domingo, 25 de janeiro de 2009

A linguagem do amor


Não conheço homem algum que nunca tenha reclamado que não entende as mulheres – inclusive eu mesmo. Porém, quando uma mulher dá aulas, coordena reuniões ou faz outro tipo de comunicação profissional, geralmente nós as entendemos. Quando nossas amigas desabafam ou simplesmente conversam conosco, também são perfeitamente compreensíveis. É nos relacionamentos íntimos de cunho afetivo que o bicho pega. De uns tempos para cá, desenvolvi uma teoria estapafúrdia para explicar este processo. As mulheres são bilíngües (com trema, pois ainda vou demorar a aderir ao acordo ortográfico).

O "machês" é um idioma linear, quase cartesiano, criado para evitar ambigüidades, ideal para fazer a guerra, o comércio, a caça e a ciência. Pode-se falar a verdade ou mentir em "machês", mas as palavras conservam seu sentido denotativo. “Eu te odeio” significa simplesmente “sinto ódio por você”. Sentimentos encerram ambivalências, nuances, conotações, então o "machês "não é o idioma mais adequado para expressá-los. Com séculos de patriarcado (se não milênios), o "machês " tornou-se o idioma oficial da vida pública.

O "mulherês" é um idioma multidimensional, que envolve palavras, gestos, ações, impostação de voz e – o mais importante de tudo – o contexto. No "mulherês," as palavras não são o mais importante, apresentando várias conotações e podendo inclusive significar o seu contrário. “Eu te odeio” pode significar “sinto ódio por você”, “eu te amo”, “odeio te amar”, “que raiva, não consigo te manipular”, “me coma” ou qualquer outra coisa, dependendo dos outros elementos anteriormente mencionados. A mentira, inclusive, adquire mais funções no "mulherês" do que a simples manipulação a partir da ocultação da real finalidade. Pode servir como auto-proteção, para preservar os sentimentos ou a auto-estima do outro, para ser socialmente conveniente, para tornar uma situação mais interessante, para testar as intenções alheias, e muito mais.

Os homens geralmente não são bilíngües. Falam apenas o "machês," seja na vida privada, seja na pública. Quando as palavras de um homem são incongruentes com suas ações, há duas possibilidades: ou ele está confuso e não sabe o que faz, ou está mentindo em "machês." Na dúvida, orientem-se pelas ações, mais do que pelas palavras. As mulheres são bilíngües, pois tiveram que (ou optaram por?) se inserir na vida pública. Daí, aprenderam o "machês," além do "mulherês" nativo. Como são mais hábeis do que nós homens no campo da linguagem, utilizam o "machês" em comunicações científicas e outras situações de trabalho, mas nas relações afetivas costumam falar "mulherês". O problema é que não lhes ocorre que os homens ignoram este idioma. Fica aquele pressuposto tácito de que ninguém seria imbecil ao ponto de falar de sentimentos em "machês", essa linguagem literal e rasteira. Se você for mulher, não pense que ele está falando "mulherês" com você, isso é muito raro. Daí que surgem as principais situações em que as mulheres não entendem os homens, pois ficam procurando conotações, sutilezas e duplos-sentidos onde há apenas confusão ou mentira pura e simples. Quando as palavras de uma mulher são incongruentes com suas ações, há três possibilidades: a) ela pode estar confusa e não saber o que faz, mas tenta se expressar em "machês"; b) ela pode estar confusa e não saber o que faz, mas tenta se expressar em "mulherês"; c) ela sabe muito bem o que faz, mas expressa isso em "mulherês".

Assim como o Jeremias, da propaganda do desodorante, também tenho uma “Cidade das mulheres que Paulinho desperdiçou” por não ser fluente em "mulherês". Mas estou aprendendo... Como é difícil a linguagem do amor!

19 comentários:

silvia dutra disse...

Adorei o texto e o vídeo,ha ha ha. Por essas e por outras que eu adoro os homens no geral e meu marido em particular. Vocês são óbvios, simples. Uma mulher esperta( e eu sou uma) entende os homens bem, porque não há muito pra entender: what you see is what you get. Enquanto que as mulheres é bem isso que você descreveu. Detalhe: elas falam mulherês entre si também, não é só com os parceiros amorosos. "Voce tá linda" ou "adorei sua roupa/cabelo/casa etc" vindo de uma mulher pode significar muitas coisas, enquanto que vindo de um homem ou é a pura verdade ou é uma mentira fácil de descobrir. Por isso que sempre tive mais amigos homens.Detesto essas dissimulações. Aprecio as coisas às claras, mesmo que doam num primeiro momento. E deve ser algo biológico isso viu Paulo?. Tenho um filho e uma filha e observo que essa diferença básica entre os sexos vem de muito cedo, não é algo só culturalmente aprendido.
Olha ai, um tema pra muita pesquisa. Vamos escrever um livro juntos sobre como decifrar o mulherês? Ficaríamos ricos Paulo...ha ha ha....Parabéns, muito bom o texto. E não estou falando mulherês viu? Adorei MESMO.

Paulo César Nascimento disse...

