sábado, 28 de novembro de 2009

Cenas dos próximos capítulos


A semana foi puxada, as idéias vieram, mas faltou energia para desenvolvê-las. Assisti a um documentário sobre um prostíbulo aqui na América do Sul, porém focalizado nas profissionais mais descontentes com o ramo. Peguei um trecho de outro documentário com uns índios enchendo a cara de uma birita que eles preparam e falando mal dos garimpeiros. Conheci o trabalho do Duo Gisbranco, com duas excelentes pianistas (uma delas é filha do Egberto Gismonti). Resolvi esclarecer um mal entendido milenar que fez de Onan o padroeiro do cinco contra um. Isso sem falar no Arruda, que fez outro papelão, agora aceitando propina, e deve chorar de novo, o que nos leva de novo ao primeiro assunto, das "Madalenas Arrependidas". Tudo isso aí dá assunto pra postagem... Pena o apagão (o meu).

sábado, 21 de novembro de 2009

Devaneios crepusculares


Assisti ao tal do Crepúsculo e tudo se esclareceu: não é uma história de vampiros, mas de Príncipe Encantado. Estou presumindo que os leitores do blog já assistiram ao filme, leram o livro ou alguma matéria a respeito, mas se não for o caso, clique aqui para uma sinopse. O fato de Edward Cullen ser vampiro é mero detalhe, pois sua família é atípica. Como eles mesmos descrevem, os Cullen estão para os vampiros como os humanos vegetarianos estão para os onívoros. Ou seja, perto dele e dos parentes, Bella, a mocinha, não corre perigo. Muito pelo contrário, assim que percebem como ela é adorável e o quanto o Ed não vê nela apenas um "lanchinho" (com trocadilho), passam a ser seus defensores. Mas estou atropelando as coisas. Vamos voltar ao início: Bella é uma adolescente contemporânea, filha de pais separados, com vida independente. É interessante como em todo o filme ela demonstra que não conta com seus pais, tentando solucionar as coisas sozinha ou com ajuda do namorado. Chega a uma nova escola e, pra variar, se apaixona pelo cara bonitão, cobiçado e misterioso. Obedecendo aos cânones da fantasia feminina adolescente, basta se olharem para descobrirem que foram feitos um para o outro - embora tenha sido esse o pensamento de outras meninas com quem o Ed não quis nada. Pelo que sabem, ele nunca ficou com ninguém, o que na vida real daria ao cara a maior fama de gay, mas é um conto de fadas, então há que se dar um desconto. No começo, ele foge de Bella, mas depois a moça descobre que é pela intensidade do desejo que sente por ela. Embora se trate de um desejo vampiresco pelo êxtase do sangue, a própria maneira de descrevê-lo já sinaliza uma metáfora da sexualidade. Em outro momento, Ed lê a mente de um bando de rapazes prestes a currar Bella e fica indignado: "Aquelas coisas horríveis que eles queriam fazer com você!". Eu fiquei em dúvida se as "coisas horríveis" aqui significavam desrespeitar a moça e violentá-la sexualmente, o que seria horrível mesmo, ou se era o fato de quererem transar com ela, o que não é nada horrível, desde que ela esteja capacitada a consentir e assim o faça. Então funciona mais ou menos assim, traduzindo pra vida de não-vampiros: "Estou doido pra te comer, mas sei que não devo, então vou me controlar. Porém, a paixão que sinto é tão grande ou maior que esse desejo, então aceitarei um amor quase platônico, sublimando a sexualidade". Ou seja, feito sob medida para meninas adolescentes, principalmente norte-americanas, considerando que a tradição puritana ainda defende o celibato como forma privilegiada de controle de natalidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Para não dizerem que estou viajando completamente, a cena que melhor ilustra este aspecto se dá na cama de Bella, em meio a um tórrido beijo. Outro aspecto interessante é o do amor deles ser proibido, pois acabaria colocando em risco a comunidade vampiresca. Aí vem aquela coisa bem de novela, do tipo "o nosso amor supera todas as barreiras", sejam inter-raciais, de credo, de classe social, enfim, vocês entenderam. Então, o que esse menino Ed, que tem dezessete anos há séculos, oferece a Bella? Tudo, menos perigo real. É romântico, descolado, assume o relacionamento perante o colégio e a família, passeia pelos bosques, faz confidências, fica purpurinado à luz do sol, expondo suas fragilidades... Claro que se ele fizesse isso e não fosse o bonitão da escola, levaria o mesmo toco do menino que a convidou para o baile. Aí é que está o elemento chave da fantasia: "Ele é o máximo e, apesar disso, não é um babaca convencido". Na vida real, essas coisas dificilmente não se misturam, mas isso costuma ser descoberto mais tarde, lá pelos 30, na maioria das vezes. Aí aparecem três vampiros de verdade, malvadões e sanguinários, e a coisa muda de figura. O vampiro rapazote, caçador de primeira, fareja Bella e resolve chupá-la (com trocadilho). Como o filme é politicamente correto, o vampiro afro-americanão tira o corpo fora, avisando que não vai se meter, mas advertindo que o moleque é poderoso. A vampirona do mal fica de lado para poder haver uma série - o que mostra que a autora é esperta. Aí começa uma caçada dupla, do vampirinho do mal atrás de Bella e dos Cullen atrás do vampirinho do mal. Após ser feita de trouxa pelo bandidinho, Bella é torturada pelo moleque até o Ed chegar pra fechar a porrada. Eu achei que ali o filme viraria aventura e estava louco pra ver a maneira como derrotariam o malvado, já que havia sido dito que ele era marrento. Qual nada, o filme era de príncipe mesmo. Depois de uns empurrões, chega a família Cullen e dão cabo do moleque como se ele não fosse de nada. O xis da questão era que o bandidinho tinha provocado uma hemorragia em Bella, aparentemente cortando a artéria femoral, o que na vida real geralmente causa morte. Além disso, tinha inoculado veneno de vampiro nela... Bom, ali estava a solução pros problemas de Bella. Viraria vampira, entraria pra família e passaria a se alimentar de sangue de veadinhos (sem trocadilho) na floresta. Mas não, o Dr. Cullen ensina o filho a curá-la, chupando o veneno de vampiro. Qual o objetivo disto? Lua Nova, é claro. Agora entram em cena os lobisomens. Um filme bem comercial, direcionado ao público feminino adolescente, do enredo à fotografia. Vai dar muito dinheiro e é essa a lógica por trás do entretenimento. Tenho pena dos rapazinhos normais, menos Edwardculleanos, que vão tomar mais foras em função desse cultivo ao mito do príncipe encantado, ou então passar pó de arroz e batom, pra ficarem mais vampirescos. Porém, se Jung estava certo, não há escapatoria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Lerdos e estressados


