terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Meu mundo e nada mais


Desde que me conheço por gente, tenho inclinações para a poesia e a filosofia. Isso não ajuda muito na vida prática, mas veio no pacote. Uma coisa que me intrigava já na infância era a questão do campo existencial – que, evidentemente, eu não sabia nomear, apenas intuía. Traduzindo: você tem uma experiência limitada do mundo. Quando está no banheiro fazendo xixi, há coisas acontecendo na sala, em outro bairro, na cidade onde moram seus parentes e assim por diante. Quando você viaja, descobre que os primos cresceram, coisas aconteceram, tudo correndo perfeitamente sem a sua presença. Eu filosofava: será que tudo isso acontece sem mim ou eles só existem quando eu estou lá, contando histórias que não aconteceram? E se tudo existe sem mim, pode perfeitamente continuar existindo sem eu fazer a menor falta. Isso não me entristecia, porque não era à falta de saudades que eu me referia, mas ao lado ontológico da questão: o mundo/ a vida continua.

Outra coisa que me intrigava era o fato de ser eu mesmo e não qualquer outro, ou seja, até eu morrer, terei que ser eu mesmo. Posso inventar moda, resolver ser músico, artista plástico, trocar de emprego, casar, ter filhos, até trocar de nome ao me converter a uma religião exótica, mas isso não muda o fato básico de estar sempre em minha companhia. Ainda bem que eu gosto de mim, acho graça das minhas bobagens e, ao falar sozinho, gosto dos assuntos. Tem gente que não tem essa sorte.

Finalmente, descobri que minha vida não era só minha, estaria sempre negociando com outros até onde as coisas sairiam como eu desejava. Quanto do bife eu precisaria comer para poder sair da mesa, quantas horas eu precisaria estudar para vencer meus concorrentes no vestibular, se e quando eu poderia beijar aquela mocinha que tanto me atraía, e por aí vai. O fato de todo mundo estar no mesmo barco não me servia (serve) de consolo. Só tomei contato com Husserl, Heidegger e Sartre mais tarde, para descobrir que a única coisa que eles sabiam mais do que eu era contar estas mesmas coisas de um jeito complicado. Vai ver, Platão estava certo e conhecer é mesmo reconhecer.

7 comentários:

FlaM disse...

hehe
eu gostava de pensar que nossa vida nosso universo era uma ínfima parte de um outro muito maior. Não pasavamos de espécimes curiosas num aquario, na casa de "alguém" muito maior...

Lidiane disse...

E, que "viver, ultrapassa qualquer entendimento".

Abraço.

milu leite disse...

hahaha, adorei aquele trecho "tem gente que não tem essa sorte". nada pior na vida do que não gostar de si mesmo.
:o)
bjim, chet baker. ontem ouvi suspiros da platéia enquanto vc cantava.

Marlise disse...

Gostei muito do seu post. Mas, acho que nos diferenciamos bastante. Quanto a me assustar com a diferença nas pessoas depois de muito tempo sem as ver, também já filosofei sobre isto. Como também sei que quando morrer não farei falta. Na verdade acho que sempre soube disto. Mas desde cedo intuí a vida após a morte. Eu sempre acreditei. Acho que passei a filosofar mais neste ponto. Creio em nossa evolução espiritual. Disse alguma coisa?

silvia dutra disse...

"e, ao falar sozinho, gosto dos assuntos. Tem gente que não tem essa sorte". Ótimo, adorei ri demais, e é verdade. Pobre de quem não gosta nem de si mesmo. Ou seriam aqueles que só gostam de si mesmos?

Lembrei do cara com complexo de inferioridade que procurou o analista de Bagé e ouviu: eu tenho um monte de pacientes. Todos inferiores, assim, igualzinho a você. A diferença é que nenhum deles acha que isso é doença" ha ha ha...
Beijo, ótimo texto, as usual.

Kaique disse...

"[...] Ainda bem que eu gosto de mim, acho graça das minhas bobagens e, ao falar sozinho, gosto dos assuntos. Tem gente que não tem essa sorte. [...]"
uhauhauha, ri muito com essa parte!
Abraços.

Paulo César Nascimento disse...

Flávia: eu não duvido dessa possibilidade... bjs

Lidiane: também acho, inclusive ultrapassa na curva,com a pista molhada e visibilidade baixa. Abç

Milu: que bom, a platéia é seleta! Bjs

Marlise: torço para que você esteja certa, pois uma vida finita é algo muito triste. Bjs

Silvia: o analista de Bagé é a melhor personagem do Veríssimo. Além disso, despertou em mim o interesse pela psicologia e pela literatura. Só não aplico a terapia do joelhaço. Bjs

Kaique: acho que você tem a mesma sorte. Abraços!

 
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