terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Clamai de novo!


Freud via na sexualidade a mola mestra do comportamento humano, embora empregasse o termo com uma amplitude e flexibilidade que surpreendem o leigo em Psicanálise. Seus discípulos - e dissidentes do movimento - Adler e Jung divergiram do mestre e viram, respectivamente, na busca de superioridade (auto-afirmação) e na religiosidade os motivadores fundamentais de nossa conduta. Poderia enumerar diversos teóricos da personalidade, cada qual com sua preferência, apontando motivadores básicos para o comportamento, mas ficaria cansativo e não é o caso. Certo dia, voltando do trabalho, formulei uma teoria estapafúrdia a respeito da motivação básica do ser humano:

O grande motivador do comportamento humano é RECLAMAR.

Se você observar atentamente o comportamento das pessoas, é raro que passem mais de meia hora sem reclamarem de nada. Aquela mulher maravilhosa, cobiçada por uns, invejada por outras, reclama que um fulano não larga do seu pé, que está com olheiras ou que seus mindinhos são tortos. Aquele sujeito milionário reclama que estão sempre querendo meter a mão no seu dinheiro ou ainda que perdeu algum em um investimento infeliz. Os hebreus têm um muro só pra reclamar. Quando você finalmente alcança aquilo que buscava, a alegria se dissipa rapidamente, dando lugar a um vazio que você não sabe explicar, não é verdade? O vazio que você sente é na verdade a falta do que reclamar, e para que passe é preciso que você rapidamente trace uma nova meta, para poder reclamar dos obstáculos que se apresentarão. Já conheci reclamadores quase profissionais, cuja maior fonte de incômodo era o mal estar difuso que ocorria na falta de algo concreto a lhes incomodar. Felizmente para eles (e infelizmente para outros), logo surgia algum pretexto para que o furor reclamandi encontrasse um canal de expressão. Até as grandes corporações já se aperceberam deste aspecto básico da conduta humana e por isso existem ouvidorias, ombudsmen e congêneres. Se um dia eu me render à picaretagem, fundarei uma religião cujos ritos principais consistirão em reclamar. Só falta definir uma taxa de contribuição que una o útil ao agradável, deixando os fiéis com mais motivos ainda para clamar novamente (re-clamar).

sábado, 26 de dezembro de 2009

O melhor do "Soco no Figo" em 2009



Caríssimos e caríssimas: fim de ano é época de preguiça e descanso para todos nós. Copiando o exemplo da TV, faço aqui os melhores momentos do blog em 2009, para os que chegaram há pouco de fora (com trocadilho). Seguem aí as postagens:


Quem quiser escolher uma destas (ou outra, a gosto) como a melhor postagem do blog em 2009, sinta-se livre.


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Clichês


Por quê os clichês existem? Simples. Porque funcionam. Imaginem o primeiro ser humano que, ao término de um relacionamento resolveu dizer a verdade: "Estou terminando porque você é muito pegajosa(o)." ou "Olha, fazia tempo que eu não gostava de você e estava enrolando até aparecer alguém mais interessante. Aí apareceu..." ou ainda "Olha, com essa família de malucos que você tem, é melhor pararmos por aqui." A pobre criatura ouviu horas de desaforos, sofreu vinganças terríveis, apanhou, foi difamada, amaldiçoada e por aí vai. Na segunda vez, ao ser consultada sobre os motivos do término, respondeu: "O problema não é você, sou eu." Bárbaro! A auto-estima do(a) dispensado(a) fica em dia, é covardia retaliar o término - afinal de contas, ele(a) tem problemas e foi honesto(a) o suficiente para admiti-los - e fica feio até mesmo sentir raiva: no máximo, tristeza pela fatalidade do destino.

Pensem agora em um pobre analista de RH, tendo centenas de pessoas para dispensar em uma seleção, muitas vezes com currículos nada compatíveis com o cargo em questão. Cada dispensado vai querer saber o motivo da dispensa. Só contar duplicaria o tempo de trabalho, fora as discordâncias, barganhas e desaforos que ouviria - o que quintuplicaria o tempo, sem nenhuma vantagem para a empresa ou ele próprio. A solução mágica: "Muito obrigado. Assim que tivermos uma posição, entraremos em contato."

Um político em campanha, que dissesse: "Olha, gente, tem um pessoal aí financiando a minha campanha e eu terei que prestar contas a eles. Além disso, eu tive que me aliar ao Capeta, à bancada evangélica e ao Sarney. Para fazer alguma coisa, vou ter que aumentar os impostos, pois tenho que molhar a mão de dúzias de safados para que as medidas sejam aprovadas. A verba da educação eu terei que reduzir, além de criar um novo imposto pra saúde, que na real eu vou mandar para auxiliar uns políticos de países vizinhos que vão me ajudar a ter projeção no exterior. Só assim eu garanto que o meu partido ficará mais uns quatro mandatos no poder. Jogo político é isso, pessoal!" ou então "Gente, o negócio é o seguinte: eu vou é privatizar tudo para encher os bolsos de meus compadres! Não me cobrem coerência, eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! E não me perguntem mais, ou eu respondo de um jeito enrolado para ninguém entender nada." Você votaria nesses caras? Pois é, então o que se fala é "No meu governo, as prioridades serão claras: saúde, educação, segurança e emprego! Vamos erradicar a fome e o analfabetismo, alçando de vez o país para o seu merecido lugar no cenário mundial." É o discurso de todos os candidatos e o resto da campanha consiste em provar que os concorrentes estão mentindo.

"Queremos roubar petróleo, movimentar a indústria de armamentos, dar uma demonstração de força e ganhar as próximas eleições." funciona menos que "Queremos assegurar a liberdade no mundo inteiro e defender nossos cidadãos da ameaça terrorista". Sim, os clichês são sempre mentiras, ou no máximo meias-verdades. Não me espantará se algum dia um candidato misturar clichês e prometer: "Se eleito, colocarei só a cabecinha!"

sábado, 19 de dezembro de 2009

Personagens inesquecíveis: Hannibal Lecter



Existem livros e filmes cujo enredo fica menor diante do vulto de uma personagem. No cinema, muitas vezes é a atuação digna de prêmios que acaba superando o que o roteirista planejou. Porém, na literatura existe a possibilidade de expressar aspectos da personagem que o cinema deixa apenas entrever, quando não sacrifica em nome da correção política ou do comercialismo. Começo a série de personagens interessantes com Hannibal Lecter. A grande sacada da personagem é a mistura de características de refinamento com aspectos perversos (não no sentido de maldade, mas no de desconsideração das interdições). Lecter só mata pessoas de mau caráter, exceto em casos em que a morte é necessária para lhe abrir caminhos de fuga. Extremamente inteligente, expert em decifrar a motivação humana, artista talentoso e um grande cozinheiro, porém com ingredientes pouco ortodoxos, contrabalança estas características com uma frieza e crueldade ímpares no trato com seus desafetos.  O canibalismo já fez parte de algumas tradições culturais, inclusive no Brasil pré-colombiano (ou pré-cabralino, para ser mais exato), porém havia um aspecto de respeito pelo "comido", uma vez que se acreditava absorver suas qualidades (bravura, integridade, força) ao ingeri-lo. Lecter o une aos aspectos mais refinados da culinária, preparando cuidadosamente os cortes humanos com receitas tradicionais da gastronomia, acompanhando os pratos com vinhos caros e cuidadosamente escolhidos para a harmonização.

As experiências que teve na guerra o privaram da possibilidade de levar em conta os sentimentos alheios de modo empático e não somente intelectual, o que serve de explicação para seu comportamento, do ponto de vista do autor. Nem todas as características de Lecter fecham com a descrição da personalidade anti-social (atual nome da antiga psicopatia), mas aí está a "licença poética" que torna Hannibal mais interessante que os psicopatas da vida real. A grande sacada do livro Hannibal - abandonada na versão cinematográfica - está em um aspecto teoricamente incorreto, porém interessante do ponto de vista ficcional: a agente Starling consegue trazê-lo de volta, em parte, para o universo das relações afetivas. Porém, isso tem um preço. Não, isso eu não contarei. Ler não tira pedaço.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Noção de limite


Quebraram a cara do Berlusconi, como vocês bem sabem. Dizem que Tartaglia, o sujeito que fez isso, tem histórico de  distúrbios mentais. Se não tiver, é muito burro ou sem noção de limite. Se tivesse jogado uma torta ou mesmo um  balão cheio de urina, teria protestado da mesma forma e apenas exposto o premiê ao ridículo. Mas não, ao quebrar a  cara de um idoso, contribuiu para despertar a compaixão das pessoas em relação ao político. Se o Pinochet, que  cometeu atrocidades, ficou menos Pinochet depois de velho – com direito a cuidados com sua saúde em prisão  domiciliar, quando as famílias das vítimas preferiam um tratamento mais isonômico – dava pra saber que o tiro sairia  pela culatra. Minha intuição diz que essa história vai passar, deixar de ser notícia, depois o Tartaglia vai ter uma  conversa com os peixinhos, calçando sapatos de concreto.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Evento Cultural em Porto Alegre


Aos leitores de POA, recomendo a exposição, aos de outras localidades, o blog e o livro do brilhante escritor, fotógrafo e produtor cultural Claudio Santana.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Da vocação para o meretrício


O termo "vocação" significa chamado. Muito provavelmente deriva da história bíblica de Samuel, chamado por Deus para realizar uma missão. Desta maneira, por muito tempo se empregou o termo para falar de escolhas profissionais, tendo este sido abandonado ao se abrir mão de perspectivas religiosas na orientação profissional. De qualquer forma, há trabalhos realizados por opção, outros por falta desta. Já orientei pesquisas acadêmicas sobre o trabalho de profissionais do sexo e fica claro que a imagem difundida da prostituição como falta de outra possibilidade só acontece no baixo meretrício. Na média e alta prostituição se trata de um caminho mais rápido - não necessariamente mais agradável - para a obtenção de dinheiro. Por essas e outras, nesses níveis mais bem remunerados, só fica quem quer. Gente insatisfeita com seu trabalho é a coisa mais comum do mundo e certamente há operadoras de telemarketing, vendedoras de sapatos, professoras e faxineiras muito putas (com trocadilho) com ele, exercendo-o apenas pelo dinheiro envolvido.

