terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Que venha 2009


Há muito tempo não me aconteciam tantas coisas interessantes como em 2008. Obviamente, estas coisas não "aconteceram" simplesmente, mas foram plantadas e regadas nos anos anteriores. Só que tem ano que não colhemos absolutamente nada do que plantamos, nem encontramos tesouros no jardim. Recebi homenagens no trabalho, passei em um concurso disputadíssimo, conheci parte da Europa ao receber um prêmio literário, fiz novas amizades (reais e virtuais), criei um blog que tem me dado muito prazer, curti muito os sobrinhos que vieram dar uma renovada na família, toquei e cantei muito no grupo da casa da Tita, sem falar em assuntos que um cavalheiro não comenta.

Houve perdas também, mas estas eu prefiro deixar na intimidade, com exceção de uma: a morte do escritor Fausto Wolff. Estou lendo "À mão esquerda", seu premiado romance de tom autobiográfico, como forma de honrar sua memória e me divertir ao mesmo tempo. Pra quem não conhece, Fausto Wolff (Faustin von Wolffenbüttel) foi um jornalista e escritor, gaúcho de Santo Ângelo, colaborador do Pasquim nos tempos da ditadura. Segundo seu alter-ego Nataniel Jebão, um bêbado, jogador e comunista. Trocamos alguns e-mails em 2007, depois passei a acompanhar apenas sua coluna no Jornal do Brasil e no jornal virtual O Lobo. Foi um sujeito com amigos muito leais e inimigos declarados, não era do tipo que tentava agradar a todo mundo. Fez muitas bobagens na vida, leu muito, bebeu como poucos, conheceu muitas mulheres (no sentido bíblico), o que torna sua biografia muito interessante. Escreveu um livro que está na parte dos "não-emprestáveis" da minha estante: "A milésima segunda noite". Já que nunca o convidaram para ir a Paraty, podemos pelo menos fazer uma homenagem póstuma lendo seus livros. Eu recomendo. Encerro com um poema do Fausto, abrindo uma exceção no blog:

"Se é uma palavra suicida
Não fora, seria a vida
Só em sua toca, ela, o destino, aguarda o chamado
Depois ataca
Com um sorriso
Ou uma faca" (F.W.)

domingo, 28 de dezembro de 2008

A grama do vizinho


No filme “O náufrago”, o protagonista precisou criar um amigo imaginário para diminuir sua solidão e manter a saúde mental. Já o navegador Amyr Klink, casado e pai de três filhas, volta e meia parte mar adentro sozinho. No filme “Eu”, Marcelo - a personagem de Tarcísio Meira - é um sujeito vaidoso que traça todo mundo por não poder ter a filha Berenice, até que joga o tabu do incesto pro alto e traça a filha também. Aí você pensa que o sujeito vai sossegar e ele começa a flertar com outra mulher em uma festa, mesmo em companhia da Berenice. Este preâmbulo é para ilustrar a questão do desejo, que faz com que a grama do vizinho pareça sempre mais verde. O náufrago solitário querendo companhia, o Klink gregário querendo solidão, o Marcelo querendo todas as belas mulheres do mundo, todos apontam para a mesma direção: desejamos aquilo que nos falta. A psicanálise lacaniana vai falar da falta como algo constitutivo, uma nostalgia irremediável de uma sensação de plenitude experimentada no gôzo da primeira mamada. A psicologia analítica junguiana vai remeter essa falta à carência da sensação de plenitude proporcionada pela imagem de Deus. Eu, particularmente, entendo como um motor: se nada lhe faltar, você fica estagnado. Aquelas crianças que são estragadas pelos parentes, recebendo tudo que desejam o tempo inteiro, acabam paralisadas. Ou pior, vão desejar aquilo que é proibido – drogas, crime, sexo com o motorista ou o traficante – para poderem desejar, sentirem-se vivas.

