do otimismo e do pensamento positivo foi avaliado pelo Psicólogo canadense Albert Bandura, da Stanford University, a partir do conceito de auto-eficácia. Seus estudos forneceram indícios de que ter crenças que suportem um sentimento de autoconfiança aumenta a probabilidade de superar obstáculos na busca de seus objetivos. Daí a dizer que basta acreditar de verdade que você os alcançará há uma distorção imensa.

Sempre fui um apreciador de esportes e lembro-me de duas situações em que ficaram muito claros os limites deste tipo de magia contemporânea. Na primeira delas, deve ter sido um dos primeiros Ultimate Fighting Championship, um dos lutadores disse que iria vencer a luta, pois ele e seu Psicólogo já haviam programado todos os aspectos de sua vitória em sua mente. Agora era apenas executar a programação. O problema é que eles se esqueceram de programar o adversário para perder. Em poucos segundos o “programado” estava estatelado no chão, desacordado e um tanto machucado. Talvez isso acabe com os meus planos de ir para o purgatório, mas eu ri um bocado da situação. Na segunda, um famoso mago da auto-ajuda foi contratado para dar suporte à seleção de seu país em uma modalidade esportiva (não vou citar nomes, porque não acredito em “programar” que ele não me processe, mas para bom entendedor, me__ pa__ ba__). Foram a uma importante competição e foi obtido um brilhante sexto lugar (o país em questão já havia sido campeão e viria a ser campeão novamente, sem as tais palestras motivacionais). Perguntado sobre o fracasso, veio com um “Pois é, as equipes adversárias estavam muito bem preparadas!” Ora, qualquer bebê de creche percebe que a vida envolve adversários complicados e competição, nem que seja pela atenção da professora. Também envolve cooperação, obstáculos a superar e riscos. É justamente por isso que vender esperança dá tanto dinheiro. Este é o verdadeiro segredo, que os espertos conhecem há tempo: aproveitar as dificuldades dos outros e vender fórmulas de sucesso aos aflitos. Os que são ainda mais espertos prometem os resultados apenas para depois da morte.

Resumo da ópera: melhor ser otimista e autoconfiante, porque daí você ainda leva alguma chance. Mas garantia, que é bom, não existe nenhuma.

14 comentários:

FlaM disse...

A dificuldade é se manter programado como "otimista e auto-confiante", né?

Sally Somir disse...

Eu acho livro de auto-ajuda uma modalidade de estelionato: o estelionato intelectual.

Para ajudar a construir autoconfiança e otimismo saudáveis, um trabalho mais profundo e profissional deve ser feito, por uma pessoa competente para tal. Confiança e determinação tem que andar de mãos dadas com o bom senso e a responsabilidade.

Gente idiota com excesso de confiança é pior do que um macaco com uma navalha nas mãos.

Odeio essa psicologia barata e acho um desprestígio com os profissionais da área. Só faltava essa, querer resolver os problemas da sua vida com um livro!

Sally
www.corporativismofeminino.com

FlaM disse...

Cara, tchê, pô!
mas tem livros que (auto) ajudam pra caramba! O que teria sido de minha adolescência sem Manuel Bandeira?
A propósito, vc já viu isso?:
http://palavrasquecaminham.blogspot.com/2008/05/auto-ajuda-livro-de-auto-ajuda-nunca.html

A gente tem uma certa sincronicidade desfusorada...
bj, bom domingo (tava tão legal ontem!)

Paulo César Nascimento disse...

Sally: concordamos, então.
Bjs

Flávia: uma coisa é você se "auto-ajudar" lendo poesia, outra coisa é você se "auto-atrapalhar" lendo auto-ajuda. Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, todos infelizes e geniais! Nada de sorrisinhos, ternos importados e "programações".
Bjs

FlaM disse...

Ah Paulinho! deixa de ser chato! claro que eu sei disso!
Que bobo!
beijo carinhoso da sua esposa criadora de caso,
Flávia

milu leite disse...

alguém já leu um livro de auto-ajuda bem escrito? desconheço. pra mim, o problema já começa aí!
bjo

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: eu sei que você sabe (não é aquela letra do Vinícius). :P
Não vamos criar caso aqui, afinal eu nem faço papa de risoto de funghi... rs. Já pensou o trauma pra nossa filha Ginny? Bjs

Milu: se fosse mal escrito e ajudasse mesmo, seria apenas metade de um problema - se é que dá pra cortá-los ao meio. Quem sabe nós dois não escrevemos um livro de auto-atrapalhação? Eu tenho material suficiente pra escrevê-lo sozinho, de tantas trapalhadas que já fiz, mas juntos podemos nos atrapalhar ainda mais. :-)
Beijos!!

FlaM disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Bel disse...

Detesto livro de auto-ajuda!

Sem mais,

Bel

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Auto-ajuda é subestimar a inteligência alheia, certo?
Beijocas,

Tetsuo disse...

Hi paulinho!
Essa indústria da Auto Ajuda me faz lembrar de um velho ditado:"enquanto existir burro São Jorge não anda a pé". O pior é que por causa da impunidade, liberalismo e outros fatores que estão aniquilando uma parcela considerável da população produtiva da população brasileira, por meio da criminalidade, consumo de drogas, etc., muitos pais, imaginam que a desgraça que acomete suas famílias é por culpa inteiramente deles e se transformam facilmente em presas consumistas para este tipo de mercado.
Por falar em Drogas, a revista VEJA desta semana saiu com duas reportagens principais sobre este assunto:
> http://veja.abril.com.br/191108/p_114.shtml
> http://veja.abril.com.br/191108/p_084.shtml
O artigo sobre Crack é mesmo de assustar!
Abração

Paulo César Nascimento disse...

Bel: eu já imaginava, mas ter certeza é melhor. :-)
Bjs

N.S.A.R.B.: olha, pelo tanto que vende, acho que somos nós que superestimamos a inteligência alheia... Bjs

Tetsuo: concordo, existem fatores ideológicos envolvidos. Obrigado pelos links. Abraços

Raphael Rocha Lopes disse...

Caros amigos... vocês não estão entendendo: o livro é de auto-ajuda pra quem o escreve. Dá uma auto-ajuda fenomenal no bolso deles.

Abraços.

Raphael
www.bacafa.blogspot.com

Paulo César Nascimento disse...

Raphael: você está coberto de razão! Vou adicionar seu blog à minha lista, se me permite. Abraços

 
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