Uma noite dessas, como já comentei, assisti a um documentário sobre um SPA sexual localizado em um país da América do Sul - estou em dúvida entre Colômbia e Venezuela, mas isso não importa, bem poderia ser no Brasil. Os clientes eram tipos feios, um tanto sujos, de meia-idade, dispostos a "alugar" namoradas. Evidentemente, não eram os mais habilidosos no trato com as mulheres. As mocinhas também não eram misses, embora não fossem necessariamente feias. O foco do documentário parecia ser a insatisfação de duas delas com seu trabalho, comparando-se a repulsa nos bastidores a uma simpatia forçada quando na companhia dos clientes. Porém, as duas sempre davam um jeito de deixá-los irritados, afastando-se deles, recusando pedidos e fazendo cara de poucos amigos. Uma delas tinha interrompido a faculdade de Odontologia - ou assim nos foi dito. Em contrapartida, a única que encontrou um cliente gentil terminou paparicando o sujeito, ficando em um clima de paixonite. Desliguei a TV pensando: se é pra ser puta, faça as coisas do jeito certo. Prostituição não tem nada a ver com amor ou romance verdadeiros, mas com dinheiro e fantasia.

Algumas semanas depois, encontrei a matéria sobre a prostituta Patrizia D´Addario, que lançou um livro contando suas intimidades com o Berlusconi. Nele esta senhora narra que o primeiro-ministro é uma máquina sexual, que ficou impressionada com a performance dele e outras mentiras do gênero. Cá pra nós, o Berlusconi já passa dos setenta e, até onde se sabe, não usa prótese peniana. Não que sexo se limite à penetração, mas ela foi enfática a respeito desse aspecto. Pra fazer o que ela alega, teria precisado de muito viagra e de uma bênção especial do Papa. O livro vai vender como água, pois escândalo sempre foi um passatempo da humanidade. Vocês acham que em um país latino um líder de setenta anos vai se ofender com um livro que enaltece a sua performance sexual? A chance de que a editora seja processada e os livros recolhidos, como aconteceu com a biografia não autorizada do cantor Roberto Carlos, é nula. Se bobear, o Berlusconi ainda financia uma segunda edição. Essa sim tem vocação para o negócio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Do corpo mole no futebol


Pra não dizerem que brasileiro é que é safado e corrupto, já vi em 78 a seleção peruana se vender escandalosamente para a Argentina vencer a copa. Em 82, Alemanha e Áustria fizeram o maior jogo de compadres para as duas equipes se classificarem. Porém, no Brasileirão de 2009 acontecerá uma das situações mais esdrúxulas da história da competição: se o Grêmio vencer, ajudará o Internacional - seu arqui-rival - a ser campeão. Pior do que isso, levará os torcedores colorados a torcerem pro Grêmio, o que é algo impensável. É mais ou menos como nós, brasileiros, torcermos para a Argentina. Porém, a situação dos jogadores e da comissão técnica do Grêmio é complicada, pois estão em uma sinuca: se fizerem corpo mole, ficarão conhecidos como a equipe sem moral que entregou o campeonato ao Flamengo. Se vencerem, ficarão marcados como os gremistas que ajudaram o Internacional. Meu palpite? Jogarão pelo empate e torcerão para o Internacional perder.

sábado, 28 de novembro de 2009

Cenas dos próximos capítulos


A semana foi puxada, as idéias vieram, mas faltou energia para desenvolvê-las. Assisti a um documentário sobre um prostíbulo aqui na América do Sul, porém focalizado nas profissionais mais descontentes com o ramo. Peguei um trecho de outro documentário com uns índios enchendo a cara de uma birita que eles preparam e falando mal dos garimpeiros. Conheci o trabalho do Duo Gisbranco, com duas excelentes pianistas (uma delas é filha do Egberto Gismonti). Resolvi esclarecer um mal entendido milenar que fez de Onan o padroeiro do cinco contra um. Isso sem falar no Arruda, que fez outro papelão, agora aceitando propina, e deve chorar de novo, o que nos leva de novo ao primeiro assunto, das "Madalenas Arrependidas". Tudo isso aí dá assunto pra postagem... Pena o apagão (o meu).

sábado, 21 de novembro de 2009

Devaneios crepusculares


Assisti ao tal do Crepúsculo e tudo se esclareceu: não é uma história de vampiros, mas de Príncipe Encantado. Estou presumindo que os leitores do blog já assistiram ao filme, leram o livro ou alguma matéria a respeito, mas se não for o caso, clique aqui para uma sinopse. O fato de Edward Cullen ser vampiro é mero detalhe, pois sua família é atípica. Como eles mesmos descrevem, os Cullen estão para os vampiros como os humanos vegetarianos estão para os onívoros. Ou seja, perto dele e dos parentes, Bella, a mocinha, não corre perigo. Muito pelo contrário, assim que percebem como ela é adorável e o quanto o Ed não vê nela apenas um "lanchinho" (com trocadilho), passam a ser seus defensores. Mas estou atropelando as coisas. Vamos voltar ao início: Bella é uma adolescente contemporânea, filha de pais separados, com vida independente. É interessante como em todo o filme ela demonstra que não conta com seus pais, tentando solucionar as coisas sozinha ou com ajuda do namorado. Chega a uma nova escola e, pra variar, se apaixona pelo cara bonitão, cobiçado e misterioso. Obedecendo aos cânones da fantasia feminina adolescente, basta se olharem para descobrirem que foram feitos um para o outro - embora tenha sido esse o pensamento de outras meninas com quem o Ed não quis nada. Pelo que sabem, ele nunca ficou com ninguém, o que na vida real daria ao cara a maior fama de gay, mas é um conto de fadas, então há que se dar um desconto. No começo, ele foge de Bella, mas depois a moça descobre que é pela intensidade do desejo que sente por ela. Embora se trate de um desejo vampiresco pelo êxtase do sangue, a própria maneira de descrevê-lo já sinaliza uma metáfora da sexualidade. Em outro momento, Ed lê a mente de um bando de rapazes prestes a currar Bella e fica indignado: "Aquelas coisas horríveis que eles queriam fazer com você!". Eu fiquei em dúvida se as "coisas horríveis" aqui significavam desrespeitar a moça e violentá-la sexualmente, o que seria horrível mesmo, ou se era o fato de quererem transar com ela, o que não é nada horrível, desde que ela esteja capacitada a consentir e assim o faça. Então funciona mais ou menos assim, traduzindo pra vida de não-vampiros: "Estou doido pra te comer, mas sei que não devo, então vou me controlar. Porém, a paixão que sinto é tão grande ou maior que esse desejo, então aceitarei um amor quase platônico, sublimando a sexualidade". Ou seja, feito sob medida para meninas adolescentes, principalmente norte-americanas, considerando que a tradição puritana ainda defende o celibato como forma privilegiada de controle de natalidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Para não dizerem que estou viajando completamente, a cena que melhor ilustra este aspecto se dá na cama de Bella, em meio a um tórrido beijo. Outro aspecto interessante é o do amor deles ser proibido, pois acabaria colocando em risco a comunidade vampiresca. Aí vem aquela coisa bem de novela, do tipo "o nosso amor supera todas as barreiras", sejam inter-raciais, de credo, de classe social, enfim, vocês entenderam. Então, o que esse menino Ed, que tem dezessete anos há séculos, oferece a Bella? Tudo, menos perigo real. É romântico, descolado, assume o relacionamento perante o colégio e a família, passeia pelos bosques, faz confidências, fica purpurinado à luz do sol, expondo suas fragilidades... Claro que se ele fizesse isso e não fosse o bonitão da escola, levaria o mesmo toco do menino que a convidou para o baile. Aí é que está o elemento chave da fantasia: "Ele é o máximo e, apesar disso, não é um babaca convencido". Na vida real, essas coisas dificilmente não se misturam, mas isso costuma ser descoberto mais tarde, lá pelos 30, na maioria das vezes. Aí aparecem três vampiros de verdade, malvadões e sanguinários, e a coisa muda de figura. O vampiro rapazote, caçador de primeira, fareja Bella e resolve chupá-la (com trocadilho). Como o filme é politicamente correto, o vampiro afro-americanão tira o corpo fora, avisando que não vai se meter, mas advertindo que o moleque é poderoso. A vampirona do mal fica de lado para poder haver uma série - o que mostra que a autora é esperta. Aí começa uma caçada dupla, do vampirinho do mal atrás de Bella e dos Cullen atrás do vampirinho do mal. Após ser feita de trouxa pelo bandidinho, Bella é torturada pelo moleque até o Ed chegar pra fechar a porrada. Eu achei que ali o filme viraria aventura e estava louco pra ver a maneira como derrotariam o malvado, já que havia sido dito que ele era marrento. Qual nada, o filme era de príncipe mesmo. Depois de uns empurrões, chega a família Cullen e dão cabo do moleque como se ele não fosse de nada. O xis da questão era que o bandidinho tinha provocado uma hemorragia em Bella, aparentemente cortando a artéria femoral, o que na vida real geralmente causa morte. Além disso, tinha inoculado veneno de vampiro nela... Bom, ali estava a solução pros problemas de Bella. Viraria vampira, entraria pra família e passaria a se alimentar de sangue de veadinhos (sem trocadilho) na floresta. Mas não, o Dr. Cullen ensina o filho a curá-la, chupando o veneno de vampiro. Qual o objetivo disto? Lua Nova, é claro. Agora entram em cena os lobisomens. Um filme bem comercial, direcionado ao público feminino adolescente, do enredo à fotografia. Vai dar muito dinheiro e é essa a lógica por trás do entretenimento. Tenho pena dos rapazinhos normais, menos Edwardculleanos, que vão tomar mais foras em função desse cultivo ao mito do príncipe encantado, ou então passar pó de arroz e batom, pra ficarem mais vampirescos. Porém, se Jung estava certo, não há escapatoria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Lerdos e estressados