Há alguns motivos para a grama do vizinho parecer mais verde:
a) Ela é do vizinho, portanto não é sua: ao lhe faltar, preenche um dos requisitos fundamentais do desejo;
b) Ela é do vizinho, portanto está próxima: assim você a vê sempre, reafirmando o desejo;
c) Quem cuida dela é o vizinho: então você pode imaginar ter o bônus de uma grama bem verdinha, sem ter, no entanto, o ônus de regá-la, apará-la e fertilizá-la, de arrancar ervas daninhas e protegê-la do excesso de sol;
d) Ela é mais verde de fato: por sorte, por mérito ou por ambos os fatores, o vizinho foi contemplado com grama de qualidade superior à sua. Os mais nobres de espírito tentarão melhorar a qualidade de sua própria grama, mas muita gente vai mesmo é jogar sal grosso no terreno ao lado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sonho de uma noite de verão


Não sei se foi o almoço em família ou ter lido o livro "Budapeste" (Chico Buarque) de cabo a rabo, ou ainda ter saído com um camarada para comer comida mexicana, beber cerveja com limão e sal e filosofar no botequim. O fato é que esqueci completamente de postar ontem e, de quebra, tive um sonho surreal: eu estava jogando no Flamengo em uma partida contra o Vasco em um campo sem torcida. As escalações não eram exatamente as atuais. Meu primeiro lance foi a cobrança de um escanteio pela lateral direita, onde estava jogando. Cobrei com o pé esquerdo (sou ambidestro) e o Romário - mais jovem e jogando pelo Flamengo - marcou de cabeça. Fui cumprimentá-lo e ele pediu para eu segurar o jogo. Sobrou uma bola pra mim e eu rifei para a intermediária do Vasco, que devolveu e o Edmundo (no Vasco) deu um toque estranho, fazendo um gol meio sem querer. O Fábio Luciano ficou bravo comigo e passou a me boicotar no jogo, cobrando um lateral nas minhas costas quando eu subia sozinho pela ala direita. Mesmo assim, sobrou uma bola que eu lancei no pé do nosso atacante, lá na ponta esquerda. Acho que era o Diego Tardelli ou o Leonardo Moura jogando invertido. Ele escorregou na hora de concluir e o Obina perdeu. Aí eu falei pro Fábio Luciano: "Tá vendo, eu dei a bola no pé dele, deixei na cara do gol!" A vantagem do empate era do Vasco. O árbitro Renato Marsiglia encerrou o jogo antes do tempo e fui até ele conversar. Reclamei sem me exaltar e ele concordou que tinha terminado o jogo antes, mas pediu para eu não comentar. Disse que tinha sido um bom jogo e eu concordei, acordando em seguida.

É isso, leitores e leitoras. Enquanto gente normal sonha que está comendo a Angelina Jolie, que está de pijamas no trabalho ou que vai chegar atrasado em uma prova, eu sonho estas coisas. Nas férias se agrava.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Natal que a gente inventa


Existe polêmica acerca da existência de Jesus, uma vez que as fontes históricas que a confirmem são escassas, restringindo-se a poucos comentários de Tácito e de Flávio Josefo, historiadores romano e judeu, respectivamente. Porém, devido à não contestação por parte dos opositores do cristianismo em suas origens, a maioria dos historiadores aceita que tenha vivido na Palestina no século I. Acredita-se que tenha nascido aproximadamente no ano 5 antes de Cristo (sim, houve um ajuste de calendário posterior que promoveu esta bizarrice). Alguns dizem que se envolveu com a seita dos Zelotes, que eram contestadores políticos, outros que era da seita dos Essênios, que realizavam curas, mas o estilo de vida que aparece nos Evangelhos não parece dar muita sustentação a essas teorias. Entre o cristianismo ser perseguido e ser adotado como religião oficial do Império Romano, muita coisa aconteceu. Diferentes seitas cristãs proliferaram, sustentando concepções diferentes acerca das naturezas humana e divina de Jesus Cristo. Com o ganho de poder dos Padres da Igreja, o Concílio de Nicéia definiu uma doutrina oficial e relegou as concepções divergentes à categoria de heresias. Ficou aí estabelecido que Jesus é um homem-Deus, devendo ser adorado, cultuado, e não apenas seguido como uma espécie de profeta ou mestre espiritual. A celebração do Natal iniciou-se no século IV no Ocidente, dando-se no dia 25 de dezembro, enquanto no Oriente passou a ser realizada no dia 6 ou 7 de janeiro, iniciando-se a comemoração no século V, em virtude da não-aceitação do calendário Gregoriano. A escolha do dia 25 de dezembro se deu para cristianizar uma celebração pagã do solstício de inverno, a festa de nascimento do Deus Sol Invencível.

