domingo, 5 de abril de 2009

Coisas que testemunhei


Nasci no final da década de sessenta, por isso tive oportunidade de testemunhar alguns acontecimentos dos quais a moçada só ouviu falar. Tenho boa memória, então quando vejo o pessoal tentar desmentir ou minimizar coisas que de fato aconteceram, inclusive dando um dinheirinho a jornalistas de aluguel, bate uma sensação de que o esquecimento leva a verdade embora. Não é à toa que existem certas formas de amnésia psicogênica, ou dissociativa, para proteger-nos de verdades dolorosas – é nisso que a psicanálise se baseia, em grande parte: o mecanismo do recalque. Há outras formas de amnésia (ou hipomnésia) de fundo orgânico, como nas demências, as quais hoje em dia todo mundo chama de “Alzheimer” - a forma de demência mais famosa, porém não a única e não necessariamente a mais freqüente. As estatísticas são pouco confiáveis, uma vez que a única forma de diagnóstico garantido de mal de Alzheimer é por autópsia, coisa que praticamente ninguém faz. Depois de morto o paciente, não há mais interesse nisso. Voltando à questão da verdade, quanto mais ficamos esquecidos, mais nossa biografia se perde. O que temos do que vivemos, senão as recordações? Então vou retomar o tema da postagem e mencionar coisas que testemunhei:

a) O surgimento dos Secos e Molhados, conjunto do qual Ney Matogrosso era o destaque. Imagine, em plena ditadura, um conjunto com um vocalista de visual andrógino, cantando com voz aguda e rebolando... Eu perguntei a mim mesmo, do alto dos meus três ou quatro anos, se aquele cara era homem ou mulher. Já sabia que mulheres tinham mamas e não tinham o peito cabeludo. E ele virava homem e lobisomem na letra da música, o que dava mais um toque de surrealismo a tudo.

b) O Paulo Maluf falar aquela frase infeliz “Está com desejo, estupra, mas não mata!” Vi o programa em tempo real. Ele estava argumentando que não se devia estuprar, mas que isso ainda possibilitaria que a vítima se recuperasse, já a morte seria irreversível. Ele contextualizou, mas arrematou com essa frase de péssimo gosto, como se estuprar fosse aceitável.

c) A Xuxa fazendo papel da prostituta que iniciou sexualmente um menino no filme “Amor, estranho amor”. Em primeiro lugar, ela não era ainda “Rainha dos baixinhos”; em segundo lugar, quem iniciou o menino foi a personagem, não a atriz, e fazia sentido dentro do filme; terceiro, não era ainda época do politicamente correto, então imagens como a desse filme ainda eram viáveis na arte, sem serem consideradas apologia à pedofilia. Para proteger sua imagem / marca, ela deu um jeito desse filme sumir do mapa.

d) O Pelé, em entrevista à Playboy, falar coisas extremamente deselegantes sobre seu relacionamento com a Xuxa, além de dizer que o primeiro relacionamento sexual que teve foi “... com uma bicha que todo o time comeu”. Recentemente, ao dizer que Maradona tinha sido um mau exemplo, ouviu o que não quis de Dieguito, que lembrou o evento. Romário tinha razão: Pelé, de boca fechada, era um poeta.

e) O Paulo Coelho dizer, em entrevista à TV, que conseguia fazer ventar com seus poderes de Mago. Anos mais tarde, uma reportagem de uma das revistas mais vendidas do país (com trocadilho) mencionou que a história do vento mágico era uma distorção.

Isso sem falar nos políticos, que quem entendeu mesmo foi o cacique Juruna: tem que gravar o que esses mentirosos profissionais dizem.

Por isso, garotada, anotem suas memórias, porque no futuro será dito que Mensalão nunca existiu, assim como os anões do orçamento, as vantagens nas privatizações e o mensalinho do PSDB, as mentiras sobre armas químicas no Iraque de Saddam Hussein, as torturas de Guantanamo, tudo isso será transformado em “Ditabranda”.

2 comentários:

Raphael Rocha Lopes disse...

Sabe, Paulo, faz tempo que não leio a folha e mais tempo ainda que não leio a veja. Soube desta história de ditabranda (se procurar no google surge a dúvida se o pesquisador queria, na realidade, procurar "dieta branda") pela televisão nesse final de semana. O ridículo do ridículo uma empresa jornalística (?) do porte da folha relativizar os horrores que ocorreram no Brasil nos anos de chumbo. Chumbo grosso. Em editorial, ainda por cima!! E, pior que tudo, chamar de cínicos os pesquisadores e intelectuais que se indignaram com publicação e escreveram cartas de desagravo ao jornal.
Bem... o que poderia se esperar de quem apoiou o golpe militar e chegou a emprestar carros para os torturadores? O problema é que já foi tempo suficiente para os herdeiros entenderem o que ocorreu na história recente do nosso país.
Queria ver se fossem eles os pendurados nos paus de arara, os eletrocutados molhados, os estuprados e sodomizados, os parentes das vítimas mortas e desaparecidas. E através do aparelho estatal.
Ditabranda, provavelmente a maior piada de mau gosto das últimas décadas.

Paulo César Nascimento disse...

Raphael: é de ficar perplexo e indignado com a cara de pau dessa gente, não? Abraço

 
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