terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Clamai de novo!


Freud via na sexualidade a mola mestra do comportamento humano, embora empregasse o termo com uma amplitude e flexibilidade que surpreendem o leigo em Psicanálise. Seus discípulos - e dissidentes do movimento - Adler e Jung divergiram do mestre e viram, respectivamente, na busca de superioridade (auto-afirmação) e na religiosidade os motivadores fundamentais de nossa conduta. Poderia enumerar diversos teóricos da personalidade, cada qual com sua preferência, apontando motivadores básicos para o comportamento, mas ficaria cansativo e não é o caso. Certo dia, voltando do trabalho, formulei uma teoria estapafúrdia a respeito da motivação básica do ser humano:

O grande motivador do comportamento humano é RECLAMAR.

Se você observar atentamente o comportamento das pessoas, é raro que passem mais de meia hora sem reclamarem de nada. Aquela mulher maravilhosa, cobiçada por uns, invejada por outras, reclama que um fulano não larga do seu pé, que está com olheiras ou que seus mindinhos são tortos. Aquele sujeito milionário reclama que estão sempre querendo meter a mão no seu dinheiro ou ainda que perdeu algum em um investimento infeliz. Os hebreus têm um muro só pra reclamar. Quando você finalmente alcança aquilo que buscava, a alegria se dissipa rapidamente, dando lugar a um vazio que você não sabe explicar, não é verdade? O vazio que você sente é na verdade a falta do que reclamar, e para que passe é preciso que você rapidamente trace uma nova meta, para poder reclamar dos obstáculos que se apresentarão. Já conheci reclamadores quase profissionais, cuja maior fonte de incômodo era o mal estar difuso que ocorria na falta de algo concreto a lhes incomodar. Felizmente para eles (e infelizmente para outros), logo surgia algum pretexto para que o furor reclamandi encontrasse um canal de expressão. Até as grandes corporações já se aperceberam deste aspecto básico da conduta humana e por isso existem ouvidorias, ombudsmen e congêneres. Se um dia eu me render à picaretagem, fundarei uma religião cujos ritos principais consistirão em reclamar. Só falta definir uma taxa de contribuição que una o útil ao agradável, deixando os fiéis com mais motivos ainda para clamar novamente (re-clamar).

sábado, 26 de dezembro de 2009

O melhor do "Soco no Figo" em 2009



Caríssimos e caríssimas: fim de ano é época de preguiça e descanso para todos nós. Copiando o exemplo da TV, faço aqui os melhores momentos do blog em 2009, para os que chegaram há pouco de fora (com trocadilho). Seguem aí as postagens:


Quem quiser escolher uma destas (ou outra, a gosto) como a melhor postagem do blog em 2009, sinta-se livre.


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Clichês


Por quê os clichês existem? Simples. Porque funcionam. Imaginem o primeiro ser humano que, ao término de um relacionamento resolveu dizer a verdade: "Estou terminando porque você é muito pegajosa(o)." ou "Olha, fazia tempo que eu não gostava de você e estava enrolando até aparecer alguém mais interessante. Aí apareceu..." ou ainda "Olha, com essa família de malucos que você tem, é melhor pararmos por aqui." A pobre criatura ouviu horas de desaforos, sofreu vinganças terríveis, apanhou, foi difamada, amaldiçoada e por aí vai. Na segunda vez, ao ser consultada sobre os motivos do término, respondeu: "O problema não é você, sou eu." Bárbaro! A auto-estima do(a) dispensado(a) fica em dia, é covardia retaliar o término - afinal de contas, ele(a) tem problemas e foi honesto(a) o suficiente para admiti-los - e fica feio até mesmo sentir raiva: no máximo, tristeza pela fatalidade do destino.

Pensem agora em um pobre analista de RH, tendo centenas de pessoas para dispensar em uma seleção, muitas vezes com currículos nada compatíveis com o cargo em questão. Cada dispensado vai querer saber o motivo da dispensa. Só contar duplicaria o tempo de trabalho, fora as discordâncias, barganhas e desaforos que ouviria - o que quintuplicaria o tempo, sem nenhuma vantagem para a empresa ou ele próprio. A solução mágica: "Muito obrigado. Assim que tivermos uma posição, entraremos em contato."