Papai Noel, ou Pai Natal, é uma personagem inspirada em São Nicolau de Mira, um arcebispo piedoso nascido na Turquia, o qual ajudava anonimamente os necessitados (século IV). Sua imagem foi adaptada, modificada com o passar dos anos, até se tornar o conhecido bom velhinho, morador da Lapônia em algumas versões, do Pólo Norte em outras , percorrendo os céus em um trenó voador puxado por renas, distribuindo presentes pelas chaminés (século XIX). A Coca-cola consolidou a imagem por nós tão conhecida, um senhor gordo e bonachão vestido de vermelho e branco, em uma campanha publicitária de 1931, associando-o às cores da marca. Juntando-se a generosidade de São Nicolau com os presentes que os três Reis Magos trouxeram ao Menino Jesus em seu nascimento, temos o costume de trocar presentes na data, coisa que o comércio e a indústria tiveram o maior prazer em incentivar.

Você deve estar pensando: então esta tradição pode ter sido inventada? Respondo: Sim, como todas as outras tradições. Independente de Jesus ter existido, ser mesmo Deus ou de ser possível o Papai Noel entregar presentes a quem não tem chaminé, não é disso que se trata. Se for preciso inventarmos ou reinventarmos isso tudo para que possamos nos reunir com as pessoas que de fato importam em nossas vidas, celebrar a esperança em algum tipo de renovação e a fé na generosidade de uns poucos humanos, viver as pequenas alegrias e até mesmo algumas bobagens, como a vovó puxando uma quinta oração quando todos já estão loucos para comer, o tio bêbado fazendo discurso, os primos se revendo e contando histórias madrugada adentro, os netos abrindo os presentes com os olhinhos brilhando, os cartões de amigos que só entram em contato no Natal, tudo isso já vale o ingresso. O Natal a gente inventa, como a vida. O mundo é cinzento, se você não buscar cores com as quais pintá-lo. Inventem um Feliz Natal para vocês, amigos e amigas, é este o meu desejo. Agora vou inventar o meu.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Topada


Com o desejo
Na intensidade
De uma topada
Contemplo mudo
Tua cidade
Já sitiada

Topo o ensejo
Da liberdade
Assim desfrutada
E não me iludo
Sinceridade
É só jogada

Quando te vejo
Na intimidade
Arrebatada
Eu topo tudo
toda verdade
No tudo ou nada

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Da Terra à Lua


Hoje acordei meio resfriado e saudosista. Não sabia bem o motivo, mas pensei em escrever sobre Júlio Verne (Jules Gabriel Verne, 1828-1905) não fazer parte do imaginário da molecada atual, uma vez que a tecnologia já concretizou muito de sua ficção científica, como o submarino, por exemplo. "Viagem ao centro da Terra", "Vinte mil léguas submarinas", "Volta ao mundo em 80 dias", "Da Terra à Lua", "Viagens extraordinárias", obras que ispiraram filmes, desenhos animados e até viagens musicais, hoje em dia nem a gurizada mais nerd conhece. Não que falte fantasia, há os universos de Tolkien, dos vampiros, de Jornada nas Estrelas, de Guerra nas Estrelas e do Harry Potter para ajudar a encantar um mundo já tão desencantado. Interrompi a idéia de escrever sobre Júlio Verne ao descobrir porque isso tinha vindo à minha mente: hoje é aniversário da Claudinha, minha prima aproximadamente um ano mais nova que eu. Quando tínhamos entre cinco e sete anos, já gostávamos de imaginar como seria legal se os telefones mostrassem também a imagem das pessoas, se pudéssemos passar na TV os filmes que passavam no cinema na hora que desejássemos, se cada pessoa pudesse ter seu próprio telefone e andar sempre com ele, enfim, essas coisas impossíveis que só existem na imaginação das crianças e de adultos visionários. É também aniversário da Carolina, uma grande amiga, colega dos tempos de faculdade, sabedora de muitas de minhas venturas e desventuras. Atualmente mora a poucos passos da minha residência e nossas agendas descombinadas só permitiram uma visita este ano. Eu tenho a terrível capacidade de lembrar do aniversário de todo mundo um dia depois, aí mando algum tipo de recado envergonhado e recebo uma resposta polida de que está tudo bem. Não fosse o orkut, amigos e conhecidos jamais seriam parabenizados em tempo hábil. Já amarrei barbante no dedo e coloquei bilhetes pela casa, mas se eu não telefonar hoje, espero que a Claudinha e a Carol pensem em algo que as traga ao blog, como eu lembrei de Júlio Verne, e me perdoem por sempre vaguear "Da Terra à Lua".

