sexta-feira, 24 de abril de 2009

judocas, street-fighters e políticos


O Judô é uma arte marcial desenvolvida no Japão pós-guerra, uma espécie de adaptação de jiu-jitsu para que ficasse menos letal e pudesse servir como esporte para jovens. Há muitos golpes e técnicas proibidas, juízes e sistema de pontos. Outra forma de jiu-jitsu migrou para o Brasil, gerando o jiu-jitsu brasileiro, um estilo de arte marcial muito mais eficiente do que plástico. O vale-tudo foi uma forma de a família Gracie popularizar o jiu-jitsu brasileiro, desbancando outras artes marciais de movimentos mais bonitos. Era uma forma de dizer: tudo bem, seu estilo é elegante, mas funciona na hora H? Aí desafiavam os lutadores de outras academias para uma situação muito próxima da briga de rua, com regras mínimas (era um vale quase-tudo), como não furar olhos, morder, apertar os testículos, quebrar dedos ou rasgar a boca do oponente. Com o tempo e a evolução do vale-tudo, os lutadores de jiu-jitsu começaram a aprender boxe ocidental, boxe tailandês e outras modalidades de luta que complementassem suas habilidades de grapplers. A própria evolução dos campeonatos internacionais transformou o vale-tudo em mixed martial arts (MMA), com torneios cheios de regras, restrições e juízes. A briga de rua é o verdadeiro vale-tudo - inclusive brigar de turma, usar revólveres, garrafas quebradas, porretes, mentiras e tudo o que estiver disponível.

Por que puxei esse assunto? Para falar sobre a sociedade. Tem gente que acha que a vida é um judô: todo mundo deve lutar conforme as regras, evitar golpes que ofereçam risco, confiar na justiça e no bom senso dos árbitros. Outros se comportam como se fosse jiu-jitsu: os golpes letais estão aí, mas há que se respeitar às regras e árbitros, não ultrapassando limites. Também há quem ache que o mundo é um grande vale-tudo: tirando os golpes sujos, salve-se quem puder. Finalizando, há os que acham que a vida é briga de rua: cuspe no olho e chute no saco.

Eu, criado na classe média católica e assalariada, aprendi que devia lutar judô, ou no máximo jiu-jitsu com a vida. É assim que eu venho vivendo. Porém, estou cansado de saber que muitos políticos, militares, traficantes, empresários, enfim, essa gente que lida com muito poder e dinheiro, segue a lei da briga de rua, ou pelo menos a do vale-tudo. Por isso, quando recebo via e-mail uma corrente indignada com esse pessoal, reflito sobre a ingenuidade humana: será que o cara que enviou não percebeu que judô não vence briga de rua? Posso não cuspir no olho, nem chutar o saco dos outros, mas certamente tento proteger minhas áreas vulneráveis, pois o ser humano é um bocado desumano.

Obs: o karateca da ilustração é Fred Ettish, que descobriu do pior modo possível que nem tudo na vida é como no Dojo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei curiosa: o que aconteceu com o Fred Ettish?

Anônimo disse...

Acabei de assistir á luta. Realmente, foi brutal para Ettish...

 
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