terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Obsessões, vinganças e marujos


Aproveitei os dias livres de carnaval para ler um clássico da literatura. A história é boa, mas faltou-me paciência, pois das quase seiscentas e cinqüenta páginas, umas quatrocentas são um tratado sobre baleias, cachalotes, baleeiras e coisas afins. A vingança pessoal do Capitão Ahab e sua obsessão com o grande cachalote branco Moby Dick viram fundo em um texto longo e enciclopédico, ao contrário de outra vingança igualmente famosa, a do Conde de Monte Cristo, mais numeroso em páginas, porém mais rico em tramas e suspense. Li o livro de Melville aos saltos, detendo-me apenas nos trechos de maior interesse, ao contrário do de Dumas, que li palavra por palavra – e mais de uma vez.

Em "Moby Dick", o Capitão Ahab busca incessantemente se vingar de um gigantesco cetáceo que, recusando-se a ser morto, arrancou-lhe a perna. O animal ganha contornos quase sobrenaturais, uma inteligência maligna e um ar de indestrutibilidade. Contrariando a tendência de outros que sobreviveram à caça de Moby Dick, o Capitão Ahab sacrifica seu navio Pequod, sua tripulação e a própria vida em uma caçada imprudente, não aceitando seus próprios limites diante de uma força superior (baleia, Deus, natureza, destino, entenda cada um da forma que lhe convier).

Em "O Conde de Monte Cristo", ao ser designado Capitão do Erasmus, Edmond Dantès é vítima de uma conspiração de invejas e acasos infelizes, caindo prisioneiro injustamente. Perde a amada, a carreira, seu pai e quase perde a sanidade. No entanto, o feliz contato com o Abade Faria abre-lhe as portas para a maturidade, a riqueza material e o aprendizado, bem como para a liberdade. Rico, viajado, culto e refinado, Dantès torna-se o Conde de Monte Cristo e usa todos os seus recursos para o que entende ser uma missão divina de estabelecimento da justiça. Porém, como Ahab, vai longe demais. Percebe o quanto de vingança há em suas ações e, ao abandonar sua obsessão, ainda encontra espaço para a felicidade ao lado de um novo amor.

Esse é o perigo das obsessões: podem até servir de motor para muitas conquistas, mas, se não soubermos nos desvencilhar delas, arrastam-nos às profundezas do mar.

7 comentários:

Drama Queen disse...

Não me importa quão longos e enciclopédicos os textos sejam, mas esses sim me prendem. Afinal, porque alguém escreveria algo que eu não seria capaz de compreender? Provo o contrário, mesmo que para ninguém.

Entretanto, não posso deixar de pensar que você teria sido mais feliz lendo José de Alencar.

__

Só pra constar:
O papo estava bom, mas a estratégia me tentou. O meu jogo EU jogo melhor. Curiosidade - done.

Xeque-mate.

Paulo César Nascimento disse...

Drama Queen: não sei,o José de Alencar é muito demorado nas descrições...

para constar: quanta pressa... não percebeu que o lance deixou a dama exposta. Olhe melhor o tabuleiro: torre preta toma dama branca. Bjs

milu leite disse...

ai, meu deus...

Bel disse...

mesmo todo lascado e sobre um corpo robótico, Darth Vader não concordaria com sua afirmação final! rs

/nerd

Didi Iashin disse...

Caro,
Monte Cristo não é um MUST???
Eu já perdi a conta das vezes que eu li o livro (meus três detonados volumes da Europa-América, comprados na Bienal do Livro de muito tempo atrás. Não tenho francês o suficiente para encarar a edição no original)
Eu acho muito legais as citações de Monte Cristo a Deus, à bondade divina, à Providência.

Samantha disse...

Impressionante. Lendo sua resenha sobre O Conde de Monte Cristo precebo que apenas lendo o livro eh possivel ter esta percep'cao. Vi o filme ha uns 2 meses e embora ele seja muito bonito e bem dirigido, nao tive as mesmas sensacoes de quando li o livro.
Este teclado sem acentos me incomoda..rs. Desculpe.-

Paulo César Nascimento disse...

Milu: que bonita expressão de religiosidade! :P

Bel: você anda vendo muito The Big Bang Theory, confesse... Bjs

Didi: também não tenho francês pra essa empreitada, mas a tradução da Ed. Juruá é boa. Abç

Samantha: os filmes raralmente alcançam a profundidade dos livros. Tem casos em que o essencial é preservado, mas não nesse. Todas as versões cinematográficas que vi de O Conde de Monte Cristo ignoraram esse dilema moral de Dantès. Uma pena, porque muda absolutamente tudo.

 
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