sábado, 18 de julho de 2009

Histórias dentro de histórias


Antes de termos a possibilidade de ler material organizado na forma de hipertexto (como este que você está lendo agora, que permite navegar em outras janelinhas e voltar), a idéia de transitar em histórias dentro de histórias já havia sido explorada na literatura. Evidentemente, pessoas prolixas têm o hábito de falar em hipertexto: "Antônio, você não sabe o que aconteceu! Eu estava andando na rua e encontrei a Mariquinha, sabe, a filha do Seu Arnulfo da padaria? Aquela padaria que pegou fogo no ano passado e que morreu um bombeiro tentando apagar, até apareceu na televisão naquele programa sensacionalista que passa à tarde, aquele que um gordo apresenta... Qual é mesmo o nome dele?" As janelas vão se abrindo e em cinco minutos o ouvinte já não sabe mais do que se está falando. Às vezes o falante também.

Um livro genial dimensionado como hipertexto é "As mil e uma noites", do qual já falei aqui. Outro deles é "O jogo da amarelinha" (Rayuela), de Julio Cortazar, que pode ser lido de duas formas: seqüencialmente, indo do capítulo 1 ao capítulo 56; aos saltos, iniciando pelo capítulo 73 e indo para o capítulo seguinte em uma ordem estranha, sugerida pelo autor. Na verdade, os textos adicionais servem como janelas e nem sempre guardam relação explícita com a trama. São como suplementos e a graça está justamente em brincar com o autor de pular amarelinha, mergulhando por reflexões adicionais, lampejos poéticos e outras maluquices no melhor sentido do termo. Porém, meu livro favorito de histórias dentro de histórias é "O dicionário kazar", de Milorad Pávitch. Começa que o livro tem duas edições, a masculina e a feminina, com apenas um parágrafo de diferença na página 258. Ao final do livro, o autor sugere de forma poética que o leitor e a leitora que gastaram tanto tempo lendo solitariamente o livro se encontrem, comparando as diferenças e completando o sentido da obra. Além disso, o livro tem como moldura a polêmica sobre a conversão do povo kazar, apresentada na forma léxico em três versões, conforme as fontes sejam cristãs, islâmicas ou judaicas. Cada verbete tem certa autonomia, porém remete a outros, como os textos com links. História e ficção são misturados de forma envolvente, com muita perspicácia e criatividade. A diferença entre as edições feminina e masculina? Melhor descobri-la como o autor sugere.

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