Um político em campanha, que dissesse: "Olha, gente, tem um pessoal aí financiando a minha campanha e eu terei que prestar contas a eles. Além disso, eu tive que me aliar ao Capeta, à bancada evangélica e ao Sarney. Para fazer alguma coisa, vou ter que aumentar os impostos, pois tenho que molhar a mão de dúzias de safados para que as medidas sejam aprovadas. A verba da educação eu terei que reduzir, além de criar um novo imposto pra saúde, que na real eu vou mandar para auxiliar uns políticos de países vizinhos que vão me ajudar a ter projeção no exterior. Só assim eu garanto que o meu partido ficará mais uns quatro mandatos no poder. Jogo político é isso, pessoal!" ou então "Gente, o negócio é o seguinte: eu vou é privatizar tudo para encher os bolsos de meus compadres! Não me cobrem coerência, eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! E não me perguntem mais, ou eu respondo de um jeito enrolado para ninguém entender nada." Você votaria nesses caras? Pois é, então o que se fala é "No meu governo, as prioridades serão claras: saúde, educação, segurança e emprego! Vamos erradicar a fome e o analfabetismo, alçando de vez o país para o seu merecido lugar no cenário mundial." É o discurso de todos os candidatos e o resto da campanha consiste em provar que os concorrentes estão mentindo.

"Queremos roubar petróleo, movimentar a indústria de armamentos, dar uma demonstração de força e ganhar as próximas eleições." funciona menos que "Queremos assegurar a liberdade no mundo inteiro e defender nossos cidadãos da ameaça terrorista". Sim, os clichês são sempre mentiras, ou no máximo meias-verdades. Não me espantará se algum dia um candidato misturar clichês e prometer: "Se eleito, colocarei só a cabecinha!"

sábado, 19 de dezembro de 2009

Personagens inesquecíveis: Hannibal Lecter



Existem livros e filmes cujo enredo fica menor diante do vulto de uma personagem. No cinema, muitas vezes é a atuação digna de prêmios que acaba superando o que o roteirista planejou. Porém, na literatura existe a possibilidade de expressar aspectos da personagem que o cinema deixa apenas entrever, quando não sacrifica em nome da correção política ou do comercialismo. Começo a série de personagens interessantes com Hannibal Lecter. A grande sacada da personagem é a mistura de características de refinamento com aspectos perversos (não no sentido de maldade, mas no de desconsideração das interdições). Lecter só mata pessoas de mau caráter, exceto em casos em que a morte é necessária para lhe abrir caminhos de fuga. Extremamente inteligente, expert em decifrar a motivação humana, artista talentoso e um grande cozinheiro, porém com ingredientes pouco ortodoxos, contrabalança estas características com uma frieza e crueldade ímpares no trato com seus desafetos.  O canibalismo já fez parte de algumas tradições culturais, inclusive no Brasil pré-colombiano (ou pré-cabralino, para ser mais exato), porém havia um aspecto de respeito pelo "comido", uma vez que se acreditava absorver suas qualidades (bravura, integridade, força) ao ingeri-lo. Lecter o une aos aspectos mais refinados da culinária, preparando cuidadosamente os cortes humanos com receitas tradicionais da gastronomia, acompanhando os pratos com vinhos caros e cuidadosamente escolhidos para a harmonização.

As experiências que teve na guerra o privaram da possibilidade de levar em conta os sentimentos alheios de modo empático e não somente intelectual, o que serve de explicação para seu comportamento, do ponto de vista do autor. Nem todas as características de Lecter fecham com a descrição da personalidade anti-social (atual nome da antiga psicopatia), mas aí está a "licença poética" que torna Hannibal mais interessante que os psicopatas da vida real. A grande sacada do livro Hannibal - abandonada na versão cinematográfica - está em um aspecto teoricamente incorreto, porém interessante do ponto de vista ficcional: a agente Starling consegue trazê-lo de volta, em parte, para o universo das relações afetivas. Porém, isso tem um preço. Não, isso eu não contarei. Ler não tira pedaço.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Noção de limite


Quebraram a cara do Berlusconi, como vocês bem sabem. Dizem que Tartaglia, o sujeito que fez isso, tem histórico de  distúrbios mentais. Se não tiver, é muito burro ou sem noção de limite. Se tivesse jogado uma torta ou mesmo um  balão cheio de urina, teria protestado da mesma forma e apenas exposto o premiê ao ridículo. Mas não, ao quebrar a  cara de um idoso, contribuiu para despertar a compaixão das pessoas em relação ao político. Se o Pinochet, que  cometeu atrocidades, ficou menos Pinochet depois de velho – com direito a cuidados com sua saúde em prisão  domiciliar, quando as famílias das vítimas preferiam um tratamento mais isonômico – dava pra saber que o tiro sairia  pela culatra. Minha intuição diz que essa história vai passar, deixar de ser notícia, depois o Tartaglia vai ter uma  conversa com os peixinhos, calçando sapatos de concreto.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Evento Cultural em Porto Alegre


