sábado, 21 de novembro de 2009

Devaneios crepusculares


Assisti ao tal do Crepúsculo e tudo se esclareceu: não é uma história de vampiros, mas de Príncipe Encantado. Estou presumindo que os leitores do blog já assistiram ao filme, leram o livro ou alguma matéria a respeito, mas se não for o caso, clique aqui para uma sinopse. O fato de Edward Cullen ser vampiro é mero detalhe, pois sua família é atípica. Como eles mesmos descrevem, os Cullen estão para os vampiros como os humanos vegetarianos estão para os onívoros. Ou seja, perto dele e dos parentes, Bella, a mocinha, não corre perigo. Muito pelo contrário, assim que percebem como ela é adorável e o quanto o Ed não vê nela apenas um "lanchinho" (com trocadilho), passam a ser seus defensores. Mas estou atropelando as coisas. Vamos voltar ao início: Bella é uma adolescente contemporânea, filha de pais separados, com vida independente. É interessante como em todo o filme ela demonstra que não conta com seus pais, tentando solucionar as coisas sozinha ou com ajuda do namorado. Chega a uma nova escola e, pra variar, se apaixona pelo cara bonitão, cobiçado e misterioso. Obedecendo aos cânones da fantasia feminina adolescente, basta se olharem para descobrirem que foram feitos um para o outro - embora tenha sido esse o pensamento de outras meninas com quem o Ed não quis nada. Pelo que sabem, ele nunca ficou com ninguém, o que na vida real daria ao cara a maior fama de gay, mas é um conto de fadas, então há que se dar um desconto. No começo, ele foge de Bella, mas depois a moça descobre que é pela intensidade do desejo que sente por ela. Embora se trate de um desejo vampiresco pelo êxtase do sangue, a própria maneira de descrevê-lo já sinaliza uma metáfora da sexualidade. Em outro momento, Ed lê a mente de um bando de rapazes prestes a currar Bella e fica indignado: "Aquelas coisas horríveis que eles queriam fazer com você!". Eu fiquei em dúvida se as "coisas horríveis" aqui significavam desrespeitar a moça e violentá-la sexualmente, o que seria horrível mesmo, ou se era o fato de quererem transar com ela, o que não é nada horrível, desde que ela esteja capacitada a consentir e assim o faça. Então funciona mais ou menos assim, traduzindo pra vida de não-vampiros: "Estou doido pra te comer, mas sei que não devo, então vou me controlar. Porém, a paixão que sinto é tão grande ou maior que esse desejo, então aceitarei um amor quase platônico, sublimando a sexualidade". Ou seja, feito sob medida para meninas adolescentes, principalmente norte-americanas, considerando que a tradição puritana ainda defende o celibato como forma privilegiada de controle de natalidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Para não dizerem que estou viajando completamente, a cena que melhor ilustra este aspecto se dá na cama de Bella, em meio a um tórrido beijo. Outro aspecto interessante é o do amor deles ser proibido, pois acabaria colocando em risco a comunidade vampiresca. Aí vem aquela coisa bem de novela, do tipo "o nosso amor supera todas as barreiras", sejam inter-raciais, de credo, de classe social, enfim, vocês entenderam. Então, o que esse menino Ed, que tem dezessete anos há séculos, oferece a Bella? Tudo, menos perigo real. É romântico, descolado, assume o relacionamento perante o colégio e a família, passeia pelos bosques, faz confidências, fica purpurinado à luz do sol, expondo suas fragilidades... Claro que se ele fizesse isso e não fosse o bonitão da escola, levaria o mesmo toco do menino que a convidou para o baile. Aí é que está o elemento chave da fantasia: "Ele é o máximo e, apesar disso, não é um babaca convencido". Na vida real, essas coisas dificilmente não se misturam, mas isso costuma ser descoberto mais tarde, lá pelos 30, na maioria das vezes. Aí aparecem três vampiros de verdade, malvadões e sanguinários, e a coisa muda de figura. O vampiro rapazote, caçador de primeira, fareja Bella e resolve chupá-la (com trocadilho). Como o filme é politicamente correto, o vampiro afro-americanão tira o corpo fora, avisando que não vai se meter, mas advertindo que o moleque é poderoso. A vampirona do mal fica de lado para poder haver uma série - o que mostra que a autora é esperta. Aí começa uma caçada dupla, do vampirinho do mal atrás de Bella e dos Cullen atrás do vampirinho do mal. Após ser feita de trouxa pelo bandidinho, Bella é torturada pelo moleque até o Ed chegar pra fechar a porrada. Eu achei que ali o filme viraria aventura e estava louco pra ver a maneira como derrotariam o malvado, já que havia sido dito que ele era marrento. Qual nada, o filme era de príncipe mesmo. Depois de uns empurrões, chega a família Cullen e dão cabo do moleque como se ele não fosse de nada. O xis da questão era que o bandidinho tinha provocado uma hemorragia em Bella, aparentemente cortando a artéria femoral, o que na vida real geralmente causa morte. Além disso, tinha inoculado veneno de vampiro nela... Bom, ali estava a solução pros problemas de Bella. Viraria vampira, entraria pra família e passaria a se alimentar de sangue de veadinhos (sem trocadilho) na floresta. Mas não, o Dr. Cullen ensina o filho a curá-la, chupando o veneno de vampiro. Qual o objetivo disto? Lua Nova, é claro. Agora entram em cena os lobisomens. Um filme bem comercial, direcionado ao público feminino adolescente, do enredo à fotografia. Vai dar muito dinheiro e é essa a lógica por trás do entretenimento. Tenho pena dos rapazinhos normais, menos Edwardculleanos, que vão tomar mais foras em função desse cultivo ao mito do príncipe encantado, ou então passar pó de arroz e batom, pra ficarem mais vampirescos. Porém, se Jung estava certo, não há escapatoria.

2 comentários:

Alline disse...

Paulinho, em Lua Nova há um diretor no lugar da mulher que dirigiu o primeiro. Fez diferença? Não sei, porque não vi, não sei se vou ver. Talvez. A crítica no Omelete é hilária (dá uma olhada), e foi de lá que tirei uma paráodia pra postar no blog. Só rindo mesmo.
Pelo que tenho visto nos editoriais de moda e afins, o que está na moda são meninos com ares andróginos. Os cabelos são mais compridinhos, o corpitcho depilado, o rosto mais delicado... Não que eu ache detestável, mas de vez em quando um Clive Owen e um Gerard Butler fazem bem aos olhos.

Beeeeeijo

Anônimo disse...

vc é mau.

 
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