quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sobre perdas, entrega e manteiga


O Último Tango em Paris foi um filme que a censura custou a liberar para exibição no Brasil. Eram outros tempos, com menos liberdade e mais ideais. O motivo da censura eram as cenas de sexo, praticado em modalidades não consideradas ortodoxas pelos padrões da moral vigente. Se você não assistiu ao filme, aviso que contarei o final. Pare aqui se tem planos de vê-lo. Não é um filme cor-de-rosa, nem água com açúcar. Para quem pretende ver sexo pura e simplesmente, não recomendo. Hoje em dia se vê coisas mais explícitas em qualquer canal de TV por assinatura em plena tarde. Para quem quer saber dos detalhes técnicos, aqui há uma boa sinopse / ficha técnica para quem lê em inglês, acolá uma não tão boa em português. A trilha sonora também vale à pena, para quem é amante do jazz. Mas vamos ao que interessa:

Paul (Marlon Brando) é um americano residente em Paris, recém-viúvo após o suicídio da esposa. Ao procurar um apartamento para alugar, conhece Jeanne (Maria Schneider), uma jovem prestes a se casar. Após terem sexo casual, combinam novos encontros naquele mesmo local, que Paul aluga para este fim. Passam a realizar uma série de jogos sexuais sob uma regra determinada por ele: sem nomes. Nada de trazer a vida particular para aquele ambiente. Ela se submete, embora tente por vezes subverter a regra, principalmente quando passa a se sentir envolvida. O sexo é gratuito, ousado e por vezes brutal. A cena que marcou época foi um sexo anal com manteiga como lubrificante. Não que no Brasil não se praticasse este tipo de coisa, seja com manteiga, vaselina ou azeite de dendê (não havia lubrificantes à base de água e os preservativos não eram vendidos em supermercados). O que não se podia era falar sobre o assunto, então ver uma jovem ser besuntada por um coroa em plena tela do cinema era um grito de liberdade. Mas foi aí que se perdeu o que de melhor o filme tinha a oferecer. Enquanto Paul tenta superar o luto da esposa através do sexo impessoal, Jeanne vê na entrega àquele homem misterioso a saída para a previsibilidade e banalidade de seu cotidiano. Ela se apaixona, ele resiste; ela tenta quebrar as regras, personalizar o relacionamento, ele desaparece. Após a ruptura e afastamento, ele completa o luto e ela retorna à sua realidade, ao noivado, à segurança. Aí o que em Paul era desejo sexual transforma-se em necessidade de amor, contato, proximidade. Ele próprio quebra a regra e decide se revelar, declarar-se, entrar definitiva e integralmente na vida de Jeanne. Ela, porém, não tem mais disponibilidade afetiva. Em cenas de alto teor dramático, Paul segue Jeanne da casa de Tango onde conversavam até a residência da moça, expondo sua paixão de modo intenso. Porém, para suportar a intensidade de um(a) apaixonado(a), só outro(a) – o que não é mais o caso. Jeanne se apavora e mata Paul, alegando legítima defesa: era um estranho que a importunou e ameaçou.

Um filme forte sobre perdas, luto, entrega, paixão e medo. Porém, na geral e na arquibancada é aquele filme estranho em que o Marlon Brando sodomiza uma mocinha com manteiga. Foi assim que “O Último Tango em Paris” entrou para os anais (não resisti ao trocadilho) da história cinematográfica. Aí, para não passar por alienígena quando alguém comenta, o jeito é armar uma cara de tarado, fazer uma piadinha sobre manteiga e dizer que a moça era gostosa. Mas há vezes em que a indignação é maior do que a preguiça...

4 comentários:

FlaM disse...

na minha infância e adolescência na praia de Atlântida, fazíamos frente a um certo tédio enfrentando a paupérrima programação dos cinemas de Atlântida e Capão da Canoa. Cedendo à nossa insistência, minha mãe levava filhos e sobrinhos. Era a única adulta nesse programa. E algumas vezes acabou constrangida coma algumas cenas impróprias para menores. Então ela criou seu próprio sistema de censura: Tem cenas de lareira? Então não levo! Depois surgiram as cenas de banheira. Também não podia.
O último tango em Paris inaugurou um novo critério: as cenas de manteiga...
bj, f

milu leite disse...

na minha fora da casinhice, agravada pela ingenuidade de menina, eu demorei pra entender por que falavam tanto dessa manteiga. até que um amigo, impaciante, me disse:...
bom, não vou falar o que ele disse, mas posso dizer que no meio da explicação tive que pedir outra explicação: o que que é "crau"?

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: se já houvesse Planeta Atlântida em nossa meninice, garanto que o número de critérios aumentaria significativamente. Bjs


"Crau" não é o aportuguesamento de "crawl", um estilo de nado? :P
O pai pergunta à filha: "o que o seu namorado faz com você no seu quarto a essa hora"? Ela responde: "nada, papai!" É o nado "crau".
Bjs

blogpaedia disse...

Acho que anos depois, passada a fase da estupefação com o escândalo sexual, ainda mais que atualmente nada mais é escândalo, o filme se presta a outras leituras. Não é por acaso que em novembro de 2008 um blog revisite o assunto. Como também vou fazê-lo, estava a procurar material e me deparei com esta bela sinopse, que contém algumas pós-leituras que eu buscava.

 
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