Um dia desses eu ia apressado para o trabalho e peguei um sujeito sossegado dirigindo na minha frente, para variar. Além disso, a maravilha do pessoal do planejamento urbano tem costume de deixar os semáforos da principal avenida da cidade programados para que se pare em TODOS! Mas, voltando, reparei que sempre que ando com pressa tem um babaca lerdo na frente, e que sempre que estou sem pressa tem um babaca estressadinho atrás do meu carro. Aí, uma voz interior esclareceu a questão: tem dias que eu sou o babaca estressadinho de trás de um carro, tem outros que eu sou o babaca lerdo na frente de outro. Como, aliás, todos somos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Da feminização dos vampiros no cinema


A crença em seres sobrenaturais que se alimentam de sangue ou restos de cadáveres remonta à antiguidade e é praticamente universal. O livro Vampiros, de Marcos Torrigo, traz um bom apanhado sobre esta figura mitológica que povoa o imaginário da humanidade. Conhecido por muitos nomes, sofrendo algumas variações regionais na sua aparência e hábitos, o vampiro sempre despertou medo, curiosidade e fantasia. Como ilustração, o Vrykolakas grego, o Ghoul árabe, a Pennangalan malaia e o Chiang-shih chinês.


O grande marco para o delineamento da representação do vampiro no imaginário ocidental foi a obra literária "Dracula", do irlandês Bram Stocker, em 1897. A personagem uniu a figura do príncipe Vlad Tepes (o empalador), da Valáquia - também conhecido como Draculea (filho do dragão) - com o vampiro das crenças populares do leste europeu. Em 1922, estreou Nosferatu, o primeiro filme baseado neste romance. A imagem do vampiro neste filme conserva um aspecto soturno, animalesco e angustioso. No filme Dracula (1931), estrelado por Béla Lugosi e também baseado no livro de Stocker, o vampiro se humaniza, porém conserva um aspecto assustador dado o seu carisma e efeito hipnótico. Em "Horror of Dracula", de 1958, Christopher Lee não mudou muito o estilo do conde, assim como Frank Langella no Dracula de 1979. Entre um e outro, o conde Von Krolock, de A Dança dos Vampiros, satirizou o gênero, mas não desviou tanto assim do modelito.

Na década de 80, com "Fright Night" (A hora do espanto), o vampiro ganhou ares de galã (Chris Sarandon), perdeu as olheiras e passou a se vestir normalmente, sem capa. Dormia no caixão, pois essa coisa de morder pescocinhos cansa. A década de 90 alternou entre os vampiros lutadores de Blade, saído das HQ, o "Dracula de Bram Stocker" (Coppola) e a turminha do Lestat, que dá início a um processo de feminização dos vampiros. As criaturas de Anne Rice são meio blasé, assexuadas e em crise existencial, movidas por uma sede sem fim e aguardando o retorno dos seus ancestrais - o que não deixa de retratar a mocidade que surgia na época, sedenta sabe-se lá do quê e carente de raízes. A partir deles, a vampirização das vítimas se torna um processo voluntário, que implica em beber também um pouco do sangue do vampiro. Note-se que a feminização dos vampiros reúne dois aspectos interessantes: a crise de identidade masculina pós-feminismo e o fato da obra ser escrita por uma mulher. Embora Anne Rice não escreva "literatura mulezinha", estilo Bridget Jones e O Diabo Veste Prada, o enfoque muda. O vampiro de Bram Stocker vive a solidão, a nostalgia de um grande amor e a sede de reencontrá-lo. Em cada mordida, percebe-se não só a sede de sangue, mas um grande teor erótico e de poder. Nos vampiros de Anne Rice, apenas um grande tédio, mesclado com uma sensação de vazio.

No mundo nerd dos RPG, os vampiros viraram uma espécie de universo particular e muitas das referências mitológicas foram retomadas, com direito a clãs e enredos complexos. No século XXI, um fenômeno interessante: as obras sobre vampiros começam a sinalizar uma rivalidade entre eles e os lobisomens. Tanto em Underworld (2003), como em Van Helsing (2004) e Crepúsculo (2008), essas turminhas não se bicam. No primeiro filme, na verdade são primos distantes e farinha do mesmo saco. A diferença é que os lobisomens são mais animalescos e carniceiros, enquanto os vampiros são mais humanizados. No segundo, soma-se a isto os lobisomens serem escravos. O terceiro eu ainda não vi e nem sei se terei paciência, já que é voltado para garotas de doze anos, tenham elas a idade cronológica que tiverem. Ali o protagonista é um vampiro meio metrossexual, com uma pitada de EMO, chamado Edward Cullen. Quem acompanha a cultura pop sabe que a cada dois ou três anos é preciso surgir uma leva de garotos com cara de criança/menina, estilo James Dean, Christopher Atkins, Leonardo DiCaprio, para que as meninas não tenham medo das diferenças e possam se apaixonar por anjinhos barrocos, para fazer (ou não) depois a transição para sujeitos com mais testosterona e caracteres sexuais secundários, como o Sean Connery, Jason Statham e Clive Owen. Lobisomens são mais agressivos, animalescos e peludos. Creio eu, em um momento de delírio sem muito fundamento científico, que essa polarização entre vampiros e lobisomens retrata o lado meio marginal de ser macho em um mundo politicamente correto, no qual não se pode mais fazer eco ao porteiro Severino (Paulo Silvino), cara, crachá: "Doutor, isso aí não é um vampiro..."

sábado, 7 de novembro de 2009

Doce surpresa


Ontem à noite, cheguei cansado em casa, lá por volta das 22:00. Abri a porta, acendi a luz e encontrei:

a) um bilhete de uma vizinha sexy me convidando para jantar;
b) um envelope com um cheque de valor respeitável, saldando uma dívida antiga;
c) um enxame de mais de mil abelhas agrupadas no vidro da minha sacada, pelo lado de dentro do apartamento, construindo uma colméia em plena sala.

Se você me conhece bem ou acompanha o meu blog há mais tempo, certamente respondeu "c". Dei sorte de chegar à noite, quando elas já estão mais calminhas, aconchegadas umas às outras. Embora eu ache a abelha um animalzinho simpático, útil e produtivo, que permite gentilmente que lhe furtemos mel, cera, própolis e geléia real, sei que o ataque de um enxame costuma ser fatal, mesmo para quem não é alérgico, devido aos efeitos cumulativos do veneno. O ideal nestes casos é chamar um apicultor, uma vez que o extermínio de animais silvestres e benéficos ao homem é proibido por lei. Em razão disso, empresas de extermínio de insetos nada podem fazer em uma hora dessas. Quando vidas humanas estão em risco, o corpo de bombeiros costuma resolver, aceitando as punições legais, caso venham.

A solução encontrada?

a) Liguei para o "disque-apicultor 24 horas", serviço existente em todas as cidades do Oiapoque ao Chuí, que é o que nossos competentes legisladores esperam que façamos;
b) Comprei uma roupa de apicultor e passarei a vender "mel urbano" a partir do ano que vem;
c) Após um longo jogo de empurra, recebi ajuda do corpo de bombeiros.