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Encantos e desencantos


Rita Hayworth foi casada cinco vezes e não foi feliz no amor. Segundo ela: "A maioria dos homens se apaixona por Gilda, mas acorda comigo". A gente fica pensando que esses símbolos sexuais reclamam de barriga cheia, mas deve ser complicado ser o parque de diversões dos outros em sua vida privada. Na vida pública não, se entretenimento é o ramo da figura. Porém, não só os ídolos vivem esse tipo de situação: pode ser que o cabra vire pra você, mulher, e diga que sempre sonhou em transar com uma dançarina do ventre, ou com uma repórter meteorológica. Pode ser que a mulher vire pra você e diga: você parece o Beckham, tenho o maior tesão nele. Se isso for um "plus a mais", como dizem alguns jogadores de futebol, tudo bem, mas cá pra nós, queremos é ser amados na nossa totalidade, não? Se vocês não querem, problema (ou sorte) de vocês. Eu quero.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Momento mecenas


Sabendo da dificuldade que os poetas marginais brasileiros encontram para publicar seus trabalhos, promovi este final de semana o "I Concurso Internacional de Poesia Escatológica", aberto a escritores de qualquer nacionalidade residentes no meu apartamento. O vencedor, conforme o edital afixado no mural do meu escritório, terá seu poema publicado no meu blog, junto com uma análise literária do presidente da comissão (eu mesmo). Como prêmios adicionais, ganhará uma casquinha de sorvete misto de chocolate e baunilha no fast-food de sua preferência, um copinho de água mineral sem gás e um vale-livro no valor de 50 reais.

Poema vencedor:

"A verdade sobre a verdade" (Paulo César Nascimento - Brasil)

A verdade está na cara
Como uma freada brusca
Em uma calcinha clara

Análise: o autor rompe corajosamente com as tendências estéticas modernistas, bem como com a ausência de paradigmas no pós-modernismo, retomando a métrica e a rima como forma de ironia perante os falsos moralismos e os verdadeiros preconceitos. Lança um protesto filosófico diante da metafísica, tendo sua obra um forte caráter existencial, com pitadas de zen-budismo. Nota-se em seu trabalho a presença forte da mulher na contemporaneidade (calcinha clara), bem como as tentativas masculinas (frustradas) de compreender um universo essencialmente simbólico a partir de uma perspectiva semiótica. Com extraordinário poder de síntese, o autor apresenta a verdade fundamental da poesia escatológica: a merda é uma merda é uma merda. (P.C.N.)

Agora vocês me dão licença, que eu vou descontar meu vale-livro.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O poder da maquiagem


Com maquiagem: Uma rara iguaria de sabor delicado.
Sem maquiagem: Uma comida cara com gosto de nada.

Com maquiagem: Examinaremos seu currículo e entraremos em contato.
Sem maquiagem: Não encha o saco, você não nos interessa.

Com maquiagem: No momento eu estou saindo de um relacionamento e não quero me envolver.
Sem maquiagem: Você não me interessou o suficiente.

Com maquiagem: Isso que vossa excelência diz são inverdades.
Sem maquiagem: Seu mentiroso filho de uma puta!

Com maquiagem: Minha mulher é doente, tenho que contar a ela no melhor momento.
Sem maquiagem: Não pretendo largar minha mulher, estou só me divertindo com você.

Com maquiagem: O que eu tenho? Nada!
Sem maquiagem: Estou furiosa com você. Prepare-se!

Com maquiagem: Estou bem assim, sozinha e feliz, com tempo pra mim.
Sem maquiagem: Encalhada é a sua avó!

Com maquiagem: No meu governo, saúde e educação serão prioridades!
Sem maquiagem: Eu quero é me arrumar!

Com maquiagem: Ainda não achei um trabalho à altura de minhas qualificações.
Sem maquiagem: Sou vagabundo e quero que papai me sustente enquanto puder.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Manifesto antinatureba


Vivemos em um planeta com outros humanos, cercados de animais, vegetais e minerais, e isso qualquer pessoa minimamente escolarizada sabe. Precisamos preservar o meio ambiente e promover desenvolvimento sustentável, senão vamos pro brejo. Isso já não é todo mundo que sabe, mas pelo menos a escola tenta ensinar. A água potável, o ar puro, os alimentos e as fontes de energia, do modo como estão sendo utilizados, logo serão escassos, um verdadeiro problema se não agirmos de modo eficaz. Porém, isso é cuidado com a ecologia, não tem nada a ver com o que aqui chamo de naturebismo.

