quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Da grana


O dinheiro é um deus ciumento que só ama os seus devotos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Poesia não serve


O bom da poesia é que ela não serve para nada
Mas o melhor mesmo é que ela não serve a ninguém

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soluções cara-de-pau


Penso que um livro de ficção é uma espécie de quebra-cabeças, partida de xadrez ou qualquer outra metáfora em que se pressuponha estruturas, funções, em outras palavras, ordem. Claro que os especialistas em literatura considerarão este ponto de vista estreito, que o modernismo e o pós-modernismo rompem com estes paradigmas estéticos e fundamentarão em abstrações vanguardistas, mas acho isso tudo bobagem. Defendo que uma narrativa ficcional precise ser verossímil, dentro das regras que se propõe ao início. Você escreveu um livro fantástico em que vacas voam e melancias são fosforescentes? Ótimo, nesse universo que você criou, as regras são estas: subverter a realidade, dar livre curso à imaginação. O que acho péssimo é quando em 350 páginas as vacas não voavam e, de repente, só pra resolver um problema de uma personagem, uma vaca sai voando para resgatá-la da prisão. Fico bravo quando o autor coloca a si próprio em uma enrascada e vem com uma solução cara-de-pau, como incluir uma personagem que não apareceu anteriormente no livro, só para ter um assassino que ninguém teria como descobrir, ou quando arruma uma solução carnavalesca de uma personagem telefonar para outra antes da invenção do telefone e, ainda por cima, brincar com isso, fazendo-a comentar "como é bom poder falar com você neste aparelho que ainda não inventaram". Aí irrompe uma horda de vikings dançando a macarena.

Na TV e no cinema, que são meios mais propensos a esse tipo de bobagem, acho apenas sofrível, mas nos livros eu considero imperdoável: perde-se muito mais tempo. Fiquei bravo com o Woody Allen em Match Point, na cena da delegacia. O filme seguia em outro tom, quando ele deparou com o problema: "mas ninguém iria desconfiar?" Como não dava mais tempo de seguir aquela linha de raciocínio no ritmo em que o filme transcorria, fez uma ceninha sem pé nem cabeça, em ritmo acelerado, na qual o investigador descobriu toda a verdade e, em seguida, uma bobagem qualquer derrubou a descoberta. Se é pra virar pastelão, que tenha pastelão do início ao fim. Outro filme que me deu vontade de atirar tomates na tela foi "Um drink no Inferno", do Tarantino, que começa como um policial e termina como um terror classe C.

Esta postagem terminará em aberto, antes que eu ceda à tentação de um final carnavalesco e ponha tudo a perder.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vai trabalhar, vagabundo!


A palavra trabalho vem do latim "tripalium", que quer dizer "três paus", referindo-se a um instrumento romano de tortura. Os cidadãos romanos consideravam indigno trabalhar, que seria atribuição de escravos e não de homens livres. Não que eles ficassem sem fazer nada, na verdade passavam os dias a receber seus clientes (arrendatários que tinham a obrigação de lhes puxar o saco) e a traficar influência. Os cidadãos mais velhos compunham o "Senatus" (Senado), que quer dizer "velharada" (senex = velho). Porém, não gostar de trabalhar e associar o trabalho a um castigo é uma noção que vem de antes dos romanos. Os hebreus, por exemplo, consideram que "ganhar o pão com o suor do rosto" foi um castigo divino pela desobediência de Adão. Para os gregos - ou pelo menos para Hesíodo, em "Os trabalhos e os dias" -, o mito de Prometeu e Pandora coloca que o trabalho é um castigo de Zeus para se vingar do roubo do fogo sagrado, passado por Prometeu aos homens.

Em oposição ao trabalho está o jogo (brincadeira, lazer, etc.). A diferença fundamental no que constitui o jogo e no que é trabalho está no sentido de obrigação. Você pára de brincar na hora que quiser, enquanto parar de trabalhar é uma coisa pra quando se puder. Um ator pornô, um jogador de futebol ou um músico profissional têm as obrigações do trabalho atreladas às suas atividades: desempenho (eficiência e eficácia) e compromisso. Já você, leitor, quando joga sua peladinha, participa de uma roda de violão ou dá a sua namorada básica, está apenas desfrutando. Uma coisa que sempre achei curioso foi que as mesmas pessoas que passaram boa parte da vida insatisfeitas, carrancudas e esbravejando por terem de trabalhar, eram as que ficavam sem saber o que fazer após se aposentarem, entrando em crises de diferentes magnitudes. Mais tarde isso se esclareceu: a pressão social para se trabalhar é tão grande, a vida da gente é tão voltada para o trabalho e o estigma ligado à vagabundagem é tão forte, que pra não sentir culpa e ter algum valor social o sujeito acaba dedicando os anos de velhice à mesma função dos anos de mocidade e vida adulta: enriquecer os outros, ganhando as migalhas de prêmio.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Medo


Todos nós, dos miúdos aos graúdos, em algum momento da vida experimentamos o medo. Existem algumas diferenças técnicas entre os diferentes tipos de estados ansiosos, que aqui simplificarei: a) o medo é uma reação de apreensão diante de um perigo real e identificável, sendo proporcional a ele; b) a fobia é uma reação de apreensão diante de um perigo imaginário ou uma reação desproporcional diante de um perigo real; c) o pânico é uma reação de ansiedade aguda e extremamente intensa, envolvendo tremores, palpitações e receio de perder o controle, enlouquecer ou morrer; d) os estados ansiosos flutuantes são como "medos" difusos e generalizados, ou seja, você está com medo de tudo, preocupadíssimo com riscos reais ou imaginários. Para os que quiserem se aprofundar nestas distinções, sugiro que cliquem aqui.

