quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Perversão com perversão se paga?

Uma noite dessas, assisti na TV a metade final do filme “Menina má.com (Hard Candy)”. Outra noite, assisti à outra metade. A história é basicamente a seguinte: um fotógrafo abusador de menores (Jeff) conhece via internet uma adolescente de quatorze anos (Hayley), eles flertam virtualmente e se conhecem pessoalmente, indo até a casa dele. Chegando lá, contrariando a todas as expectativas, ela se mostra uma boa aspirante ao transtorno de personalidade anti-social (anteriormente chamado de psicopatia ou sociopatia), drogando-o, mantendo-o em cárcere privado, torturando-o e induzindo-o ao suicídio. Passo agora a algumas reflexões, seguidas de pontos para argumentação posterior.

A história da humanidade foi (e é) escrita com sangue, ignorância e má-fé: genocídios, infanticídios, torturas, roubos, estupros, inquisições, ditaduras, cruzadas e jihad, campos de concentração, escravidão, exploração, corrupção e outras tantas atrocidades. Um passo para nos afastar desta barbárie foi o Código de Hamurabi, por volta de 1.700 a.C., baseado na lei de talião: olho por olho, dente por dente. De certo modo, a vingança (desproporcional) foi substituída por justiça (proporcional). Se João roubou um boi de José, matou-o e usou para alimentar seus familiares, José não matará os homens da família de João, nem estuprará as mulheres da família ou ateará fogo à casa dele, mas terá direito a um boi daquele rebanho. Os passos seguintes atravessaram a Revolução Francesa, caminhando para o surgimento do Estado democrático de Direito, no qual deixamos de estar submetidos aos caprichos de um governante para nos submetermos somente à Lei. Com as atrocidades cometidas durante as guerras mundiais, em 1948 foi adotada e proclamada pela ONU a Declaração Universal dos Direitos Humanos, garantindo que qualquer um, criminoso ou inocente, terá direito de ser tratado conforme a lei, vedando-se tortura, prisão arbitrária, escravidão e outras práticas repugnantes, porém comuns na história de nossa espécie. Até hoje estes direitos são pouco respeitados mundo afora, mas fazem parte de um ideal pelo qual vale a pena lutar.

- Ponto número um: os Direitos Humanos valem para todos, sejam inocentes ou criminosos.
- Ponto número dois: vingança e justiça são coisas distintas.

Fui convidado, na qualidade de professor de Psicopatologia, à banca de um projeto de monografia sobre o “Perfil psicológico do Pedófilo”. Acompanhei também parte do debate sobre o tema no Congresso Nacional. Por exigência da profissão, conheço nuances do tema que ultrapassam o senso comum. Para colocar o leigo na real dimensão e respeitar a complexidade da temática, precisaria de muitas horas (e páginas), o que não é possível neste espaço tão limitado. Posso, todavia, fazer alguns breves esclarecimentos, que correm o risco de não serem aceitos por quem não é estudioso da área. Em primeiro lugar, é preciso distinguir a Pedofilia (patologia que consiste na atração preferencial ou exclusiva por menores impúberes) do abuso de menores e da pornografia infantil, condutas criminosas. Embora exista quase unanimidade entre as culturas no que se refere à proibição de relações sexuais entre adultos e crianças (menores impúberes), o mesmo não ocorre com relação a adolescentes. Este é um terreno pantanoso, uma vez que a adolescência é um fenômeno culturalmente condicionado. Assim sendo, do ponto de vista legal, cada Estado define a idade mínima para consentimento sexual, assim como define a idade para votar, ser eleito, ter bens, casar, etc. No Brasil e na Guatemala, a idade de consentimento sexual pleno é atingida aos dezoito anos, na Dinamarca, França e Etiópia aos quinze, na Croácia, no Canadá e na Itália aos quatorze, na Coréia aos treze, em Madagascar aos vinte e um. Nos Estados Unidos da América varia de estado para estado, entre os dezesseis e dezoito anos. Diferentes países também apresentam diferentes posicionamentos quanto à legalidade da pornografia, inclusive a adulta.

