domingo, 11 de janeiro de 2009

As mil e uma noites


Já deve ter acontecido com você também: um programa de TV está fantástico, chega em um ponto de suspense e aparece o letreiro "continua no próximo episódio" (to be continued ou outro equivalente). É mais ou menos como na adolescência, quando no melhor dos amassos a namorada se agarrava às últimas forças de resistência e dizia "Me leva pra casa" antes que se fosse longe demais. Fica aquela sensação de um balde de água fria no melhor da festa. Esse tema me veio à mente porque os últimos dias foram muito mais inspirados para viver do que para escrever, então corria o risco de não cumprir com meu objetivo de manter o blog atualizado com regularidade. Eu, particularmente, fico bem frustrado quando os blogs que me agradam começam a criar teias de aranha. Olhei para cima em busca de uma idéia e vi o volume I do "Livro das mil e uma noites", então ela veio. Se o leitor não conhece este livro, certamente conhece algumas das fábulas nele contidas: Aladim e a lâmpada maravilhosa; Ali Babá e os Quarenta Ladrões; As aventuras de Simbad, o marujo. A Editora Globo iniciou um projeto de tradução deste clássico diretamente do árabe em 2005, tendo este livro dois ramos: sírio e egípcio. Comprei os dois volumes e aprendi um pouco da história deste belo livro, que não tinha este título em sua primeira versão, tampouco mil e uma noites. Posteriormente, várias fábulas foram agregadas a fim de completar a quantidade de noites, possivelmente em prejuízo do conteúdo. Minha primeira frustração foi não terem bancado a tradução do ramo egípcio tardio, em que todas as fábulas estariam presentes, mesmo as agregadas ao final. Foi possivelmente uma decisão comercial, pois seria improvável que o livro vendesse caso assumisse esta conformação. A segunda frustração ocorreu quando percebi que o livro só pode ser lido de um só fôlego, ou o leitor se perderá em seus meandros. A lógica do texto é semelhante à do hipertexto: há histórias dentro de histórias, formando várias "caixas concêntricas", como se você fosse abrindo janelas dentro de janelas em um texto na internet. Além disso, ao fim de cada noite, a história deve estar em um ponto de tensão, como em uma novela de televisão. Genial, se você pensar que o livro foi escrito a partir do século IX, ganhando este título no século XIII. Difícil é encontrar um momento adequado para ler o segundo volume sem me perder no meio da leitura, nem enjoar com o perpétuo movimento de "continua no próximo episódio".

5 comentários:

Igor disse...

Não sou muito adepto da leitura de livros. Não tive esse hábito na infância ou adolescência, menos ainda o teria agora. Mas odeio quando isso acontece, seja em histórias, blog´s, séries, fascículo de coleções de montar qualquer coisa.

Zíngara disse...

"To be continued" já me faz escrever cartas homéricas para televisão. hahahahah

Não me interesso pelo tema, conheço algumas histórias na versão INFANTIL.

Beijo grande,
Zin

FlaM disse...

Pois eu sou bem tolerante com os intervalos e as teias nos blogs... principalmete se for por um bom motivo!
"mais inspirados para viver do que para escrever"
hum... sei... como era aquilo de prazeres psicodélicos?
Seja o que for, me parecem bons motivos para deixar para o próximo episódio!
bjs, f

Drama Queen disse...

Tem coisa mais irritante do que o tal "to be continued"?! Aff.

Em livros, você ainda tem a opção de continuar lendo. E quando é na TV? Argh! Você tem que esperar o dia seguinte, ou a semana seguinte!

Fico dividida entre o amor e o ódio, afinal, se não houve aquela curiosidade pelo que vem depois, logo descartamos com um simples "tal livro/série/novela é ruim".

Paulo César Nascimento disse...

Igor: você está perdendo um universo bem interessante. Quem sabe você experimenta as graphic novels? Abraço

Zin: a versão para adultos é bem... ehr ... ADULTA. ;-)
Acontecem coisas das Arábias! Beijos

Flávia: quanto aos bons motivos... (continua no próximo comentário) Bjs

Drama Queen: tem sim, é perder o episódio seguinte e ficar sem saber o final. Aí fica só o ódio. Bjs

 
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