Essa fica para você adivinhar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Devorando livros


Aproveitei para colocar a leitura em dia nas últimas semanas. Rondas de Escárnio e Loucura, de Sérgio Faraco, é um livro de contos que recomendo: histórias concisas, cortantes, sem floreios desnecessários ou recursos "vejam como eu tenho estilo e sou de vanguarda". O fato dele não ser um autor muito conhecido fora do sul do país é facilmente explicável em um mundo de crepúsculos, melancias e margens do Rio Piedra. Li também Leite Derramado, do Chico Buarque. Embora eu o considere melhor letrista do que romancista, a leitura também é agradável. Pelo fato do Chico não ser Psiquiatra ou Psicólogo, falta um pouco mais de pesquisa para nortear os esquecimentos e confusões do protagonista, porém isso não chega a comprometer. Em seguida, li Inferno, de Patrícia Melo. O começo não me agradou muito, pois logo ao início ela usa a escrita truncada como recurso em uma personagem, mas é apenas para representar o pensamento truncado do sujeito. Porém, o leitor descobre isso apenas se for adiante, quando a escrita passa a fluir e outras personagens são apresentadas. Um bom romance, ambientado nos morros cariocas. Para quem gosta de ver a miséria de fora, com bastante narcotráfico e sem risco de balas perdidas, uma leitura que prende. Por fim, comecei a ler Divã, de Martha Medeiros, e Hombres y engrenajes, de Ernesto Sabato. Depois eu comento.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O incrível homem que vira peixe


Lá nos primórdios, quando Deus separou a luz das trevas e viu que era bom, eu assisti a um programa do Sílvio Santos em que a atração final seria "O incrível homem que vira peixe". Antes de cada intervalo, essa chamada era repetida, causando suspense. No momento crucial, entrou em cena um cara com uma frigideira e um peixe, fazendo com que o bicho desse voltas no ar e caísse novamente na dita cuja. O apresentador fingiu desconhecer a armação e eu achei muito engraçado.

Hoje em dia, quando navego nos portais de notícias e leio as chamadas, fico com a impressão de que alguns jornalistas aderiram à moda do "incrível homem que vira peixe". Concordo que uma chamada deva provocar algum suspense e se possa exagerar um pouquinho, mas a minha impressão é de que a coisa já desandou. Muitas vezes a matéria segue no sentido oposto ao que havia sido sugerido na chamada, o que, em minha opinião de leigo, já vira desinformação.

Vi um exemplo disso hoje mesmo: "Internet estimula infidelidade, diz diretor do R7". Se a chamada deixasse evidente que se tratava da infidelidade do cliente em relação a um determinado grupo de comunicação, você clicaria na matéria? A virada de peixe aí foi dar a entender que a internet aumenta as chances de alguém ser corno, algo que desperta muito mais curiosidade do que saber sobre a disputa entre as empresas de comunicação.

Está certo que às vezes é o leitor que viaja na chamada, em outras o autor não imaginou a raiva que causaria, mas desconfio que o jornalismo em portais de internet mantém seus profissionais em cima da estatística de cliques.

sábado, 24 de outubro de 2009

A sina de Rubinho


O Brasil é um país que gosta - ou precisa - de heróis, vilões e anti-heróis. Porém, o que faz o sujeito ser enquadrado em uma dessas categorias dá um longo debate. Estou devendo a mim mesmo a leitura de Carnavais, Malandros e Heróis, do antropólogo Robeto DaMatta - um dos estudiosos que mais perto chegou de compreender o nosso país. Enquanto isso, convido meus leitores a filosofarem comigo (no botequim) a respeito da representação do Rubinho Barrichello no imaginário popular brasileiro. Tem gente que acha graça, mas eu acho triste achincalharem com o Rubinho por nunca ter sido campeão, como se isso envergonhasse toda a nação. Aí começo a pensar nos possíveis motivos para esse linchamento moral:

1) Seria Rubinho um mau piloto? Se pensarmos em termos de resultados, não. Quantas vitórias na Fórmula 1 tiveram Chico Serra, Raul Boesel, Christian Fittipaldi? Havia corridas em que nem se classificavam e ninguém questionava sua habilidade nas pistas. Para os que argumentam que os carros deles eram horríveis, por que as escuderias com carros competitivos não lhes deram oportunidades? Eram todos bons pilotos. Ninguém chega à Fórmula 1 sendo ruim... ou quase ninguém, se considerarmos alguns pilotos japoneses impostos pelas fábricas e que servem de exceção à regra.

2) Seria porque Rubinho é chorão? Não acredito. Oscar Schmidt é tão chorão quanto Rubinho e goza de enorme prestígio entre os torcedores, sendo que o único título expressivo que conseguiu com a seleção brasileira foi o do Panamericano de Indianápolis. Está certo que Oscar foi cestinha de muitas competições, mas isso não costuma pesar no imaginário do brasileiro. Ou você prefere ter o artilheiro da copa do mundo a vencê-la?

3) Seria por Rubinho não ser um galã? Acho improvável, o Émerson Fittipaldi nunca rivalizou com o Tarcísio Meira e o Felipe Massa também não chega a ser uma ameaça para o Gianechinni, nem por isso caindo em descrédito perante os torcedores.

4) Seria por Rubinho inventar desculpas esfarrapadas para as derrotas? Discordo, inventar desculpas esfarrapadas tem ampla aceitação na nossa cultura: os playboys que atearam fogo no índio pataxó alegaram que o confundiram com um mendigo; a Xuxa disse que a Sasha comete erros gramaticais e ortográficos porque foi alfabetizada em inglês; o já esquecido deputado João Alves, um dos anões do orçamento, alegou que ficou rico porque Deus o ajudou a ganhar muitas vezes na loteria; Ronaldo, o fenômeno, disse que confundiu os três travestis com mulheres... e ficou tudo por isso mesmo.

5) Seria por Rubinho não ter carisma? Improvável. O cardeal Ratzinger tem o carisma de um bicho da goiaba e virou Papa! George Bush (filho) tem o carisma de uma ostra e virou a pessoa mais odiada (e temida) do planeta durante seus mandatos.

6) Seria porque Rubinho foi repetidamente vice-campeão? Aí surge um início de explicação. Ser vice é bom ou mau, dependendo da expectativa que se tenha. Por exemplo, a seleção brasileira de Voleibol ser vice-campeã mundial é considerado atualmente um mau resultado, porque a expectativa é de que seja campeã. A seleção brasileira de basquete ser vice-campeã mundial seria uma glória, já que é improvável que atualmente os rapazes e as moças tragam na bagagem mais do que experiência e souvenirs. Uma medalha de prata em uma olimpíada é motivo de orgulho para os brasileiros em qualquer modalidade... exceto o futebol, o vôlei de praia e o vôlei indoor.

O problema é que o Rubinho veio depois de estarmos acostumados a celebrar as vitórias de Piquet e Senna. Pior do que isso: Senna morreu e Schumacher começou a bater os recordes de nosso ídolo. Aí veio a demanda: "Rubinho, pare esse alemão!" Barrichello passou a ter uma dupla função, aos olhos do brasileiro: colocar o Brasil novamente no topo da Fórmula 1 e assegurar a soberania de Senna como o maior de todos os tempos. A Ferrari não pensava assim. Ao aceitar ser o segundo de Schumacher e obedecer às estratégias da equipe, Rubinho compactuou com uma ultrapassagem que não foi perdoada. Não me refiro àquela patética em 2002, na Áustria, mas aquela simbólica em que o alemão ultrapassou a Senna, tornando-se o piloto mais vitorioso da história.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Quando o mundo vem até nós


Viajar é uma coisa muito boa, mas nem sempre temos tempo ou dinheiro para isso. Felizmente há ocasiões em que os outros viajam e chegam até nós. Segunda à noite eu tive o privilégio de ouvir / tocar / cantar junto com uma musicista japonesa versada no jazz, acompanhado por um pianista argentino, uma cantora norte-americana e brasileiros de diferentes partes do país. Na terça eu fui ao Black Swan Pub, cheio de turistas falando inglês, e me senti em Londres. Cidade turística em baixa temporada é uma beleza. Há que se aproveitar antes que a alta temporada chegue.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Aos Mestres, com carinho!


Ser Professor é uma coisa meio ambivalente. Se você entrar na sala dos professores, como fiz por mais de treze anos, pensará que está em Jerusalém, no muro das lamentações. É gente reclamando de alunos que não leram, erros na folha de pagamento, excesso de trabalho não (ou mal) remunerado, problemas institucionais, falta de tempo, falta de sono e por aí vai. Por essas razões, sempre evitei passar tempo demais na sala dos Professores, preferindo conversar com meus colegas na cantina ou em botequins. Aí ficava pensando no que fazia cada um deles continuar na profissão, tais os incômodos que ela provoca. A resposta é sempre muito particular. Para uns é ter um palco para ser admirado, para outros é ter o poder sobre a aprovação / reprovação dos alunos, outros ainda ocupam o lugar em sala porque no Brasil a forma mais viável de se fazer pesquisa é estar atrelado a uma Universidade. Desconfio, porém, que reclamar é uma das grandes fontes de prazer do ser humano, então até isso pode ser razão para persistir em um trabalho pródigo em motivos para reclamação. No meu caso, dar aulas foi uma forma de continuar a aprender, fazer novas amizades e discutir minhas idéias com outras pessoas. Porém, nunca me identifiquei com a Academia em um sentido convencional, cheia de regrinhas e fomentando uma mediocridade segura. No entanto, também não me identifico com o espírito aventureiro e por vezes picareta de muitos dos que não têm lastro acadêmico. Embora o sentimento de ser um peixe fora d´água não seja novo para mim, chega uma hora que a luta para sobreviver na Universidade sem cair no "Lattismo" (doença que faz você só pensar em publicar e aumentar a pontuação no Lattes) é muito desgastante. Por todas as dificuldades apontadas, felicito aos que bravamente resistem, desejando a todos um feliz dia do Professor!

domingo, 11 de outubro de 2009

Diversidade


A vida contemporânea é marcada por movimentos contrários de homogeneização e diversificação de comportamentos. Por um lado, o processo globalizante faz com que os aeroportos do mundo inteiro passem a ser do mesmo jeito, até com os mesmos odores, como apontou Domenico de Masi em sua entrevista para o Roda Viva. Por outro, as facilidades proporcionadas pela internet abrem o acesso à diversidade cultural e permitem que você conheça danças típicas da Indonésia, a culinária polonesa e a religião dos aborígenes australianos. Porém, um campo em que a diversificação vem superando a homogeneização nadando de braçada é a sexualidade humana. Não que seja recente o ser humano ter relações com melancias, ovelhas, crianças ou parentes, mas tudo isso era visto como condenável, tanto do ponto de vista das normas sociais quanto das tradições religiosas e morais. Hoje em dia, devido aos movimentos reivindicatórios, houve um redimensionamento do que é aceitável e do que não o é. Porém, essa discussão ainda vai dar pano pra manga. A ciência tenta acompanhar as mudanças sociais, mas com o ritmo acelerado com que elas se processam, ficamos todos meio atrapalhados diante das novidades.

