terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O Grande Irmão zela por ti


Um dos problemas em ser escritor é que você não tem o menor controle sobre o que será feito de sua criação depois que ela largar as fraldas. Vejam só o caso do George Orwell: escreveu um tremendo livro sobre totalitarismo pra desembocar em um peep show como esse Big Brother. Para quem não sabe do que estou falando, o "Grande Irmão" era uma personagem do livro 1984, ano que pertencia ao futuro quando o livro foi lançado (1949). Escolher um título datado é para quem não espera que a obra perdure, pois dificilmente a molecada de hoje vai imaginar que "1984" ou "2001, uma odisséia no espaço" (Arthur C. Clarke) sejam obras futuristas. Mesmo assim, umas boas almas fazem esse tema cair no vestibular, então meia dúzia de gatos pingados lêem o livro, umas duas dúzias o fazem com os resumos das apostilas de literatura e fica por isso mesmo. O filme 1984 não teve muita repercussão, então é possível que a massa pense que o Big Brother é o Pedro Bial porque ele é alto e parece ser gente boa. Lutar contra a ignorância é uma causa inglória, já não dou conta de vencer a minha própria, mas vamos a esse empreendimento quixotesco:

1984 trata da luta do indivíduo para não ser engolido pelo sistema em uma sociedade autocrática, na qual a vigilância é permanente, a história é manipulada e a liberdade de pensamento é esmagada. Há câmeras por todos os lados e as casas são monitoradas através de algo semelhante a monitores com webcam acoplada, a chamada teletela. A rotina dos indivíduos é planejada e a qualquer momento você pode estar sob escrutínio de algum vigilante. O Big Brother personifica o poder centralizado, sendo a vigilância mencionada como cuidado com o indivíduo: O Grande Irmão zela por ti. Há mais coisas, mas aí deixo a semente para que meia dúzia de pessoas se disponham a ler o livro.

Hoje em dia, somos monitorados nos condomínios, supermercados e lojas, nossos dados confidenciais são vendidos para empresas com telemarketing, fornecemos várias informações particulares para usarmos recursos de internet, mesmo os gratuitos, e por aí vai. Nossos computadores parecem teletelas, nosso tempo é organizado pelas empresas e a História é reescrita pelos meios de comunicação de massa. A grande diferença é que o Big Brother atual não é o governante, mas o poder econômico.

O programa de TV apenas tomou emprestada do livro a idéia de monitorar gente, permitindo que uma das grandes paixões humanas, a bisbilhotice - misto de voyeurismo com fofoca -, pudesse gerar dinheiro para as redes de televisão. Audiência gera contratos de publicidade, os telefonemas para votar geram renda a partir de convênios com as empresas de telefonia, o povo tem circo. Só falta atirarem pão. Mesmo com essa manipulação descarada que tem acontecido nas novelas de TV, em que o público resolve quem deve morrer ou viver, muda ricos em pobres, pobres em ricos, mocinhos em bandidos, bandidos em mocinhos e deixa a história uma colcha de retalhos, pelo menos rola um dinheirinho para roteiristas alimentarem sua cria. Com a ditadura da beleza, o BBB acaba enfrentando dificuldades: os participantes são muito toscos, de modo geral. Além de faltar assunto, a coisa descambou para o bom-mocismo e até as tentativas de tornar o programa um jogo de estratégia foram pro brejo. Ficou a "bundalização" do programa, com aquela expectativa de que ao final todo mundo fique pelado em revistas e sites, removendo os ínfimos paninhos que usavam na casa. Hoje em dia, com a McDonaldização das modelos, todas têm as mesmas medidas, silicone nos seios, chapinha e tintura nos cabelos, dentes reformados, depilação brazilian wax, então parece sempre a mesma mulher. O triste é que o mundo está se homogeneizando a partir do que tem de mais sem graça... Definitivamente, o Grande Irmão não zela por mim.

14 comentários:

MELISSA S disse...

Eu achei seu texto preconceituoso. Como disse Muniz Sodré, em A comunicação do grotesco, é simplista colocar a culpa dos rumos morais da humanidade na televisão. Na verdade a telinha funciona como via de mão dupla. Ela reflete aquilo que o povo quer ver e tb o estimula de alguma forma. Quem não gosta de bunda e peito grande? Na boa, todo mundo gosta. Eu, pelo menos, acho a manutenção do corpo tão importante quanto a manutenção da mente. Pra mim os cultos e relaxados estão no mesmo patamar dos burros e sarados. A diferença é que um escolheu desenvolver o corpo e o outro a mente. Mas cada um elege critérios para ser feliz. Eu, pelo menos, me divirto bastante vendo aquelas pessoas bonitas se engalfinharem na televisão... rs Beijos

Lellê disse...

Pois é, Paulo. A que ponto a gente chegou, né? O tão desesperador "olhar do Big Brother" virou isso aí que a gente vê... Ou não?
DETESTO tudo que lembre este programa. Aliás, não assistia a Globo, como um todo. Fui engolida pela novela por quase uma imposição familiar... Assim que ficar livre da Favorita, vou voltar para a minha "anti-globalização"... hehehe
Adoro seu blog, vim através de um link do Querido Leitor e fiquei. Não largo mais!
Seus posts são muito bem escritos, tem postura séria e questionadora. Com a banalização de tudo, hoje em dia, é difícil encontrar gente como você. Parabéns e conte com meu apoio diário.

Paulo César Nascimento disse...

