sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soluções cara-de-pau


Penso que um livro de ficção é uma espécie de quebra-cabeças, partida de xadrez ou qualquer outra metáfora em que se pressuponha estruturas, funções, em outras palavras, ordem. Claro que os especialistas em literatura considerarão este ponto de vista estreito, que o modernismo e o pós-modernismo rompem com estes paradigmas estéticos e fundamentarão em abstrações vanguardistas, mas acho isso tudo bobagem. Defendo que uma narrativa ficcional precise ser verossímil, dentro das regras que se propõe ao início. Você escreveu um livro fantástico em que vacas voam e melancias são fosforescentes? Ótimo, nesse universo que você criou, as regras são estas: subverter a realidade, dar livre curso à imaginação. O que acho péssimo é quando em 350 páginas as vacas não voavam e, de repente, só pra resolver um problema de uma personagem, uma vaca sai voando para resgatá-la da prisão. Fico bravo quando o autor coloca a si próprio em uma enrascada e vem com uma solução cara-de-pau, como incluir uma personagem que não apareceu anteriormente no livro, só para ter um assassino que ninguém teria como descobrir, ou quando arruma uma solução carnavalesca de uma personagem telefonar para outra antes da invenção do telefone e, ainda por cima, brincar com isso, fazendo-a comentar "como é bom poder falar com você neste aparelho que ainda não inventaram". Aí irrompe uma horda de vikings dançando a macarena.

Na TV e no cinema, que são meios mais propensos a esse tipo de bobagem, acho apenas sofrível, mas nos livros eu considero imperdoável: perde-se muito mais tempo. Fiquei bravo com o Woody Allen em Match Point, na cena da delegacia. O filme seguia em outro tom, quando ele deparou com o problema: "mas ninguém iria desconfiar?" Como não dava mais tempo de seguir aquela linha de raciocínio no ritmo em que o filme transcorria, fez uma ceninha sem pé nem cabeça, em ritmo acelerado, na qual o investigador descobriu toda a verdade e, em seguida, uma bobagem qualquer derrubou a descoberta. Se é pra virar pastelão, que tenha pastelão do início ao fim. Outro filme que me deu vontade de atirar tomates na tela foi "Um drink no Inferno", do Tarantino, que começa como um policial e termina como um terror classe C.

Esta postagem terminará em aberto, antes que eu ceda à tentação de um final carnavalesco e ponha tudo a perder.

3 comentários:

Raphael Rocha Lopes disse...

Exatamente isso. Péssimo quando um filme ou um livro transformam o improvável em solução para preencher quebra-cabeça. Diferentemente, como vc bem disse, daqueles livros e filmes já improváveis do início ao fim.

milu leite disse...

querido! meu ponto de vista é outro. sou a favor da coerência, mas torço pela incoerência. não tenho nada contra as surpresas e as mudanças inesperadas.
o que eu desaprovo totalmente é a avacalhação.
bjo

CHE! disse...

É... nestas horas me sinto como um infeliz comprador de algum produto mágico da Polishop...

Malditas entrelinhas! $%@¨@$@$

 
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