Vamos a alguns conceitos científicos atuais:

- Sexo do indivíduo: conforme seus genes, presença de ovários ou testículos e genitália externa original de fábrica, o indivíduo pode ser macho, fêmea ou ter uma condição inter-sexual (ser hermafrodita).

- Orientação sexual: conforme o(s) sexo(s) pelo(s) qual(is) o indivíduo sente atração / desejo, ele pode ser heterossexual (sexo oposto), homossexual (mesmo sexo), bissexual (os dois sexos), assexual (nenhum sexo).

- Gênero: conforme os papéis (tipos de comportamento socialmente definidos) com os quais o indivíduo se identifica mais, pode ser predominantemente feminino ou masculino.

- Identidade de gênero: como o indivíduo se reconhece (sou homem, sou mulher, etc.)

Na primeira metade do século XX, supunha-se que a pessoa deveria assumir a identidade de gênero em conformidade com o seu sexo, bem como a orientação sexual heterossexual. Em outras palavras, homem teria que ser homem e gostar de mulher e a recíproca deveria ser verdadeira. O resto era considerado patologia e/ou pouca-vergonha. Porém, na segunda metade do referido século, várias batalhas foram lançadas contra o preconceito e a discriminação em suas variadas formas, o que permitiu avanços rumo a uma sociedade mais igualitária, porém teve como efeito colateral a praga do politicamente correto. Com isso, devido às pressões políticas do movimento GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), a homossexualidade saiu do rol das patologias. Hoje em dia, várias formas alternativas de buscar prazer sexual ou de se colocar no mundo pegaram carona no movimento GLS, que virou GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transexuais), depois ganhou mais um T (transgêneros) e agora abriu pra toda a galerinha (ou quase toda), virando movimento da diversidade sexual. Com isso, a tendência futura é a maior parte das hoje chamadas Parafilias deixarem de ser consideradas patológicas, dependendo da força do lobby da Diversidade e da contrapartida dos movimentos conservadores. A última novidade em termos de diversidade que encontrei foi o cara que tem uma "mangina" (em tradução livre, uma machoxota). Para saber mais sobre ele, sugiro que visitem o post da Lu Bom clicando aqui.

Porém, que vai virar tudo uma Babel, pelo menos no início, disso eu tenho forte convicção. Hoje em dia já encontramos mulheres tomando hormônios para parecerem homens, porém mantendo a vagina e se relacionando com... homens! Encontramos também pessoas do mundo inteiro se encontrando em parques para fazerem sexo em público para serem observadas, congressos de pessoas com fetiche por látex, adeptos do infantilismo que criam um quarto de bebê gigante, são amamentados e têm suas fraldas trocadas... e a coisa vai longe. Eu acho que, protegendo-se as crianças e os animais, é cada um no seu quadrado. Mas que fica estranho para um cara como eu, procurando o velho e tradicional sexo heterossexual, conhecer uma mulher e descobrir que ela já foi homem anteriormente, mas que na verdade gosta de bonecas infláveis, ou ainda que sempre foi mulher, mas sente atração por cafeteiras elétricas, ah, isso fica.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pensando em Deus


Tem coisas que a gente só vai saber quando morrer, isso se sobrar algo parecido com um "eu" pra se dar conta. A existência de um ser superior é uma delas. Caso exista, poderá consistir em um ser pessoal ou impessoal, em um ou muitos, feminino, masculino, andrógino, assexuado, jovem, velho ou além destas divisões. Várias religiões já disseram com imperiosa certeza as coisas mais variadas a respeito deste ser e o livro "Guia do outro mundo", de Ornella Volta, dá uma visão bem panorâmica das várias concepções sobre o além.

Eu não sou muito inclinado às hipóteses que explicam o universo pelo simples acaso. Considero a teoria das probabilidades apenas um meio mais seguro de lidar com a nossa ignorância da totalidade dos cenários que lidamos. O próprio fato de haver regularidades e inteligibilidade no universo já me soa como uma pista de que há inteligência embutida no cosmo. Agora, daí a se pensar que o Ser Supremo do Universo tem a mentalidade de um patriarca ciumento, inseguro e misógino de um povo do deserto, que está realmente preocupado se um macaco pelado come carne de porco, usa preservativo ou reza antes de dormir, acho meio forçado.

Se o bispo de Olinda me excomungar, até nem me preocupo. O problema é alguém me explodir por expressar essa opinião.

sábado, 3 de outubro de 2009

Sorria, você está sendo selecionado!


Muita gente se espanta com o que é feito nas dinâmicas de grupo para seleção de pessoal. Em todos estes anos que estou envolvido com Psicologia - já mais de vinte e um - , vasculhei bibliotecas reais e virtuais em busca de material decente sobre o assunto, mas ainda é escasso. Existem várias teorias sobre processos grupais, com bons textos sobre estes aspectos teóricos. Porém, a parte prática de como desenvolver dinâmicas que permitam analisar o comportamento das pessoas em situações de estresse e/ou interação grupal ainda é pobre. Além disso, nem todos que trabalham no RH das empresas têm uma formação sólida na área do comportamento humano, o que por vezes resulta em chefias à moda de "O Aprendiz" selecionando candidatos por critérios subjetivos e arbitrários. Assim sendo, por vezes a "criatividade" é tanta que os candidatos assistem estupefatos ou participam um tanto constrangidos de situações surreais como a que se segue:

