quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O poder da edição


Todo mundo que assiste às novelas perde um capítulo ou outro, mas jamais perde o capítulo final. Normalmente ninguém fica pensando no que acontecerá depois às personagens, à trama, que novas complicações poderiam surgir. No cinema, a menos que a continuação já tenha sido planejada, as seqüências de filme costumam ser menos fortes do que o próprio, uma vez que já havia sido planejado como uma coisa fechada, um todo. Na literatura, o autor que é tomado de surpresa pelo sucesso e é forçado a dar continuidade a uma fórmula consagrada costuma se perder, como aconteceu com o Carlos Castañeda, que após o terceiro livro sobre Don Juan Matus acabou metendo os pés pelas mãos – até porque muita gente achava que não se tratava de ficção, pagando inclusive seminários para aprender o nagualismo pós-moderno do bruxo. Na psicanálise lacaniana, o término das sessões em um ponto crítico do discurso do analisando serve para fins técnicos de significação (traduzindo: a sessão termina assim que o analista acha que o analisando disse algo importante e precisa ficar no vácuo pra coisa ficar ressonando, no que é chamado de “tempo lógico”, podendo durar cinco minutos).

Isso acontece, em minha opinião, porque temos necessidade de que as coisas façam sentido, sejam inteiras, consistentes. O ponto determinante para a significação do que acontece na ficção ou em nossas vidas é a edição: onde tudo começa e onde termina.
Para exemplificar, vou apresentar três versões de uma narrativa de ficção, com edições diferentes.


(1) Marisa era uma bela moça, estudiosa e prendada, que vivia com os pais em uma capital. Namorava Fabiano, seu primeiro amor, que resolveu fazer intercâmbio nos EUA. A distância e os ciúmes foram enfraquecendo seu relacionamento, até que terminaram por MSN. Após muito chorar, conheceu Jonas em suas férias de verão, vivendo um tórrido romance. Noivou com Jonas em setembro, tendo marcado seu casamento para maio do ano seguinte.

(2) Marisa era uma bela moça, estudiosa e prendada, que vivia com os pais em uma capital. Namorava Fabiano, seu primeiro amor, que resolveu fazer intercâmbio nos EUA. A distância e os ciúmes foram enfraquecendo seu relacionamento, até que terminaram por MSN. Após muito chorar, conheceu Jonas em suas férias de verão, vivendo um tórrido romance. Noivou com Jonas em setembro, tendo marcado seu casamento para maio do ano seguinte. Em novembro, seu noivo foi transferido para uma cidade do interior, passando a vê-la em finais de semana alternados. Em um dos finais de semana, a estrada ficou intransitável devido a fortes chuvas na região. Marisa resolveu sair com suas amigas e conheceu Francisco, um jovem bonito, rico e romântico, que passou a cortejá-la durante a semana. Na visita seguinte de Jonas, ao bisbilhotar as mensagens do celular do noivo, Marisa descobriu um torpedo com o seguinte conteúdo: “Adorei a noite de ontem. Bjs, L.” O noivo alegou que a L. da mensagem no celular era a tia Lúcia, uma senhora aposentada que tinha sido levada pelo sobrinho ao cinema, mas ela não acreditou. Indignada, rompeu o noivado e caiu nos braços de Francisco.

(3) Marisa era uma bela moça, estudiosa e prendada, que vivia com os pais em uma capital. Namorava Fabiano, seu primeiro amor, que resolveu fazer intercâmbio nos EUA. A distância e os ciúmes foram enfraquecendo seu relacionamento, até que terminaram por MSN. Após muito chorar, conheceu Jonas em suas férias de verão, vivendo um tórrido romance. Noivou com Jonas em setembro, tendo marcado seu casamento para maio do ano seguinte. Em novembro, seu noivo foi transferido para uma cidade do interior, passando a vê-la em finais de semana alternados. Em um dos finais de semana, a estrada ficou intransitável devido a fortes chuvas na região. Marisa resolveu sair com suas amigas e conheceu Francisco, um jovem bonito, rico e romântico, que passou a cortejá-la durante a semana. Na visita seguinte de Jonas, ao bisbilhotar as mensagens do celular do noivo, Marisa descobriu um torpedo com o seguinte conteúdo: “Adorei a noite de ontem. Bjs, L.” O noivo alegou que a L. da mensagem no celular era a tia Lúcia, uma senhora aposentada que tinha sido levada pelo sobrinho ao cinema, mas ela não acreditou. Indignada, rompeu o noivado e caiu nos braços de Francisco. Passaram uma noite maravilhosa, viajaram juntos e, dois meses depois, Marisa descobriu-se grávida. Francisco recusou assumir a paternidade, alegando que o bebê poderia muito bem ser de Jonas. Propôs um exame de DNA. Marisa ficou indignada e saiu da casa de Francisco aos prantos. Ao chegar à sua casa, reencontrou Fabiano, voltaram a se relacionar e se casaram. No entanto, Jonas foi quem assumiu a paternidade da criança.

Perceberam que tudo muda, dependendo de onde se corta? É por essas e outras que nossas vidas são significadas várias vezes a partir das edições que percebemos. Um mendigo que ganha na loteria pode deixar de sê-lo, mas também pode ser atropelado no caminho da Caixa Econômica, ou ainda torrar tudo que ganhou e virar mendigo novamente. Sair de cena é uma arte. Às vezes a morte não colabora e tira todo o glamour de nossa vida no Gran Finale.

5 comentários:

Kaique disse...

As narrativas foram ótimas, mais se for parar para pensar, podemos a chegar a conclusão que Marisa era uma moça meio sapeca, heim! Vivia conhecendo pessoas por esse mundo afora!
huahuauhauhhuauhauhauhuhaauh
Abraços.

Marlise disse...

Se entendi bem, nossas vidas são construídas através de acontecimentos que formarão brechas significativas para que elas (as vidas) tenham seqüência. Seria mesmo isto que você quiz dizer?

Bel disse...

todo mundo vírgula. Sou mestra em perder os capitulos finais, até hoje não sei o final de Terra Nostra..

Paulo César Nascimento disse...

Kaique: deixa a moça ser feliz, rapaz... rs Abraço

Marlise: é algo parecido com isso. Eu penso que a vida é um aglomerado de acontecimentos e fatos, mas que nós de tempos em tempos tentamos entender o que está acontecendo conosco. Aí selecionamos alguns destes acontecimentos e tentamos construir uma historinha coerente para que façam sentido para nós. Para que uma história faça sentido, precisamos determinar onde ela acaba, pois é o final que dá a "moral da história". Abç

Bel: realmente, vc não é todo mundo. Gosto disso em você. ;-) Bjs

lucasnapoli disse...

Excelente, excelente! Gostei muito da analogia com a técnica lacaniana do tempo lógico e da função do corte comoprodutor de significação. Essa questão de o sentido só poder ser dado provisioramente, quer dizer,até que uma outra palavra seja colocada no final também foi bastante enfatizadapor Lacan. Muito bom, parabéns!

 
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