domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre a vida, a morte e o pênalti


Sempre tive dificuldade em despedir-me de pessoas queridas e acho a morte uma brincadeira de mau gosto do acaso, de Deus, da natureza ou de quem quer que a tenha inventado. Talvez o grande mal da humanidade seja a consciência, pois permite que antecipemos nosso próprio fim como imagem ou representação. Sabemos que iremos morrer e que, antes ou depois de nós, todos os que amamos também. Enquanto conceito isto é até suportável, mas a consciência plena da própria finitude é muito pesada. Só a tive uma vez, quando despertei no meio da noite sabendo de corpo e alma que este “eu” que conheço tinha prazo de validade. As religiões estão aí, cobrando ingresso em dinheiro ou em sacrifícios para um além que nem sabemos se existe. Foi um alívio temporário descobrir no Budismo, aos dezoito anos, a chave contra o sofrimento das separações, provisórias e definitivas: bastaria desenvolver o desapego. Eu, que àquelas alturas já era faixa marrom em racionalização, achei ótimo: para a preta seria apenas mais um exame. Não demorou muito, um filme recolocou as coisas na sua devida dimensão: The Hit, dirigido por Stephen Frears. A tradução do título não soa instigante em outros idiomas, então foram feitas adaptações ou acréscimos, como “o traidor” (Brasil), “Vendetta” (Itália), “Der Profikiller” (Alemanha), “La venganza” (Espanha). Em inglês, hitman é assassino profissional, matador, então o título seria aproximadamente “o abate”, mas pareceria coisa de frigorífico. Além da magnífica trilha sonora do Paco de Lucia, a idéia do filme também faz cair o queixo. Alerto que contarei o final, pois este não é um blog para promover filmes, mas para falar da vida em seus aspectos trágicos, cômicos e poéticos.

Willie Parker (Terence Stamp) é um ex-membro do crime organizado que se tornou informante e passou a viver escondido em um vilarejo na Espanha. Apesar de participar de um serviço de proteção à testemunha, sabe que está marcado para morrer. Chegam até ele um matador veterano e seu aprendiz: Braddock (John Hurt) e Myron (Tim Roth). Estes têm a missão de levá-lo a Paris com o fim de que seja identificado pelo mandante, depois morto. Porém, o seqüestro não sai muito como planejado, pois são perseguidos por um astuto policial (Fernando Rey) e carregam peso extra (Laura Del Sol). Parker, ciente da sua perspectiva de morte, passou seus dias a se preparar para este momento, estudando filosofias e religiões. Com o maior ar blasé, debocha de Braddock e das atrapalhações no processo, em uma guerra de nervos bastante interessante, tentando sabotar o seqüestro e se livrar. Tem sangue-frio para isto, dado o seu preparo para lidar com a morte. Porém, antes de chegarem a Paris, Braddock resolve antecipar “the hit” propriamente dito. No momento final, quando não há mais volta, Parker se desestrutura, choraminga e implora por não ser morto naquele instante, mas o matador conclui o seu trabalho.

Moral da história: a vida e a morte são como uma cobrança de pênalti. Na hora da verdade, mesmo com todas as teorias do mundo ao seu dispor, tudo se limita a você, a bola, o goleiro e o gol. Aí, meu amigo, haja “nelvos”.

8 comentários:

Alline disse...

O mesmo aconteceu no final da segunda temporada do pop The Tudors: quando Ana Bolena estava prestes a ser decapitada e se dizia conformada com a situação (como assim?), el degolador se atrasou e tiveram que suspender o happening. A mulher caiu em si e surtou. E aí, como ir embora deste mundo quando tudo está rolando? Coisa de louco!

milu leite disse...

cara, eu assisti esse filme mas não me lembrava de nada!
mas a teoria do pênalti me fez lembrar do título de um filme muito bacana: "o medo do goleiro diante do pênalti."
bjo

Paulo César Nascimento disse...

Alline: esse eu não vi, mas a idéia é semelhante. O que tem de diferente é que ela só estava meio conformada, mas ele estava com ar de quem está no comando, o mais tranqüilo (ainda com trema, mas sem tremer) dentro do carro. Eu me surpreendi. Bjs

Milu: cineastas e roteiristas geralmente não jogam bola... Se jogassem, saberiam que o temor do goleiro é o frango em jogada normal, como o que estragou a carreira do Barbosa em 1950 (teve até um curta com o Antônio Fagundes), pênalti é a glória do goleiro. A responsabilidade é TODA do atacante, pois tomar gol de pênalti não é vergonha nenhuma, perder pênalti é. Se trocassem o goleiro pelo atacante, seria um título genial. É por isso que eu pesquiso, entrevisto ou faço laboratório antes de escrever sobre um tema "estrangeiro". Bjs

milu leite disse...

querido, vamos deixar esse pragmatismo de molho um pouco?
os medos são insondáveis...
já não me lembrava direito da história do filme, então tive que fazer a tal pesquisa pra te responder.
aí vai: O medo do goleiro diante do pênalti:
Sinopse: Baseado no romance hom�nimo de Peter Handke, conta a est�ria de Joseph Bloch, um goleiro que � substituido durante um jogo em Viena por perder um p�nalti, e resolve sair com uma atendente de cinema. Durante a noite, sem motivo aparente, ele a mata, e continua a viver sua vida, esperando que a pol�cia se aproxime.
copiei e colei a sinopse.
acrescento que o filme é de 72 e foi dirigido pelo win wenders. me lembrava apenas de que tinha gostado dele.
acho que pra falar de regra de futebol, precisa saber, mas pra falar de medos, não.
se vc pensar que o pênalti dá a todo goleiro a chance de virar herói, a perspectiva do medo é outra, não acha?
bjo

Paulo César Nascimento disse...

Milu, na ficção é possível criar elefantes que voam, crianças que falam com mortos e tudo o que o Barão de Munchausen puder imaginar, inclusive ele próprio. Mas existe um acordo tácito entre o autor e leitor/espectador quanto à natureza da obra. Se ele se propõe a uma obra fantástica, valem orks, duendes e o capeta. Eu aceito um anjo apaixonado por uma mortal (e pela vida,em outras palavras) em "Asas do desejo", mas bato pé: na vida real, goleiro algum é substituído por não defender um pênalti. Inclusive, só quem "perde" pênalti é o cobrador, na terminologia futebolística. E os medos, fobias e demais estados ansiosos são sondáveis, ou não haveria tratamentos. :P
A realidade não precisa ser verossímil, a ficção precisa, exceto no realismo fantástico. Nessa aí vamos discordar, independente do filme ser bom. Isso sem entrar na inconsistência do homicídio sem motivo... Bjs

milu leite disse...

bom... essa discussão tá surreal!
eu não me lembro do filme, vc nem viu...
mas continuo achando que um goleiro pode ter sim medo diante do pênalti e que há medos que se sobrepõem a outros.
talvez seja essa a vantagem de ser sempre eu a pessoa que deita no divã!
não tenho que buscar tratamento pra nada.
bjim

Paulo César Nascimento disse...

Milu: viva o surrealismo! Viva a "Veja Uva"! Beijos!

FlaM disse...

E eu acabei de ver elefantes voando lá fora! (da casinha)
E outro dia tinha um macaco com uma banana aqui na sala...

 
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