O naturebismo é a crença de que a natureza é sábia, generosa e perfeita, portanto o ser humano deve viver no estado mais natural possível. Isso é de uma tremenda ingenuidade, para não dizer coisa pior. Essa natureza boazinha e harmônica dos naturebas não passa de uma fantasia romântica. Na natureza de verdade o leopardo parte o pescoço do antílope, as hienas cercam filhotes de leão e os matam, os leões eliminam as crias vivas de fêmeas recém conquistadas. O forte mata o fraco, os fracos se unem para matar o forte. Há sempre cooperação e competição mescladas, é a luta pela sobrevivência do indivíduo e da espécie. Ninguém quer morrer ou se tornar comida de seus predadores, nem mesmo uma cenoura, que produz naturalmente substâncias que são prejudiciais à saúde de certos insetos. Enquanto uma cenoura conseguir lutar, não será comida. Claro que para um coelho ou um humano a cenoura não causa mal significativo, então podemos comê-la sem medo. Vá fazer isso com um baiacu (o fugu japonês) pra ver o que lhe acontece: morte em razão de uma neurotoxina que ele produz como defesa. Quanto a ser sábia, como seus erros desaparecem, fica a impressão de que não ocorreram. Bezerros de duas cabeças, fetos anencefálicos, tudo isso perece em estado natural - e em alguns casos, nem com intervenção humana se salva – e acaba sendo comido, sumindo do mapa. Com relação a ser generosa, melhor nem falar nas catástrofes naturais, como erupções vulcânicas, terremotos e vendavais - se eu falasse nas enchentes, um natureba convicto diria que estas são efeito da ação daninha do homem sobre a vegetação. Finalmente, quanto a ser perfeita, o conceito é muito vago para ser útil. O que é a perfeição, afinal de contas? O problema é tratar a natureza como se fosse um ser humano (antropomorfização), a mãe natureza, quando não é disso que se trata. Mas o que é a natureza - e, por conseqüência, o natural?

Há várias acepções para este termo: a) natural em oposição ao sobrenatural, ou seja, aquilo que é parte do mundo sensível e o que é parte de um universo espiritual, invisível (ex.: árvore X fantasma); b) natural em oposição ao artificial, ou seja, o que permanece em seu estado original em oposição àquilo que passou pelas mãos de um artífice e foi transformado (água da fonte X vinho); c) natural em oposição a sintético, ou seja, o que é elaborado a partir de um material já estruturado em seus elementos constituintes na natureza versus o que é sintetizado “em laboratório” (ex: calcinha de algodão X calcinha de nylon). A discussão sobre naturebismo não envolve a primeira das acepções, mas uma confusão entre as duas outras.

Naturebas acham que maconha não faz mal porque é uma erva, portanto natural. Argumento bobo, veneno de cascavel também é natural e mata. Além disso, a maconha é natural no sentido “c”, mas não no sentido “b”, uma vez que precisa ser seca e depois queimada para liberar seu princípio ativo. A menos que tenha ocorrido um incêndio em uma plantação, enrolar um baseado é ação de um artífice sobre a natureza. Nesse sentido, baseados não são naturais.

Naturebas acham que chás são remédios menos nocivos ao organismo porque são derivados de ervas, portanto naturais. Outra bobagem, o que faz uma substância ser nociva ou não são os princípios ativos que ela comporta e suas dosagens. Uma substância pode fazer ou não efeito sobre um organismo. Se o faz, pode causar tanto benefícios quanto malefícios, dependendo principalmente da dosagem. As principais diferenças entre chás e remédios alopáticos são duas: a) no chá há várias substâncias em dosagens desconhecidas, já no remédio há princípios ativos e um veículo em dosagens conhecidas, o que faz com que no segundo caso você saiba precisamente o que está sendo ingerido; b) no remédio a concentração do princípio ativo costuma ser maior, portanto o efeito também o é, para bem e para mal. Finalmente, ambos passam por artífices, então o chá só é mais natural no sentido “c”.

