sábado, 24 de outubro de 2009

A sina de Rubinho


O Brasil é um país que gosta - ou precisa - de heróis, vilões e anti-heróis. Porém, o que faz o sujeito ser enquadrado em uma dessas categorias dá um longo debate. Estou devendo a mim mesmo a leitura de Carnavais, Malandros e Heróis, do antropólogo Robeto DaMatta - um dos estudiosos que mais perto chegou de compreender o nosso país. Enquanto isso, convido meus leitores a filosofarem comigo (no botequim) a respeito da representação do Rubinho Barrichello no imaginário popular brasileiro. Tem gente que acha graça, mas eu acho triste achincalharem com o Rubinho por nunca ter sido campeão, como se isso envergonhasse toda a nação. Aí começo a pensar nos possíveis motivos para esse linchamento moral:

1) Seria Rubinho um mau piloto? Se pensarmos em termos de resultados, não. Quantas vitórias na Fórmula 1 tiveram Chico Serra, Raul Boesel, Christian Fittipaldi? Havia corridas em que nem se classificavam e ninguém questionava sua habilidade nas pistas. Para os que argumentam que os carros deles eram horríveis, por que as escuderias com carros competitivos não lhes deram oportunidades? Eram todos bons pilotos. Ninguém chega à Fórmula 1 sendo ruim... ou quase ninguém, se considerarmos alguns pilotos japoneses impostos pelas fábricas e que servem de exceção à regra.

2) Seria porque Rubinho é chorão? Não acredito. Oscar Schmidt é tão chorão quanto Rubinho e goza de enorme prestígio entre os torcedores, sendo que o único título expressivo que conseguiu com a seleção brasileira foi o do Panamericano de Indianápolis. Está certo que Oscar foi cestinha de muitas competições, mas isso não costuma pesar no imaginário do brasileiro. Ou você prefere ter o artilheiro da copa do mundo a vencê-la?

3) Seria por Rubinho não ser um galã? Acho improvável, o Émerson Fittipaldi nunca rivalizou com o Tarcísio Meira e o Felipe Massa também não chega a ser uma ameaça para o Gianechinni, nem por isso caindo em descrédito perante os torcedores.

4) Seria por Rubinho inventar desculpas esfarrapadas para as derrotas? Discordo, inventar desculpas esfarrapadas tem ampla aceitação na nossa cultura: os playboys que atearam fogo no índio pataxó alegaram que o confundiram com um mendigo; a Xuxa disse que a Sasha comete erros gramaticais e ortográficos porque foi alfabetizada em inglês; o já esquecido deputado João Alves, um dos anões do orçamento, alegou que ficou rico porque Deus o ajudou a ganhar muitas vezes na loteria; Ronaldo, o fenômeno, disse que confundiu os três travestis com mulheres... e ficou tudo por isso mesmo.

5) Seria por Rubinho não ter carisma? Improvável. O cardeal Ratzinger tem o carisma de um bicho da goiaba e virou Papa! George Bush (filho) tem o carisma de uma ostra e virou a pessoa mais odiada (e temida) do planeta durante seus mandatos.

6) Seria porque Rubinho foi repetidamente vice-campeão? Aí surge um início de explicação. Ser vice é bom ou mau, dependendo da expectativa que se tenha. Por exemplo, a seleção brasileira de Voleibol ser vice-campeã mundial é considerado atualmente um mau resultado, porque a expectativa é de que seja campeã. A seleção brasileira de basquete ser vice-campeã mundial seria uma glória, já que é improvável que atualmente os rapazes e as moças tragam na bagagem mais do que experiência e souvenirs. Uma medalha de prata em uma olimpíada é motivo de orgulho para os brasileiros em qualquer modalidade... exceto o futebol, o vôlei de praia e o vôlei indoor.

O problema é que o Rubinho veio depois de estarmos acostumados a celebrar as vitórias de Piquet e Senna. Pior do que isso: Senna morreu e Schumacher começou a bater os recordes de nosso ídolo. Aí veio a demanda: "Rubinho, pare esse alemão!" Barrichello passou a ter uma dupla função, aos olhos do brasileiro: colocar o Brasil novamente no topo da Fórmula 1 e assegurar a soberania de Senna como o maior de todos os tempos. A Ferrari não pensava assim. Ao aceitar ser o segundo de Schumacher e obedecer às estratégias da equipe, Rubinho compactuou com uma ultrapassagem que não foi perdoada. Não me refiro àquela patética em 2002, na Áustria, mas aquela simbólica em que o alemão ultrapassou a Senna, tornando-se o piloto mais vitorioso da história.

3 comentários:

ndias disse...

Caro Paulo!

Parabéns pelas idéias e muitas verdades foram ditas em seu blog. Ratifico todas.

Minha idéia do Rubinho é que ele ainda não aprendeu a vencer, por motivos psicológicos e de formação, pois sempre que ganhou, foi devido a erros de outros pilotos, abandonos e etc.

Sair na frente e segurar a vitória não me parece ser o perfil do Rubinho.. Acho que ele já se acostumou a ter desculpas, mas me parece mais feliz do que os brasileiros que colocam nele a maior fé.
Sempre reclamou que não tinha material bom, como carros e equipe de ponta, quando conseguiu tudo isso o resultado ficou bem abaixo do esperado. Tem pessoas que realmente se baseiam em desculpas para justificar seus defeitos que no caso da formula 01 acabam somente alimentado mais ainda uma coisa que não sabemos hoje que é realidade. O Rubinho é apenas um piloto mediano que tenta passar a idéia de um piloto bom que não apresenta resultados por esta ou por aquela razão, mais ou menos como nosso governo que sempre procura os caminhos mais longos para concretizar a democracia de fato no Brasil.

Um abraço


Norberto Dias

Alline disse...

Não sei se tudo tem uma explicação... Não considero o Barrichello mau piloto, mas não consigo torcer por ele.

Beijo!

Paulo César Nascimento disse...

Norberto: obrigado pelo comentário! Volte sempre! Abs

Alline: ele é meio sem sal, deve ser isso. Bjs

 
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