quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Malabarismos


Até hoje pela manhã, minha opinião a respeito dos artistas de semáforo era muito desfavorável. Para mim, eram uma versão circense dos flanelinhas ou dos pedintes de rua, uma forma de invasão de privacidade comparável ao telemarketing. Ia eu para o trabalho novo, ainda em fase de adaptação, pensando em como acho chato e tenso esse período em que você não conhece direito os personagens da “novela”, nem seu lugar na trama. Faz parte, sei que isso passa, mas não gosto. Abre parênteses:

Já morei em quatro cidades, fiz mais de doze mudanças de residência; estudei em seis escolas diferentes entre pré-escola e ensino médio, freqüentei dois cursinhos pré-vestibular, dois cursos de graduação, um curso de mestrado; entre disciplinas de graduação e pós-graduação, ministrei mais de quinze disciplinas diferentes, para cursos de perfis distintos (Educação Física, Biblioteconomia, Pedagogia, Administração, Psicologia, Fisioterapia, Nutrição, Segurança Pública), tive consultório particular, atendi e coordenei atendimentos em ambulatório de hospital, fui coordenador de monografias no curso de Psicologia, participei de colegiados de curso e de centro na universidade, participei de palestras e eventos, dei entrevistas para rádios e canais de televisão. Houve um período em que trabalhei em três cidades, morando metade da semana em Florianópolis, metade em Itajaí. Diferentes amizades e antipatias, diferentes namoradas e ficantes, diferentes culturas, momentos de solidão insuportável, horas intermináveis de estudo, mil coisas novas para aprender, tudo isso foi ao mesmo tempo muito estimulante e muito desorganizador. Trouxe-me uma bagagem bem interessante, mas teve (e tem) seu preço. Fecha parênteses.

Primeiro semáforo: um malabarista. Dei duas moedinhas que estavam no console.
Segundo semáforo: outro malabarista. Fiz de conta que não vi.
Terceiro semáforo: um palhaço. Ia fazer de conta que não vi, mas ele tinha uma cara tão engraçada que eu não resisti. Comecei a rir e isso melhorou meu ânimo. Meti a mão no bolso e dei dois reais pro cara.

Na verdade, eles não ameaçam ninguém veladamente, ao contrário dos flanelinhas, nem apelam ao seu sentimento de culpa, como os pedintes. Fazem o show sabendo do risco de ninguém dar nada. Hoje em dia é complicado manter um circo, então os caras viraram autônomos. Não me sinto obrigado a pagar sempre, mas entendo que cada um, inclusive eu, faz os malabarismos que pode para sobreviver.

11 comentários:

FlaM disse...

Eu também não gosto! decididamente não gosto!
Já tive alunos que fizemos trabalho de campo (fraco) a respeito desses "artistas de rua". Não consegui exercer o relativismo a ponto de tirar as aspas. Acho tudo muito pobrinho e sem criatividade, daí a minha dificuldade em usas "artista" para designá-los Sem dizer que me sinto achacada tb, e é como entendo a comparação que vc faz com os flanelinhas. E enfim, acho-os chatézimos!
é isso!
bj, f (teminei o Sutis indecências! Adorei!)

Kaique disse...

Uma vez eu vi um menino errar, e deixar cair um Diabolo em cima de um carro de um cara... aquela parte foi legal , e até engraçada; mais deu uma confunção enorme! (coitado do moleque!)

Alline disse...

Eu não tenho nada contra. Absolutamente. Uma vez passei por um deles a pé e dei uma moedinha.
Beeeeijo

Gabriela disse...

"[...] cada um, inclusive eu, faz os malabarismos que pode para sobreviver".
Concordo plenamente! Se bem que, pelo menos aqui em Recife, esses "malabaristas" cansam, viu? A cada sinal que paramos tem pelo menos dois deles... Agora me diz, por favor: aonde isso vai parar?
=/

milu leite disse...

querido, o post tem o mérito de acompanhar o seu humor. começou brigando, fez uma balanço e terminou de quase contente. ufa! ainda bem.
tenho simpatia pelos artistas de rua. acho que é legítimo tentar ganhar a vida assim, no semáforo, nas praças, nos lugares públicos, que, afinal, são públicos.
a gente dá se quer. o problema da culpa que pode nos acompanhar não pertence a eles. às vezes dou, outras não. já vi bons e maus artistas, assim como já vi bons e maus filmes. o problema é que os filmes a gente tem que pagar antes...
e já vi meu dia ficar mais leve por causa de palhaço, estátua prateada e malabarista.
enfim... perfiro ficar de mal com outros tipos de manifestação.
beijo, paulinho!

silvia dutra disse...

Recebi um casal de americanos amigos no Brasil e eles ficaram impressionados com esses malabaristas do trânsito. Não entenderam nada, acharam o Brasil e os brasileiros bastante exóticos. É esquisito mesmo. Geralmente fazem um show pobre na minha opinião. Dou uma ajuda, dependendo do meu humor do dia. Fico mais incomodada com os flanelinhas, me sinto pressionada e estorquida. Triste pensar que tanta gente gasta os dias assim nas esquinas de todo o País.

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: tem uns que são bem mambembes mesmo. Obrigado, depois você me conta qual foi o conto do queal mais gostou? Bjs

Kaique: o moleque tinha que ter treinado mais antes de se apresentar. Esse é um dos problemas, a urgência de grana faz com que se apresentem antes do tempo. Abç

Alline: tem uns que merecem mesmo. Mas não são todos. Bjs

Gabriela: eu até arriscaria um palpite, mas do jeito que o mundo virou um circo, a realidade provavelmente seria mais surpreendente do que o que eu poderia imaginar. Bjs

Milu: você pegou a chave, a irritação vem da culpa, do sentir-se obrigado a pagar. Bjs

Silvia: os caras dão uma voltinha de carro e encontram malabaristas, pedintes, lavadores de janelas, travestis, prostitutas, vendedores de balas, de flores, índios... só faltam as sucuris atravessando a rua. Eu também acharia no mínimo curioso. Bjs

Bel disse...

O que eu não suporto são os lavadores de retrovisor que saem jogando água com sabão no seu retrovisor sem a sua permissão, isso me tira do sério.

Estranhamente ou não, os únicos pedintes que me tocam e me fazem tirar algo do bolso são esses que estão divertidos e de bem com a vida, usando nariz de palhaço ou algo do tipo....não tem como não rír quando você vê um sujeito com duas bolas dentro das calças junto as nádegas. hahahaa

Certa vez eu estava no ônibus com uma amiga e entrou um pedinte, começou a falar falar falar e nós nem percebemos a presença dele, só percebemos quando ele começou a nos olhar e gritar e nossa direção, reclamando não davamos atenção à ele..aí ele ficou um bom tempo nos insultando, drogadinho de merda.

Danielle Uchôa disse...

É exatamente isso que você falou ao final: todos fazemos nossos malabarismos na vida.

Paulo César Nascimento disse...

Bel: praticamente qualquer coisa não solicitada me dá nos nervos. Que situação, hein?
Bjs

Drama disse...

Não sei bem o que mudou, mas há pouco tempo comecei a simpatizar com esse pessoal. Conseguir um emprego não é coisa mais fácil do mundo, fazer o que para sobreviver então? Ao menos eles não SÓ pedem, eles mostram "olha, eu me esforço".. e eu comecei a "comprar o peixe deles".

 
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