segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Toda pessoa é um pacote


Certamente você já ouviu falar em pacotes turísticos: por um valor estipulado, você segue um roteiro pré-definido, hospeda-se em hotéis pré-selecionados e tem uma rotina pré-programada. O “pré”, embora signifique “antes”, no fundo quer dizer que alguém já definiu isso tudo em seu lugar. Você aceita o pacote completo porque é mais cômodo e barato. Às vezes há algum espaço para você personalizar sua viagem, mas é pequeno. Por outro lado, se você quiser algo bem do “seu jeito”, terá que desembolsar mais dinheiro, correr mais riscos e passar mais trabalho. Na indústria automobilística, os pacotes também existem: cada modelo tem seus itens de fábrica, bem como os opcionais - que dão espaço à personalização. Se vier de fábrica algum item que você considere supérfluo, não há como removê-lo. Estamos falando de serviços e produtos, que envolvem então uma relação comercial na qual se procura agradar o freguês o máximo possível. No entanto, nas relações humanas (inclusive as amorosas), esbarramos na mesma situação, com o agravante da menor flexibilidade: toda pessoa é um pacote.

Você é o lugar onde nasceu, a educação que teve, as pessoas de quem gosta (ou desgosta), o que estudou, no que trabalha, onde vive, com o que seu organismo é compatível ou não, suas preferências (artísticas, culinárias, sexuais, políticas...), seus relacionamentos passados, seus sonhos e fantasias, sua aparência e por aí vai. Ninguém é brasileiro, argentino ou alemão impunemente. Pai alcoolista, mãe bipolar, irmão suicida, cunhado estelionatário, filho mimado, avô vascaíno, ex-marido soropositivo, cão Bichon Frisé, afilhado traficante, asma brônquica, hipertensão arterial, intolerância à lactose, chefe workaholic, herpes genital, espancamentos, chifres, horas extras, mau hálito, quinze gatos de rua, porcelanas da bisavó, rinite alérgica, mania de limpeza, fanatismo por futebol, adorar pagode, gostar do BBB, tudo isso pode estar incluído. Pai carinhoso, mãe inteligente, irmão divertido, cunhado prestativo, avô flamenguista, ex-marido rico, cão Labrador, afilhado atleta, curvas de violão, abdome de tanquinho, estômago de avestruz, trabalho saudável, química sexual, ter sido amado(a), boas recordações, cabelos sedosos, pele macia, bons livros, talentos da bisavó, um bom sistema imunológico, hábitos de higiene normais, um hobby, saber dançar e gostar de jazz também. Nesses tempos de internet, pode fazer parte do pacote ter a vida estruturada em uma cidade distante da sua.

O que acontece nos relacionamentos? Cada pacote vai se desembrulhando lentamente, em camadas concêntricas como uma cebola. Você imagina que possa trazer o(a) outro(a) pro seu pacote com apenas alguns dos itens do pacote alheio selecionados. Grande engano. Os dois pacotes se unirão inteiros em um pacote maior. É aí que o bicho pega, pois pode haver itens incompatíveis entre os pacotes e então começa a batalha: o quê pode ser modificado e o quê deve ser relevado mediante esforços hercúleos de paciência e tolerância? Sartre já dizia que “O Inferno são os outros”, só se esqueceu de dizer que o Céu também. Sem isso, não haveria literatura, novelas e cinema por pura falta de enredo. Nem vida, tampouco.

11 comentários:

Sally disse...

Muito bom o texto, Paulo!

Na minha opinião o grande problema dos relacionamentos afetivos é esse: as pessoas só querem o lado bom do pacote!

Essa idealização só gera frustrações, é preciso ser racional e aceitar que para toda qualidade pode haver um defeito correspondente!

Alline disse...

Pensando bem, o que seria de nós sem não houvesse um mínimo de caos?
Beeeijo

milu leite disse...

e quando mistura um pacote de sonho de valsa com um de doritos?
não tem água que resolva...
bjo

Chaiane disse...

Acho que essa é a graça de tudo, né? Sentir aquela ansiedade por descobrir o que há dentro do pacote, e quando se entende isso, que o pacote pode trazer peças que talvez se encaixem com outras peças trazidas dentro do seu. Contrariedades, compatibilidades, sentimentos e indiferenças, muito disso pode ser, no fundo, favorável, nem que algumas decepções no caminho: nenhum pacote sai de uma relação tal como era no começo. O impulso inicial, na minha opinião, é esse mesmo: não saber como é o pacote, e revelar-se para descobrir o presente (muitas vezes, de grego) alheio.

jl; disse...

Paulinho, vamos combinar, Sartre era um porre! Nesse ponto, sou antropóloga mesmo: o outro é desafio e uma festa!
Vive la difference!
bjs, f

Paulo César Nascimento disse...

Sally: Obrigado. Concordo com a questão dos defeitos e qualidades, discordo que a razão dê conta de resolver esse problema. Bjs

Alline: um mínimo de caos é bom, coloca em movimento. Um máximo de caos é um terror. :-) Bjs

Milu: aí o jeito é torcar de pacote ou pensar que se fossem cebolitos a coisa seria bem pior. Adoro cebolitos e chocolate, mas em seqüência. Bjs

Chaiane: isso é o que faz valer a pena, mas o "sair diferente" pode significar muitas coisas. Não há como saber antecipadamente, então o jeito é apostar. Bjs

Flávia: o Sartre além de chato era vesgo, baixinho e tinha uma voz horrível. :P Concordo que o(a) outro(a) é uma festa, mas pode ser uma micareta, aí tô fora. rs. Há festas e festas.
Bjs

jl; disse...

Tá, e só por isso resolvestes não publicar meu comentário?! Tá me chamando de micareta?

Zíngara disse...

Cada pacote vai se desembrulhando lentamente, em camadas concêntricas como uma cebola.

A melhor metáfora de todos os tempos! É isso mesmo... E é tanto embrulho atraente em forma de pegadinha que nem te conto...!

Beijos,
Zin

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: o comentário que eu recebi, publiquei. Não veio outro... Caso tenha mandado, peço que reenvie. Você não tem nada de micareta, nem de mico ou de careta. ;-) Bjs!

Zíngara: obrigado! Mas me conte sim... :-) Bjs

Bel disse...

Eu já tinha pensado numa analogia semelhante, mas com Bonecas Russas (aqueles conjunto de bonecas que vem uma dentro da outra).

Mas comparar com cebola é bem mais lógico, afinal, bonecas russas não fazem chorar como as cebolas..

:)

Lellê disse...

Paulo, o post é antigo, mas como só agora estou "desvendando suas camadas" de post... hehehe
Mas, enfim. lendo este post, eu lembro de uma frase que circula por aí: "A mulher se casa com o homem achando que ele vai mudar, mas ele não muda. O homem se casa com uma mulher achando que ela não vai mudar, mas ela muda". Eu concordo plenamente com ela. Uma analogia boa: a mulher é a água e o homem, a pedra. A água não modifica a pedra e a pedra não impede a água de se moldar...
E eu pergunto: se somos pacotes, cada um com seu cada um, formando um pacotão maior, porque isso acaba acontecendo???
Hehehe... Nem precisa responder... Eu só queria entender!!!

 
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