Melissa: preconceito é ter um conceito formulado antes mesmo de se ter a experiência. Já assisti a algumas edições do BBB, então não é exatamente o caso. Existe sim um posicionamento, como no caso do seu comentário. Eu acho que o entretenimento proporcionado pela TV aberta é de baixa qualidade, não só no Brasil. Achei a TV aberta da Espanha e a de Portugal mais fraquinhas que a nossa. Mas isso é opinião, como já diz um dos marcadores da postagem. Você tem a sua. :-)
Beijos

Lellê: obrigado e volte sempre! Abraços

bRu disse...

Hmmm, comentários bombando...
Esse seu post me lembra uma das perguntas que não saem da minha cabeça... Por que as pessoas se preocupam tanto com a vida alheia? Não apenas no BBB, mas aquela vizinha, aquela colega de faculdade do serviço... Tem pessoas que sentem prazer em apontar o dedo ao defeito, aos erros, a beleza, a gordura, seja o que for do outro. Sem muitas vezes se dar conta de seu próprio nariz.
Nem Freud explica...

Te adoro Paulo! ;*

silvia dutra disse...

Belo texto, as usual. Pobre dos que nada sabem sobre o livro do Orwell e perdem tempo com televisão. Alias não é só no Brasil que se verifica essa pobreza e vulgaridade na programação. Aqui nos States não é diferente . Acho complicado esse argumento de que a TV simplesmente reflete a sociedade. Até um certo ponto é isso mesmo, mas não devia ser só isso. Tinha que haver por parte das grandes emissoras uma preocupação maior com a qualidade da programação. Perigoso demais isso de nivelar por baixo, estimular a ignorância, a violência, a bundalização porque é disso que o povo gosta. É como educar o paladar de uma criança. Se a mãe só oferece arroz e feijão porque sabe que é disso que o filho gosta como ele vai aprender a gostar de outras coisas? Não defendo a censura na TV, mas bom senso e responsabilidade social. Falando em livros interessantes, você conhece o Catch 22, do Joseph Heller? Outro gênio, feito o Orwell. Bjks.

Alline disse...

Eu sou voyeur às vezes, mas não me deixo levar pelos apelos da telinha. Ah... boa lembrança! Não terminei de ver 1984.

Um comentário nada a ver com o post: foram cinco horas, ou quase isso, de papo! Tu já deves saber, mas eu repito: te adoro, moço!
Beeeeeeijo

Paulo César Nascimento disse...

Bruna: o Foucault explicou isso em Microfísica do Poder. Tb te adoro! Bjs

Silvia: não conheço, vou procurar. Também acho que se deve oferecer outros sabores aos telespectadores. Alguns canais o fazem, sem muita audiência, mas mesmo assim eu acho que devem ser subsidiados. Bjs

Alline: cinco horas divertidíssimas, que passaram como o vento. Tb te adoro! Bjs

Pepper Popps disse...

Sabe que já tive bastante preconceito com o BBB, hj me divirto mais do que critico e sabe por que? Por que é bizarro ver pessoas se mutilando psicologicamente diante de dezenas de câmeras.
Agora confinaram 4 deles em uma casa de vidro como se fosse um zoológico hi tech onde os animais em exposição estão sedentos por fama pois quem achar que eles estão lá só pelo dinheiro com certeza está enganado!
As revistas masculinas estão só na espreita, aguardando quem será a primeira gostosa a ser eliminada para darem o bote munidos se seus muitos reias em troca daquilo que as câmeras não puderam mostrar.
Essa é a indústria da celebridade instantânea.

OBS: Achei que fosse só eu que tivesse achado que todas as moças que estão nessa casa parecem ter sido feitas na mesma fôrma!

FlaM disse...

Adoro BBB! Escrevi hj a respeito! bj, f
Ah e te dediquei tb!

Paulo César Nascimento disse...

Pepper: eu achei divertido na primeira vez, um pouco menos na segunda, mas depois a coisa ficou muito repetitiva. Além disso, toma tempo demais, se você quiser ter um mínimo de noção do que está acontecendo. As moças dessa edição eu nem vi, mas não devem fugir muito do modelito. Bjs

Flávia: você tem ferramentas para extrair de lá coisas que eu não consigo. Bjs

Raphael Rocha Lopes disse...

Paulo... o que resta é a esperança... sempre uma luz no fim do túnel...
E parabéns pelo sucesso do Blog.

Raphael
www.bacafa.blogspot.com

FlaM disse...

Ah, nem vem, Paulinho!
O que acho ´´que há tb a questão de gosto! Eu adoro tv, e vejo mesmo qualquer merda! KKKKKK. Até "fala queue escuto" (pastores da tv record) me hipnotiza! KKKKKKKKK
bj

As avessas disse...

Parabéns pelo texto, Paulo.

Não li o livro do Orwell, apenas assisti ao filme baseado na obra dele. Quando o BBB começou, fiquei empolgada com a proposta antropológica. Imaginei que poderíamos debater de forma interessante o comportamento humano numa situação fora do normal.

Já na 1ª edição, descobri que essa proposta era unicamente da minha cabeça (e de outros otimistas, não da Globo).

Assisto a todas as edições, mas aperto meu botão de bestialidade. Quando estou sem muita concentração e nada que eu fizer terá aproveitamento, ligo a tv no Big Brother e não penso.
Pra mim, serve pra descansar a mente e ter assunto para conversas de elevador.

Novamente, gostei dos seus argumentos.
=D

Paulo César Nascimento disse...

Raphael: Muito obrigado! Abraço

Flávia: você há de discordar comigo... (rs) Bjs

As avessas: muito obrigado! Eu também pensei no começo que o programa não seria dirigido ou manipulado, mas rola muito dinheiro e eles não podem arriscar. Os anunciantes não querem "brincar" com audiência. Bjs

 
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