- Ponto número três: Pedofilia é patologia, requer tratamento, mas não necessariamente implica em inimputabilidade penal (não responder criminalmente).
- Ponto número quatro: crimes sexuais dependem da legislação do país, não havendo consenso internacional quanto à idade mínima de consentimento.

Retornando ao filme: em "Menina má.com", temos um sujeito abusador de menores (infelizmente, para ele, não era Canadense ou Coreano, mas Estadunidense) retratado erroneamente como pedófilo. Passa-se a mensagem de que era, portanto, um “lobo” comedor de carneirinhos que encontrou um lobo maior vestido de cordeiro e, desse modo, “mereceu” o seu destino. Como o pedófilo é socialmente visto como um ser execrável, muitos consideram que os direitos humanos não se aplicam a ele, que merece vingança e não justiça, pois é a “escória da humanidade”. A ele, portanto, não se aplicariam os direitos a julgamento, ampla defesa e contraditório. Esse tipo de pensamento nazista me perturba, mesmo na ficção. Substitua “pedófilo” por judeu, negro, homossexual, árabe, terrorista, americano, argentino, afegão, comunista, capitalista, latrocida, estuprador ou seja lá o que for, e temos o que a humanidade já produziu de pior como ideologia. Eu repudio as práticas sexuais não consentidas e o abuso de menores, como também repudio o retorno à barbárie. Depois de trinta minutos de filme, Hayley poderia ter entregado o fotógrafo à polícia, pois estava amarrado e as provas disponíveis. No entanto, o roteirista e o diretor sabem do mal que habita o coração dos homens (espectadores), então a adolescente parte para sessões de tortura física e psicológica dignas de “Jogos Mortais”. Psicopata por psicopata, prefiro o Hannibal Lecter, que pelo menos não é falso moralista.

13 comentários:

Drama Queen disse...

Adorei o texto, o tema de minha monografia será Crimes Sexuais, com foco em Pedofilia. Salvei seu texto, ele me será útil. Concordo MUITO com você.

Mas...
"- Ponto número dois: vingança e justiça são coisas distintas." DEPENDE DO PONTO DE VISTA! HAHAHAHA

milu leite disse...

paulinho, vi esse filme em duas partes também na TV. e achei um horror! penso que é mais um filme pra alimentar (e justificar) desejos submersos de violência. bah!
beijo

FlaM disse...

Tá certo, Paulinho, eu sou uma menina má! mas ñao precisa ter tanto medo assim - a ponto de escrever um post para discutir a relação. Não estou usando isso aqui para te matar no final... só para abusar um pouquinho....
KKKKKKKKKKK
desculpa, mas sabe como é, não resisto...

FlaM disse...

Agora falando sério:
Tenho uns artiguinhos sobre temas correlatos onde acabo discutindo estupro e direitos humanos (do estuprador), em função de um caso que acompanhei no meu trabalho de campo da tese.
concordo plenamente com teus argumentos, coisa que aprendi às duras penas (do campo)!
bj, Flávia

Paulo César Nascimento disse...

Drama Queen: fiquei com a leve impressão de que você é vingativa. :P
Bjs

Milu: concordo com você! Bjs

Flávia: nem pense em abusar deste corpinho antes de servir o risoto de funghi prometido!
Agora falando sério: envie seus artigos, terei prazer na leitura. Bjs

Única e Exclusiva disse...

Aprender nunca é demais. Interessante sua visão do moralismo sobre a violência (qualquer tipo). Fiquei curiosa sobre o filme e já estou baixando pra assistir. Gostei daqui e tô linkando. Se me permite. ^.^

Abs

Paulo César Nascimento disse...

Única e Exclusiva: obrigado, claro que permito! Abraços

silvia dutra disse...

Não vi o filme, mas me interesso pelo assunto e vou procurar pra assistir. Já que você entende do assunto, mate minha curiosidade: se pedofilia é doença, existe algum tratamento que cure essas pessoas? Moro nos States e aqui existe essa idéia (não sei se certa ou errada)que o pedófilo jamais deixa de ser e deve ser vigiado enquanto for vivo porque tendo a oportunidade vai cometer novamente o mesmo crime.
É verdade? E se é doença, o que a causa?
Obrigada pela atenção, gosto do seu blog.

Paulo César Nascimento disse...