Naturebas comem sanduíche natural. Bom, pão integral tem mais fibras, salada faz bem pra saúde (desde que os vegetais sejam bem lavados), ricota tem menos sódio e colesterol que queijo amarelo. Porém, nunca vi um pé de sanduíche por aí. Frango e peru não são mais naturais que porco ou vaca. Melhor chamar de sanduíche saudável, porque de natural ele não tem muita coisa.

Gonorréia é natural, penicilina é artificial. Varíola é natural, a vacina é artificial. Água encanada, fogo, roda, eletricidade, radinho de pilha, anestésicos, analgésicos, elevadores, computadores, nada disso existia nas cavernas. É óbvio que a matéria-prima para tudo está na natureza e que os recursos naturais devem ser utilizados de maneira responsável e consciente. O chato é ver seu filho adolescente virando crudívoro em função do argumento de que na natureza as coisas estão cruas. Na natureza nós morremos de dengue hemorrágica e nosso banheiro é a moita. Temos berne, sarna, piolhos e bicho-do-pé. A National Geographic não me engana mais: na natureza há pernilongos, muitos, gigantes! Vou buscar meu repelente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma vida mais taoísta


Pois é, pessoal, saiu a minha nomeação para o cargo de Psicólogo do Tribunal de Justiça. Comecei ontem minha maratona de filas e espera para pegar a documentação necessária. O tempo para desenvolver as postagens ficou mais curtinho, principalmente porque meu carro foi pra revisão e ficará pronto daqui a pouco. Idéias não faltaram, pois andar de ônibus e ficar em filas sempre me traz matéria-prima para escrever. O que faltou foi fôlego pra desenvolvê-las de um jeito interessante, mas já estão anotadas para postagens futuras. Vou fazer então uma postagem "umbiguista" e curtinha.

Hoje um rapaz se levantou para me oferecer lugar no ônibus. Foi a primeira vez que isso me aconteceu na vida, então é um marco cronológico, como a primeira vez que me chamaram de senhor. Sabem o que eu fiz? Aceitei. Retribuí na volta do Centro carregando no colo a mochila de uma jovem. Decididamente uma nova fase está começando. Não sei se a vida começa aos quarenta, como afirma o ditado, mas a minha promete melhorar um bocado. Agora vocês me dêem licença, que vou buscar o meu carro. Florianópolis é inviável para pedestres.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Aumente seu pênis


A vida dá muitas voltas, às vezes giros de 360 graus, que lhe deixam tonto e no mesmo lugar de antes. Não foi esse o caso de Tiquinho, alcunha recebida ainda na adolescência em função de uma desvantagem anatômica. Traumatizado por uma vida de humilhações, passou a evitar os vestiários masculinos, banheiros públicos e as mulheres. É sabido que estas últimas consomem tempo e energia, o que sobrou a Tiquinho para se tornar um gênio da informática e das finanças. Grande investidor, logo obteve uma pequena fortuna, adquiriu uma camionete importada de cabine dupla e saiu dando fechadas nas pessoas de carros menos possantes, como é costume entre os deficientes penianos. Comprou todas as bugigangas eletrônicas disponíveis no mercado, viajou o mundo, mas não era feliz. Tentou todos os tratamentos para o seu problema: cremes, pílulas, ervas, técnicas orientais, aparelhos de tração, bombas de vácuo, cirurgias, mas nada foi eficaz, até que descobriu a técnica revolucionária do Dr. Heinrich Schwartz.

Após o implante de células-tronco de cavalo, Tiquinho viu seu membro adquirir proporções eqüinas. Seu apelido mudou para Ticão, perdeu a timidez com as mulheres, mas nem tudo saiu como o previsto. Passou a ter dificuldade para comprar roupas e não conseguiu mais ir à praia sem atrair olhares – não de admiração, como pretendia, mas de curiosidade, como uma aberração – e as parceiras recusavam a penetração devido ao comprimento e grossura de seu membro. Para poder ter sexo, partiu para o cinema pornô. Porém, poucas eram as atrizes que aceitavam contracenar com ele, restringindo bastante o que aceitavam fazer em cena. Sua vida mudou quando foi convidado para um filme de sexo bizarro. Conheceu Mimosa, uma vaquinha Nelore que hoje mora com ele em um sítio. Vivem de renda, longe de olhares humanos, e Ticão hoje é um homem feliz: está certo de que ela o ama pelo que ele verdadeiramente é.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Novo Homem


