domingo, 28 de dezembro de 2008

A grama do vizinho


No filme “O náufrago”, o protagonista precisou criar um amigo imaginário para diminuir sua solidão e manter a saúde mental. Já o navegador Amyr Klink, casado e pai de três filhas, volta e meia parte mar adentro sozinho. No filme “Eu”, Marcelo - a personagem de Tarcísio Meira - é um sujeito vaidoso que traça todo mundo por não poder ter a filha Berenice, até que joga o tabu do incesto pro alto e traça a filha também. Aí você pensa que o sujeito vai sossegar e ele começa a flertar com outra mulher em uma festa, mesmo em companhia da Berenice. Este preâmbulo é para ilustrar a questão do desejo, que faz com que a grama do vizinho pareça sempre mais verde. O náufrago solitário querendo companhia, o Klink gregário querendo solidão, o Marcelo querendo todas as belas mulheres do mundo, todos apontam para a mesma direção: desejamos aquilo que nos falta. A psicanálise lacaniana vai falar da falta como algo constitutivo, uma nostalgia irremediável de uma sensação de plenitude experimentada no gôzo da primeira mamada. A psicologia analítica junguiana vai remeter essa falta à carência da sensação de plenitude proporcionada pela imagem de Deus. Eu, particularmente, entendo como um motor: se nada lhe faltar, você fica estagnado. Aquelas crianças que são estragadas pelos parentes, recebendo tudo que desejam o tempo inteiro, acabam paralisadas. Ou pior, vão desejar aquilo que é proibido – drogas, crime, sexo com o motorista ou o traficante – para poderem desejar, sentirem-se vivas.

Há alguns motivos para a grama do vizinho parecer mais verde:
a) Ela é do vizinho, portanto não é sua: ao lhe faltar, preenche um dos requisitos fundamentais do desejo;
b) Ela é do vizinho, portanto está próxima: assim você a vê sempre, reafirmando o desejo;
c) Quem cuida dela é o vizinho: então você pode imaginar ter o bônus de uma grama bem verdinha, sem ter, no entanto, o ônus de regá-la, apará-la e fertilizá-la, de arrancar ervas daninhas e protegê-la do excesso de sol;
d) Ela é mais verde de fato: por sorte, por mérito ou por ambos os fatores, o vizinho foi contemplado com grama de qualidade superior à sua. Os mais nobres de espírito tentarão melhorar a qualidade de sua própria grama, mas muita gente vai mesmo é jogar sal grosso no terreno ao lado.

9 comentários:

Sally disse...

Não tem nada de "filosofia de botequim" nessa postagem! Pode mudar o marcador, porque você disse coisas muito profundas, ainda que de uma forma muito clara e simples (o que é um mérito maior ainda)

O desejo existe para ser desejado...

FlaM disse...

Ah então é isso?? ƒoram meus parentes que me estragaram?!
KKKKKKKKKKKKK

FlaM disse...

e) vc é um ruminante irremediável: gosta mesmo de uma graminha verde!

Paulo César Nascimento disse...

Sally: o lugar onde eu penso e falo as coisas mais sérias é o botequim. Lá a verdade é servida "cowboy", na sala de aula eu tenho que colocar umas pedras de gêlo, senão arranha a garganta do pessoal. Bjs

Flávia: não, foi o cozinheiro que estragou o risoto ao funghi. Pelo visto, só vou comer um decente em 2009, né?
Já dizia o Vitor Ramil: "Pintei de verde a grama em dia claro / de um verde forte e falso e vivo e raro / que seja a grama brutal / se eu quero a cena ideal"
Bjs

Gil.son disse...

Caro Paulo Cesar,
Estava navegando em Blogs e achei o seu. Parabéns pois é muito interessante. Peço permissão para colocar um de seus textos no meu Blog. Claro que com os devidos créditos e um link pra cá.
Até mais!

Paulo César Nascimento disse...

Gil.son: muito obrigado! Pode colocar o texto no seu blog, com os créditos e o link. Muito louvável a sua atitude ao pedir permissão. :-)
Abraço!

milu leite disse...

posso saber por que sexo com o motorista é "coisa errada?"

Paulo César Nascimento disse...

Milu: tenho a impressão de que você pode, o motorista vai gostar da idéia. :P
Mas eu não disse errada, disse proibida. Não acho que sejam exatamente a mesma coisa.
Bjs

milu leite disse...

hahaha. é, vi que li torto. ufa, ainda bem!

 
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