O medo propriamente dito é uma reação saudável, pois nos faz evitar perigos reais ou enfrentá-los com a cautela necessária. Os demais estados ansiosos causam um sofrimento desnecessário, mas o sujeito se sente incapaz de evitá-lo. Há diversas explicações teóricas para estes estados, as quais podem ser encontradas na obra "Psicologia dos Transtornos Mentais", de David S. Holmes.

Porém, geralmente os que não utilizam a terminologia psicopatológica, chamam estes estados de apreensão de medo. Para facilitar a leitura, mesmo sendo incorreto do ponto de vista técnico, chamarei de medo aos diversos estados ansiosos anteriormente mencionados. Há medos mais pragmáticos, como o de voar de avião, dirigir automóveis, ser demitido, ser abandonado. Outros medos são mais fantasiosos, como os de feitiço, vampiro, fantasma, bicho-papão e outros monstros. Porém, ao fim e ao cabo, salvo experiências traumáticas com ataques de animais ou outras situações equivalentes, a raiz da maioria destes medos está na sensação de desamparo, vulnerabilidade e fragilidade do ser humano perante a possibilidade de enfrentar sozinho o desconhecido. Aí restam duas soluções: o desconhecido se tornar conhecido ou perceber que não se está sozinho. Como sempre haverá algo desconhecido e nem sempre se estará acompanhado de fato, alguns resolvem a questão internalizando a idéia de um "outro" protetor (pai, mãe, Estado, Deus, anjo da guarda, etc.), outros desenvolvem uma grande confiança neles próprios, muitas vezes exagerada, criando ilusões de onipotência e auto-suficiência. Pelo sim, pelo não, quando o Monstro do Pântano bater à sua porta, o melhor é pedir ajuda.

domingo, 13 de setembro de 2009

Surpresas


Depois de uma semana "surpreendente" em que se descobriu que as equipes de fórmula 1 nem sempre são honestas em suas estratégias, que poderosos como o Berlusconi fazem festas com prostitutas e cocaína, que um povo com costumes exóticos (aos nossos olhos) será substituído na TV por mais uma Helena sofredora, fiquei pensando se o problema real não é o simples fato destas coisas não me surpreenderem mais.

Aí, por uma destas tramas da vida, passei parte do final de semana em uma cidadezinha próxima, com uma vasta área rural. Encontrei por lá gente que ainda se importa com honra e em zelar pela própria reputação, uma recepção bastante hospitaleira, um excelente barzinho com cervejas de ótima qualidade (nacionais e importadas) e mais não digo para não ser indiscreto. Ainda bem que a vida reserva surpresas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O melhor e o possível


Ganhar da Argentina é muito divertido e tirar onda com os hermanos depois do jogo é ainda melhor, mas há um momento em que a compaixão é mais forte e bate uma certa empatia, mesmo com rivais de tão longa data. Talvez a Argentina fique fora da copa de 2010, talvez não. O problema que vejo é outro: o reconhecimento de limites. Os técnicos que antecederam Maradona perderam seus empregos após derrotas para o Brasil em duas finais de campeonato. Dunga quase dançou após perder a semifinal do futebol olímpico para essa mesma Argentina. Falta aí uma noção básica: às vezes o outro está melhor mesmo e não há o que se fazer. Não há jogadores em algumas posições, não há tempo pra se treinar, o outro time está mais entrosado, ou qualquer outro fator que está além das possibilidades de uma reversão em tempo hábil - ou a qualquer tempo. Às vezes as coisas dão errado por culpa nossa, outras por culpa de circunstâncias além de nosso controle. A Argentina vice-campeã da Copa América de 2007 era um time digno, jogando um grande futebol, suficiente para não passar os recentes vexames nas eliminatórias da Copa do Mundo. Porém, não era o bastante: os anos de títulos perdidos para o Brasil maculavam a imagem do país e era preciso crucificar alguém. Primeiro foram os veteranos, depois o técnico. Resolveram apelar para o sobrenatural: lá Maradona é Deus. No entanto, tiveram que se render aos gols Nietzcheanos da Bolívia e do Brasil, a provar que Deus está morto.

Maradona, surpreendentemente para os que se acostumaram aos escândalos envolvendo seu nome, tem se portado de maneira muito digna e correta. Os caras estão lutando e fazendo o seu melhor. A realidade da vida é essa: nem sempre o seu melhor é o suficiente. Por mais que as "auto-ajudas" mintam que querer é poder, na verdade querer é só querer e poder é poder de fato. Há momentos em que você está preparado para superar seus concorrentes, há outros em que eles estão mais bem preparados que você. Para as coisas darem certo, é preciso tempo, recursos, trabalho e condições favoráveis (que alguns chamam de sorte). Nas novelas é diferente, mas geralmente os espectadores não são os mesmos do futebol.

sábado, 5 de setembro de 2009

As margens plácidas do Ipiranga


Tudo bem que a Vanusa se perdeu feio no hino, que estava sob efeito de alguma substância psicoativa - seja ou não para a labirintite -, que o episódio gerou as reações mais variadas possíveis, da pena ao desprezo. Agora responda rápido: quando você canta o hino nacional, entende direito o sentido da letra? Pois o meu avô, em um passado distante, passou o hino nacional pra ordem direta.

Ao ler o hino redigido desta forma, pensei: tão ridículo quanto errar o hino é estufar o peito e cantar algo que não se sabe o que quer dizer. Leia também, entenda a letra e pare de cantar na base do Virundum.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Entrevista - segunda parte

 
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