sábado, 19 de dezembro de 2009

Personagens inesquecíveis: Hannibal Lecter



Existem livros e filmes cujo enredo fica menor diante do vulto de uma personagem. No cinema, muitas vezes é a atuação digna de prêmios que acaba superando o que o roteirista planejou. Porém, na literatura existe a possibilidade de expressar aspectos da personagem que o cinema deixa apenas entrever, quando não sacrifica em nome da correção política ou do comercialismo. Começo a série de personagens interessantes com Hannibal Lecter. A grande sacada da personagem é a mistura de características de refinamento com aspectos perversos (não no sentido de maldade, mas no de desconsideração das interdições). Lecter só mata pessoas de mau caráter, exceto em casos em que a morte é necessária para lhe abrir caminhos de fuga. Extremamente inteligente, expert em decifrar a motivação humana, artista talentoso e um grande cozinheiro, porém com ingredientes pouco ortodoxos, contrabalança estas características com uma frieza e crueldade ímpares no trato com seus desafetos.  O canibalismo já fez parte de algumas tradições culturais, inclusive no Brasil pré-colombiano (ou pré-cabralino, para ser mais exato), porém havia um aspecto de respeito pelo "comido", uma vez que se acreditava absorver suas qualidades (bravura, integridade, força) ao ingeri-lo. Lecter o une aos aspectos mais refinados da culinária, preparando cuidadosamente os cortes humanos com receitas tradicionais da gastronomia, acompanhando os pratos com vinhos caros e cuidadosamente escolhidos para a harmonização.

As experiências que teve na guerra o privaram da possibilidade de levar em conta os sentimentos alheios de modo empático e não somente intelectual, o que serve de explicação para seu comportamento, do ponto de vista do autor. Nem todas as características de Lecter fecham com a descrição da personalidade anti-social (atual nome da antiga psicopatia), mas aí está a "licença poética" que torna Hannibal mais interessante que os psicopatas da vida real. A grande sacada do livro Hannibal - abandonada na versão cinematográfica - está em um aspecto teoricamente incorreto, porém interessante do ponto de vista ficcional: a agente Starling consegue trazê-lo de volta, em parte, para o universo das relações afetivas. Porém, isso tem um preço. Não, isso eu não contarei. Ler não tira pedaço.

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