sábado, 30 de maio de 2009

Versões


- Olha, doutor, eu tenho uma vida muito corrida. Trabalho o dia inteiro no escritório, passo no colégio, faço o jantar, acompanho os deveres da minha filha, dou um jeito na casa, separo o uniforme dela pro colégio e dou um jeito de dormir umas seis horas, pra no outro dia começar tudo de novo. Dou café pra minha filha, deixo a menina no colégio e corro pro trabalho. Aí me aparece uma dessas pessoas que andam a vinte por hora na pista de alta velocidade e me atrasa a vida. Dou sinal de luz, ligo a seta, e nada de dar passagem. Não grudei na traseira dela, eu não sou de fazer essas coisas. Aí essa velha filha da puta... desculpe, doutor. Essa senhora, em vez de sair da frente, freia do nada pra não passar em cima de um cahorro morto! Já nem era mais um cachorro, era um patê na via expressa. Onde já se viu parar em via rápida sem ao menos ligar o pisca-alerta? Destruiu a frente do meu carro! Nessas horas, se eu não tivesse air-bag, estaria morta!

- Doutor, acho um absurdo essa gente apressadinha! Eu sempre saio de casa bem antes dos meus compromissos. Por quê não planejam as coisas antes? Eu vinha na pista da esquerda, a da direita está sempre cheia de caminhões e eu tenho medo de ficar presa entre eles. O meu finado marido morreu assim, prensado entre dois caminhões em um acidente horrível. Fiquei vinte anos sem dirigir por causa disso! Só de contar eu já fico toda trêmula, o senhor veja... Eu vinha a sessenta por hora. O limite da pista é cem, então a velocidade mínima permitida é de cinqüenta, eu vinha dentro do permitido. Eu acabei de fazer o curso pra renovação da minha carteira, eles ensinaram direção defensiva pra gente. A professora era muito simpática, a dona Aparecida. Aí veio essa mocinha inconseqüente buzinando e dando sinal de luz, eu fiquei toda nervosa. Não vou me matar só por causa dessa gente apressadinha, o doutor não acha que eu estou certa? Precisa ficar apressando os outros desse jeito? Aí eu vi um cachorrinho morto na pista, na minha frente, e diminuí pra não passar em cima do bichinho. Coitadinho, é uma criaturinha de Deus, como eu e o senhor. Não é porque está morto que não merece respeito. Aí essa irresponsável, que não vinha mantendo a distância mínima de segurança, bateu na traseira do meu carro e eu estou com esse negócio no meu pescoço.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Haicai judiciário


O vento gelado
Processos na minha mesa
As tramas do tempo

sábado, 23 de maio de 2009

Bugigangas


Houve um tempo em que os fabricantes tentavam garantir suas vendas com base na qualidade e na durabilidade dos produtos. O problema é que, por serem bons e duráveis, uma vez comprados, permaneciam com seus donos por muito tempo e os fabricantes precisavam encontrar outros compradores. Isso até um espertalhão, entre a década de 30 e a de 40, inventar a chamada "obsolescência programada", que é um jeito do produto ser feito pra estragar depois de um tempo determinado, obrigando o dono a comprar outro. Depois disso, outro espertalhão inventou a "obsolescência forçada". Utilizando o exemplo da informática: pela rápida evolução tecnológica, você é obrigado a trocar de computador para que os programas mais modernos funcionem, até o ponto em que você não tem mais como conservar sua máquina, uma vez que muitos dos arquivos gerados pelos programas novos são incompatíveis com os mais antigos.