Doze moças aguardam ansiosas em uma sala, sentadas em almofadas no chão. Algumas permanecem caladas, outras conversam sobre amenidades na tentativa de relaxar um pouco. Entra na sala virando cambalhotas um sujeito de terno azul marinho, nariz de palhaço e crocs. Duas candidatas caem na gargalhada.
- Bom dia, senhoras e senhoritas! Eu sou o Dr. Palhares, do RH. A moça de vestidinho vermelho e a magrinha ali do canto (apontando para as que riram) estão eliminadas.
Elas arregalam os olhos, esperando que ele diga que era brincadeira. Não foi. As demais se entreolham em silêncio, assustadas.
- As senhoritas formem agora dois grupos. As cinco da direita são o grupo das capivaras, as cinco da esquerda são o grupo das ariranhas. As capitãs serão as eleitas por cada grupo como as mais malvestidas. Vamos iniciar pelo grupo das capivaras: anotem seus nomes nestes crachás, depois cada uma apresenta seu voto e justificativa.
Elas anotam os nomes e olham para o Dr. Palhares, esperando novas instruções.
- Podemos começar pela Solange. Em quem você vota e por quê?
- Bom, eu voto na Rafaela, porque calça saruel não fica bem em ninguém, ainda mais nessa cor...
- O quê?! Pode não ficar bem em uma gordinha como você, mas em mim...
- Rafaela, não há direito a réplica. Seu voto e justificativa - atalhou o Dr. Palhares.
- Eu voto na gordinha com os peitos fugindo pelo decote.
- Gordinha é a sua mãe! Pelo menos eu tenho peitos...
- Rafaela, a gordinha tem nome, vamos tratar as colegas com respeito. Solange, já disse que não há direito a réplicas. As duas estão eliminadas. Matilde você passa das ariranhas para as capivaras. Seu voto e justificativa.
- Eu não sei, eu acho que todas estão bem vestidas e...
- Voto e justificativa, Matilde!
- Olha, gente, eu não tenho nada contra ninguém, mas... ai, isso é tão difícil! A Maristela, que está com o terninho bege. Fica muito sem vida e engorda. Não que eu ache ela gorda, viu, gente?
- Maristela, voto e justificativa.
- Eu escolho a Matilde, com esse vestidinho que parece uma floricultura e esses sapatos de liquidação.
- Você, Luciana?
- Bom, eu voto na Juliana, que está com um traje muito informal para uma seleção. Está bonito, mas não serve para a ocasião.
- Juliana?
- Eu voto em mim mesma, pois sei aceitar críticas construtivas e gosto de liderar!
- Então está decidido, com dois votos a Juliana é a capitã das capivaras. Vamos às ariranhas.
- Dr. Palhares, nós já temos uma líder, se o senhor não se opuser.
- Sinergia! Espírito de equipe! Gestão participativa! Liderança! - Palhares quase entrava em êxtase - Muito bem! Quem é a líder?
- Denise.
- Muito bem, Denise e Juliana, a tarefa das equipes é a seguinte: vocês irão formar uma fila, retirar as uvas Itália destas bacias com os dentes e, sem usar as mãos, passá-las de boca em boca até depositarem naqueles pratos. Cada bago de uva deve passar pela boca de todas as integrantes da equipe antes de ser depositado.
- Eu não vou fazer isso! É um absurdo!
- Eu também me recuso!
- Estão eliminadas. Temos seis candidatas agora. Vamos à prova. A equipe que colocar mais bagos de uva no prato vence e a líder da outra deverá apresentar uma justificativa para a derrota.
As ariranhas perdem e Denise é chamada a sentar na "cadeira da derrota" para se justificar. Ao sentar, a almofada emite um ruído: "pfrrrrrrrtt"
- Ela peidou! A Denise peidou! - começou a berrar o Dr. Palhares - Peidona! Peidona! Peidona!!!
Denise vira as costas e sai da sala, restando apenas cinco candidatas.
- Muito bem, vamos à segunda etapa. As candidatas vão pegar aventais e espanadores naquela caixa, depois vão espanar móveis imaginários dançando a coreografia da "dança do passarinho".
Dr. Palhares coloca um CD e tem início a atividade: "Passarinho quer dançar, o rabicho balançar, porque acaba de nascer! Tchu-tchu-tchu-tchu!"
- Matilde, você não incorporou o espírito da tarefa. Suas espanadas estavam sem ânimo, não parecia um passarinho que acabou de nascer. Você está eliminada. Juliana, Maristela, Eduarda e Bianca, respondam à pergunta: se você fosse um picolé, de que sabor você seria? Por quê?
- Limão. Porque... Porque... ai, sei lá, porque eu gosto de picolé de limão
- Uva. Eu acho que é um sabor que todo mundo gosta, né? Eu acho importante que gostem de mim.
- Chocolate. Porque eu sou perfeccionista e dou tudo de mim pela empresa.
- Maracujá. Porque eu sempre cumpro minhas metas, com qualidade e determinação.
- Maristela, você foi eliminada. Chocolate e perfeccionismo?! A quem você quer enganar? Agora vocês três, falem seus maiores defeitos, imitando o Sílvio Santos.
- Maaaa oeeee! Eu tenho como defeito me dedicar demais ao trabalho e esquecer dos amigos, Lombardi!
- Eu tenho como principal defeito ser muito ambiciosa. Quem quer dinheiiiiiroooo? Eu quero!
- Maaa oeeee! Meu maior defeito é ser leal demais à empresa. A pipa do vovô não sobe mais! A pipa do vovô não sobe mais!
- Temos aqui um empate. Vamos desempatar com luta no gel.
- Nem pensar, meu cabelo...
- Está eliminada, Eduarda. Pois bem, temos aqui duas finalistas: Juliana e Bianca. Vistam aqueles biquinis e vamos ao tanque com gel. A que conseguir sair do tanque com a bola de borracha será a vencedora. Não é permitido puxar os cabelos, furar olhos, arranhar, morder ou dar cabeçadas.
A luta segue, ambas se engalfinhando desesperadamente, até que se passam os cinco minutos.
- Após cinco minutos, não temos uma vencedora. Vamos para a questão de desempate: Se você estivesse em um navio e tivesse um cachorrinho chamado Nabunda...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Da grana


O dinheiro é um deus ciumento que só ama os seus devotos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Poesia não serve


O bom da poesia é que ela não serve para nada
Mas o melhor mesmo é que ela não serve a ninguém

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soluções cara-de-pau


Penso que um livro de ficção é uma espécie de quebra-cabeças, partida de xadrez ou qualquer outra metáfora em que se pressuponha estruturas, funções, em outras palavras, ordem. Claro que os especialistas em literatura considerarão este ponto de vista estreito, que o modernismo e o pós-modernismo rompem com estes paradigmas estéticos e fundamentarão em abstrações vanguardistas, mas acho isso tudo bobagem. Defendo que uma narrativa ficcional precise ser verossímil, dentro das regras que se propõe ao início. Você escreveu um livro fantástico em que vacas voam e melancias são fosforescentes? Ótimo, nesse universo que você criou, as regras são estas: subverter a realidade, dar livre curso à imaginação. O que acho péssimo é quando em 350 páginas as vacas não voavam e, de repente, só pra resolver um problema de uma personagem, uma vaca sai voando para resgatá-la da prisão. Fico bravo quando o autor coloca a si próprio em uma enrascada e vem com uma solução cara-de-pau, como incluir uma personagem que não apareceu anteriormente no livro, só para ter um assassino que ninguém teria como descobrir, ou quando arruma uma solução carnavalesca de uma personagem telefonar para outra antes da invenção do telefone e, ainda por cima, brincar com isso, fazendo-a comentar "como é bom poder falar com você neste aparelho que ainda não inventaram". Aí irrompe uma horda de vikings dançando a macarena.

Na TV e no cinema, que são meios mais propensos a esse tipo de bobagem, acho apenas sofrível, mas nos livros eu considero imperdoável: perde-se muito mais tempo. Fiquei bravo com o Woody Allen em Match Point, na cena da delegacia. O filme seguia em outro tom, quando ele deparou com o problema: "mas ninguém iria desconfiar?" Como não dava mais tempo de seguir aquela linha de raciocínio no ritmo em que o filme transcorria, fez uma ceninha sem pé nem cabeça, em ritmo acelerado, na qual o investigador descobriu toda a verdade e, em seguida, uma bobagem qualquer derrubou a descoberta. Se é pra virar pastelão, que tenha pastelão do início ao fim. Outro filme que me deu vontade de atirar tomates na tela foi "Um drink no Inferno", do Tarantino, que começa como um policial e termina como um terror classe C.

Esta postagem terminará em aberto, antes que eu ceda à tentação de um final carnavalesco e ponha tudo a perder.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vai trabalhar, vagabundo!


A palavra trabalho vem do latim "tripalium", que quer dizer "três paus", referindo-se a um instrumento romano de tortura. Os cidadãos romanos consideravam indigno trabalhar, que seria atribuição de escravos e não de homens livres. Não que eles ficassem sem fazer nada, na verdade passavam os dias a receber seus clientes (arrendatários que tinham a obrigação de lhes puxar o saco) e a traficar influência. Os cidadãos mais velhos compunham o "Senatus" (Senado), que quer dizer "velharada" (senex = velho). Porém, não gostar de trabalhar e associar o trabalho a um castigo é uma noção que vem de antes dos romanos. Os hebreus, por exemplo, consideram que "ganhar o pão com o suor do rosto" foi um castigo divino pela desobediência de Adão. Para os gregos - ou pelo menos para Hesíodo, em "Os trabalhos e os dias" -, o mito de Prometeu e Pandora coloca que o trabalho é um castigo de Zeus para se vingar do roubo do fogo sagrado, passado por Prometeu aos homens.

Em oposição ao trabalho está o jogo (brincadeira, lazer, etc.). A diferença fundamental no que constitui o jogo e no que é trabalho está no sentido de obrigação. Você pára de brincar na hora que quiser, enquanto parar de trabalhar é uma coisa pra quando se puder. Um ator pornô, um jogador de futebol ou um músico profissional têm as obrigações do trabalho atreladas às suas atividades: desempenho (eficiência e eficácia) e compromisso. Já você, leitor, quando joga sua peladinha, participa de uma roda de violão ou dá a sua namorada básica, está apenas desfrutando. Uma coisa que sempre achei curioso foi que as mesmas pessoas que passaram boa parte da vida insatisfeitas, carrancudas e esbravejando por terem de trabalhar, eram as que ficavam sem saber o que fazer após se aposentarem, entrando em crises de diferentes magnitudes. Mais tarde isso se esclareceu: a pressão social para se trabalhar é tão grande, a vida da gente é tão voltada para o trabalho e o estigma ligado à vagabundagem é tão forte, que pra não sentir culpa e ter algum valor social o sujeito acaba dedicando os anos de velhice à mesma função dos anos de mocidade e vida adulta: enriquecer os outros, ganhando as migalhas de prêmio.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Medo


Todos nós, dos miúdos aos graúdos, em algum momento da vida experimentamos o medo. Existem algumas diferenças técnicas entre os diferentes tipos de estados ansiosos, que aqui simplificarei: a) o medo é uma reação de apreensão diante de um perigo real e identificável, sendo proporcional a ele; b) a fobia é uma reação de apreensão diante de um perigo imaginário ou uma reação desproporcional diante de um perigo real; c) o pânico é uma reação de ansiedade aguda e extremamente intensa, envolvendo tremores, palpitações e receio de perder o controle, enlouquecer ou morrer; d) os estados ansiosos flutuantes são como "medos" difusos e generalizados, ou seja, você está com medo de tudo, preocupadíssimo com riscos reais ou imaginários. Para os que quiserem se aprofundar nestas distinções, sugiro que cliquem aqui.

O medo propriamente dito é uma reação saudável, pois nos faz evitar perigos reais ou enfrentá-los com a cautela necessária. Os demais estados ansiosos causam um sofrimento desnecessário, mas o sujeito se sente incapaz de evitá-lo. Há diversas explicações teóricas para estes estados, as quais podem ser encontradas na obra "Psicologia dos Transtornos Mentais", de David S. Holmes.