Aos leitores de POA, recomendo a exposição, aos de outras localidades, o blog e o livro do brilhante escritor, fotógrafo e produtor cultural Claudio Santana.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Da vocação para o meretrício


O termo "vocação" significa chamado. Muito provavelmente deriva da história bíblica de Samuel, chamado por Deus para realizar uma missão. Desta maneira, por muito tempo se empregou o termo para falar de escolhas profissionais, tendo este sido abandonado ao se abrir mão de perspectivas religiosas na orientação profissional. De qualquer forma, há trabalhos realizados por opção, outros por falta desta. Já orientei pesquisas acadêmicas sobre o trabalho de profissionais do sexo e fica claro que a imagem difundida da prostituição como falta de outra possibilidade só acontece no baixo meretrício. Na média e alta prostituição se trata de um caminho mais rápido - não necessariamente mais agradável - para a obtenção de dinheiro. Por essas e outras, nesses níveis mais bem remunerados, só fica quem quer. Gente insatisfeita com seu trabalho é a coisa mais comum do mundo e certamente há operadoras de telemarketing, vendedoras de sapatos, professoras e faxineiras muito putas (com trocadilho) com ele, exercendo-o apenas pelo dinheiro envolvido.

Uma noite dessas, como já comentei, assisti a um documentário sobre um SPA sexual localizado em um país da América do Sul - estou em dúvida entre Colômbia e Venezuela, mas isso não importa, bem poderia ser no Brasil. Os clientes eram tipos feios, um tanto sujos, de meia-idade, dispostos a "alugar" namoradas. Evidentemente, não eram os mais habilidosos no trato com as mulheres. As mocinhas também não eram misses, embora não fossem necessariamente feias. O foco do documentário parecia ser a insatisfação de duas delas com seu trabalho, comparando-se a repulsa nos bastidores a uma simpatia forçada quando na companhia dos clientes. Porém, as duas sempre davam um jeito de deixá-los irritados, afastando-se deles, recusando pedidos e fazendo cara de poucos amigos. Uma delas tinha interrompido a faculdade de Odontologia - ou assim nos foi dito. Em contrapartida, a única que encontrou um cliente gentil terminou paparicando o sujeito, ficando em um clima de paixonite. Desliguei a TV pensando: se é pra ser puta, faça as coisas do jeito certo. Prostituição não tem nada a ver com amor ou romance verdadeiros, mas com dinheiro e fantasia.

Algumas semanas depois, encontrei a matéria sobre a prostituta Patrizia D´Addario, que lançou um livro contando suas intimidades com o Berlusconi. Nele esta senhora narra que o primeiro-ministro é uma máquina sexual, que ficou impressionada com a performance dele e outras mentiras do gênero. Cá pra nós, o Berlusconi já passa dos setenta e, até onde se sabe, não usa prótese peniana. Não que sexo se limite à penetração, mas ela foi enfática a respeito desse aspecto. Pra fazer o que ela alega, teria precisado de muito viagra e de uma bênção especial do Papa. O livro vai vender como água, pois escândalo sempre foi um passatempo da humanidade. Vocês acham que em um país latino um líder de setenta anos vai se ofender com um livro que enaltece a sua performance sexual? A chance de que a editora seja processada e os livros recolhidos, como aconteceu com a biografia não autorizada do cantor Roberto Carlos, é nula. Se bobear, o Berlusconi ainda financia uma segunda edição. Essa sim tem vocação para o negócio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Do corpo mole no futebol


Pra não dizerem que brasileiro é que é safado e corrupto, já vi em 78 a seleção peruana se vender escandalosamente para a Argentina vencer a copa. Em 82, Alemanha e Áustria fizeram o maior jogo de compadres para as duas equipes se classificarem. Porém, no Brasileirão de 2009 acontecerá uma das situações mais esdrúxulas da história da competição: se o Grêmio vencer, ajudará o Internacional - seu arqui-rival - a ser campeão. Pior do que isso, levará os torcedores colorados a torcerem pro Grêmio, o que é algo impensável. É mais ou menos como nós, brasileiros, torcermos para a Argentina. Porém, a situação dos jogadores e da comissão técnica do Grêmio é complicada, pois estão em uma sinuca: se fizerem corpo mole, ficarão conhecidos como a equipe sem moral que entregou o campeonato ao Flamengo. Se vencerem, ficarão marcados como os gremistas que ajudaram o Internacional. Meu palpite? Jogarão pelo empate e torcerão para o Internacional perder.

 
design by suckmylolly.com