Pois bem, não sei que nome recebe na economia o processo recente de encher os produtos de bugigangas, então chamarei de "bugiganguismo", na falta de palavra melhor. Se algum economista ou administrador souber o nome certo, peço que o diga nos comentários. Hoje em dia, se você quiser um telefone celular que funcione apenas como telefone, ou mande torpedinhos, não encontrará nenhum modelo novo. Aliás, todos terão rádio, mp3 player, máquina fotográfica, joguinhos, gps, televisão, desentortador de bananas, medidor glicêmico, aconselhador astrológico, bússola, abridor de latas laser e outras "utilidades", quer você queira, quer não. Você vai comprar um automóvel e descobre que lobbies "seduziram" os parlamentares para que um kit de primeiros socorros, air-bags ou um kit de manicure virassem itens de segurança obrigatórios. Além disso, se você quiser direção hidráulica e ar-condicionado, tem que comprar na marra as bugigangas que acompanham o modelo "extra vip", como o cinzeiro automático ajustável, o massageador de costas e o dvd player no banco de trás, porque o modelo "mão-de-vaca" não aceita ar-condicionado e direção hidráulica, embora seja o mesmo veículo. Ou você compra o pacote "fru-fu" e deixa uns seis mil reais a mais na concessionária, ou nada feito. Tem gente que curte bugigangas e acha o máximo que seu telefone seja um canivete suíço, mas eu acho um saco ter que levar um mp3 player a cada eletrodoméstico que compro. Daqui a pouco até os liquidificadores e os fornos de microondas virão com TV e mp3 player, só pra gente ter que pagar mais por uma bobagem que nem usará. Sem falar no gasto de bateria... Bugiganguismo me deixa de mau-humor.


terça-feira, 19 de maio de 2009

A passeio ou a trabalho?


Existem dois tipos de pessoas: as que dividem as situações em dois tipos e as que não o fazem. Eu pertenço ao grupo dos categorizadores, mesmo sabendo que categorias e rótulos são apenas artifícios para facilitar a representação do mundo para as pessoas do meu grupo (e dificultar para as do outro, presumo). No mínimo, evitam que você coloque sal no cafezinho ou açúcar no bife - pesadelo de todo cozinheiro. Isto posto (sem trocadilho), vamos a um exercício de dualismo sem pretensões maniqueístas. Nas situações da vida, podemos estar "a passeio" ou "a trabalho". Quando o pessoal vem a Florianópolis "a passeio", encanta-se e resolve se mudar pra cá. Depois, descobre o outro lado da cidade, só visível para quem está "a trabalho", e começa a reclamar. Quem cozinha uma vez ou outra para conhecidos, está "a passeio". Quem faz o feijão com arroz diário está "a trabalho". Ficantes, recém-namorados e amantes estão predominantemente "a passeio"; cônjuges, ex-cônjuges com filhos em comum e namorados antigos estão predominantemente "a trabalho". Os exemplos poderiam se multiplicar ao infinito, mas a essência aparece aqui: passeio = lazer, leveza, descompromisso com horários e prazos, desejo, prazer, falta de pressa; trabalho = compromisso com horários e prazos, metas, obrigações, disciplina, adiamento de gratificações. Dá para colocar uma pitada de um no outro, como se faz com o sal em alguns doces e com o açúcar em certos salgados a fim de realçar o sabor, mas se passar do ponto, começa a dar problema.

Note-se aqui que a vida envolve os dois momentos / movimentos: "a trabalho" e "a passeio". Quem está sempre a serviço do lazer, despotencializa o seu efeito de aliviar tensões e mergulha em um poço sem fundo de busca por novos estímulos. Quem está sempre "a trabalho", explode ou fica amargo. São aspectos complementares da vida, ambos necessários. O problema é quando o sujeito confunde as coisas e acha que ao transformar seu hobby em negócio, sua amante em esposa ou sua casa de praia em escritório estará ampliando seu espaço "a passeio", quando será exatamente o contrário.

sábado, 16 de maio de 2009

Picadeiro


Vida palhaça
No picadeiro
Breve ela passa

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Do além


Eu não freqüento videntes, nem centros espíritas, pelo seguinte motivo: se tudo for bobagem, perderei meu tempo; se não for, poderá ser muito pior. Hoje uma colega de trabalho passou um dia péssimo por ter ido a uma dessas consultas espirituais e ter ouvido notícias terríveis. Provavelmente esperavam que ela pagasse algum tipo de tratamento (tem os centros que são filantrópicos e os que são pilantrópicos também). Eu parei de olhar pro sobrenatural porque ele tem o péssimo hábito de olhar de volta pra você, seja na forma de pesadelos, superstições ou na de eventos inexplicáveis, que podem ser apenas peças que sua mente lhe prega... ou não (como dizem que o Caetano diz, mas ele nega). Às vezes o universo se comporta de modo surreal e bizarro, em outras é tudo apenas sonho.