Porém, geralmente os que não utilizam a terminologia psicopatológica, chamam estes estados de apreensão de medo. Para facilitar a leitura, mesmo sendo incorreto do ponto de vista técnico, chamarei de medo aos diversos estados ansiosos anteriormente mencionados. Há medos mais pragmáticos, como o de voar de avião, dirigir automóveis, ser demitido, ser abandonado. Outros medos são mais fantasiosos, como os de feitiço, vampiro, fantasma, bicho-papão e outros monstros. Porém, ao fim e ao cabo, salvo experiências traumáticas com ataques de animais ou outras situações equivalentes, a raiz da maioria destes medos está na sensação de desamparo, vulnerabilidade e fragilidade do ser humano perante a possibilidade de enfrentar sozinho o desconhecido. Aí restam duas soluções: o desconhecido se tornar conhecido ou perceber que não se está sozinho. Como sempre haverá algo desconhecido e nem sempre se estará acompanhado de fato, alguns resolvem a questão internalizando a idéia de um "outro" protetor (pai, mãe, Estado, Deus, anjo da guarda, etc.), outros desenvolvem uma grande confiança neles próprios, muitas vezes exagerada, criando ilusões de onipotência e auto-suficiência. Pelo sim, pelo não, quando o Monstro do Pântano bater à sua porta, o melhor é pedir ajuda.

domingo, 13 de setembro de 2009

Surpresas


Depois de uma semana "surpreendente" em que se descobriu que as equipes de fórmula 1 nem sempre são honestas em suas estratégias, que poderosos como o Berlusconi fazem festas com prostitutas e cocaína, que um povo com costumes exóticos (aos nossos olhos) será substituído na TV por mais uma Helena sofredora, fiquei pensando se o problema real não é o simples fato destas coisas não me surpreenderem mais.

Aí, por uma destas tramas da vida, passei parte do final de semana em uma cidadezinha próxima, com uma vasta área rural. Encontrei por lá gente que ainda se importa com honra e em zelar pela própria reputação, uma recepção bastante hospitaleira, um excelente barzinho com cervejas de ótima qualidade (nacionais e importadas) e mais não digo para não ser indiscreto. Ainda bem que a vida reserva surpresas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O melhor e o possível


Ganhar da Argentina é muito divertido e tirar onda com os hermanos depois do jogo é ainda melhor, mas há um momento em que a compaixão é mais forte e bate uma certa empatia, mesmo com rivais de tão longa data. Talvez a Argentina fique fora da copa de 2010, talvez não. O problema que vejo é outro: o reconhecimento de limites. Os técnicos que antecederam Maradona perderam seus empregos após derrotas para o Brasil em duas finais de campeonato. Dunga quase dançou após perder a semifinal do futebol olímpico para essa mesma Argentina. Falta aí uma noção básica: às vezes o outro está melhor mesmo e não há o que se fazer. Não há jogadores em algumas posições, não há tempo pra se treinar, o outro time está mais entrosado, ou qualquer outro fator que está além das possibilidades de uma reversão em tempo hábil - ou a qualquer tempo. Às vezes as coisas dão errado por culpa nossa, outras por culpa de circunstâncias além de nosso controle. A Argentina vice-campeã da Copa América de 2007 era um time digno, jogando um grande futebol, suficiente para não passar os recentes vexames nas eliminatórias da Copa do Mundo. Porém, não era o bastante: os anos de títulos perdidos para o Brasil maculavam a imagem do país e era preciso crucificar alguém. Primeiro foram os veteranos, depois o técnico. Resolveram apelar para o sobrenatural: lá Maradona é Deus. No entanto, tiveram que se render aos gols Nietzcheanos da Bolívia e do Brasil, a provar que Deus está morto.

Maradona, surpreendentemente para os que se acostumaram aos escândalos envolvendo seu nome, tem se portado de maneira muito digna e correta. Os caras estão lutando e fazendo o seu melhor. A realidade da vida é essa: nem sempre o seu melhor é o suficiente. Por mais que as "auto-ajudas" mintam que querer é poder, na verdade querer é só querer e poder é poder de fato. Há momentos em que você está preparado para superar seus concorrentes, há outros em que eles estão mais bem preparados que você. Para as coisas darem certo, é preciso tempo, recursos, trabalho e condições favoráveis (que alguns chamam de sorte). Nas novelas é diferente, mas geralmente os espectadores não são os mesmos do futebol.

sábado, 5 de setembro de 2009

As margens plácidas do Ipiranga


Tudo bem que a Vanusa se perdeu feio no hino, que estava sob efeito de alguma substância psicoativa - seja ou não para a labirintite -, que o episódio gerou as reações mais variadas possíveis, da pena ao desprezo. Agora responda rápido: quando você canta o hino nacional, entende direito o sentido da letra? Pois o meu avô, em um passado distante, passou o hino nacional pra ordem direta.

Ao ler o hino redigido desta forma, pensei: tão ridículo quanto errar o hino é estufar o peito e cantar algo que não se sabe o que quer dizer. Leia também, entenda a letra e pare de cantar na base do Virundum.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Entrevista - segunda parte

domingo, 30 de agosto de 2009

Entrevista - primeira parte

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Batom emagrecedor


Hoje, lendo as bobagens que o povo chama de notícias, deparei com a seguinte chamada: empresa americana cria batom que promete emagrecer. Pensei com meus botões: só se for cola em bastão.

domingo, 23 de agosto de 2009

Aniversário do blog


Dona Edwiges, uma velhinha que é médium e fofoqueira nas horas vagas, incorporou hoje a Marylin Monroe e cantou "Happy Birthday" pra mim ao telefone. Fiquei meio sem entender, até que percebi que era o aniversário do blog. Você acredita nisso? Eu também não. Um ano, quem diria?!

sábado, 22 de agosto de 2009

Reservados


"A reserva que se expanda!"
Disse o jovem indiozinho
Optando por ser panda

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Nostalgia


Onde estão os chocolates de minha infância?
O tempo comeu!
Cadê o tempo?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Andy Warhol no Senado Federal


No futuro, todos terão quinze minutos de execração pública.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Contra-indicações e efeitos colaterais


Se pessoas viessem com bula ou manual de instruções, provavelmente eu teria que arrumar outra forma de ganhar a vida, mas que tem dias que dá uma vontade de que no futuro seja assim, ah, isso dá. Pelo menos que venham com tarja preta...

sábado, 8 de agosto de 2009

Divagando sobre a felicidade


Às vezes pensamos - ou eu penso, sei lá se você também pensa isso - dos outros: "Nossa, mas logo fulano(a), que tinha tudo para ser feliz?!"


Não tinha... Felicidade é um estado subjetivo, não uma soma de coisas. "Ser feliz" e "estar feliz" só diferem na duração da felicidade auto-percebida. Ao fim e ao cabo, é só uma questão de estar verdadeiramente convencido disso.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A origem das espécies


O biólogo Richard Dawkins morre, chega ao Céu e lá encontra Deus, que o espera com um meio-sorriso irônico:
- E então, Richard, alguma coisa a perguntar para este delírio que vos fala?
- Sim. O Senhor realmente acha o ornitorrinco obra de um design inteligente?

domingo, 2 de agosto de 2009

O fim do humor


O humor sempre foi agressivo e preconceituoso. Ri-se da desgraça, dos defeitos ou da vergonha, sejam alheios ou próprios. Ninguém imagina que gaúchos, japoneses, judeus, turcos, homossexuais, portugueses, alentejanos, irlandeses, políticos, loiras, negros ou papagaios gostem de ver/ouvir seu grupo sendo alvo de chacota. Porém, em nome de se fazer graça, cada um ri dos outros e ri amarelo de si mesmo quando alvo de troça. A piada tanto pode ser forma de ataque quanto de resistência, no caso do humorismo político. Da metade do século passado para a frente, os movimentos sociais anti-discriminatórios conseguiram travar lutas importantes contra o preconceito em suas formas mais diretas e opressoras, gerando como efeito colateral o "politicamente correto", com todos os eufemismos que vieram a reboque na esperança de mudar a atitude a partir da mudança de nomenclatura. Do início da abertura política até recentemente, o humorismo tinha escapado da censura. Porém, a denúncia de racismo que sofreu Danilo Gentili em função de uma tuitada sobre o King Kong quase inaugurou uma nova era. Dessa vez bateu na trave, mas pode ser que o fim do humor se aproxime. Duvido que se possa fazer humor sem que alguém ou algum grupo seja ridicularizado, restando apenas os papagaios e as pessoas que a história tornou execráveis. No futuro, as piadas serão assim:

- "Hitler, Torquemada e Átila, o huno, vinham caminhando pelo deserto, quando tropeçaram em uma lâmpada mágica..."
- "Como se colocam cinco machistas dentro de um fusca?"
- "Quantos homofóbicos são necessários para trocar uma lâmpada?"
- "Um papagaio e um pedófilo estavam em um avião, quando a aeromoça..."

Para aproveitar enquanto não se é preso por contar anedotas, vou relembrar um clássico que li em algum volume das "Anedotas do Pasquim", provavelmente compilado pelo finado Fausto Wolff.

