terça-feira, 10 de novembro de 2009

Da feminização dos vampiros no cinema


A crença em seres sobrenaturais que se alimentam de sangue ou restos de cadáveres remonta à antiguidade e é praticamente universal. O livro Vampiros, de Marcos Torrigo, traz um bom apanhado sobre esta figura mitológica que povoa o imaginário da humanidade. Conhecido por muitos nomes, sofrendo algumas variações regionais na sua aparência e hábitos, o vampiro sempre despertou medo, curiosidade e fantasia. Como ilustração, o Vrykolakas grego, o Ghoul árabe, a Pennangalan malaia e o Chiang-shih chinês.


O grande marco para o delineamento da representação do vampiro no imaginário ocidental foi a obra literária "Dracula", do irlandês Bram Stocker, em 1897. A personagem uniu a figura do príncipe Vlad Tepes (o empalador), da Valáquia - também conhecido como Draculea (filho do dragão) - com o vampiro das crenças populares do leste europeu. Em 1922, estreou Nosferatu, o primeiro filme baseado neste romance. A imagem do vampiro neste filme conserva um aspecto soturno, animalesco e angustioso. No filme Dracula (1931), estrelado por Béla Lugosi e também baseado no livro de Stocker, o vampiro se humaniza, porém conserva um aspecto assustador dado o seu carisma e efeito hipnótico. Em "Horror of Dracula", de 1958, Christopher Lee não mudou muito o estilo do conde, assim como Frank Langella no Dracula de 1979. Entre um e outro, o conde Von Krolock, de A Dança dos Vampiros, satirizou o gênero, mas não desviou tanto assim do modelito.

Na década de 80, com "Fright Night" (A hora do espanto), o vampiro ganhou ares de galã (Chris Sarandon), perdeu as olheiras e passou a se vestir normalmente, sem capa. Dormia no caixão, pois essa coisa de morder pescocinhos cansa. A década de 90 alternou entre os vampiros lutadores de Blade, saído das HQ, o "Dracula de Bram Stocker" (Coppola) e a turminha do Lestat, que dá início a um processo de feminização dos vampiros. As criaturas de Anne Rice são meio blasé, assexuadas e em crise existencial, movidas por uma sede sem fim e aguardando o retorno dos seus ancestrais - o que não deixa de retratar a mocidade que surgia na época, sedenta sabe-se lá do quê e carente de raízes. A partir deles, a vampirização das vítimas se torna um processo voluntário, que implica em beber também um pouco do sangue do vampiro. Note-se que a feminização dos vampiros reúne dois aspectos interessantes: a crise de identidade masculina pós-feminismo e o fato da obra ser escrita por uma mulher. Embora Anne Rice não escreva "literatura mulezinha", estilo Bridget Jones e O Diabo Veste Prada, o enfoque muda. O vampiro de Bram Stocker vive a solidão, a nostalgia de um grande amor e a sede de reencontrá-lo. Em cada mordida, percebe-se não só a sede de sangue, mas um grande teor erótico e de poder. Nos vampiros de Anne Rice, apenas um grande tédio, mesclado com uma sensação de vazio.

No mundo nerd dos RPG, os vampiros viraram uma espécie de universo particular e muitas das referências mitológicas foram retomadas, com direito a clãs e enredos complexos. No século XXI, um fenômeno interessante: as obras sobre vampiros começam a sinalizar uma rivalidade entre eles e os lobisomens. Tanto em Underworld (2003), como em Van Helsing (2004) e Crepúsculo (2008), essas turminhas não se bicam. No primeiro filme, na verdade são primos distantes e farinha do mesmo saco. A diferença é que os lobisomens são mais animalescos e carniceiros, enquanto os vampiros são mais humanizados. No segundo, soma-se a isto os lobisomens serem escravos. O terceiro eu ainda não vi e nem sei se terei paciência, já que é voltado para garotas de doze anos, tenham elas a idade cronológica que tiverem. Ali o protagonista é um vampiro meio metrossexual, com uma pitada de EMO, chamado Edward Cullen. Quem acompanha a cultura pop sabe que a cada dois ou três anos é preciso surgir uma leva de garotos com cara de criança/menina, estilo James Dean, Christopher Atkins, Leonardo DiCaprio, para que as meninas não tenham medo das diferenças e possam se apaixonar por anjinhos barrocos, para fazer (ou não) depois a transição para sujeitos com mais testosterona e caracteres sexuais secundários, como o Sean Connery, Jason Statham e Clive Owen. Lobisomens são mais agressivos, animalescos e peludos. Creio eu, em um momento de delírio sem muito fundamento científico, que essa polarização entre vampiros e lobisomens retrata o lado meio marginal de ser macho em um mundo politicamente correto, no qual não se pode mais fazer eco ao porteiro Severino (Paulo Silvino), cara, crachá: "Doutor, isso aí não é um vampiro..."

4 comentários:

Alline disse...

As não tão meninas assim também podem gostar de um anjinho barroco. *=P

Dá uma espiada em True Blood, seriado da HBO. Há vampiros muchos machos y outros bichos.

Beeeeeeeeeeijo!

Thales disse...

Eu também reparei nessa transformação dos vampiros, de fato, são muito destinados ao público feminino atualmente. O mundo hoje é feminista (por mais que digam que é machista), os homens trabalham mais para criar maquiagem e aparelhos domésticos para agradar a mulher do século XXI

Flws

Paulo César Nascimento disse...

Alline: assisti a Crepúsculo. É bem feito, mas totalmente "girlie", até na fotografia. Bjs

Thales: pelo que vi em crepúsculo, o homem do século XXI está ultrapassando a mulher no uso de maquiagem. Abs

CHE! disse...

Ser brucutú é ser politicamente incorreto... Mas ainda prefiro me manter bem diferente de uma mulher!

Sobre o RPG, achei a melhor história de vampiros até hoje!!! Muito bom mesmo. Vou te passar o "Livro de Nod" em pdf, caso queiras ler... é pequeno :)

 
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