Bateu na mesa e gritou para a mulher:
"Quem manda nessa porra é você!"
Levantou-se e foi lavar louça.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Prisioneiro da bobagem


No último mês, o campus onde trabalho recebeu os agentes prisionais aprovados no último concurso. Eram muitos para a infra-estrutura da academia de polícia, então parte do treinamento está sendo realizada aqui na universidade. A mulherada do campus amou a idéia, pois temos aqui uma espécie de "desequilíbrio ecológico" provocado pelos cursos de Enfermagem e Psicologia: muita mulher pra pouco homem. No entanto, em meio àquela macharada encontram-se agentes mulheres, algumas até bem jeitosinhas. Invariavelmente, quando passo por elas, uma piadinha infame se monta automaticamente em minha cabeça: "Amor, nosso relacionamento não está dando certo! Eu me sinto muito preso!"


Resta saber se eu fiquei bobo por assistir muita comédia na TV ou é o inverso.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Toda pessoa é um pacote


Certamente você já ouviu falar em pacotes turísticos: por um valor estipulado, você segue um roteiro pré-definido, hospeda-se em hotéis pré-selecionados e tem uma rotina pré-programada. O “pré”, embora signifique “antes”, no fundo quer dizer que alguém já definiu isso tudo em seu lugar. Você aceita o pacote completo porque é mais cômodo e barato. Às vezes há algum espaço para você personalizar sua viagem, mas é pequeno. Por outro lado, se você quiser algo bem do “seu jeito”, terá que desembolsar mais dinheiro, correr mais riscos e passar mais trabalho. Na indústria automobilística, os pacotes também existem: cada modelo tem seus itens de fábrica, bem como os opcionais - que dão espaço à personalização. Se vier de fábrica algum item que você considere supérfluo, não há como removê-lo. Estamos falando de serviços e produtos, que envolvem então uma relação comercial na qual se procura agradar o freguês o máximo possível. No entanto, nas relações humanas (inclusive as amorosas), esbarramos na mesma situação, com o agravante da menor flexibilidade: toda pessoa é um pacote.

Você é o lugar onde nasceu, a educação que teve, as pessoas de quem gosta (ou desgosta), o que estudou, no que trabalha, onde vive, com o que seu organismo é compatível ou não, suas preferências (artísticas, culinárias, sexuais, políticas...), seus relacionamentos passados, seus sonhos e fantasias, sua aparência e por aí vai. Ninguém é brasileiro, argentino ou alemão impunemente. Pai alcoolista, mãe bipolar, irmão suicida, cunhado estelionatário, filho mimado, avô vascaíno, ex-marido soropositivo, cão Bichon Frisé, afilhado traficante, asma brônquica, hipertensão arterial, intolerância à lactose, chefe workaholic, herpes genital, espancamentos, chifres, horas extras, mau hálito, quinze gatos de rua, porcelanas da bisavó, rinite alérgica, mania de limpeza, fanatismo por futebol, adorar pagode, gostar do BBB, tudo isso pode estar incluído. Pai carinhoso, mãe inteligente, irmão divertido, cunhado prestativo, avô flamenguista, ex-marido rico, cão Labrador, afilhado atleta, curvas de violão, abdome de tanquinho, estômago de avestruz, trabalho saudável, química sexual, ter sido amado(a), boas recordações, cabelos sedosos, pele macia, bons livros, talentos da bisavó, um bom sistema imunológico, hábitos de higiene normais, um hobby, saber dançar e gostar de jazz também. Nesses tempos de internet, pode fazer parte do pacote ter a vida estruturada em uma cidade distante da sua.

O que acontece nos relacionamentos? Cada pacote vai se desembrulhando lentamente, em camadas concêntricas como uma cebola. Você imagina que possa trazer o(a) outro(a) pro seu pacote com apenas alguns dos itens do pacote alheio selecionados. Grande engano. Os dois pacotes se unirão inteiros em um pacote maior. É aí que o bicho pega, pois pode haver itens incompatíveis entre os pacotes e então começa a batalha: o quê pode ser modificado e o quê deve ser relevado mediante esforços hercúleos de paciência e tolerância? Sartre já dizia que “O Inferno são os outros”, só se esqueceu de dizer que o Céu também. Sem isso, não haveria literatura, novelas e cinema por pura falta de enredo. Nem vida, tampouco.

 
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