sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Personagens inesquecíveis: Louis Cyphre

Exista ele no além ou apenas em nosso imaginário, o diabo tem servido a inúmeros propósitos: sabotar os planos divinos, tentar os homens e afastar suas almas da salvação, gerar o medo e a obediência em cristãos, assumir a culpa pelos nossos próprios erros e falhas. O diabo cristão teve sua imagem construída a partir de uma série de imagens de religiões rivais do judaísmo e do cristianismo, e para quem se interessa pelos pormenores, recomendo a obra "As origens de Satanás" (Elaine Pagels), que uma amiga minha procurou na livraria, em um lapso de memória, como "algo parecido com O Começo do Cão". Belzebu, ou Baal Zebub (senhor das moscas), era o deus filisteu protetor da cidade de Ekron. Os cascos de bode remetem ao deus Pã,  da mitologia greco-romana, um fauno que inspirava medo a quem andasse à noite pelos bosques, de onde a expressão "pânico". Os chifres remetem ao deus celta Cernunnus, da fertilidade e abundância. Assim sendo, é Satan (adversário), representando aquilo que se opõe à fé cristã, como as outras formas de fé - antes que o Concílio Vaticano II permitisse a abertura a um certo ecumenismo, tão antipatizado pelo atual papa Bento XVI, que na ocasião foi voto vencido. Para os escritores e cineastas, o diabo é uma fonte inesgotável de enredos e sedução. Em Angel´s Heart (Coração Satânico, no Brasil), um misterioso magnata estrangeiro (Louis Cyphre) gasta maços de dinheiro com o detetive Harry Angel na busca de um cantor desaparecido  (Johnny Favourite), fazendo-o descobrir mais do que gostaria, em uma trilha de mortes, feitiçaria e estranhamento. A atuação de Robert de Niro deu um toque especial ao Sr. Louis Cyphre (Lou Cyphre = Lúcifer), principalmente pela discrição e sutileza. Afinal de contas, quem seria seduzido por um sujeito com cascos de bode e cheiro de enxofre?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Traduções


A relação entre forma e conteúdo na escrita é algo fundamental, pelo menos do meu ponto de vista. Isso é ainda mais verdadeiro quando se fala de textos de ficção. No teatro, em que as falas devem ter um efeito preciso e dar o tom das próprias ações, o efeito das mudanças de texto, salvo na comédia, costuma diluir a dramaticidade. Terminei de ler Macbeth ontem e fiquei com a mesma impressão de quando li Fausto, de Goethe: o original deve ser muito melhor. Mesmo tradutores muito talentosos passam por esse problema quando tentam lidar com  prosa poética ou textos rimados. O poeta Norte Americano Robert Frost disse que "Poesia é o que se perde na tradução". Os italianos dizem que traduzir é trair (tradurre e tradire). A ambição, a cobiça, a culpa e a traição estavam todas lá, mas faltava aquele toque especial. Não foi à toa que Augusto e Haroldo de Campos propuseram a tradução de poesia como um ato de criação, o que remeteria a traduções mais livres, mais fiéis à poesia do que ao texto. Portanto, o tradutor necessitaria de um gênio criador que se aproximasse à magnitude daquele do autor. Nesse sentido, a tradução se torna um leito de Procusto e corre-se o risco de findar com um texto sem pé nem cabeça. Não foi o caso de Macbeth, na versão que li, mas não me impressionei e isso me frustrou. Guardando as devidas proporções, estou passando por uma situação interessante: alguns de meus contos estão sendo traduzidos para o Alemão por uma amiga que é aspirante a tradutora e busca se inserir no mercado editorial de lá. Ela é alemã e já morou em Portugal e no Brasil, mas sua base é mais forte no Português lusitano. Embora não esteja traduzindo textos que contenham poemas, a leitura atenta e as dificuldades que têm se apresentado servem como crítica aos textos, o que vem me ajudando na escrita. Ao escolher um escritor vivo e amigo, por outro lado, ela pode debater e dirimir eventuais dúvidas. Coisas surpreendentes ocorrem, como escolher a tradução adequada para "bigodes" a partir do modelito específico, ou ainda deixar claro um jogo de palavras em "acompanhou-me de fato, como o nome da profissão sugere" (uma acompanhante que não fez sexo, mas sim companhia), quando no português lusitano o nosso "fato" é "facto" e nosso "traje" é "fato". Aí ficava a dúvida se o "fato" era de banho ou transparente. É por essas e outras que é melhor ser traduzido por uma amiga para não ser traído por outro idioma.