sábado, 9 de maio de 2009

A mulher do próximo


Normalmente eu fujo de shopping-centers nas vésperas de datas especiais (eufemismo para datas consumistas) como Natal, Páscoa, Dia dos Pais, Dia dos Namorados e Dia das Mães. Não que Jesus, Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, nossos pais, mães e namoradas não mereçam homenagens, mas o comércio bate palmas e depende de nosso costume de fazer (e exigir) demonstrações de amor na forma de presentes. Como o brasileiro normal estuda na véspera da prova, fura fila de cinema, fila cigarro e deixa tudo para a última hora, estes estabelecimentos costumam transbordar de gente nestas datas. Hoje em dia eu não tenho muito prazer em fazer compras, mesmo de livros e CD, então geralmente eu chego às lojas com uma noção bem clara do que quero e louco para ir embora. Isso significa que não costumo levar comigo mulher alguma, porque a esmagadora maioria delas adora mandar descer tudo das prateleiras, experimentar, imaginar, fazer combinações mentalmente - um momento de prazer e diversão no consumo e suas preliminares. Até as revistas femininas, patrocinadas pelos promotores de orgias de consumo, sabem que casal em shopping é briga na certa e recomendam que você, leitora, leve uma amiga ou um amigo gay a estas situações, em lugar do marido ou namorado. Tive uma semana bem corrida, então fui comprar presentes para minha mãe e para o meu cunhado (de aniversário esta semana) na última hora. Estava em uma loja, quase cobiçando a mulher do próximo, quando percebi a situação: o pobre diabo estava tão cansado que a voz nem saía, ela mandou descer tudo das prateleiras depois do presente já ter sido escolhido, ele louco para ir embora. O sujeito estava quase pagando, quando ela perguntou se ele pegou o cupom em uma loja em que haviam comprado outras coisas e ele disse que não, pois a fila estava enorme. Ela começou a chateá-lo para irem lá, pois a soma de pontos em compras assegurava de brinde uma bolsa vagabunda com estampas de algum estilista ou artista famoso (com outra fila enorme para pegar). Ele suspirou e aceitou, resignado. Aí estava virando as costas, quando ela pediu duas sacolas pequenas em vez de uma grande para levar os presentes (provavelmente da mãe e da sogra). Não tinha. Antes que ela abrisse a boca, ele pegou outra sacola grande e saiu da loja, sem dar tempo para maiores debates estéticos sobre presentes pequenos ficarem bem ou mal em sacolas grandes. Após saírem, comentei a situação com as vendedoras, que tudo testemunharam, e elas mesmas se apiedaram dele (antes que me chamem de misógino). É por essas e outras que não se deve cobiçar a mulher do próximo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Entre micos e gorilas


Ontem eu fui tomar banho e constatei que minha faxineira, contrariando um pedido que fiz, voltou a apertar a torneira do chuveiro até emperrar. Ela é um bocado forte, ou então traz uma chave inglesa especialmente para esse fim. Eu não sou o cara mais fracote do universo: antigamente, quando as latas de cerveja eram do mesmo material que as de óleo, conseguia amassá-las, embora com algum esforço. Conseguia também amassar tampinhas de garrafa entre o polegar e o indicador e abrir vidros de conserva renitentes, ainda que hoje ache mais fácil simplesmente acabar com o problema do vácuo. Basta entortar a bordinha com ajuda de uma chave de fenda e deixar o ar entrar. O fato é que ontem estava impossível, mesmo com as duas mãos e uma toalha, fazer a torneira se mover, até que a besta aqui teve um insight e resolveu girar para o outro lado. Após um pouquinho de esforço, a torneira abriu. Estava girando para o lado errado, que não comportava mais um grau de giro. Tomei banho feliz: o gorila que sou acha um mico não conseguir abrir uma torneira fechada por uma senhora, bem mais vergonhoso que um atestado de burrice momentânea. Mim Tarzan.

domingo, 3 de maio de 2009

Desvario


Desvario
Isso que vivo
Às vezes rio
E nem sei o motivo

 
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