Um sujeito entra em um bar, senta-se ao balcão e puxa assunto com um desconhecido:
- Você viu a última bobagem que o presidente disse?
É interrompido pelo dono do estabelecimento, que diz:
- Desculpe, senhor, mas não permito que se fale de política aqui no bar.
O sujeito fica meio ressabiado, mas puxa outro assunto:
- E esse novo Papa, viram que idéias mais retrógradas que ele tem sobre...
- Senhor, também não é permitido discutir religião aqui meu estabelecimento.
- E o Corinthians, o que vocês...
- Futebol também não.
- E de sexo? Posso falar de sexo aqui no bar?
- Ah, sim. De sexo pode.
- Então vá tomar no seu %#.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Entre o céu e a terra


Quem mira o céu
Não foge ao tombo
Porém evita
Cocô de pombo

terça-feira, 28 de julho de 2009

Prisioneiro da bobagem reloaded


Estava vendo TV uma manhã dessas, acho que no domingo, e no Profissão reporter teve uma matéria com três concursos: um de miss infantil, outro de Prenda do Rio Grande do Sul e outro nos subúrbios do Rio de Janeiro. O programa reforçou em mim a convicção de que o ser humano, como se não bastassem as agruras da luta pela sobrevivência, ainda inventa coisas para tornar muita gente infeliz em troca da felicidade de um só. Porém, como a própria miséria humana traz consigo a possibilidade do humor, veio-me o trocadilho: "Garota da laje" - mocinhas do subúrbio lutando por um lugar ao Sol.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Essência, aparência e amor incondicional


Responda depressa: você dirigiria uma Ferrari por aí se ela fosse obrigatoriamente cor-de-abóbora, com uma estampa do Wando na porta direita, uma do Latino na porta esquerda, um estofamento de zebra e o dito "A inveja é uma merda" no pára-choque traseiro?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Santos ou picaretas?


Em algum momento da trajetória da humanidade, a espécie aprendeu a falar. Em outro, aprendeu a pensar, embora provavelmente tenham sido muito próximos e haja divergências teóricas a respeito de qual deles é o ovo e qual a galinha. Uma vez pensante-falante (ou falante-pensante), ficou mais fácil sobreviver com conforto e segurança, embora isso tenha gerado uma possibilidade para a qual não devíamos estar preparados na ocasião: o questionamento. Há perguntas e perguntas, como: "o que faz as mulheres engravidarem?", "como matar uma onça sem ter que chegar perto dela?", "o que é a morte?", "qual o sentido da vida?", "por que o Leoberto nasceu com lábio leporino?" e por aí seguimos rumo ao infinito. Um dos livros mais interessantes do Tesouro da Juventude, na minha opinião, é o Livro dos Porquês. Ao longo dos tempos, várias formas de chegar às respostas foram inventadas, trazendo consigo métodos para tentar modificar a realidade. Magia, Religião, Filosofia, Ciência, cada um desses caminhos teve (e tem) suas singularidades e responde com maior ou menor competência a perguntas específicas. Para "o que leva as mulheres a engravidarem", por exemplo, eu prefiro uma resposta científica. Já para "qual o sentido da vida", fico entre a resposta filosófica e a religiosa. Embora atravesse um período meio cético, sempre tive interesse por religiões. Considero a religiosidade e a espiritualidade elementos fundamentais da vida humana, porém tenho um pé atrás com os movimentos religiosos. Ainda acho que são duas coisas distintas, ao contrário do que aconteceu com meu amigo Sandro Sell em relação ao Partido dos Trabalhadores: sempre teve simpatia pelo PT, mas achava os petistas insuportáveis, até o dia em que a ficha caiu e descobriu que "o PT são os petistas!"

Desde que a religião se institucionalizou, os líderes religiosos passaram a viver no bem-bom às custas de seus fiéis. Dos sacerdotes egípcios aos levitas, dos Templários ao Edir Macedo, nuca vi líder religioso pobre. Claro que a linha de frente, os soldadinhos da instituição, são geralmente uns pés-rapados, já que a estrutura é invariavelmente piramidal. O produto mais vendável do mundo é a "perspectiva de felicidade" e todo o comércio se baseia nisso. Se juntarmos uma boa dose de medo, seja da danação eterna ou de más reencarnações, temos a garantia de sucesso do empreendimento. Embora por cerca de trezentos anos o maior inimigo da Religião tenha sido a Ciência, no restante do tempo as grandes inimigas eram as religiões rivais. Os evangélicos neopentecostais preocupam-se muito mais com os umbandistas e com os católicos do que com os ateus, e com razão. É mais difícil um crente virar ateu do que virar casaca para outra confissão. Neste cenário das disputas religiosas surge o conceito de Culto, usado em várias acepções diferentes. A que vou empregar aqui se refere a uma arapuca pseudoreligiosa que, mediante lavagem cerebral, procura distanciar seus membros das pessoas que se preocupam com eles e explorá-las até a última gota. As seitas Aum Shinrikyo, a família Manson e o People´s Temple de Jim Jones são exemplos inquestionáveis de cultos prejudiciais. Porém, há os que vagam em uma área nebulosa, lutando pelo status de religião, como a Cientologia, por exemplo. Fora do escopo da religião, há na internet depoimentos assustadores de ex-adeptos da Ontopsicologia, da Nova Acrópole, do Yôga do DeRose, entre outros, sendo que os adeptos atuais contestam estes depoimentos veementemente, resultando inclusive em processos judiciais de ambas as partes. Por outro lado, dentro da religião Católica há espaço e reconhecimento para a Opus Dei, que também tem ex-adeptos contando histórias assustadoras de lavagem cerebral e prejuízos psicológicos decorrentes do envolvimento com o grupo. Recomendo a obra "Stripping the Gurus: sex, violence, abuse and enlightenment", de Geoffrey D. Falk, para quem quer se aprofundar sobre o tema.

Há quem pense que o DeRose é o novo Patanjali, que INRI Cristo é Jesus em sua segunda vinda ou que Edir Macedo é um novo São Paulo, e é direito de cada um. Já eu me pergunto: e se o Patanjali foi o antigo DeRose, Jesus foi a primeira vinda de INRI Cristo e São Paulo o antigo Edir Macedo?

sábado, 18 de julho de 2009

Histórias dentro de histórias


Antes de termos a possibilidade de ler material organizado na forma de hipertexto (como este que você está lendo agora, que permite navegar em outras janelinhas e voltar), a idéia de transitar em histórias dentro de histórias já havia sido explorada na literatura. Evidentemente, pessoas prolixas têm o hábito de falar em hipertexto: "Antônio, você não sabe o que aconteceu! Eu estava andando na rua e encontrei a Mariquinha, sabe, a filha do Seu Arnulfo da padaria? Aquela padaria que pegou fogo no ano passado e que morreu um bombeiro tentando apagar, até apareceu na televisão naquele programa sensacionalista que passa à tarde, aquele que um gordo apresenta... Qual é mesmo o nome dele?" As janelas vão se abrindo e em cinco minutos o ouvinte já não sabe mais do que se está falando. Às vezes o falante também.

Um livro genial dimensionado como hipertexto é "As mil e uma noites", do qual já falei aqui. Outro deles é "O jogo da amarelinha" (Rayuela), de Julio Cortazar, que pode ser lido de duas formas: seqüencialmente, indo do capítulo 1 ao capítulo 56; aos saltos, iniciando pelo capítulo 73 e indo para o capítulo seguinte em uma ordem estranha, sugerida pelo autor. Na verdade, os textos adicionais servem como janelas e nem sempre guardam relação explícita com a trama. São como suplementos e a graça está justamente em brincar com o autor de pular amarelinha, mergulhando por reflexões adicionais, lampejos poéticos e outras maluquices no melhor sentido do termo. Porém, meu livro favorito de histórias dentro de histórias é "O dicionário kazar", de Milorad Pávitch. Começa que o livro tem duas edições, a masculina e a feminina, com apenas um parágrafo de diferença na página 258. Ao final do livro, o autor sugere de forma poética que o leitor e a leitora que gastaram tanto tempo lendo solitariamente o livro se encontrem, comparando as diferenças e completando o sentido da obra. Além disso, o livro tem como moldura a polêmica sobre a conversão do povo kazar, apresentada na forma léxico em três versões, conforme as fontes sejam cristãs, islâmicas ou judaicas. Cada verbete tem certa autonomia, porém remete a outros, como os textos com links. História e ficção são misturados de forma envolvente, com muita perspicácia e criatividade. A diferença entre as edições feminina e masculina? Melhor descobri-la como o autor sugere.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os mistérios do sucesso


É estranho pensar nas coisas que fazem sucesso mundo afora. Existem tenistas milionários, mas os jogadores de badmington, que é muito parecido, devem ganhar uma merreca. Há jogadores de poker milionários, mas no truco você ganha no máximo umas cervejinhas. Há torneios de sinuca com grandes prêmios, mas um exímio jogador de pebolim ganha no máximo uns tapinhas nas costas. Hoje, após ter inventado uns cinco jogos diferentes com apenas duas moedinhas de vinte e cinco centavos e uma mesa com cobertura de fórmica, pensei com os meus botões que nenhum deles era menos nobre como esporte do que a pelota basca, a bocha ou o voleibol. A rigor, nenhum deles tem outra utilidade prática que não o entretenimento. Porém, mesmo meu argumento sendo irrefutável do ponto de vista da lógica, seja ela aristotélica ou hegeliana, duvido que vá me tornar milionário com minha capacidade de dar petelecos em moedinhas com habilidade e precisão.

 
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