quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Manifesto antinatureba


Vivemos em um planeta com outros humanos, cercados de animais, vegetais e minerais, e isso qualquer pessoa minimamente escolarizada sabe. Precisamos preservar o meio ambiente e promover desenvolvimento sustentável, senão vamos pro brejo. Isso já não é todo mundo que sabe, mas pelo menos a escola tenta ensinar. A água potável, o ar puro, os alimentos e as fontes de energia, do modo como estão sendo utilizados, logo serão escassos, um verdadeiro problema se não agirmos de modo eficaz. Porém, isso é cuidado com a ecologia, não tem nada a ver com o que aqui chamo de naturebismo.

O naturebismo é a crença de que a natureza é sábia, generosa e perfeita, portanto o ser humano deve viver no estado mais natural possível. Isso é de uma tremenda ingenuidade, para não dizer coisa pior. Essa natureza boazinha e harmônica dos naturebas não passa de uma fantasia romântica. Na natureza de verdade o leopardo parte o pescoço do antílope, as hienas cercam filhotes de leão e os matam, os leões eliminam as crias vivas de fêmeas recém conquistadas. O forte mata o fraco, os fracos se unem para matar o forte. Há sempre cooperação e competição mescladas, é a luta pela sobrevivência do indivíduo e da espécie. Ninguém quer morrer ou se tornar comida de seus predadores, nem mesmo uma cenoura, que produz naturalmente substâncias que são prejudiciais à saúde de certos insetos. Enquanto uma cenoura conseguir lutar, não será comida. Claro que para um coelho ou um humano a cenoura não causa mal significativo, então podemos comê-la sem medo. Vá fazer isso com um baiacu (o fugu japonês) pra ver o que lhe acontece: morte em razão de uma neurotoxina que ele produz como defesa. Quanto a ser sábia, como seus erros desaparecem, fica a impressão de que não ocorreram. Bezerros de duas cabeças, fetos anencefálicos, tudo isso perece em estado natural - e em alguns casos, nem com intervenção humana se salva – e acaba sendo comido, sumindo do mapa. Com relação a ser generosa, melhor nem falar nas catástrofes naturais, como erupções vulcânicas, terremotos e vendavais - se eu falasse nas enchentes, um natureba convicto diria que estas são efeito da ação daninha do homem sobre a vegetação. Finalmente, quanto a ser perfeita, o conceito é muito vago para ser útil. O que é a perfeição, afinal de contas? O problema é tratar a natureza como se fosse um ser humano (antropomorfização), a mãe natureza, quando não é disso que se trata. Mas o que é a natureza - e, por conseqüência, o natural?

Há várias acepções para este termo: a) natural em oposição ao sobrenatural, ou seja, aquilo que é parte do mundo sensível e o que é parte de um universo espiritual, invisível (ex.: árvore X fantasma); b) natural em oposição ao artificial, ou seja, o que permanece em seu estado original em oposição àquilo que passou pelas mãos de um artífice e foi transformado (água da fonte X vinho); c) natural em oposição a sintético, ou seja, o que é elaborado a partir de um material já estruturado em seus elementos constituintes na natureza versus o que é sintetizado “em laboratório” (ex: calcinha de algodão X calcinha de nylon). A discussão sobre naturebismo não envolve a primeira das acepções, mas uma confusão entre as duas outras.

Naturebas acham que maconha não faz mal porque é uma erva, portanto natural. Argumento bobo, veneno de cascavel também é natural e mata. Além disso, a maconha é natural no sentido “c”, mas não no sentido “b”, uma vez que precisa ser seca e depois queimada para liberar seu princípio ativo. A menos que tenha ocorrido um incêndio em uma plantação, enrolar um baseado é ação de um artífice sobre a natureza. Nesse sentido, baseados não são naturais.

Naturebas acham que chás são remédios menos nocivos ao organismo porque são derivados de ervas, portanto naturais. Outra bobagem, o que faz uma substância ser nociva ou não são os princípios ativos que ela comporta e suas dosagens. Uma substância pode fazer ou não efeito sobre um organismo. Se o faz, pode causar tanto benefícios quanto malefícios, dependendo principalmente da dosagem. As principais diferenças entre chás e remédios alopáticos são duas: a) no chá há várias substâncias em dosagens desconhecidas, já no remédio há princípios ativos e um veículo em dosagens conhecidas, o que faz com que no segundo caso você saiba precisamente o que está sendo ingerido; b) no remédio a concentração do princípio ativo costuma ser maior, portanto o efeito também o é, para bem e para mal. Finalmente, ambos passam por artífices, então o chá só é mais natural no sentido “c”.

