terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Clichês


Por quê os clichês existem? Simples. Porque funcionam. Imaginem o primeiro ser humano que, ao término de um relacionamento resolveu dizer a verdade: "Estou terminando porque você é muito pegajosa(o)." ou "Olha, fazia tempo que eu não gostava de você e estava enrolando até aparecer alguém mais interessante. Aí apareceu..." ou ainda "Olha, com essa família de malucos que você tem, é melhor pararmos por aqui." A pobre criatura ouviu horas de desaforos, sofreu vinganças terríveis, apanhou, foi difamada, amaldiçoada e por aí vai. Na segunda vez, ao ser consultada sobre os motivos do término, respondeu: "O problema não é você, sou eu." Bárbaro! A auto-estima do(a) dispensado(a) fica em dia, é covardia retaliar o término - afinal de contas, ele(a) tem problemas e foi honesto(a) o suficiente para admiti-los - e fica feio até mesmo sentir raiva: no máximo, tristeza pela fatalidade do destino.

Pensem agora em um pobre analista de RH, tendo centenas de pessoas para dispensar em uma seleção, muitas vezes com currículos nada compatíveis com o cargo em questão. Cada dispensado vai querer saber o motivo da dispensa. Só contar duplicaria o tempo de trabalho, fora as discordâncias, barganhas e desaforos que ouviria - o que quintuplicaria o tempo, sem nenhuma vantagem para a empresa ou ele próprio. A solução mágica: "Muito obrigado. Assim que tivermos uma posição, entraremos em contato."

Um político em campanha, que dissesse: "Olha, gente, tem um pessoal aí financiando a minha campanha e eu terei que prestar contas a eles. Além disso, eu tive que me aliar ao Capeta, à bancada evangélica e ao Sarney. Para fazer alguma coisa, vou ter que aumentar os impostos, pois tenho que molhar a mão de dúzias de safados para que as medidas sejam aprovadas. A verba da educação eu terei que reduzir, além de criar um novo imposto pra saúde, que na real eu vou mandar para auxiliar uns políticos de países vizinhos que vão me ajudar a ter projeção no exterior. Só assim eu garanto que o meu partido ficará mais uns quatro mandatos no poder. Jogo político é isso, pessoal!" ou então "Gente, o negócio é o seguinte: eu vou é privatizar tudo para encher os bolsos de meus compadres! Não me cobrem coerência, eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo! E não me perguntem mais, ou eu respondo de um jeito enrolado para ninguém entender nada." Você votaria nesses caras? Pois é, então o que se fala é "No meu governo, as prioridades serão claras: saúde, educação, segurança e emprego! Vamos erradicar a fome e o analfabetismo, alçando de vez o país para o seu merecido lugar no cenário mundial." É o discurso de todos os candidatos e o resto da campanha consiste em provar que os concorrentes estão mentindo.

"Queremos roubar petróleo, movimentar a indústria de armamentos, dar uma demonstração de força e ganhar as próximas eleições." funciona menos que "Queremos assegurar a liberdade no mundo inteiro e defender nossos cidadãos da ameaça terrorista". Sim, os clichês são sempre mentiras, ou no máximo meias-verdades. Não me espantará se algum dia um candidato misturar clichês e prometer: "Se eleito, colocarei só a cabecinha!"

4 comentários:

Kaique disse...

Contundente! rsrs :D

Abraços

Ninguém envolvente disse...

Nossa.. adorei, este seu post achei maravilhoso (não que os outros não sejam!)... divertido, bem elaborado e tudo a ver com a realidade de nosso PLANETA que não seria nada sem esses discursos decoreba, sejam eles de políticos ou de ex namorados...

bjs e feliz natal

Paulo César Nascimento disse...

Kaique: a realidade é contundente como um soco no "figo"! Abs

Ninguém envolvente: obrigado! Feliz Natal pra vc tb! Bjs

Alline disse...

Mas também temos que pensar que nem todos querem ouvir a verdade.

Beijo sabor panetone pra ti e um ÓTIMO Natal!!!

 
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