Um dia desses eu ia apressado para o trabalho e peguei um sujeito sossegado dirigindo na minha frente, para variar. Além disso, a maravilha do pessoal do planejamento urbano tem costume de deixar os semáforos da principal avenida da cidade programados para que se pare em TODOS! Mas, voltando, reparei que sempre que ando com pressa tem um babaca lerdo na frente, e que sempre que estou sem pressa tem um babaca estressadinho atrás do meu carro. Aí, uma voz interior esclareceu a questão: tem dias que eu sou o babaca estressadinho de trás de um carro, tem outros que eu sou o babaca lerdo na frente de outro. Como, aliás, todos somos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Da feminização dos vampiros no cinema


A crença em seres sobrenaturais que se alimentam de sangue ou restos de cadáveres remonta à antiguidade e é praticamente universal. O livro Vampiros, de Marcos Torrigo, traz um bom apanhado sobre esta figura mitológica que povoa o imaginário da humanidade. Conhecido por muitos nomes, sofrendo algumas variações regionais na sua aparência e hábitos, o vampiro sempre despertou medo, curiosidade e fantasia. Como ilustração, o Vrykolakas grego, o Ghoul árabe, a Pennangalan malaia e o Chiang-shih chinês.


O grande marco para o delineamento da representação do vampiro no imaginário ocidental foi a obra literária "Dracula", do irlandês Bram Stocker, em 1897. A personagem uniu a figura do príncipe Vlad Tepes (o empalador), da Valáquia - também conhecido como Draculea (filho do dragão) - com o vampiro das crenças populares do leste europeu. Em 1922, estreou Nosferatu, o primeiro filme baseado neste romance. A imagem do vampiro neste filme conserva um aspecto soturno, animalesco e angustioso. No filme Dracula (1931), estrelado por Béla Lugosi e também baseado no livro de Stocker, o vampiro se humaniza, porém conserva um aspecto assustador dado o seu carisma e efeito hipnótico. Em "Horror of Dracula", de 1958, Christopher Lee não mudou muito o estilo do conde, assim como Frank Langella no Dracula de 1979. Entre um e outro, o conde Von Krolock, de A Dança dos Vampiros, satirizou o gênero, mas não desviou tanto assim do modelito.

Na década de 80, com "Fright Night" (A hora do espanto), o vampiro ganhou ares de galã (Chris Sarandon), perdeu as olheiras e passou a se vestir normalmente, sem capa. Dormia no caixão, pois essa coisa de morder pescocinhos cansa. A década de 90 alternou entre os vampiros lutadores de Blade, saído das HQ, o "Dracula de Bram Stocker" (Coppola) e a turminha do Lestat, que dá início a um processo de feminização dos vampiros. As criaturas de Anne Rice são meio blasé, assexuadas e em crise existencial, movidas por uma sede sem fim e aguardando o retorno dos seus ancestrais - o que não deixa de retratar a mocidade que surgia na época, sedenta sabe-se lá do quê e carente de raízes. A partir deles, a vampirização das vítimas se torna um processo voluntário, que implica em beber também um pouco do sangue do vampiro. Note-se que a feminização dos vampiros reúne dois aspectos interessantes: a crise de identidade masculina pós-feminismo e o fato da obra ser escrita por uma mulher. Embora Anne Rice não escreva "literatura mulezinha", estilo Bridget Jones e O Diabo Veste Prada, o enfoque muda. O vampiro de Bram Stocker vive a solidão, a nostalgia de um grande amor e a sede de reencontrá-lo. Em cada mordida, percebe-se não só a sede de sangue, mas um grande teor erótico e de poder. Nos vampiros de Anne Rice, apenas um grande tédio, mesclado com uma sensação de vazio.

