quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Traduções


A relação entre forma e conteúdo na escrita é algo fundamental, pelo menos do meu ponto de vista. Isso é ainda mais verdadeiro quando se fala de textos de ficção. No teatro, em que as falas devem ter um efeito preciso e dar o tom das próprias ações, o efeito das mudanças de texto, salvo na comédia, costuma diluir a dramaticidade. Terminei de ler Macbeth ontem e fiquei com a mesma impressão de quando li Fausto, de Goethe: o original deve ser muito melhor. Mesmo tradutores muito talentosos passam por esse problema quando tentam lidar com  prosa poética ou textos rimados. O poeta Norte Americano Robert Frost disse que "Poesia é o que se perde na tradução". Os italianos dizem que traduzir é trair (tradurre e tradire). A ambição, a cobiça, a culpa e a traição estavam todas lá, mas faltava aquele toque especial. Não foi à toa que Augusto e Haroldo de Campos propuseram a tradução de poesia como um ato de criação, o que remeteria a traduções mais livres, mais fiéis à poesia do que ao texto. Portanto, o tradutor necessitaria de um gênio criador que se aproximasse à magnitude daquele do autor. Nesse sentido, a tradução se torna um leito de Procusto e corre-se o risco de findar com um texto sem pé nem cabeça. Não foi o caso de Macbeth, na versão que li, mas não me impressionei e isso me frustrou. Guardando as devidas proporções, estou passando por uma situação interessante: alguns de meus contos estão sendo traduzidos para o Alemão por uma amiga que é aspirante a tradutora e busca se inserir no mercado editorial de lá. Ela é alemã e já morou em Portugal e no Brasil, mas sua base é mais forte no Português lusitano. Embora não esteja traduzindo textos que contenham poemas, a leitura atenta e as dificuldades que têm se apresentado servem como crítica aos textos, o que vem me ajudando na escrita. Ao escolher um escritor vivo e amigo, por outro lado, ela pode debater e dirimir eventuais dúvidas. Coisas surpreendentes ocorrem, como escolher a tradução adequada para "bigodes" a partir do modelito específico, ou ainda deixar claro um jogo de palavras em "acompanhou-me de fato, como o nome da profissão sugere" (uma acompanhante que não fez sexo, mas sim companhia), quando no português lusitano o nosso "fato" é "facto" e nosso "traje" é "fato". Aí ficava a dúvida se o "fato" era de banho ou transparente. É por essas e outras que é melhor ser traduzido por uma amiga para não ser traído por outro idioma.

5 comentários:

milu leite disse...

paulinho! tradução é complicado mesmo. trabalho de heróis, quando levada a sério. e fundamental! melhor criticar do que não ler.
bjo

Ká! disse...

Pra que melhor exemplo que Paulo Coelho? não gosto muito do que ele escreve, porém, quando traduzido em outros idiomas, a 'traição' vira 'ajuda'.
Beijo.

P.S.: e a série dos vilões?

Laís Dourado disse...

Nessas horas que você sente vontade de saber tipo todas as línguas do mundo. Se em filme você sente a diferença, imagina em livros!

Paulo César Nascimento disse...

Milu: eu sei que é um trabalho difícil e mal remunerado, mas faz muita diferença. Bjs

Ká: eu ainda não fiz o teste de ler o Paulo Coelho traduzido, mas desconfiava que o pessoal melhorava os textos. Mas depois pensei melhor e cheguei à conclusão que ele é mesmo um fenômeno da cultura pop, como a Britney Spears e outros ícones. A série não será restrita a vilões, mas a personagens marcantes. Atendendo ao seu pedido, a próxima postagem será outro perfil. Bjs

Paulo César Nascimento disse...

Laís: a vontade é essa sim. Pelo menos uma palavra interessante da Terra do Fogo você já descobriu. Bjs

 
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