sexta-feira, 10 de abril de 2009

Coelhinho, se eu fosse como tu...


A Páscoa é um feriado celebrado por Judeus e Cristãos. A Páscoa judaica, ou Pessach (passagem), é uma celebração pela libertação do povo judeu por Moisés, no Egito, representando o sacrifício ordenado por Deus antes da última praga lançada ao Faraó (a morte dos primogênitos), há cerca de 3.500 anos. Na ocasião, os judeus deveriam sacrificar um cordeiro por família, colocando o sangue deste no umbral da porta para que seus primogênitos fossem poupados pelo anjo da morte enviado pelo Senhor. Deveriam então jantar o cordeiro com pães ázimos (sem fermento) e ervas amargas. A “passagem” aí comemorada é a do anjo da morte. De um modo interessante, o sacrifício do cordeiro reedita aquele realizado por Abraão em lugar de seu primogênito Isaac. Felizmente para mim, que sou primogênito, este costume de sacrificar o primeiro filho, os primeiros animais de criação e os primeiros frutos da terra, de modo a dizer “primeiro para a divindade, depois para nós”, foi substituído por outras formas de sacrifício simbólico. O gancho para a Páscoa Cristã ocorre quando Deus inverte a lógica da coisa e sacrifica seu próprio filho (ou a si próprio, a se crer na Santíssima Trindade) pela humanidade, para (o) ressuscitar em seguida e afirmar sua vitória sobre a morte. Há aqui a idéia de renovação de uma aliança, de uma promessa de libertação das mazelas humanas provocadas pelo primeiro ato de desobediência (vontade própria?) da humanidade.

A idéia de celebrar a renovação que ocorre na primavera já existia em costumes germânicos antes destes povos serem cristianizados, o que provocou uma espécie de fusão dos símbolos associados às duas festividades. Ostera (Eostre), a deusa germânica da fertilidade e do renascimento, é representada com um ovo na mão e uma lebre pulando ao seu redor. Eu sempre me perguntei de onde vinha essa idéia de que o(a) coelho(a), mamífero que é, ponha ovos na páscoa. Hoje eu descobri que, na tradição germânica, Ostera transformou uma ave em lebre, deixando-a infeliz, até que o apelo das crianças fizesse que a lebre fosse transformada novamente em ave, que presenteou a deusa com seus ovos - uma forma engenhosa de unir os símbolos de renovação e fertilidade. No entanto, podemos reportar os ovos de páscoa a um costume sumério de pintar ovos e enterrá-los em homenagem a Ishtar, a deusa, na celebração ocorrida no Equinócio de primavera. Os chineses também tinham o costume de presentear com ovos coloridos durante esta época, como símbolo de renovação. Com a cristianização dos povos germânicos, o costume de presentear com ovos coloridos foi incorporado à celebração da morte e ressurreição de Cristo. No século X, o Rei Eduardo I presenteava os importantes de sua época com ovos banhados a ouro ou decorados com pedras preciosas. O czar russo Alexandre III, em 1885, imitou este costume e solicitou ao joalheiro suíço Fabergé um ovo de ouro e pedras preciosas com mais presentinhos dentro, uma espécie de “Kinder Ovo” versão milionária, para presentear sua esposa Maria. Ela gostou tanto que o marido passou a encomendar um diferente por ano. O costume atravessou as gerações, durando até 1917. Embora eu não simpatize com o comunismo, posso imaginar o motivo dos camponeses terem se revoltado.

O chocolate só entrou na festa após as grandes navegações, pois veio da América do Norte (Astecas e Maias). Foi no século XVIII que confeiteiros franceses resolveram fazer ovos de chocolate. O processo deve ser muito complexo e oneroso, afinal de contas uma barra de chocolate de 180 gramas custa em torno de R$ 4,00, enquanto um ovo de chocolate da mesma marca e peso custa em torno de R$ 20,00 (modo irônico on). Aos que se perguntavam a relação entre um coelho esconder cestinhas com ovos de chocolate, a morte e ressurreição de Jesus, ou ainda se perguntavam como Jesus poderia ter chegado a Jerusalém na Páscoa, se nem tinha morrido para que a festividade surgisse, espero que tudo agora esteja fazendo mais sentido.

3 comentários:

milu leite disse...

querido! gostei muitíssimo da ideia do kinder ovo na versão milionária. vou ver se arranjo um czar...
beijos

Kaique disse...

Bom, eu não sou muto chegado num chocolate... apesar de comer, não faço questão de fazer uma degustação diaria do tal moreninho. Apesar que pra mim, o chocolate da Páscoa é diferente do chocolate normal (aquele que a gente compra num momento de inutilidade).
O que eu gosto mesmo da Páscoa é a bacalhoada. JESUS, que negocio bom!
Abraços.

Paulo César Nascimento disse...

Milu: hoje em dia, czar está em falta... bjs

Kaique: bacalhoada é uma beleza! Pena que pelo preço há o risco de se fazer apenas uma batatada com umas lasquinhas de bacalhau. Abç

 
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