No mundo nerd dos RPG, os vampiros viraram uma espécie de universo particular e muitas das referências mitológicas foram retomadas, com direito a clãs e enredos complexos. No século XXI, um fenômeno interessante: as obras sobre vampiros começam a sinalizar uma rivalidade entre eles e os lobisomens. Tanto em Underworld (2003), como em Van Helsing (2004) e Crepúsculo (2008), essas turminhas não se bicam. No primeiro filme, na verdade são primos distantes e farinha do mesmo saco. A diferença é que os lobisomens são mais animalescos e carniceiros, enquanto os vampiros são mais humanizados. No segundo, soma-se a isto os lobisomens serem escravos. O terceiro eu ainda não vi e nem sei se terei paciência, já que é voltado para garotas de doze anos, tenham elas a idade cronológica que tiverem. Ali o protagonista é um vampiro meio metrossexual, com uma pitada de EMO, chamado Edward Cullen. Quem acompanha a cultura pop sabe que a cada dois ou três anos é preciso surgir uma leva de garotos com cara de criança/menina, estilo James Dean, Christopher Atkins, Leonardo DiCaprio, para que as meninas não tenham medo das diferenças e possam se apaixonar por anjinhos barrocos, para fazer (ou não) depois a transição para sujeitos com mais testosterona e caracteres sexuais secundários, como o Sean Connery, Jason Statham e Clive Owen. Lobisomens são mais agressivos, animalescos e peludos. Creio eu, em um momento de delírio sem muito fundamento científico, que essa polarização entre vampiros e lobisomens retrata o lado meio marginal de ser macho em um mundo politicamente correto, no qual não se pode mais fazer eco ao porteiro Severino (Paulo Silvino), cara, crachá: "Doutor, isso aí não é um vampiro..."

sábado, 7 de novembro de 2009

Doce surpresa


Ontem à noite, cheguei cansado em casa, lá por volta das 22:00. Abri a porta, acendi a luz e encontrei:

a) um bilhete de uma vizinha sexy me convidando para jantar;
b) um envelope com um cheque de valor respeitável, saldando uma dívida antiga;
c) um enxame de mais de mil abelhas agrupadas no vidro da minha sacada, pelo lado de dentro do apartamento, construindo uma colméia em plena sala.

Se você me conhece bem ou acompanha o meu blog há mais tempo, certamente respondeu "c". Dei sorte de chegar à noite, quando elas já estão mais calminhas, aconchegadas umas às outras. Embora eu ache a abelha um animalzinho simpático, útil e produtivo, que permite gentilmente que lhe furtemos mel, cera, própolis e geléia real, sei que o ataque de um enxame costuma ser fatal, mesmo para quem não é alérgico, devido aos efeitos cumulativos do veneno. O ideal nestes casos é chamar um apicultor, uma vez que o extermínio de animais silvestres e benéficos ao homem é proibido por lei. Em razão disso, empresas de extermínio de insetos nada podem fazer em uma hora dessas. Quando vidas humanas estão em risco, o corpo de bombeiros costuma resolver, aceitando as punições legais, caso venham.

A solução encontrada?

a) Liguei para o "disque-apicultor 24 horas", serviço existente em todas as cidades do Oiapoque ao Chuí, que é o que nossos competentes legisladores esperam que façamos;
b) Comprei uma roupa de apicultor e passarei a vender "mel urbano" a partir do ano que vem;
c) Após um longo jogo de empurra, recebi ajuda do corpo de bombeiros.

Essa fica para você adivinhar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Devorando livros


Aproveitei para colocar a leitura em dia nas últimas semanas. Rondas de Escárnio e Loucura, de Sérgio Faraco, é um livro de contos que recomendo: histórias concisas, cortantes, sem floreios desnecessários ou recursos "vejam como eu tenho estilo e sou de vanguarda". O fato dele não ser um autor muito conhecido fora do sul do país é facilmente explicável em um mundo de crepúsculos, melancias e margens do Rio Piedra. Li também Leite Derramado, do Chico Buarque. Embora eu o considere melhor letrista do que romancista, a leitura também é agradável. Pelo fato do Chico não ser Psiquiatra ou Psicólogo, falta um pouco mais de pesquisa para nortear os esquecimentos e confusões do protagonista, porém isso não chega a comprometer. Em seguida, li Inferno, de Patrícia Melo. O começo não me agradou muito, pois logo ao início ela usa a escrita truncada como recurso em uma personagem, mas é apenas para representar o pensamento truncado do sujeito. Porém, o leitor descobre isso apenas se for adiante, quando a escrita passa a fluir e outras personagens são apresentadas. Um bom romance, ambientado nos morros cariocas. Para quem gosta de ver a miséria de fora, com bastante narcotráfico e sem risco de balas perdidas, uma leitura que prende. Por fim, comecei a ler Divã, de Martha Medeiros, e Hombres y engrenajes, de Ernesto Sabato. Depois eu comento.

 
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