Silvia: obrigado! Se você me ajudar, podemos escrever o "womanese for dummies" - ou seria "femalenese"? Vou lhe mandar por e-mail o link pra uma tradução que fiz de um post em mulherês. Acho que estou no nível intermediário, mas com um pouco mais de conversação aprendo de vez esse idioma. Beijos

milu leite disse...

humm, confissão? ou será um cara espertinho falando em "mulherês" pra alguém em especial?
paulinho, vc é macaco véio, querido. nem vem que não tem!
agora sobre o jeremias: a propaganda deve ter sido criada por um homem. só pode! que mulher em sã consciência teria coragem de imaginar que um homem reconquistaria suas belas espirrando jatos de desodorante pelo corpo como se estivesse num lava-rápido?
bjos

Paulo César Nascimento disse...

Milu: sob certo ângulo, você está certa. Nasci em 1968, ano do macaco, e não sou mais um guri...
Mais do que criada POR um homem, a propaganda foi criada PARA os homens. Uma cidade cheia de modelos esperando pelo resgate de Jeremias, um delírio de consumo. Na vida real, mulher que você desperdiça não vai pra cidade nenhuma: vai é pra outro cara menos bobo. Beijos!

FlaM disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKK
Não te aguento (experimentando a nova regra!)!
Tô c'a Milu! Prá cima de moi! Nnao contavas com minha astúcia! Faz todo um esqueminha prá mandar o maior recado...
Hoje em dia ando pensando mais é num tal de sacanês, dominado por homens sim, mas nao tenho dúvida que por mulhers tb! E como!
Mas o post é impagável... assim como a peça publicitária: sensacional!
Quanto à tua cidadela particular, é como dia a Ana Maria Braga: Acorda menino!
bj, f

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: eu não disse que era completamente ignorante em mulherês, só mencionei que ao longo do meu aprendizado, muita bobagem foi feita (e ainda é, felizmente em uma proporção menor). Mas você está certa, melhor ser poliglota e aprender também o sacanês. Então você e a Milu acreditam que este seria um post em "mulherês" para uma mulher misteriosa, interessante e com uma quedinha por mim? Ah, seria eu capaz de tal feito?! ;-)
Bjs

Bruxa Beiçola disse...

Em mulherês: "Nossa, seu texto é tão diferente, você tem estilo"

Em machês: "Aff, Paulinho seu machista!!!! "


Em "Bruxolês: "Gostei, a idéia do texto é ótima e acho que você está com a razão... hahahahha"

Beijos

Paulo César Nascimento disse...

Bruxinha: gostei mais da versão em bruxolês! Bjs

Raphael Rocha Lopes disse...

Por mim, fechado, Paulo. Já tive excelentes referências dos teus trabalhos (além deste blog, claro) através do Renato, marido da Cláudia.

Drama disse...

Até concordo com seu ponto, tem potencial. Mas conheço muitos homens que entendem mais de mulherês que eu (QUE EU!!!), estes são que entendem ambos são o que? boiolês?



Drama Queen.

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Mulherês é quase uma lingua morta...rs!!!!!
Hoje as coisas estão tão diferentes, que não há manual que funcione!
Beijocas,

Paulo César Nascimento disse...

Drama Queen: estes são bilíngües. O boiolês é outro idioma. Bjs

N.S.A.R.B.: olha, eu até gostaria de acreditar nisso... mas, por via das dúvidas, vou continuar nas aulas. rs
Bjs

Drama disse...

bilíngues... SEI.

Lellê disse...

Nossa... eu ia escrever que tinha adorado o post, que é isso mesmo que acontece... Mas tanta gente já escreveu e tão melhor que eu, que fiquei meio sem-palavras... Ou será que não sei falar o "mulherês" direito??? Será que existem mulheres que só falam o "machês" (sem calçarem 44, óbvio...)???
Adorei, Paulo! Quando abro a página e vejo um novo post, é uma alegria para os olhos! A cada novo post, uma grama a mais de admiração...

milu leite disse...

hummm. atacando de moço inocente... "seria eu capazde tal feito?" paulinhoooo! hahaha
tô me controlando pra não falar as bobagem.
bjo

Danielle Uchôa disse...

Ahh, muito bom o texto. Acredito que sempre que as palavras femininas parecerem confusas é porque se está diante da assombrosa opção c. Eu mesma, só me comunico em mulherês, rs.

Alline disse...

Não é exatamente esse caos feminino que atrai, que estimula, que desperta paixões?

Beijoca!

milu leite disse...

isso aqui deu ibope, hein?
e eu me controlei tanto pra não falar bobagem que escrevi tudo errado. vai contar ponto negativo no meu currículo?
bjo

Paulo César Nascimento disse...

Drama: senti um certo ceticismo no seu comentário. :P Bjs

Lellê: muito obrigado! Você se fez entender em mulherês; lembre-se que as palavras não são tudo, principalmente nesse idioma. Bjs

Milu: no currículo de revisora, acho que sim... mas não se trata disto. Bjs

Danielle: então seu namorado deve ser um conhecedor do idioma... ou sofrer um bocado. :P Bjs

Alline: talvez seja, mas prefiro pensar que é algo mais sublime do que a simples confusão. Bjs

 
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