Naturebas comem sanduíche natural. Bom, pão integral tem mais fibras, salada faz bem pra saúde (desde que os vegetais sejam bem lavados), ricota tem menos sódio e colesterol que queijo amarelo. Porém, nunca vi um pé de sanduíche por aí. Frango e peru não são mais naturais que porco ou vaca. Melhor chamar de sanduíche saudável, porque de natural ele não tem muita coisa.

Gonorréia é natural, penicilina é artificial. Varíola é natural, a vacina é artificial. Água encanada, fogo, roda, eletricidade, radinho de pilha, anestésicos, analgésicos, elevadores, computadores, nada disso existia nas cavernas. É óbvio que a matéria-prima para tudo está na natureza e que os recursos naturais devem ser utilizados de maneira responsável e consciente. O chato é ver seu filho adolescente virando crudívoro em função do argumento de que na natureza as coisas estão cruas. Na natureza nós morremos de dengue hemorrágica e nosso banheiro é a moita. Temos berne, sarna, piolhos e bicho-do-pé. A National Geographic não me engana mais: na natureza há pernilongos, muitos, gigantes! Vou buscar meu repelente.

8 comentários:

FlaM disse...

O tema naturezaXcultura é um clássico na antropologia. Já muito contestado simplesmente pq essa oposição é também uma invenção ocidental, científica, etc, portanto uma invenção (da cultura). Portanto a natureza não existe! é uma invenção ocidental. Para muitas culturas essa noção simplesmente nao faz sentido. nós é que nos achamos "fora" da natureza. E quanto mais "distante" o homem está dessa suposta natureza, mais ele a inventa como realidade e crença.
Papo profundo, pano pra manga
Agora,
"Enquanto uma cenoura conseguir lutar, não será comida."
Frase do dia...
Aliás, já diria a líder das cenouras ao mário Gomes...
Episódio aliás que, para além de anedótico, certamente provocou indignações pelo que tem de não-natural, ou implicar uma prática vista como anti-natural. O que vem a favor de teus argumentos: nem sempre o consumo humano da cenoura é unanimemente "natural".

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: que bom receber visita sua no blog novamente! Papo profundo sim, vai longe...
Pobre do Mário Gomes, aquele papo da cenoura foi sacanagem do Carlos Imperial. Porém, se teve um fundo (ops) de verdade, aposto que a cenoura não se entregou sem luta. ;-)

Bjs

Kaique L. Andrade disse...

Muito bem dizido sobre a conservação da natureza... com esses tals carros híbridos muito coisa vai mudar no meio ambiente. Já pensou aonde vai parar essas baterias? d'aonde vão tirar tanta energia para abastecer esses carros?
Muitas vezes só do pessoal ligar a televisão para assistir o ultimo capitulo da novela da globo já acontece apagões que duram serca de 2 ou 3 horas diretas... É, mais voltanto aos Naturebas: Esse negocio de sanduíche natural só de pensar me da uma gastura horrivel ;=)
Abraços.

Sally disse...

Todos os excessos são ruins.Inclusive essa paranóia natureba que nos cerca.

milu leite disse...

e o cebolinha? não vamos nos esquecer de que ele é o ser mais antinatureba que existe, embora tenha aquela cara de cebola.
mas tenho que admitir que a alimentação melhor é a natural, com bastante tempero.

Paulo César Nascimento disse...

Kaique: energia é algo a se planejar e economizar. Eu sou favorável ao planejamento da natalidade também. Tem gente demais no mundo. Abç

Sally: precisava ver um aluninho meu, no tempo que dava aula de artes marciais para crianças. A mãe dele era natureba e o garoto comprava doces escondido... Ela adicionou o prazer do proibido ao da doçura. Pior a emenda que o soneto. Bjs

Milu: o Cebolinha pode ser menos natureba e ecológico porque o Cascão economiza água pelos dois. Bjs

SofiaTiferet disse...

Fofo, até penicilina é natural ...
A penicilina é um antibiótico natural derivado de um fungo, o bolor do pão Penicillium chrysogenum (ou P. notatum). Ela foi descoberta em 15 de setembro de 1928, pelo médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming e está disponível como fármaco desde 1941, sendo o primeiro antibiótico a ser utilizado com sucesso.

Paulo César Nascimento disse...

Sofia Tiferet

Ninguém está dizendo que a penicilina é sobrenatural. O princípio ativo de vários remédios vem da natureza, e neste sentido eles são naturais. Porém, a partir de que se faz um processo de derivação, o princípio ativo é isolado, fixam-se as doses e se coloca um veículo, existe a ação de um artífice. A discussão sobre o que é natural e o que é artificial está no início da postagem. O porquinho de onde é derivado o presunto também é natural, o Sus domesticus. Se não for bem cozido (processo artificial), pode provocar cisticercose. Abs

 
design by suckmylolly.com