domingo, 12 de abril de 2009

Ilustres desconhecidos


As discussões de botequim geralmente gravitam em torno de clichês: "quem foi melhor: Pelé ou Maradona?"; "Pra mim ou grande guitarrista do rock foi o Rhandy Roads! Que nada, foi o Ritchie Blackmore!"; "Pra mim, o ato mais vendido da Academia Brasileira de Letras foi aceitar o José Sarney! Nada disso, aceitar o Paulo Coelho foi muito pior!"

Aí vai mais um chopinho, uns rollmops, um ovo em conserva daqueles que mataram o guarda, e o papo segue, inútil e divertido, pelo ventre da madrugada. No entanto, às vezes está no grupo um sujeito que você nunca sabe direito se é um connoisseur ou um blefador, que sentencia algo do tipo:

- Pelé?! Não! O melhor futebolista do mundo foi o Tibinguinha, que jogou em 1940 na Portuguesa de Desportos.
- Paco de Lucia, melhor violonista flamenco do mundo?! É porque vocês nunca ouviram Pepe Cabeza!
- Paulo Coelho, mau escritor?! É porque vocês nunca leram Hans Apffelstrudel, o carrasco das letras!

Na impossibilidade de contra-argumentar, todos se calam e é preciso partir para um novo assunto. Porém, há casos em que não se trata de blefe. Certa vez, estava em uma rodinha de violão com um músico profissional que já acompanhou o Djavan. Perguntei a ele de onde um alagoano pobre, filho de lavadeira, tinha buscado as informações para harmonias e levadas tão inusitadas no violão (referindo-me aos primeiros trabalhos de Djavan e não à fase mais pop). Ele disse que foi influência do Filó, que era ainda melhor que o Djavan. Segundo ele, o Filó só não apareceu tanto por ser feio, enquanto o Djavan é estiloso. Fiquei meio ressabiado e fui falar com outro amigo músico, que nunca tinha ouvido falar do tal de Filó, o que remeteu ao "papo Tibinguinha, Pepe Cabeza e Hans Apffelstrudel."

Ledo engano. Lá por 2006, creio, o Filó Machado apareceu aqui em Florianópolis em uma edição do Projeto Pixinguinha. Subiu no palco um afro-brasileirinho barrigudinho, de cabelo raspado e camiseta regata; parecia uma miniatura do Shrek feita de chocolate. Pensei com os meus botões: pelo menos metade da história é verdade. Aí o cara começou a cantar e tocar... Olha, foi de cair o queixo! É o tipo do cara que sempre fará mais sucesso fora do Brasil do que aqui nesse universo do jabá pras rádios, mas quem tiver oportunidade, vá conferir. Ele costuma tocar mais em São Paulo, mas tem uns vídeos espalhados pelo youtube pra matar a curiosidade de quem não puder assistir ao vivo.

4 comentários:

Lellê disse...

Ótima dica, o cara é muito bom, a primeira música que ouvi já conquistou... Ele tem uma cara ótima, uma simpatia deliciosa e uma bossa de gênio. E a comparação ao Shrek é ótima, com todo respeito... Morri de rir...

Drama Queen disse...

Nem gosto do estilo, mas vou conferir, quem sabe não mudo de ideia.

milu leite disse...

hahaha, esse post tá muito engraçado, paulinho. vc foi brilhante na caracterização do tipinho chato que aparece nas rodinhas e ninguém sabe direito de onde ele veio.
e o shrek de chocolate também me conquistou!
bjo

Paulo César Nascimento disse...

Lellê: o cara é ótimo. Eu quero ver esse cara tocar mais vezes. Bjs

Drama Queen: confira sim. Bjs

Milu: o tipinho das rodinhas é um clássico. Tem até um livro que ajuda a fazer esse papel: o Manual do Blefador. Bjs

 
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