domingo, 24 de janeiro de 2010

São Jacó do cemitério


Yaakov, Iacobus, Jacomu, Giacomo, Jacques, Jaime, James, Iago, Diego, Thiago ou Santiago, são todas denominações do mesmo apóstolo: Thiago Maior, filho de Zebedeu, um dos pescadores convidados por Jesus a pescar homens para o Reino de Deus. Diz a lenda que foi ele o evangelizador dos povos que viveram na península Ibérica, além de se tornar Santiago Matamoros (o matador de mouros), padroeiro da Espanha. Como um pescador que pregava a boa nova, o amor ao próximo e dar a outra face se transforma em um guerreiro sanguinário? Isto é um capítulo à parte e foi preciso de uma nova lenda sobre uma aparição do próprio santo ao Bispo Estêvão, em 1064, para confirmar seu papel na reconquista Cristã da península Ibérica, uma vez que o bispo criticava publicamente esta nova versão do apóstolo. O papel deste aspecto sobrenatural foi reunir coragem nos combatentes para superarem outra suposta relíquia que encorajava os muçulmanos: o braço de Maomé. Do século VIII até hoje, perdura a peregrinação ao local onde supostamente estariam os restos mortais de Santiago, em Compostela (para alguns Campus Stellae, ou Campo da Estrela, para outros derivado de Compositum ou cemitério). Vários milagres foram relacionados a Santiago, como o de ter mantido vivo um sujeito injustamente enforcado, ter feito um galo e uma galinha saírem de um forno cantando para sensibilizar um Juiz e outros igualmente coloridos e interessantes. O grande milagre de Santiago, em minha opinião, continua sendo ter alavancado a carreira literária do Paulo Coelho, pois Diário de um Mago é um dos poucos livros dele que dá pra ler do começo ao fim. Aliás, foi ele que me despertou a curiosidade sobre o caminho de Santiago e todas estas histórias singulares, que misturam fatos e lendas, falando de um dos períodos mais interessantes da história ocidental, no qual muçulmanos, judeus e cristãos contribuíram para construir Portugal e Espanha, que descobriram o Novo Mundo e ajudaram a formar o que somos. Estas informações e muitas outras podem ser encontradas em Los Caminos de Santiago, da MSM. Independente de todas as lendas espontânea ou intencionalmente geradas, os castelos, mosteiros e peregrinos encontrados no caminho certamente valem o ingresso para quem dispõe do tempo e do dinheiro para fazer a peregrinação.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Leituras e mais leituras


Comecei as leituras de 2010 pelo livro Belas Maldições, de Terry Pratchett e Neil Gaiman. Uma leitura muito divertida, para quem gosta de humor britânico, no estilo Douglas Adams, Tom Sharpe e companhia. Basicamente a história satiriza o apocalipse, as teorias de conspiração, o pessoal New Age e quem estiver pela frente, com o seguinte enredo: um anjo (Aziraphale) e um demônio (Crowley) tentam impedir os acontecimentos do Apocalipse, pois estão apegados à vida na Terra. Há pouco tempo para fazê-lo e a forma mais segura de se orientarem é um livro de profecias da bruxa Agnes Nutter, que nunca fez sucesso porque as profecias eram claras e davam certo, ao contrário das de seus concorrentes.

Em seguida, aproveitando o ímpeto conspiratório de Dan Brown, parti para a leitura de El mundo secreto del Opus Dei, do jesuíta Michael Walsh. São apresentados aspectos polêmicos da organização, sem no entanto cair no sensacionalismo. Inicia-se com a biografia do Monsenhor Escrivá, fundador da Opus Dei, seguindo pela estrutura, normas e aspectos econômico-financeiros da instituição. Embora não apareçam monges albinos tentando matar gnósticos e professores de simbologia, há questões ineressantes sobre a simpatia do atual papa a essa organização ultraconservadora, bem como a respeito do aspecto de "culto" (seita) do qual se reveste, porém com apoio institucional inexplicável (?) do Vaticano.

