quinta-feira, 19 de março de 2009

O melhor de dois mundos


As realidades da vida a gente aprende conforme as fantasias vão se desmilingüindo (antes de 2012 eu aprendo as novas regras ortográficas, até lá valem as antigas). Não há idade certa para aprendê-las, mas há que se ter cuidado em absorver seu valor prático sem exagerar na amargura que trazem. Lá em Porto Alegre eu vi em tempo real um dono de restaurante forçar o concorrente a fechar ao diminuir o preço das refeições. Não sei se chegou a ser dumping, mas se não foi, chegou perto. Vi gente morar em muquifos e sobreviver na base da malandragem, vi diversas puxadas de tapete em local de trabalho, gente de duas ou mais caras, enfim, nada que seja novidade para os de mais de trinta anos. Na ocasião eu tinha vinte e pouquinhos, recém saindo do sub-20 e indo jogar no time principal, no qual as caneladas são mais certeiras e os carrinhos mais devastadores. Certa noite, comendo pizza em um rodízio, bati um papo com o garçom, que me contou que o dono estava pensando em fechar o estabelecimento ou em cobrar um adicional por desperdício. Acontece que a molecada ia pra lá fazer competições de quem comia mais pedaços, aí avançavam na cobertura - quem tem recheio é calzone - e deixavam a massa quase inteira. Tá certo que tem certas pizzas feitas em forno a lenha que deixam a borda queimada e intragável, mas não era o caso. O caro na pizza é a cobertura: queijo, carnes, embutidos, champignons, tomates secos... Massa é farinha, água e sal. Isso me fez pensar em uma das realidades da vida: se você der chance, as pessoas só querem o filé das coisas, deixando o osso pra você roer. Daí pensei naquelas situações em que a pessoa quer o melhor de dois mundos:
- cert@s adolescentes, que querem direitos de adulto e responsabilidades de criança;
- certos homens, que querem direito a sexo sem dever de compromisso (lealdade, fidelidade, dedicação, etc.);
- certas mulheres, que querem a igualdade no que interessa e a desigualdade no resto (paparicação, contas pagas, preferência no salvamento em desastres, não ser obrigada a servir o exército ou ir à guerra, etc.);
- cert@s comprometid@s que querem a segurança do cônjuge e a intensidade d@ amante.

A perspectiva é tentadora, mas não dura. Cedo ou tarde os mundos vão se afastando: se você ficar com um pé em cada um, será rasgad@ ao meio.

5 comentários:

Silvia Dutra disse...

É isso mesmo. Principalmente filho, como filhos adoram ficar com o filé da vida e deixar o osso pra gente roer. Adorei seu texto.
Beijo

marlise disse...

Não seria Paulo, falta de estrutura ou ilusão sobre a vida?

Drama Queen disse...

Já pensei muito nisso, mas como eu sou a instabilidade em forma humana, corro o risco de ser rasgada ao meio.

Paulo César Nascimento disse...

Sílvia: obrigado! Aquele projeto de livro ainda está de pé, né? Bjs

Marlise: pode ser tanta coisa, do idealismo à imaturidade... não acho que tenha uma única resposta para isso. Bjs

Drama Queen: espero que não o seja. Bjs!

milu leite disse...

enquanto não tem risco de rasgar, pode, vai. ah, eu, nos meus sonhos, sempre quero o melhor dos dois mundos...
adorei ter minha internet e o meu computador funcionando de novo! senti uma baita falta daqui, paulinho.
bjo
NÃO FALTE NO CANTO!!!

 
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