
Vivemos em um planeta com outros humanos, cercados de animais, vegetais e minerais, e isso qualquer pessoa minimamente escolarizada sabe. Precisamos preservar o meio ambiente e promover desenvolvimento sustentável, senão vamos pro brejo. Isso já não é todo mundo que sabe, mas pelo menos a escola tenta ensinar. A água potável, o ar puro, os alimentos e as fontes de energia, do modo como estão sendo utilizados, logo serão escassos, um verdadeiro problema se não agirmos de modo eficaz. Porém, isso é cuidado com a ecologia, não tem nada a ver com o que aqui chamo de naturebismo.
O naturebismo é a crença de que a natureza é sábia, generosa e perfeita, portanto o ser humano deve viver no estado mais natural possível. Isso é de uma tremenda ingenuidade, para não dizer coisa pior. Essa natureza boazinha e harmônica dos naturebas não passa de uma fantasia romântica. Na natureza de verdade o leopardo parte o pescoço do antílope, as hienas cercam filhotes de leão e os matam, os leões eliminam as crias vivas de fêmeas recém conquistadas. O forte mata o fraco, os fracos se unem para matar o forte. Há sempre cooperação e competição mescladas, é a luta pela sobrevivência do indivíduo e da espécie. Ninguém quer morrer ou se tornar comida de seus predadores, nem mesmo uma cenoura, que produz naturalmente substâncias que são prejudiciais à saúde de certos insetos. Enquanto uma cenoura conseguir lutar, não será comida. Claro que para um coelho ou um humano a cenoura não causa mal significativo, então podemos comê-la sem medo. Vá fazer isso com um baiacu (o fugu japonês) pra ver o que lhe acontece: morte em razão de uma neurotoxina que ele produz como defesa. Quanto a ser sábia, como seus erros desaparecem, fica a impressão de que não ocorreram. Bezerros de duas cabeças, fetos anencefálicos, tudo isso perece em estado natural - e em alguns casos, nem com intervenção humana se salva – e acaba sendo comido, sumindo do mapa. Com relação a ser generosa, melhor nem falar nas catástrofes naturais, como erupções vulcânicas, terremotos e vendavais - se eu falasse nas enchentes, um natureba convicto diria que estas são efeito da ação daninha do homem sobre a vegetação. Finalmente, quanto a ser perfeita, o conceito é muito vago para ser útil. O que é a perfeição, afinal de contas? O problema é tratar a natureza como se fosse um ser humano (antropomorfização), a mãe natureza, quando não é disso que se trata. Mas o que é a natureza - e, por conseqüência, o natural?
Há várias acepções para este termo: a) natural em oposição ao sobrenatural, ou seja, aquilo que é parte do mundo sensível e o que é parte de um universo espiritual, invisível (ex.: árvore X fantasma); b) natural em oposição ao artificial, ou seja, o que permanece em seu estado original em oposição àquilo que passou pelas mãos de um artífice e foi transformado (água da fonte X vinho); c) natural em oposição a sintético, ou seja, o que é elaborado a partir de um material já estruturado em seus elementos constituintes na natureza versus o que é sintetizado “em laboratório” (ex: calcinha de algodão X calcinha de nylon). A discussão sobre naturebismo não envolve a primeira das acepções, mas uma confusão entre as duas outras.
Naturebas acham que maconha não faz mal porque é uma erva, portanto natural. Argumento bobo, veneno de cascavel também é natural e mata. Além disso, a maconha é natural no sentido “c”, mas não no sentido “b”, uma vez que precisa ser seca e depois queimada para liberar seu princípio ativo. A menos que tenha ocorrido um incêndio em uma plantação, enrolar um baseado é ação de um artífice sobre a natureza. Nesse sentido, baseados não são naturais.
Naturebas acham que chás são remédios menos nocivos ao organismo porque são derivados de ervas, portanto naturais. Outra bobagem, o que faz uma substância ser nociva ou não são os princípios ativos que ela comporta e suas dosagens. Uma substância pode fazer ou não efeito sobre um organismo. Se o faz, pode causar tanto benefícios quanto malefícios, dependendo principalmente da dosagem. As principais diferenças entre chás e remédios alopáticos são duas: a) no chá há várias substâncias em dosagens desconhecidas, já no remédio há princípios ativos e um veículo em dosagens conhecidas, o que faz com que no segundo caso você saiba precisamente o que está sendo ingerido; b) no remédio a concentração do princípio ativo costuma ser maior, portanto o efeito também o é, para bem e para mal. Finalmente, ambos passam por artífices, então o chá só é mais natural no sentido “c”.
Naturebas comem sanduíche natural. Bom, pão integral tem mais fibras, salada faz bem pra saúde (desde que os vegetais sejam bem lavados), ricota tem menos sódio e colesterol que queijo amarelo. Porém, nunca vi um pé de sanduíche por aí. Frango e peru não são mais naturais que porco ou vaca. Melhor chamar de sanduíche saudável, porque de natural ele não tem muita coisa.
Gonorréia é natural, penicilina é artificial. Varíola é natural, a vacina é artificial. Água encanada, fogo, roda, eletricidade, radinho de pilha, anestésicos, analgésicos, elevadores, computadores, nada disso existia nas cavernas. É óbvio que a matéria-prima para tudo está na natureza e que os recursos naturais devem ser utilizados de maneira responsável e consciente. O chato é ver seu filho adolescente virando crudívoro em função do argumento de que na natureza as coisas estão cruas. Na natureza nós morremos de dengue hemorrágica e nosso banheiro é a moita. Temos berne, sarna, piolhos e bicho-do-pé. A National Geographic não me engana mais: na natureza há pernilongos, muitos, gigantes! Vou buscar meu repelente.