Sílvia: obrigado pelo comentário. O conceito de "doença" para transtornos psicológicos tem sido abandonado, uma vez que remete a um modelo semelhante ao de condição médica geral (catapora, meningite, etc.). A idéia de "cura" ou de "agente patogênico" não se aplica muito bem a esses casos. Na verdade estamos falando de comportamentos que desviam de normas sociais e de algum modo são persistentes, causando sofrimento ao próprio sujeito ou a terceiros. Geralmente estes transtornos não têm causa única, mas são multifatoriais. Existe tratamento, mas pelos riscos oferecidos aos demais, convém que se monitore o sujeito, o que pode ser viável ou não conforme legislação local.
A Pedofilia é um caso particular de parafilia. Você pode encontrar informações confiáveis nesse site: www.psiqweb.med.br
Se quiser que eu lhe envie artigos, mande seu e-mail por comentário, que não o publicarei.
Abraço

Flávio Amaral disse...

Encontrar textos como esse é tropeçar em um gole de água pura no meio do lamaçal que se tem por alimento.

Deveria ser tão mais fácil que a reflexão, que a ponderação a partir de elementos válidos de informação predominasse nos debates, naquilo que se diz e se conclui a respeito de algo.

Mas vemos com frequencia desalentadora que assim não é. É, parece, que as linhas de pensamento e "análise" apenas alinhavam os pontos de vista viciados de seus expositores. E as palavras de muitos que têm o privilégio de ser ouvidos e vistos por outros muitos são como os delírios bordados de um Bispo do Rosário - mas sem seu propósito e beleza - organizados para fazer corroborar o dissenso e a violência de suas almas atormentadas.

Leia-se a Ilíada e está lá o massacre nu e cru. Recentemente percorri as páginas de "Memórias de um soldado" que participou da ivasão de Olinda pelos batavos, onde as práticas diárias de ambas as partes, pios católicos e puritanos calvinistas em nada diferem do que de pior se faz ainda hoje em um confronto. Desmembramento e torturas sádicas, lado a lado com xingamento de "cornos" entre as escaramuças e bênçãos dos religiosos de ambas às partes às armas e às batalhas.

'Ecce homo'...

No livro de Hannh Arendt "Eichmann em Jerusalém", ao fim do julgamento de Eichmann e após o veredito de sua condenação à morte recebido com júbilo, mesmo aplausos pelos presentes, as palavras de um dos juizes que presidiram o evento deveriam estar afixadas em ouro em todo lugar onde duas pessoas troquem idéias (citação não literal, sorry): "Quando se chega a reconhecer que um homem foi capaz de perpetrar as ações pelas quais é agora condenado, não há motivo para alegria, mas para a mais profunda tristeza no reconhecimento da presença do mal no homem".

Ninguém envolvente disse...

Olá.
Concordo com suas palavras e as faço minhas. Creio que a cultura que nos foi imposta durante muitos e seguidos anos, faz ainda termos o desejo primitivo e sádico por vingança modo "olho por olho". O sentimento interno de rancor que nos habita penso que até certo ponto é normal e presumível. Mas a mídia tem grande poder de influência sobre nós, novelas mostram cenas que a "escória" é linchada, filmes mostram a vingança para pessoas que não valorizam a própria vida (jogos mortais é um belo exemplo de como Jig Saw se acha no poder de "curar" a pessoa fazendo ela provar do próprio veneno) entre outros.
Para muitas pessoas complicado reeducar-se mentalmente e entender que a justiça cade a lei e não a nós e que violência não cura uma doença.

Alline disse...

Vi o filme pela metade e fiz um post sobre. É aflitivo o que ela faz com o cara, mesmo eu tendo noção de que ele não era exatamente do bem. É um filme que eu não veria outra vez.
Beeeijo

Paulo César Nascimento disse...

Flávio: obrigado pelo denso comentário e pela recomendação de leitura! Volte sempre! Abraço

Ninguém Envolvente: concordo com você e acrescento: quem quer que um monstro destrua outros, acaba tendo sempre o pior dos monstros vivo, não é? Bjs

Alline: eu também vi uma vez só, somando as metades. Não volto a ver tão cedo. Bjs

 
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