A mais recente leitura foi o livro Dragão Vermelho, de Thomas Harris, primeira aparição do Dr. Hannibal Lecter. Faz tempo que assisti ao filme, mas nesse caso pareceu-me que a película foi fiel ao original. O livro é agradável, mas quem tiver pouco tempo livre, melhor assistir ao filme. A parte divertida foi que li em e-book, traduzido para o português de Portugal, constatando mais uma vez que estamos separados pelo idioma e não será eliminando o trema que isso se resolverá.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Maneiras e maneiras

Nem sempre o importante é o que você faz, mas a maneira como é feito. O Caetano Veloso já deu roupagens novas a clássicos do Brega que acabaram funcionando bem. Descaetaneando o papo, eu gostava de "Baba" (Baby), cujo arranjo original estava mais para um estilo Disco Music do fim dos anos 70 do que para um funk pancadão pornô do século 21, mas mesmo assim ficava meio envergonhado de gostar. Não fosse o inferno que a internet se tornou, com excesso de informação que não oferece a menor confiabilidade, eu saberia o autor da tal canção, que corre até o risco de ser o Latino. Aí a Maria Gadú fez um arranjo muito cool e eu descobri que o meu mau gosto não era tão mau assim: como no caso da intérprete (Kelly Key), um banho de loja também resolveu algumas pendências estéticas da música. Gostei do resultado.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Do enriquecimento súbito


Fiquei com pena do senhor que ganhou a mega-sena da virada, pois está claro que ele não fazia a menor idéia dos riscos que a riqueza encerra. Quem é rico desde jovem, sabe que tem que gastar muito dinheiro com segurança, que terá que administrar uma porção de gente gananciosa com o olho crescendo pra cima do que é dele, e por aí vai. Isto me lembra uma comédia com o Brendan Fraser e a Elizabeth Hurley intitulada Bedazzled, em que todos os pedidos de um jovem infeliz ao demônio (na verdade a uma bela diabinha) resultavam em algum inconveniente extremamente desagradável. Estas mudanças abruptas de condição de vida, sejam financeiras ou de outra ordem, geralmente provocam crises. Um homem simples, que supostamente não tem noção do que setenta e poucos milhões de reais podem pagar, dificilmente terá condições de administrar tal fortuna e provavelmente será furtado ou roubado, se não morto, como outro ganhador que o antecedeu. Ser milionário afasta o homem das agruras da pobreza, mas não esgota os problemas da vida. Fiquei também com inveja, é claro, pois tenho a fantasia de que lidaria melhor com esse tipo de adaptação. Porém, não há garantia alguma. Enquanto isso, vai-se adotando o ditado dos ratinhos, de que é melhor ser magro no mato do que gordo na barriga do gato.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O espírito da realeza


O pio Imperador, em suas orações noturnas, pediu a Deus que lhe revelasse  sua missão. O Cristo lhe apareceu em sonho e disse: "Renunciai ao poder e às riquezas e virai coletor de esterco. Essa é vossa missão."
No dia seguinte, o imperador cortou relações com a Igreja.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Valores e segurança


Quando conheci Madri, tive uma oportunidade fantástica de rever alguns conceitos. Em Florianópolis o pessoal se endivida até a alma para andar em carros que não pode pagar, a não ser em elásticas prestações a perder de vista. Há lombadas dentro do estacionamento do meu condomínio porque não se confia na educação dos motoristas e porque os pais abandonam seus filhos pequenos a brincar sem supervisão, inclusive nas garagens do prédio, contrariando o regimento interno. Quando fui visitar os museus Thyssen-Bornemisza e do Prado, imaginei que haveria um esquadrão de ninjas, campos de força e blindagens em volta das pinturas de valor incalculável. No meio de tantas obras valiosíssimas, havia apenas uma equipe de seguranças com jeito de pessoas comuns (homens e mulheres que cuidam do seu prédio e não uma equipe policial de elite), alguns anteparos sugerindo uma distância mínima a se manter do quadro e era só, ao menos ao que se pudesse observar a primeira vista. Havia crianças acompanhadas por seus pais e a suposição de que ninguém seria desmiolado ao ponto de colocar os dedos, raspar com a unha, rabiscar ou vandalizar o acervo. E, de fato, o máximo que se fazia era olhar mais de perto do que o recomendável. A qualidade das obras e o impacto que causam no observador é um capítulo a parte e fica para uma outra postagem. Aqui fica apenas o registro de que são necessários séculos de história, talvez o sofrimento de algumas guerras - com direito a queima de pessoas e livros -, para que se crie um pouco de bom senso e respeito.

 
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